Entrevista com André Lucas: O grito da literatura japaratubense.
André Lucas - (André Lucas dos Santos, Japaratuba - SE, 26 de dezembro de 1988), amplamente conhecido no meio artístico como Dé Lucas, é um poeta, cantor e ativista cultural cujas raízes em Japaratuba moldaram sua visão crítica sobre a arte e a política. Mais do que um fazedor de cultura, André tornou-se um especialista em políticas públicas e sistemas de financiamento cultural, sendo hoje uma das figuras mais consultadas sobre a implementação das leis Paulo Gustavo e Aldir Blanc em Sergipe.
Sua trajetória combina a prática artística com a vigilância institucional:
Experiência em Conselhos: Atualmente, é Conselheiro Suplente do CMPC de Aracaju (Cadeira de Música) e já exerceu a suplência no conselho de sua terra natal, Japaratuba.
Articulação Política: É membro fundador do Comitê Estadual Paulo Gustavo, fórum decisivo para a construção dos editais que socorreram a cultura sergipana nos últimos anos.
Luta Sindical: Atua como Diretor de Comunicação do Sindicato dos Músicos Profissionais de Sergipe, onde defende a regularização do Sistema Nacional de Cultura (SNC).
Voz Ativa na Comunicação: É um dos principais nomes por trás do portal Japaratuba EM FOCO, plataforma utilizada para denunciar o descaso com a literatura local e lutar pela transparência no uso dos recursos públicos federais.
Referência no combate à "espetacularização" da cultura, André Lucas dedica sua vida a garantir que a literatura, a música e as tradições de Japaratuba não sejam sacrificadas em prol de interesses comerciais ou políticos momentâneos.
Confira os pontos principais da entrevista:
F. J. Hora: Ser artista é um desafio e ao mesmo tempo um válvula de escape para as tensões pessoais e sociais. Você concorda? O que é ser artista pra você?
André Lucas: Acredito que o artista é o ator que materializa a arte. Penso que a arte te escolhe e não a gente escolhe a arte, não é sobre vocação, mas é sobre só se realizar em contato com a arte.
Ser artista é ser o motor que impulsiona a história das pessoas, pois a arte é parte essencial da história da humanidade.
F. J. Hora: Quem é André Lucas? Um poeta, um ativista cultural... Como e quando você despertou para o mundo artístico?
André Lucas: André Lucas é alguém que nasce no seio social de costumes coletivos afroindigena, tendo seus primeiros valores e contato com o mundo no Sítio Pilões, no trecho do povoado Badajós, conhecido como Olhos D’água, em Japaratuba, porém teve maior parte da sua vida na capital sergipana.
Sempre tive contato com a arte, principalmente com pessoas que no seu cotidiano faziam jererés, vassouras, esteiras, gaiolas e outros fazeres artísticos.
Meu pai foi um dos maiores expoentes de incentivo, natural de Riachão do Dantas, tratorista de profissão, foi quem incentivou o contato com a música, principalmente com o violão.
Em 2003 tenho meu primo contato com o violão, meu objetivo era tocar a música "A desconhecida" de Fernando Mendes, para tocar para meu pai que era fã de Fernando Mendes.
Em 2004, acometido por doenças de chagas (barbeiro), meu pai falece, mas meses antes da sua morte consegui tocar e cantar com ele.
F. J. Hora: André, sua história começa no Sítio Pilões, entre o Badajós e os Olhos D’água, em um ambiente de saberes afroindígenas e fazeres manuais como jererés e esteiras. Como essa vivência do "cotidiano artístico" da zona rural de Japaratuba moldou o ativista que você é hoje?
André Lucas: Antes da gente ser formado no chão da escola ou da universidade, a gente é formado pelo chão da sociedade que a gente pisa. Com certeza foram os primeiros valores que adquiri naquele solo que moldaram minha percepção sob o mundo, além de uma preservação histórica e cultural, a busca pela própria identidade e formação de um povo.
Se relacionar com a natureza como parte integrante da vida humana, a preservação dos saberes ancestrais é impulso vital para ser o Ativista que busca compreender o povo, o chão social e a história.
F. J. Hora: Apesar de ser artista, você tem se engajado na luta social. Como você vê a situação não só da nossa cidade, mas do nosso país em relação à mobilização social e ao interesse das pessoas em reivindicar seus direitos?
