Do Chão de Fábrica ao Planalto: Por que Lula ainda é o Eixo da Resistência.
A história política do Brasil é marcada por uma profunda contradição: um país de riquezas continentais que figura entre os mais desiguais do mundo. Essa desigualdade não é um acidente geográfico, mas o resultado de séculos de governos alinhados aos interesses das oligarquias. Nesse cenário, a figura de Luiz Inácio Lula da Silva emerge não apenas como um político, mas como um símbolo de ruptura institucional com o projeto de exclusão das elites.
O momento político é bastante delicado e o "candidato melhor" que Lula, no campo progressista, precisaria não apenas de suas ideias, mas de sua pele. E, até o momento, a política brasileira não produziu outra liderança que consiga fundir tão profundamente a biografia pessoal com a história das conquistas sociais do Brasil.
Há evidências históricas de que votar em Lula nem sempre foi um ato de amor ao candidato, mas, a sensatez de se posicionar ideologicamente contra o autoritarismo e contra os privilégios da burguesia.
Por exemplo, na primeira eleição direta após a ditadura, o Brasil viu o choque entre a "nova política" fabricada pelo marketing de Fernando Collor e a realidade crua de um líder operário. Quando Leonel Brizola, o maior herdeiro do trabalhismo de Vargas e Jango, ficou fora do segundo turno por uma margem mínima, ele proferiu a frase histórica: as elites teriam que "engolir o sapo barbudo".
O Significado: Brizola, mesmo sendo um rival ferrenho do PT na época, entendeu que Lula representava a única via legítima contra o "projeto das elites" encarnado em Collor. O voto em Lula ali não era uma adesão cega ao petismo, mas um gesto de sensatez democrática e de classe.
A Legitimidade que o Marketing não Compra
Diferente da maioria dos líderes que tentam "mimetizar" uma conexão popular através de camisas de futebol ou linguagem informal, a identidade de Lula com os trabalhadores é orgânica.
A Origem Operária: Lula é o único presidente brasileiro vindo do chão de fábrica. Sua escola foi o sindicato; sua retórica foi forjada na negociação por direitos básicos.
O "Sapo Barbudo" e as Elites: A trajetória de Lula, desde o icônico "sapo barbudo" de 1989 até o cenário de 2026, é o relato de uma resistência histórica contra o que Brizola chamava de "filhotes da ditadura" e as elites econômicas que detêm as chaves da desigualdade brasileira. Comparar esses momentos revela como a democracia foi, por décadas, o único campo de batalha possível para quem vem da base. Desde 1989, o termo de Brizola define a relação: a elite econômica nunca aceitou Lula por ele representar a ascensão de quem "deveria apenas servir". O ódio direcionado a ele é, no fundo, um preconceito contra a classe que ele representa.
O Voto como Barreira Sanitária contra o Autoritarismo
Votar em Lula, especialmente nos pleitos de 2022 e no horizonte de 2026, transcende a admiração pessoal ou a concordância integral com o governo. Trata-se de um voto estratégico pela democracia.
Democracia vs. Barbárie: Enquanto a extrema-direita utiliza o "falso patriotismo" para desmantelar direitos trabalhistas e atacar as instituições, Lula opera dentro da liturgia do cargo. O voto nele é a garantia de que o campo de batalha continuará sendo a política, e não a força.
A Única Via Real: No atual cenário, Lula é o único líder capaz de amalgamar uma "frente ampla" que impeça o retrocesso civilizatório. Mesmo com críticas à gestão econômica ou política, ele permanece sendo o único estadista com capilaridade suficiente para enfrentar o projeto autoritário.
Direitos Coletivos vs. Privilégios da Burguesia
A grande disputa atual é entre dois modelos de país:
O Modelo das Elites: Foca no indivíduo, no desarmamento do Estado e na manutenção de privilégios econômicos (como a baixa taxação sobre super-ricos).
O Modelo Coletivo: Prioriza o Estado como indutor de bem-estar, focado em tirar o Brasil do Mapa da Fome, valorizar o salário mínimo e expandir o acesso à saúde e educação.
A Trajetória de Base Real (Marina Silva e Guilherme Boulos)
Existem figuras que, assim como Lula, possuem uma origem legítima em movimentos sociais, mas com alcances e nichos diferentes:
Marina Silva: É a figura que mais se aproxima da história de superação de Lula. De seringueira analfabeta a ministra e líder ambiental global. Sua luta é humanista e ambiental, mas ela enfrenta a dificuldade de transformar essa trajetória em um movimento de massas tão amplo quanto o sindicalismo de Lula.
Guilherme Boulos: Representa a tentativa de renovação da esquerda via movimento de moradia (MTST). Embora venha de uma família de classe média alta (pais médicos), ele escolheu a base social como campo de atuação.
O desafio: A mimetização aqui é inversa; ele busca validar sua liderança através da vivência com os trabalhadores, mas ainda luta para romper a barreira do "preconceito de classe" que as elites e parte da classe média impõem a quem lidera ocupações.
O "Tecno-Populismo" (Ciro Gomes)
Ciro tenta se posicionar como o defensor da soberania nacional e dos trabalhadores através do Projeto Nacional de Desenvolvimento.
A tática: Usa um discurso contundente contra o capital financeiro.
O limite: Sua origem é nitidamente de uma oligarquia política cearense (família Ferreira Gomes). Por mais que sua pauta seja em defesa do trabalhador, ele fala "para" o povo a partir de um lugar de autoridade intelectual, e não "como" o povo.
Existe algum candidato "melhor" que Lula?
A resposta depende do critério. Se o critério for histórico de luta e identidade com a classe trabalhadora, a resposta curta é: não há paralelo no cenário atual.
A Única Cédula com "DNA" Popular: Enquanto outros candidatos propõem pautas para os trabalhadores, Lula é o resultado dessas pautas. Sua legitimidade não vem de um escritório de marketing, mas das assembleias de porta de fábrica do ABC.
A "Muralha de Votos": As pesquisas de 2025 e 2026 continuam mostrando Lula liderando ou em empate técnico com nomes da direita (como Tarcísio ou Michelle Bolsonaro). O "melhor" candidato, na visão estratégica, é aquele que consegue vencer. Até agora, nenhum nome de centro ou de outra esquerda conseguiu mobilizar o "voto de resistência" que Lula detém organicamente.
Conclusão: Um Voto de Dignidade, não de Santificação
Votar em Lula não significa "santificá-lo" ou absolvê-lo de erros. Significa reconhecer que, entre um líder que respeita as regras do jogo e um projeto que ameaça a soberania nacional e os direitos do povo, a sensatez é a única saída. Como o "sapo barbudo" de 89, Lula continua sendo a escolha de quem entende que a democracia é o solo sobre o qual se constrói a igualdade.
Para as elites, o "problema" de Lula nunca foi a corrupção — já que estas mesmas elites convivem bem com ela em outros redutos —, mas sim a ousadia de um operário colocar o pobre no orçamento e a empregada doméstica na universidade. Em 2026, a escolha permanece: ou o projeto de uma nação para todos, ou a perpetuação da desigualdade sob o mando de quem odeia o povo.

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