domingo, 26 de abril de 2026

O Voto é no Projeto ou no Candidato? Em Lula ou na Esquerda?

O Eclipse do Projeto: Personalismo, o Legado de 2018 e a Esquizofrenia das Urnas



A política brasileira atravessa um fenômeno de dissociação programática que desafia as teorias clássicas da representação. O comportamento do eleitor que deposita o voto na esquerda para o Palácio do Planalto, enquanto entrega as chaves do Congresso Nacional à direita — e ao fisiologismo do "Centrão" —, não é apenas um erro de cálculo; é o sintoma de uma democracia que substituiu o projeto de país pela estética da identidade.

Para grande parte do eleitorado, o "projeto" é um conceito abstrato e denso demais. O personalismo funciona como um atalho: o eleitor projeta no carisma do líder a confiança de que ele aplicará o projeto correto, mesmo sem ler uma única página do plano de governo. Se o líder "é como eu" ou "me entende", o projeto dele é, por extensão, o meu.

A falha de formação do eleitor não é apenas sobre "não saber ler", mas sobre a falta de letramento institucional. Quando o eleitor não entende a separação de poderes ou o pacto federativo, ele tende a personificar soluções.

Essa falha, unida ao "ódio" criou um caminho "perigoso" para o país com o avanço da extrem direita. O termo "perigoso" costuma ser aplicado à extrema-direita não necessariamente por suas metas econômicas (que podem ser compartilhadas pela direita tradicional), mas pelo seu método de relação com a democracia.

Existe uma Terceira Via?


O conceito de "Terceira Via" no Brasil é frequentemente confundido com "terceira candidatura", mas politicamente ele implica uma rota que escape da polarização dominante. A "Terceira Via" no Brasil é um conceito político que busca romper a polarização entre dois polos dominantes — historicamente representados pela disputa entre PT e PSDB (1994-2014) e, mais recentemente, entre Lulismo e Bolsonarismo

Marina Silva (2010/2014): Representou o que mais se aproximou de uma Terceira Via Programática. Ela tentou quebrar a dicotomia PT-PSDB com o "pós-petismo" e a "nova política", focando em sustentabilidade e governança por princípios, não por coalizões fisiológicas. Em 2014, ela chegou a ameaçar a ida do PT ao segundo turno, mas foi triturada pelo marketing agressivo.

Diferente de uma "terceira candidatura" simples, a Terceira Via propõe uma síntese programática. Ela tenta unir a responsabilidade fiscal (geralmente associada à direita) com a sensibilidade social (associada à esquerda), apresentando-se como uma alternativa de "equilíbrio" ou "centro".

Atualmente, o espaço da Terceira Via está sendo disputado por uma "Direita Pós-Bolsonarista" (nomes que querem o eleitor de direita, mas rejeitam o rótulo de extrema-direita) e por quadros técnicos que orbitam o atual governo, mas mantêm independência. Romeu Zema e Ronaldo Caiado´, por exemplo, não são "Terceira Via" no sentido clássico de neutralidade, mas sim Releituras da Direita em disputa por hegemonia.

Em resumo, a Terceira Via no Brasil é o "eterno projeto de amanhã". Ela possui quadros técnicos qualificados, mas esbarra na falta de uma narrativa emocional que consiga competir com a força mística e carismática dos grandes líderes populares. A verdadeira Terceira Via no Brasil hoje é um espaço vago. Zema e Caiado estão mais para uma Direita Pós-Bolsonarista — eles querem os votos da direita, mas sem o ônus da instabilidade institucional do ex-presidente.

2018: O Marco Zero da Descivilização

Para entender o presente, é mandatório retroceder a 2018. Aquele pleito foi o "Big Bang" da atual polarização. Foi o momento em que a direita tradicional, personificada pelo PSDB — que ocupou o segundo lugar de forma quase hereditária entre 2002 e 2014 —, foi engolida por uma vertente que trocou a liturgia institucional pelo populismo digital. 

A extrema-direita não apenas venceu; ela "descivilizou" o debate, transformando a divergência técnica em guerra cultural. 2018 provou que, no vácuo de um projeto de centro-direita que naufragou com o governo Temer, o carisma disruptivo foi o "atalho cognitivo" perfeito para um eleitorado sedento por ruptura. Do outro lado, o PT enfrentava a difícil transferência de capital político de Lula para Fernando Haddad, repetindo o teto histórico do segundo lugar, mas agora combatendo um antipetismo que não era mais político, mas visceral.

