Quando o governante eleito passa a usar a legitimidade das urnas para aparelhar instâncias de controle, nomear juízes alinhados e alterar leis em benefício próprio, a estrutura democrática entra em colapso interno. Não há um sobressalto; a destruição ocorre em fogo brando.
Você já parou para pensar na ironia que é usar a própria liberdade para acabar com a liberdade? Pois é exatamente isso que vem acontecendo em vários cantos do mundo hoje em dia.
Criou-se na cultura popular o mito de que a existência de sufrágio universal é condição suficiente para garantir uma sociedade livre. Trata-se de um engano perigoso. As eleições periódicas são apenas a dimensão procedimental do regime democrático — a ferramenta para a escolha cíclica de governantes.
Antigamente, quando a gente pensava no fim de uma democracia, a imagem que vinha à cabeça era bem clara e assustadora: tanques de guerra nas ruas, militares tomando o palácio do governo e um ditador anunciando na televisão que a Constituição não valia mais nada. Era um golpe rápido, violento e sem disfarces. Mas as coisas mudaram bastante. Hoje em dia, a democracia raramente morre com um estrondo; ela vai morrendo aos pouquinhos, em silêncio, e o pior de tudo: através do nosso próprio voto.
O grande problema é que a gente se acostumou a achar que democracia é só uma coisa: ir até a urna a cada quatro anos e apertar os botões. Só que votar é apenas a porta de entrada. A verdadeira democracia de um país depende do que acontece no dia a dia entre uma eleição e outra. Depende de ter juízes independentes que não baixam a cabeça para o presidente, de uma imprensa livre que possa investigar e criticar sem medo, e de leis que protejam todo mundo, inclusive quem pensa diferente do governo.
Quando a gente coloca no poder um líder com mentalidade autoritária, ele não precisa dar um golpe no dia seguinte. Em vez disso, ele começa um trabalho de formiguinha. Primeiro, aparelha os órgãos de fiscalização e coloca amigos no Judiciário. Depois, muda uma regrinha eleitoral ali, corta a verba de jornais críticos acolá e vai sufocando a oposição. Quando a população finalmente percebe, o jogo já está completamente viciado. As eleições continuam existindo, o presidente continua dizendo que é um líder democrático porque foi eleito pela maioria, mas, na prática, a estrutura que garantia a liberdade de todos já foi destruída por dentro.
É por isso que precisamos ficar muito atentos. Apoiar um político que ataca as instituições só porque ele defende a nossa bandeira hoje é um tiro no pé. O voto não é um cheque em branco para um governante fazer o que quiser com o país. Se a gente não aprender a defender as regras do jogo e a liberdade das instituições acima de qualquer paixão partidária, vamos continuar entregando a chave do nosso futuro nas mãos de quem quer justamente trancar a porta da nossa liberdade.
A democracia é o único sistema político que concede ao povo a prerrogativa de sua própria destruição. Se não compreendermos que o voto é a ferramenta de preservação de direitos — e não um cheque em branco para o desmonte de garantias —, continuaremos assistindo a democracias morrerem silenciosamente, com o aplauso do próprio público.

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