De Joelhos no Monte, de Pé na Vida
A Quarta-feira de Cinzas surge no calendário como um "freio de arrumação". Após a euforia, o excesso e o barulho da "Festa da Carne", o silêncio das cinzas sobre a fronte nos recorda uma verdade implacável, mas libertadora: nossa finitude. Ao ouvirmos a frase "Lembra-te que és pó e ao pó voltarás" (Gênesis 3:19), somos convidados a desinflar o ego. Não é um convite ao pessimismo, mas sim ao realismo espiritual. Se somos pó, tudo o que construímos sobre a vaidade também o é. O que resta, então, quando a folia acaba e as luzes se apagam?
A Quaresma como "Campo de Treinamento"
Os 40 dias que se iniciam nas cinzas não devem ser vistos como um período de "castigo" ou uma gincana de privações temporárias. O tripé quaresmal — jejum, oração e esmola — serve para desintoxicar a alma:
Jejum: Para provar que não somos escravos dos nossos desejos.
Oração: Para restabelecer o diálogo com a Fonte da vida.
Esmola (Caridade): Para nos lembrar que o outro existe e que o amor é a nossa única herança real.
No entanto, o grande risco da Quarta-feira de Cinzas é tratá-la como um evento isolado. Muitas vezes, vivemos a Quaresma como quem segura a respiração debaixo d'água, esperando ansiosamente pelo Domingo de Páscoa para "voltar ao normal".
Conversão: Um Estilo de Vida, não um Prazo de Validade
A verdadeira conversão (metanoia) significa uma mudança de mentalidade. Se a penitência e a busca por Deus terminarem no Sábado de Aleluia, então não houve conversão, apenas uma pausa protocolar.
"O convite à conversão não deve ser restrito só aos 40 dias. A cinza que recebemos na fronte deve queimar o nosso egoísmo para sempre, e não apenas até a Páscoa."
O desafio cristão é transformar o esforço da Quaresma em um hábito permanente. Se aprendemos a ser mais pacientes, mais sóbrios ou mais generosos durante esses 40 dias, por que abandonar essas virtudes quando o calendário muda?
A ressurreição de Cristo não é o fim de um período de privação, mas o início de uma vida nova. Viver "além dos 40 dias" significa entender que a poeira que somos só ganha sentido quando soprada pelo Espírito de Deus, transformando nossa fragilidade em amor concreto no dia a dia.
Reflexão para o Caminho
A Quarta-feira de Cinzas nos pergunta: o que em você precisa morrer para que algo novo possa nascer? Que este tempo seja o ponto de partida para uma jornada sem volta rumo a uma versão mais humana, espiritual e consciente de nós mesmos.


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