sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

CRÔNICA: Memória Financeira e Ignorância Social

O Milionário de Japaratuba e a Régua do Ontem

 

Dizem que o brasileiro tem memória curta, mas o caso do Seu José beira o apagão coletivo. O cenário era uma calçada, na Rodagem, especificamente na antiga Rua da Ponta da Faca, em Japaratuba, Sergipe. De um lado, o vizinho, ostentando o título de ex-milionário de 1992; do outro, Seu José, o cético da vizinhança, que olha para a inflação do passado com a mesma desconfiança de quem ouve história de lobisomem.


— "Paguei 5 milhões na casa", disse o vizinho, com a naturalidade de quem compra um pão.


Seu José quase caiu da cadeira de fios. Para ele, 5 milhões é prêmio da Mega-Sena, é fortuna de herdeiro, é coisa de quem tem nome em prédio na Avenida Paulista. "Tá com febre, homem?", rebateu ele, ríspido. Para o senhor, a verdade tinha que ser mais humilde: "Você pagou 5 mil, aí sim é uma história bonita".


Ora, o que Seu José não percebeu — e ele não está sozinho nessa — é que o Brasil de 1992 era um hospício numérico. Éramos todos milionários de bolsos vazios. O senhor, que atravessou o Plano Real em 1994, parece ter deletado o arquivo "Hiperinflação" do cérebro. Ele vive o fenômeno da régua trocada: tenta medir o caos de trinta anos atrás com a régua do Real de hoje. É como tentar medir a distância de Japaratuba até Aracaju usando uma colher de chá.


Pois bem, a prova do crime veio num papel amarelado: uma conta de luz de 41 mil cruzeiros. O genro, servindo de tradutor de realidades para o sogro que não aprendeu a ler as letras, mas deveria saber ler a vida, sentenciou: "Se a luz custava isso, a casa era 5 milhões mesmo".


Mas Seu José não se deu por achado. Ele é o retrato de uma parcela do Brasil que vive a história como quem assiste a um filme mudo e sem legenda. Se não doeu no lombo, não aconteceu. É o mesmo sujeito que, vivendo longe do eixo Rio-São Paulo em 64, diz que "no meu tempo não tinha ditadura", simplesmente porque ninguém bateu na porta dele para censurar o bom dia.


O analfabetismo, aqui, não é só de letras; é de contexto. Ao ignorar que aqueles 5 milhões de cruzeiros valeriam hoje pouco mais de R$ 1.800,00, Seu José se protege no conforto da ignorância. Para ele, o passado tem que ser simples, linear e, preferencialmente, barato. Aceitar os milhões do vizinho seria admitir que ele viveu em um país que girava a mil por hora enquanto ele estava parado, sem entender que a moeda mudava de nome como quem troca de camisa suada.


No fim das contas, o debate encerrou porque o vizinho cansou de dar murro em ponta de faca. O "velhinho" continua convicto de que o vizinho é um mentiroso ou um louco. Mal sabe ele que, em 1993, ele provavelmente pagou alguns milhares de cruzeiros num quilo de feijão.

Rir dessa situação é um remédio amargo. É o humor de perceber que o Brasil é um país onde o passado é tão incerto quanto o futuro, e onde muitos de nós somos estrangeiros dentro da nossa própria biografia.

Autor: F. J. Hora, em Crônicas da Ponta da Faca.

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