A distância entre a arrogância do tribunal moral e o dever cívico do bom senso
No ruído contínuo do debate público, poucas frases são tão repetidas — e tão mal compreendidas — quanto o imperativo bíblico: “Não julgueis, para que não sejais julgados”. Transformada em um escudo retórico para blindar condutas e esquivar de críticas, a máxima costuma ser invocada como se qualquer análise sobre a conduta alheia fosse um pecado de presunção. Trata-se de um equívoco conceitual. Há uma fronteira abissal entre o julgamento de condenação e o julgamento de discernimento — e saber navegar essa diferença é o que separa a arrogância moral da maturidade cidadã.
O julgamento de condenação opera no campo da sentença definitiva. É a postura do juiz sem toga que não busca compreender, mas rotular; não analisa atos, mas massacra a pessoa. Esse tipo de julgamento nasce da necessidade quase infantil de autopromoção moral: aponta-se o erro do outro para criar a ilusão de virtude própria. Ele é movido pelo desprezo e encerra o diálogo. Na vida pública e social, o julgamento de condenação gera o fanatismo, o cancelamento e a demonização do adversário. É precisamente contra essa arrogância que o alerta de Mateus se levanta.
Por outro lado, o julgamento de discernimento não é um privilégio do ego, mas um dever da inteligência. Discernir é a capacidade de avaliar fatos, pesar consequências, notar inconsistências e escolher caminhos. Não se trata de tribunal, mas de bússola. Quando um cidadão avalia o histórico de um gestor, a coerência de um discurso ou a aplicação de recursos públicos, ele não está usurpando o papel de Deus na consciência do outro; está exercendo o direito e a obrigação de proteger o bem comum.
Sem o julgamento de discernimento, a sociedade naufraga no relativismo ingênuo, onde o certo e o errado, a probidade e a corrupção passam a ter o mesmo peso. Discernir é olhar com profundidade, examinar as causas e entender a realidade antes de tomar uma decisão. É um ato de responsabilidade moral e cívica.
A diferença crucial, portanto, reside na ferramenta e na intenção:
- A intenção: O julgamento de condenação quer destruir o indivíduo; o julgamento de discernimento quer proteger a verdade e a coletividade.
- A ferramenta: O julgamento de condenação usa a régua da hipocrisia, medindo os outros com rigidez absoluta enquanto perdoa os próprios desvios; o discernimento usa a lupa da coerência, analisando os fatos com equidade e autocrítica.
A célebre exortação para não julgar jamais foi um convite à cegueira ou à conivência. Trata-se de um apelo à humildade. Julgar com discernimento é admitir que não conhecemos o coração de ninguém, mas que temos o dever de avaliar os frutos do que é feito no mundo. Quem confunde discernimento com condenação acaba privado do bom senso — e uma sociedade incapaz de discernir é uma sociedade incapaz de escolher o próprio futuro.

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