André Lucas: O que me impulsionou a ser Ativista foi justamente a falta de espaço para a música autoral e a poesia local, sergipana.
Entendi que eu precisa compreender o sistema para poder entender como melhorar agir.
Me conectar com pessoas de outras gerações e de outras cidades me ajudou a compreender melhor o bonde da história.
A compreensão da importância da mobilização social veio da formação social e política através do movimento estudantil na universidade.
O nosso país é um continente de uma riqueza cultural e diversidade incrível, mas que desde sempre sofre apagamento estratégico.
As pessoas não acreditam que podem interferir positivamente contra o sistema que o utiliza. Isso é histórico, de tanta opressão, falar é se posicionar e isso pode gerar retaliação, o mundo capitalista vive da punição.
F. J. Hora: Como você define a importância da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB) para municípios de forte tradição cultural como Japaratuba?
André Lucas: A Política Nacional Aldir Blanc é resultado de Lei Aldir Blanc, que em 2020 com a pandemia e sem Ministério da Cultura, precisou da organização social para pensar uma maneira de ajudar a nossa cultura.
Com a volta do Ministério da Cultura, as políticas moldadas pelas mãos da sociedade civil ganhou forças e disso nasce a Lei Paulo Gustavo, com incentivo principal a produção audiovisual.
A Política Nacional Aldir Blanc (PNAB) prevê repasse anual para os Estados e Municípios, cabendo aos entes federados administrar e viabilizar o acesso a cadeia cultural.
Esses recursos deveriam prioritariamente subsidiar projetos que pudessem chegar as pontas, a quem vive a alimenta a cultura. Cultura tradicionais, comunidades tradicionais, povos originários são sempre prioridades, inclusive contando com cotas.
Se o município não envia recursos por exemplo para a literatura, a PNAB seria a oportunidade perfeita para fortalecer o segmento, mas isso não acontece.
É importante lembrar que só através da Lei Aldir Blanc que algumas pessoas tiveram contato com editais pela primeira vez.
F. J. Hora: Como conselheiro e membro fundador do Comitê Paulo Gustavo, você acompanhou de perto as diretrizes do Ministério da Cultura. O que o CNPC (Conselho Nacional de Políticas Culturais) orienta especificamente sobre o fomento à literatura?
André Lucas: Irei disponibilizar e-mail enviado a mim pelo CNPC
Por meio dessa política, é possível investir em projetos e programas de maneira regular, e não só de modo emergencial, como aconteceu na Lei Aldir Blanc 1 e na Lei Paulo Gustavo. Desse modo, os recursos podem ser utilizados em todas as áreas da cultura, inclusive na área de BIBLIOTECAS, LIVROS E LEITURA, tanto para reforma e recuperação quanto para aquisição de livros e muito mais.
POR QUE INVESTIR EM BIBLIOTECAS PÚBLICAS?
Bibliotecas públicas são fundamentais para o desenvolvimento cultural, social e econômico. Esses equipamentos contribuem para ampliar o acesso à informação e à leitura, tanto de materiais impressos quanto digitais, ajudando a formar, a partir dos municípios e estados, o Brasil como sociedade leitora.
AÇÃO/ATIVIDADE
Reforma, construção, formação, organização, manutenção e ampliação de bibliotecas;
COMO FAZER?
Editais de licitação, inexigibilidade ou dispensa de licitação – Lei nº 14.133/2021
AÇÃO/ATIVIDADE
Aquisição de acervos e coleções de obras literárias, equipamentos eletrônicos (como computadores, notebooks, e readers, etc) e demais materiais afetos ao âmbito da biblioteca
COMO FAZER?
Editais de licitação, inexigibilidade ou dispensa de licitação – Lei nº 14.133/2021
AÇÃO/ATIVIDADE
Firmar parceria com Organização da Sociedade Civil para gestão compartilhada da Biblioteca
COMO FAZER?
Editais MROSC – Lei 13.019/2014
AÇÃO/ATIVIDADE
Contratação de artistas locais e demais serviços que compõem a programação cultural da biblioteca
COMO FAZER?
