A Engenharia da Conciliação: Como o PT Transformou o Pragmatismo Econômico e o Pacto Entre Elites e Periferias na Fórmula de Sua Hegemonia Política
Poucos fenômenos na história política recente são tão intrigantes quanto a resiliência do Partido dos Trabalhadores. Nascido nos porões da ditadura militar sob a mística da luta de classes, do sindicalismo autônomo e da ética inflexível, o PT transfigurou-se no maior operador da ordem institucional brasileira. Com cinco mandatos no currículo e o sexto no horizonte, o segredo da longevidade petista não reside na fidelidade dogmática aos seus manifestos fundacionais, mas justamente na sua capacidade de aperfeiçoar uma arte milenar da política nacional: a conciliação de classes.
O modus operandi petista consagrou o que se pode chamar de "engenharia do ganha-ganha". Em vez de expropriar o topo para financiar a base, o modelo petista optou por expandir o bolo sem alterar a estrutura de propriedade. Ao banqueiro e ao grande empresariado, entregaram-se lucros recordes, isenções fiscais estratégicas, crédito farto via BNDES e juros reais tentadores. Ao trabalhador de baixa renda e às populações periféricas, garantiram-se o ganho real do salário mínimo, a ampliação do crédito consignado e a rede de proteção social do Bolsa Família.
Esse pacto pragmático agradou a gregos e troianos porque garantiu a paz social necessária para o capital prosperar sem o fantasma de convulsões urbanas ou agrárias. O consumo da massa virou o motor do lucro da elite. Para a grande Faria Lima e para o agronegócio exportador, a governabilidade petista revelou-se, em vários momentos, mais previsível e rentável do que as turbulências impostas pela direita liberal ou pelo extremismo populista.
No entanto, essa alquimia teve um custo ideológico alto, cobrado na moeda da debandada interna. A "ala ressentida" do partido não é uma invenção da oposição; é o rastro de rupturas históricas deixado pelo próprio pragmatismo eleitoral. A transição da utopia socialista para o presidencialismo de coalizão produziu dissidências ruidosas:
- A crítica ética e doutrinária: Figuras como Heloísa Helena e a ala que fundou o PSOL romperam no início dos anos 2000 ao presenciarem a adesão do partido à agenda econômica ortodoxa e às alianças fisiológicas com o velho centrão.
- A fratura socioambiental: Marina Silva expôs os limites da contradição petista ao se retirar do governo diante do avanço indisciplinado do modelo neodesenvolvimentista e das concessões feitas ao setor do agronegócio. Recentemente voltou à base do governo do PT.
- A ortodoxia revolucionária: Grupos mais à esquerda, como o PCO de Rui Costa Pimenta, mantiveram-se à margem por enxergarem na postura petista a rendição definitiva ao institucionalismo burguês.
Apesar da dor das perdas e das acusações de "traição aos princípios", o PT absorveu cada um desses golpes. O motivo é simples: a "ala ressentida", embora moralmente ruidosa e intelectualmente articulada, jamais conseguiu construir uma máquina eleitoral com apelo popular equivalente ao lulismo. O eleitorado pragmático das periferias urbanas e do Nordeste preferiu a melhoria concreta no prato de comida e no acesso ao consumo do que o purismo ideológico da esquerda acadêmica.
O PT chegou a tanto porque entendeu o Brasil real: um país profundamente desigual, mas essencialmente conservador e afeito a saídas negociadas. Ao se colocar como o grande mediador entre os apetites do mercado e as carências do povo — e, mais recentemente, como a âncora de estabilidade institucional contra arroubos autoritários —, o partido transformou a conciliação em método de poder permanente. Resta saber até quando a física econômica permitirá agradar ao andar de cima e ao andar de baixo sem que a conta da desigualdade estrutural volte a cobrar o seu preço.

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