O Marketing para quem ignora a ciência: A arte de transformar o hábito do povo em figurino de poder.
Há uma estranha metamorfose que acontece no chão batido das feiras livres, logo ao lado das bancas de pastel e das máquinas de moer cana. Ali, onde o cheiro de gordura quente se mistura ao vapor do caldo fresco, a sociedade brasileira aplica uma de suas réguas mais perversas e invisíveis. O mesmo gesto, praticado por corpos diferentes, ganha nomes e destinos rigorosamente opostos.
O homem comum, que chega à feira com o rosto marcado pelo sol e a camisa gasta pelo uso diário, come seu pedaço de jabá e enche a boca de farinha de mandioca por força do hábito, da fome e da própria vida. Não há ali qualquer cálculo. Há o cotidiano em sua forma mais crua e autêntica. No entanto, o olhar de quem observa de fora — treinado por séculos de preconceito de classe — enxerga naquela cena uma espécie de limitação. A simplicidade do trabalhador é lida como desleixo; sua informalidade, como falta de compostura. Para a mentalidade tacanha das elites e da burocracia, aquele homem que lambuza os dedos de pastel não carrega a “estética do poder” e, portanto, jamais estaria apto a ocupar as cadeiras de decisão da vida pública. A sua humanidade é reduzida à carência, e o seu hábito, ao estigma.
Basta, porém, que um político de carreira dobre as mangas da camisa social, desfaça o nó da gravata e se aproxime da mesma banca para que a física das aparências se altere por completo. Diante das câmeras, o pastel gorduroso deixa de ser comida rápida de trabalhador para virar certificado de humildade. A farinha de mandioca espalhada pelo terno não é vista como desleixo, mas como prova irrefutável de "conexão com o povo". A performance transforma a necessidade alheia em virtude eleitoral. O sistema, implacável com o homem comum, transborda condescendência e elogios para a autoridade que finge, por alguns minutos, pertencer ao mundo que na verdade só visita em anos de eleição.
Trata-se de uma hipocrisia sutil e bem lubrificada. O cidadão que vive a feira todos os dias é desqualificado pela própria realidade que ostenta, enquanto o governante que a frequenta de passagem ganha o rótulo de "popular" e "moralmente apto". Exige-se do povo uma liturgia inalcançável para validar seu valor, enquanto se perdoa — e se celebra — a encenação do poderoso.
No final das contas, o pastel de feira continua sendo o mesmo, e o caldo de cana conserva o mesmo açúcar. O que muda é a balança viciada de uma sociedade que pune a simplicidade em quem a vive por essência, mas a aplaude efusivamente em quem a usa apenas como figurino.

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