segunda-feira, 13 de abril de 2026

O Cajado e o Escapulário: A Ressurreição de Zé Esteves e Perpétua no Brasil Atual

Vamos analisar como essas figuras literárias de Jorge Amado transcendem a ficção e se manifestam no tecido sociopolítico contemporâneo, vestindo novas roupagens para antigos preconceitos.A vida imitando a arte? O Brasil de Santana do Agreste: Como o Ressentimento de Zé Esteves e o Ódio de Perpétua Moldaram o Neofascismo Moderno.


A literatura de Jorge Amado nunca foi apenas sobre o pitoresco; foi, sobretudo, sobre a anatomia do poder e da hipocrisia brasileira. Ao revisitarmos Zé Esteves e Perpétua, percebemos que eles não ficaram confinados às páginas de Tieta do Agreste ou aos cenários de Santana do Agreste. Eles migraram para o grupo de WhatsApp da família, para as tribunas parlamentares e para as manifestações de rua.

A questão que se impõe é: essas figuras se aproximam dos movimentos de extrema-direita contemporâneos, como o bolsonarismo e vertentes neofascistas? A resposta reside na análise da retórica do ressentimento.

Zé Esteves: O Patriotismo da Propriedade e do Ouro

Zé Esteves representa o patriarca decadente. Sua conexão com o pensamento reacionário atual é direta: a defesa de uma hierarquia onde o homem branco, "dono de cabras" (ou de terras e privilégios), detém a última palavra. 

No bolsonarismo, encontramos esse eco na defesa intransigente de um passado idealizado, onde a autoridade era absoluta e inquestionável. A avareza de Zé Esteves, que guarda dinheiro sob o colchão enquanto simula pobreza, dialoga com a estética da "simplicidade" usada por muitos líderes para mascarar interesses financeiros profundos e uma sede de acumulação que beira o patológico.

Perpétua: A "Cidadã de Bem" e a Institucionalização do Ódio

Se Zé Esteves é o braço bruto, Perpétua é o braço ideológico. Ela é a personificação do neofascismo à brasileira, que se mascara de religiosidade para excluir o diferente. 

* A Higienização Moral: Assim como o neofascismo busca "limpar" a sociedade de elementos considerados "degenerados", Perpétua tentou extirpar Tieta da família. 

* O Uso das Instituições: Ela não ataca o sistema; ela o sequestra. Ela usa a Igreja e o conceito de "família tradicional" para validar sua perversidade. No cenário atual, essa é a estratégia das alas mais radicais: usar a liberdade de expressão e a liberdade religiosa como escudo para destilar misoginia, homofobia e intolerância.

O Flerte com o Neofascismo e o Neonazismo

Embora Zé Esteves e Perpétua sejam figuras profundamente enraizadas no coronelismo brasileiro, seus métodos tangenciam o neofascismo e o neonazismo em pontos cruciais:

1.  A Criação do Inimigo Interno: Para o neonazismo, o "outro" é uma ameaça à pureza da raça. Para Perpétua, o "outro" (Tieta, os liberais, os "pecadores") é uma ameaça à pureza da moral. Ambos operam sob a lógica da eliminação simbólica ou física do diferente.

2.  O Culto à Autoridade: O cajado de Zé Esteves é o símbolo de um poder que não aceita o diálogo, apenas a submissão — um pilar fundamental do pensamento fascista.

3.  A Desumanização: Ao tratar mulheres e subordinados como "coisas", Zé Esteves antecipa a lógica neofascista que retira a dignidade do indivíduo em favor de um projeto de poder ou de uma "tradição" inventada.

A arte não apenas como entreenimento, mas, aprendizado


Atores Sebastião Vasconcelos e Joana Fomm, na novela Tieta, Globo, 1989.

A função da arte não é binária. O entretenimento é a porta de entrada, o elemento que captura a atenção e gera conexão emocional. No entanto, é a provocação que confere à obra sua longevidade e relevância social. Uma obra que apenas entretém é esquecida após o consumo; uma obra que provoca permanece como um "ruído" na consciência, forçando o indivíduo a confrontar seus próprios preconceitos e a realidade ao seu redor.

O telespectador reage socialmente ao encontrar na tela um espelho de suas angústias ou de seus valores. Personagens como Zé Esteves ou Perpétua não são apenas vilões; são catalisadores que permitem ao público nomear comportamentos que ele observa na vida real (o falso moralismo, a avareza, o patriarcado).

A tela tem o poder de normalizar comportamentos (o chamado "efeito de agenda") ou de romper com eles. Quando a arte expõe a ferida de uma estrutura social opressora, ela retira o espectador da zona de conforto e o empurra para o debate público.

Embora a reação imediata seja individual, o acúmulo dessas percepções molda a opinião pública. A discussão sobre uma novela ou filme muitas vezes serve de laboratório para discussões éticas que a sociedade ainda não está pronta para ter de forma direta na política ou na religião.

A arte não deve apenas decorar as paredes da nossa mente, mas sim derrubar as paredes que nos impedem de enxergar o outro. O telespectador não é um sujeito passivo; ele processa a ficção como uma extensão da sua própria experiência social, reagindo com indignação, reflexão ou, no caso dos "ressentidos", com a resistência de quem se viu descoberto.

Conclusão

Zé Esteves e Perpétua são os ancestrais literários dos "ressentidos" de hoje. Eles provam que o conservadorismo falso moralista não é uma novidade, mas um ciclo que se repete quando o progresso social ameaça os privilégios da mediocridade. 

Eles não são apenas personagens; são o espelho de um Brasil que ainda não resolveu seu complexo de "dono de gente" e que insiste em esconder, debaixo de lutos de fachada e discursos patrióticos, uma ganância desenfreada e um desprezo profundo pela liberdade humana. Enquanto houver uma Perpétua apontando o dedo na janela e um Zé Esteves segurando um cajado, a obra de Jorge Amado continuará sendo, infelizmente, uma notícia de jornal.

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