Existe um charme quase cômico na forma como o mundo tenta nos definir. Outro dia, alguém me apontou o dedo e soltou, entre um sorriso e um espanto: “Você é poético!”
Sorri por dentro. É engraçado como a palavra escapa, como se ser poético fosse apenas um traço de personalidade, um trejeito curioso ou um filtro de luz suave sobre o cotidiano. Tive de traduzir em silêncio: no fundo, a pessoa quis dizer que sou Poeta. E há uma distância colossal entre o adjetivo que adorna e o substantivo que pesa na alma.
Fiquei pensando no quanto a poesia habita os lugares mais improváveis. Lembrei-me de quando perguntei a uma garota se ela gostava de poesia. Ela era a personificação viva da delicadeza: linda, jovial, de uma simpatia tão terna que, para mim, ela própria parecia um poema em movimento — no popular, pura fofura. Para minha surpresa, a resposta veio sem rodeios: não gostava. Para ela, poesia não passava de um "monte de palavras sem sentido", um amontoado desconexo. Achei graça da honestidade. No fim, ela me parabenizou pelo dia e ainda saiu dali com um livro debaixo do braço. Quem sabe, entre uma página e outra, o amontoado de palavras não tenha decidido fazer sentido?
Em outro momento do caminho, o oposto aconteceu. Uma garota — que mais tarde converti em musa — olhou nos meus olhos com uma ousadia deliciosa e lançou o desafio: “Escreve uma poesia sobre mim.”
Ah, a coragem de quem sabe a força que tem! Mas a verdade é que a mulher, por mais que diga não gostar de versos ou do poeta, já carrega a própria poesia no simples ato de existir. Longe de mim imitar o Poetinha e decretar que "a beleza é fundamental". A verdadeira poesia não aceita a ditadura do belo pré-fabricado; simplesmente não existe poesia feia. O que existem, na verdade, são falsos poetas — aqueles que tentam fabricar o sentimento com rimas frias, sem colocar o coração na prensa.
Aceitei o pedido dela. Peguei a pena e fui sincero. Não inventei fadas, mas criei e recriei todo o meu universo ao redor daquela presença. Porque é disso que se trata: a poesia é, em sua essência mais pura, a palavra na mira de quem quer encantar. É o calor humano moldado em letras, a tentativa insistente de eternizar o efêmero, a eterna novidade!
Neste 20 de Outubro, celebra-se o Dia do Poeta. Teria muito mais a dizer sobre esse ofício meio abençoado, meio doloroso, de traduzir o mundo. Mas o tempo da conversa cede espaço ao tempo da criação.
O papel em branco espera. É hora de poetar.

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