Editais de licitação, inexigibilidade ou dispensa de licitação – Lei nº 14.133/2021
AÇÃO/ATIVIDADE
Seleção de projetos culturais propostos pela comunidade cultural, realizados no âmbito da biblioteca pública
COMO FAZER?
Edital de fomento à execução de ações culturais - Ações e Eventos Literários
- Decreto nº 11.453/2023 e Lei nº 14.903/2024 - Marco regulatório do fomento à cultura
Assim, considerando a importância das Bibliotecas Públicas para a cultura nacional, a Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura traz uma ótima oportunidade aos estados, Distrito Federal e municípios de reestruturarem suas bibliotecas, seja fazendo reformas, compartilhando a gestão por meio de parcerias com Organizações da Sociedade Civil (OSC), adquirindo novos livros, entre outras inúmeras possibilidades.
F. J. Hora: Você atua em parceria no portal Japaratuba EM FOCO. De que forma esse canal de comunicação tem sido fundamental para dar visibilidade a essas pautas que a gestão oficial tenta omitir?
André Lucas: Com avanço da tecnologia, ainda mais pós pandemia, as redes sociais se tornaram não só parte integrante da vida moderna, mas como também deu voz a quem antes pouco tinha espaço, bem, isso tem dois lados, mas irei focar no lado positivo.
A gente já bateu 500 mil visualizações no perfil do Japaratuba em Foco, isso significa que a gente consegue dar amplitude a nossa voz e romper as barreiras geográficas, isso coloca Japaratuba com outros olhos para ela, as coisas do cotidiano. Ocupar esse espaço com uma proposta independente e que nasceu muito antes da minha chegada tem se mostrado importante para a população e cumpre o papel ao qual se propõe.
F. J. Hora: Recentemente, houve a denúncia de que a literatura foi "sacrificada" no segundo ciclo da PNAB. Como essa exclusão aconteceu no plano de ação municipal?
André Lucas: As audiências públicas são obrigatórias e organizadas pela secretaria. Nessas audiência são definidas as diretrizes ouvindo a população, segundo o CMPC não houve concordância com a exclusão da literatura. O teatro também iria ficar sem recursos, mas o secretário adjunto intercedeu pelo segmento e conseguiu junto ao presidente do conselho ainda destinar algum recurso.
A justificativa é que a literatura entraria em um próximo ciclo, notando que o recurso é pouco.
F. J. Hora: O recurso que deveria ir para os escritores foi destinado ao que a gestão chamou de "Bloco Cultural". Qual a diferença técnica e prática entre um projeto literário e o que esses blocos representam para a cidade?
André Lucas: A participação através do CMPC deveria ter um tom mais posicional na defesa da estrutura do CMPC, que é regido e instruído por lei.
Técnico e conceitual há uma diferença entre cultura e entretenimento, e isso não quer dizer que a cultura não pode gerar entretenimento, mas não pode ser resumida apenas a essa modalidade.
A preservação cultura é a preservação da identidade e história de um povo, de um lugar. Manter essas tradições sempre foi um desafio, inclusive pelo projeto nacional político de apagamento da identidade de povo brasileiro.
A categoria bloco Cultural está como cultura tradicional, o que por si só já é um afirmação duvidosa, para isso é necessário compreender em que momento nasceu os bloco culturais em Japaratuba.
O que se vê desde sempre são blocos de Carnaval, com finalidade comercial de entretenimento, com distribuição de bebidas, vendas de abadás e reunião de foliões em pleno o Carnaval, o que nada dialoga com a categoria bloco Cultural.
Fosse blocos carnavalescos de escolas de sambas, com uma proposta estética e crítica, com enredo, coreografia, corpo Técnico, corpo de dança, movimentação da cadeia produtiva para criação de carros alegóricos, onde agrega composições, escritores, músicos e técnicos, seria uma questão, mas reunião folião no Carnaval é outra coisa.
A dificuldade de publicar um livro é imenso, desde a sua concepção como ideia até sua materialização e chegada ao leitor, carece de muito recurso e rigor técnico, hora a fio dedicadas a redação, passa por revisão, correção, vai a gráfica e aí começa os princípios entraves, os recursos para a execução e finalização e que não para por aí, com a falta de incentivo a leitura e a literatura, essas obras mesmo que saiam da gráfica, podem morrer nas prateleiras sem quem um único leitor veja sua capa, isso não é sobre a qualidade das obras, mas a falta de políticas de fomento e incentivo à leitura e a literatura.
