Oxente, e não é que o tempo voa num rojão de causar assombro? Olho para o calendário e vejo que hoje, dia 21 de setembro, celebra-se o Dia da Árvore. Ampla, frondosa, fincando pé no chão poeirento do nosso sertão e se derramando em sombra boa, a árvore é o anúncio vivo do que vem vindo: a primavera, que dá as caras oficialmente amanhã. Mas, cá entre nós, o farnizim no peito para ver o mundo renovado já começou faz é tempo.
Não há metáfora mais perfeita para a leitura do que essa transição de estações. Ler é exatamente como se sentar debaixo de uma umbuzeira ou de um ipê florido para ver o vento girar. Cada livro que a gente abre é uma nova temporada que desabrocha por dentro. A rotina — essa disgrama pesada que insiste em cinzar os nossos dias — vai perdendo força à medida que as páginas vão virando e fazendo florescer ideias que a gente nem sabia que guardava no peito.
A nossa literatura brasileira sempre soube cantar as dores e as belezas da terra como ninguém. Graciliano Ramos nos ensinou o peso da seca e da resistência; Guimarães Rosa fez do sertão um mar de travessias e mistérios; e Drummond, com sua poesia, mostrou que até no meio do caminho pedra vira flor. São autores que fincaram raízes profundas na nossa identidade.
E, curioso como as coisas se trançam, é impossível não lembrar da obra Fim de Primavera, de F. J. Hora. Muito embora o título carregue a palavra "fim", o livro guarda em seu íntimo justamente a essência desse ciclo: para que algo termine, é preciso que tenha florescido intensamente antes. É a poesia da transformação, do recomeço que se anuncia mesmo quando a estação parece se despedir.
Na véspera dessa nova estação, fica o convite: descarte o cansaço do dia a dia, procure a sombra mais aconchegante que encontrar e deixe-se cultivar por uma boa história.
E por aí, qual livro está fazendo florescer a sua estante neste início de primavera?

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