Tenho uma teoria caseira: ninguém acorda de manhã e decide mudar a posição geográfica das coisas sem uma boa razão. Mas tente explicar isso para quem tenta lavar a louça em casa.
Há os que defendem que o detergente neutro é o único cidadão sensato da cozinha. Ele não toma partido. Não cheira a maçã, não se declara de limão, serve para o prato de porcelana fina e para a panela de pressão encrostada. O problema é que a vida fora da pia não é feita de surfactantes e gordura vegetal. Na vida real, a tal da neutralidade dura até o momento em que você precisa escolher para qual lado vai virar o volante quando aparece um buraco na pista.
E é aí que entra a famosa geometria política. Esquerda e direita.
Há quem jure de pé junto que essas palavras caducaram, que não passam de invenção de rede social ou rótulo de prateleira. "Eu não sou de esquerda nem de direita, sou do bem!", diz o sujeito, inflando o peito. É uma frase bonita, mas meio ingênua. É como dizer que você não acredita na lei da gravidade porque prefere flutuar.
A verdade é que esquerda e direita existem, independentemente de como as pessoas escolham se etiquetar. Elas não são invenções modernas; são jeitos profundamente humanos de olhar para o mesmo problema.
De um lado, a esquerda costuma olhar para a mesa posta e perguntar: "Por que nem todo mundo está sentado aqui?". Sua obsessão natural é com a divisão do bolo, com a justiça social, com a garantia de que ninguém fique para trás na chuva. O risco? Às vezes, na fúria de querer controlar a distribuição das fatias, pode acabar sufocando quem faz o bolo, pesando a mão do Estado até que a mesa inteira quebre sob o peso da burocracia ou da tentação autoritária.
Do outro lado, a direita olha para a mesma mesa e pergunta: "Quem foi que trabalhou para assar esse bolo e como fazemos para assar outro maior?". Sua obsessão é com a liberdade individual, o esforço de cada um, a eficiência e o valor do que se constrói com o próprio suor. O risco? Na pressa de acelerar a receita, esquecer que nem todo mundo começou a corrida com o mesmo par de tênis — e que uma sociedade sem amparo vira uma selva onde só os mais fortes jantam.
Críticas não faltam para nenhum dos dois lados. A teoria no papel é sempre uma maravilha perfumada: o comunismo promete um paraíso sem classes onde tudo é de todos, mas a história mostra que, quando tentaram impor isso à força, o que virou "comum" foi a falta de liberdade. O liberalismo absoluto promete que o mercado resolve tudo sozinho, mas se esquecer de olhar em volta, descobre que a mão invisível nem sempre estende o braço para quem está se afogando.
No fim das contas, a política é essa briga eterna de vizinhos sobre qual a melhor cor para pintar a fachada da casa comum. E é exatamente aí que mora o segredo.
A gente pode criticar o excesso de regras de um lado ou a falta de compaixão do outro. Pode achar o discurso do influencer rasa e exigir mais leitura dos livros (e das Escrituras). Pode até rir dos excessos. Mas há uma regra de ouro que não permite meio termo: a casa precisa continuar de pé.
Essa casa se chama Democracia.
A democracia é aquele espaço barulhento, às vezes irritante, onde o sujeito da esquerda e o da direita são obrigados a conviver sob o mesmo teto. É o único regime que nos dá o direito sagrado de discordar, de votar consciente, de mudar de ideia e de protestar contra o síndico sem ir parar na cadeia por isso.
Sem a democracia, não existe debate; existe apenas o monólogo de quem manda e o silêncio de quem obedece. Seja sob o pretexto de salvar o povo ou de proteger a ordem, qualquer tentativa de calar o contraditório é só autocracia fantasiada de boas intenções.
Por isso, na próxima vez que alguém lhe disser que é "neutro como detergente", lembre-se: para lavar a sujeira do autoritarismo e construir um país justo, a gente precisa de lado sim — e o único lado inegociável é o da liberdade de continuar discordando.

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