F. J. Hora: Existe uma diferença clara entre "Cultura" e "Entretenimento Comercial". Você acredita que a prefeitura está confundindo esses conceitos ao priorizar blocos de carnaval em editais de fomento à cultura?
André Lucas: Não sei se há confusão, o que observo é o favorecimento de pessoas e projetos proximo a quem apoia a gestão.
A justificativa de apoiar novas iniciativas não precisa passar pela exclusão de outras.
Mas segundo alguns apoiadores, o entretenimento traz turistas para a cidade.
Ainda acredito que há uma negação aos estudos e à academia como também da ciência e das pesquisas.
Há uma falta de compromisso com a real história cultural de Japaratuba.
F. J. Hora: Japaratuba possui um Secretário de Cultura que vem da área da literatura. Na sua visão, por que existe essa desconexão entre a origem do gestor e a falta de políticas para os escritores locais?
André Lucas: O Brasil acreditou que Fernando Henrique Cardoso seria um bom projeto porque era sociólogo, mas isso não foi o suficiente para que o sociólogo fizesse reformas estruturantes.
O secretário é sempre premiado em concurso fora da cidade, mas talvez essa visão de concurseiro de premiação faça-o entender que o festival de poesia seja o suficiente, além de que também pôde-se notar que a FLIJA foi inciativa da Secretaria de educação.
F. J. Hora: Você mencionou que os blocos de carnaval favoreceu a "pessoas". De que forma o uso de recursos da PNAB para esses fins fere o princípio da democratização cultural proposta pela lei federal?
André Lucas: A lei federal inclusive veta apoio a iniciativas privadas de comercialização e talvez aí more a estratégia de mudar de bloco de Carnaval para bloco Cultural. Nenhum bloco é associação com CNPJ, apenas CPF, o que configura um benefício a uma inciativa pessoal e individual dos donos dos blocos, donos de blocos não são mestres.
F. J. Hora: Como a ausência de editais para literatura afeta os escritores da terra, como Flávio Hora, Jorge Ramos, Poeta Afamado e tantos outros que lutam para publicar suas obras?
André Lucas: Não só essas pessoas citadas, que ao menos conseguem ter notoriedade, ainda há muita gente que precisa da ampliação desse espaço. O concurso de Aguada apresentou duas novas estudantes poetas, que forma premiada a través da escritura e da interpretação poética, essa pessoas que despertam aos poucos para grandes cenários precisam de mais apoio de casa para alcançar novos voos.
Ademais os citados como Flávio Hora, Jorge Ramos, professora Geane deixam de ter possibilidades maiores de fomentar suas obras.
F. J. Hora: Além da questão orçamentária, como você avalia o formato atual dos eventos literários da cidade, como o Festival de Poesias? A essência da palavra ainda é respeitada?
André Lucas: Desde que de que comecei a fazer parte do coletivo estadual dos novos poetas sergipanos, em 2015, que converso com pessoas de outras cidades e outras gerações, como os poetas Assuero Cardoso e Anderson Ribeiro, da cidade de Largato, sobre a estética do festival poeta Garcia Rosa, que desde os primórdios preserva mais a atuação e estética teatral do que da poesia facada, como se propõe o festival.
Em 2023 fui jurado e penso que a visão do jurado também influencia na estrutura do festival. Neste festival no qual fui jurado, a estética de palco materializada em cenário teve pouca influência. Porém vejo como enraizada na história do festival.
F. J. Hora: Para encerrar, qual o caminho para que os artistas e escritores de Japaratuba retomem o controle sobre as políticas culturais do município e garantam que o Sistema Nacional de Cultura (SNC) seja respeitado?
André Lucas: A participação social, sem dúvidas. E tudo passa pelo Sistema Municipal de Cultura, que é guiado pelo Sistema Nacional de Cultura. Um Conselho atuante, atento e ativo é necessário, pois os desafios são grandes, mas também a organização em coletivos, associação, cooperativas a atividade independentes da sociedade civil para a sociedade civil, sejam essenciais para mudanças estruturantes.
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