Tirar quem está no poder é um direito; entregar o país a um tirano é um suicídio democrático. A democracia permite demitir o governante, mas não tolera a ingenuidade de dar a chave da casa ao incendiário.
A porta do voto é estreita, mas o vão por onde se espreita o destino do país é imenso.
Tem gente que chega à urna com o peito cheio de um cansaço antigo. O desejo de mudar é legítimo, cristalino, quase uma urgência física. Quer tirar quem está lá? Tire. A democracia é essa engrenagem viva que se alimenta da alternância, que garante a qualquer cidadão o sagrado direito de olhar para o governante do momento e dizer: "Chega, o seu tempo acabou." Não há controvérsia nisso. O voto é livre, e a soberania do eleitor não aceita rédeas.
O perigo, porém, nunca esteve no ato de abrir a gaiola; está em não olhar para onde o passarinho vai voar.
Na pressa de fechar uma porta, há quem se esqueça de checar a estrutura da casa que se pretende ocupar. Troca-se o incômodo do presente pela promessa reluzente do primeiro que passa gritando alto na rua. Mas a história — essa senhora austera que não costuma perdoar a ingenuidade — vive nos lembrando: a ruína quase nunca avisa quando entra. Ela vem fantasiada de remédio amargo.
Tire o poder de quem você quiser. Mas tenha o cuidado quase sagrado de não entregar a chave da casa a quem flerta com o incêndio. Não coloque no pedestal quem tem alergia ao povo, quem olha para o trabalhador com o desdém de quem nunca viu um calo na mão, nem sabe quanto custa o quilo do feijão ao fim do mês. Não confie o destino da nação a quem se incomoda com a arte, com o pensamento livre, com a cor da pele alheia ou com a voz dos que sempre foram silenciados.
O salvador da pátria é uma invenção antiga de gabinete e palanque. Ele costuma vir engomado, com discurso fácil e aroma de privilégio, prometendo milagres que nunca precisou construir com o próprio suor. É o herói de vitrine que nunca sentiu na pele a dor da fila do posto de saúde, nem a angústia de quem conta os trocados para fechar a conta do mês.
Mudança sem critério não é evolução; é salto no escuro. E o problema do salto no escuro é que o chão costuma ser duro demais para quem está lá embaixo.
Escolher novos rumos é um ato de coragem, mas exige memória e lucidez. Que a vontade de mudar nunca seja maior do que o dever de proteger a própria liberdade de continuar mudando amanhã.

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