O antipetismo, enquanto fenômeno político e social, transcendeu a simples oposição a um partido para se tornar um dos motores da polarização afetiva no Brasil. Embora a crítica a qualquer governo seja saudável e necessária para a democracia, o antipetismo — quando transformado em dogma ou estratégia de rejeição total — gerou consequências sistêmicas negativas.

O prejuízo não reside na oposição ao PT (que é legítima e necessária), mas na transformação dessa oposição em uma identidade negativa única. Quando o "anti" se torna maior que o projeto, o país perde a capacidade de olhar para frente, ficando preso em um ciclo de vingança política que consome a energia necessária para o desenvolvimento.

A Esquizofrenia das Urnas e o Governo Refém

Vivemos hoje o auge da "Democracia de Audiência". A decisão de voto baseia-se em uma métrica perigosa: 60% carisma (identidade) e 40% projeto (muitas vezes desconhecido). O eleitor busca no Presidente um catalisador de esperanças, uma biografia em que possa confiar, mas ignora que o motor real da política está na base parlamentar. 

O resultado é um paradoxo de poder. Ao votar na esquerda para o Executivo por um desejo de proteção social e, simultaneamente, fortalecer o conservadorismo ferrenho no Legislativo por pragmatismo local, o cidadão cria um sistema de freios. O resultado é um governo refém, que se desgasta em negociações fisiológicas e fatias orçamentárias para garantir uma governabilidade mínima, enquanto o projeto original se esvai nas sombras das comissões parlamentares.

O Personalismo como Cortina de Fumaça

Essa manutenção do "eleitor encantado" não é acidental; é uma ferramenta deliberada das elites. Para quem detém o poder, é muito mais vantajoso debater o "jeito de ser" do político do que a viabilidade técnica de uma reforma tributária. O personalismo funciona como uma blindagem cognitiva: qualquer crítica técnica ao projeto é lida pela base fiel como um insulto pessoal ao herói. 

Nesse cenário, figuras como Ciro Gomes e Guilherme Boulos orbitam o sol do "Lulismo" tentando decifrar o código do carisma. Enquanto Ciro amarga o ressentimento estratégico de 2018 e Boulos tenta traduzir o "chão de fábrica" para a periferia moderna, a política brasileira permanece refém de nomes próprios, relegando o debate de metas às notas de rodapé dos jornais.

O Voto Útil e a Morte do Debate

Até mesmo o conceito de "voto útil" foi sequestrado. Para muitos, o apoio à esquerda em 2022 não foi uma adesão cega, mas um movimento de autodefesa institucional. Contudo, essa utilidade muitas vezes termina na urna. Sem a cobrança técnica subsequente, o governo eleito sente-se autorizado a governar pela imagem, enquanto o Congresso, ciente da desconexão entre o eleitor e o programa, negocia o país por fatias de poder.

Nesse contexto, entre os pólos, a extrema-direita é considerada mais "perigosa" do ponto de vista sistêmico porque seus ataques costumam mirar nos pilares que permitem que a própria democracia continue funcionando. Se a economia vai mal, muda-se o governo na próxima eleição; se as regras da democracia são destruídas, perde-se a ferramenta para fazer essa mudança.

Conclusão: A Necessária Recuperação do Objeto




Se o Brasil deseja sair desse ciclo de "autofagia política", precisa reequilibrar a balança. O carisma pode vencer eleições, mas apenas o projeto sustenta nações. A "descivilização" da política não virá de um nome novo, mas da coragem do eleitor em deixar de ser um seguidor de personalidades para se tornar um fiscal de projetos. 

A verdadeira evolução democrática exige independência intelectual. O pensamento crítico é o que separa o cidadão do devoto. Engana-se quem pensa que apontar os defeitos de quem se apoia é ser "do contra"; na verdade, é a única forma de garantir que a política deixe de ser um culto à personalidade para se tornar, enfim, uma ferramenta de gestão para todos.

Se o debate se tornasse 90% técnico e 10% carismático, a maioria das lideranças atuais não sobreviveria a uma sabatina de 15 minutos sobre responsabilidade fiscal ou políticas públicas de longo prazo.

Portanto, manter o eleitorado "encantado" pelo carisma é a maior apólice de seguro que a elite política possui. Enquanto o voto for um ato de fé (identidade) e não um ato de gestão (projeto), o sistema permanece imutável, independentemente de quem esteja no topo.

A pergunta que fica para o futuro é: a internet e o acesso à informação estão quebrando esse ciclo ou apenas criando "bolhas de carisma" ainda mais impenetráveis?

Informe: as imagens são meramente ilustrativas, criadas por inteligência artificial.

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