Como a falta de gestão eficiente e o partidarismo político transformaram o berço de poetas em um cenário de recepção protocolar e silêncio nas escolas.
Por Flávio Hora
Neste 23 de abril, o mundo reverencia a memória de gigantes como Shakespeare e Cervantes. No Brasil, celebramos a Política Nacional do Livro (Lei 10.753/2003). Mas, ao pousarmos os olhos sobre a planície cultural de Japaratuba, o que vemos não é uma festa de leitores, mas um cenário de "recepção de praxe" e um silêncio institucional ensurdecedor. A literatura japaratubense, outrora vibrante, encontra-se hoje estacionada em um acostamento perigoso.
A Lei nº 10.753/2003. Ela é, em teoria, o "coração" do mercado editorial brasileiro, mas muitos municípios a ignoram. Quando uma cidade não conhece essa lei, ela perde a chance de estruturar melhor suas bibliotecas públicas e de apoiar o ecossistema literário local de forma institucional.
A Política Nacional do Livro prevê em seus objetivos:
Difusão da cultura: Transformar o livro em um objeto familiar.
Apoio ao autor nacional: Facilitar a publicação e a circulação das obras.
Formação de mediadores: Incentivar que professores e bibliotecários usem esses talentos locais para formar novos leitores.
O Abismo entre o Evento e a Rotina
Japaratuba padece de um mal comum aos municípios que confundem Cultura com Entretenimento. Temos eventos? Sim. O Festival de Poesia Falada atrai público, mas o "dia seguinte" é um deserto. Não há fã-clubes de autores locais, não há coletivos literários ativos e, o que é mais grave: os nossos escritores raramente entram no ambiente escolar. Temos o Festival de Artes que é um "cartão postal" artístico da região, mas, ainda temos muitos artistas anônimos.
Nomes como Mauro de Almeida, Jota Erre, Poeta Afamado e Flávio Hora possuem obras publicadas e disponíveis ao mundo pela internet, mas permanecem como ilustres desconhecidos para os alunos da rede municipal. Quando a Secretaria de Educação se torna um balcão burocrático e a Secretaria de Cultura se resume a um "setor de eventos" para palcos e cachês, o livro perde sua função de ferramenta de transformação social e controle crítico.
A Lei 10.753/2003 incentiva a "aquisição de acervos de autores brasileiros". Projetos de "Autor na Escola", onde a obra de Flávio Hora ou Jota Erre é parte do currículo regional, permitindo que o aluno sinta que a literatura não é algo distante, produzido apenas por pessoas mortas em Portugal ou na Inglaterra.
Principais autores Japaratubenses: Gilberto Gibras, Darquiran Costa, Ivanildo Souza (Poeta Afamado), F. J. Hora (Flávio Hora), Jorge Marcelo Ramos, Geane Correia, Antônio Glauber.
O Legado Órfão
Entre 2014 e 2018, vivemos uma efervescência rara. Com o coletivo "Poetas em Foco" e a liderança de figuras como o saudoso Gibras (Gilberto Santos) e a resistência de artistas como Bonfim da Capoeira, Japaratuba respirava literatura. Com o falecimento de Gibras, abriu-se uma lacuna não apenas de incentivo, mas de articulação política.
Hoje, o isolamento é o nosso maior entrave. Sem associações ou coletivos, o escritor torna-se uma ilha. O resultado é a "evasão de talentos": mentes brilhantes que precisam buscar sustento em outras cidades, deixando para trás um vácuo de referências para a juventude.
Quando a cultura é reduzida a um "setor de eventos" e a educação se torna um apêndice burocrático, o livro e o autor local tornam-se figuras incômodas, pois o pensamento crítico que eles promovem muitas vezes colide com o assistencialismo político.
A Política como Barreira, não como Ponte
A raiz do problema é o vício do "apadrinhamento". Enquanto a gestão cultural depender da "sensibilidade política" do gestor ou do alinhamento partidário do artista, não teremos política de Estado, apenas caprichos de governo.
Para que a literatura japaratubense volte a andar, é preciso profissionalização:
Habilitação dos Fundos: O Fundo Municipal de Cultura precisa sair do papel e ter recursos próprios.
Editais Técnicos: A escolha de quem recebe apoio deve ser baseada em mérito e impacto cultural, não em favores políticos.
Autonomia na Educação: A inclusão de autores locais no currículo escolar deve ser regra, não exceção dependente de boa vontade.
Os Obstáculos para a Profissionalização
Para que Japaratuba ou qualquer município saia desse ciclo, a solução passa pela institucionalização, que é exatamente o ponto falho:
Autonomia das Pastas: Uma Secretaria de Educação precisa de um Plano Municipal de Educação (PME) que sobreviva a trocas de prefeito. Se o estudo de autores locais não estiver no projeto político-pedagógico das escolas, ele dependerá sempre de um favor político.
O CPF da Cultura (Conselho, Plano e Fundo): Sem o Fundo Municipal de Cultura ativo e com recursos próprios, não há editais. Sem editais, a escolha de quem recebe apoio volta a ser baseada no "lado político", e não no mérito artístico ou na relevância cultural.
A Lei dos Mestres: Essencial para cidades com tradição de pífano, folclore e literatura de cordel. Ela garante que o saber seja transmitido formalmente, tratando o artista como patrimônio vivo, e não como atração de palco.
Conclusão
O Dia Mundial do Livro em Japaratuba não pode ser apenas uma data no calendário. Enquanto nossos autores forem lidos "por costume" e não "por direito", nossa identidade estará sob risco de folclorização barata.
É hora de desengatar a literatura do ponto morto. É preciso que a gestão municipal entenda que apoiar o livro não é um gasto para o erário, mas um investimento na soberania intelectual de seu povo. Sem o desprendimento partidário e a eficiência técnica, continuaremos a exportar nossos talentos e a importar o esquecimento.
Nota: Este artigo é um chamado à reflexão para gestores, educadores e, sobretudo, para a sociedade civil de Japaratuba. A cultura é o que sobrevive aos mandatos; o livro é o que imortaliza a cidade.
Informe: as imagens são meramente ilustrativas, criadas por inteligência artificial.



Nenhum comentário:
Postar um comentário