sábado, 13 de junho de 2026

A Lei da Semeadura — A Generosidade Como Estilo de Vida e Justiça Social

No décimo oitavo dia da nossa caminhada, analisamos a segunda carta de Paulo aos Coríntios para compreender a economia do Reino de Deus. Descubra como a sua generosidade prática com os recursos, o tempo e os talentos estabelece um ciclo inabalável de provisão e justiça ao seu redor.



“Lembrem-se disto: quem planta pouco colhe pouco, mas quem planta muito colhe muito. Cada um deve dar o que mudou em seu coração, não com tristeza ou por obrigação, pois Deus ama quem dá com alegria.”

— 2 Coríntios 9:6-7


A Mensagem: A Matemática da Caixa de Areia

Até aqui, aprendemos a gerenciar a nossa identidade, as nossas emoções, as nossas reações interpessoais e as nossas palavras. No décimo oitavo dia, o apóstolo Paulo nos desafia a abrir as mãos e olhar para a forma como lidamos com os nossos bens materiais e recursos. Para explicar a dinâmica financeira do Reino, ele não recorre a teorias econômicas complexas, mas a uma lei universal e imutável da natureza: a semeadura.

No contexto desta carta, os cristãos de Corinto estavam organizando uma coleta financeira para socorrer os irmãos de Jerusalém, que enfrentavam uma crise de fome severa. Paulo desmistifica o ato de doar. Dar não é um prejuízo ou uma perda; é um investimento na terra de Deus.

A quantidade de sementes que você joga no solo determina, proporcionalmente, o volume da sua colheita futura. No entanto, o Criador não está focado apenas no montante ou no valor do cheque, mas na motivação oculta do coração. A generosidade aceitável no altar de Deus é aquela que flui livre de manipulação, constrangimento ou obrigação religiosa; é aquela que nasce da pura alegria de saber que somos apenas administradores (mordomos) dos recursos do Pai e que fomos chamados para ser canais de bênção, e não represas retentoras.

Conexão com os Dias de Hoje: Generosidade Prática em Tempos de Escassez

Vivemos em uma sociedade frequentemente dominada pelo medo da escassez e pelo individualismo financeiro. A cultura nos incentiva a acumular ao máximo, a reter cada centavo e a fechar os olhos para as necessidades sociais e comunitárias que nos cercam. Achamos que só seremos generosos "quando" sobrar muito dinheiro ou quando alcançarmos uma estabilidade financeira utópica.

Trazer 2 Coríntios 9 para a nossa realidade profissional e social é entender que a generosidade é uma mentalidade, não um saldo bancário:

* A ética da partilha nos bastidores: Ser generoso hoje significa usar a sua profissão, a sua influência e os seus conhecimentos técnicos para estender a mão a quem precisa. É o contador que orienta uma pequena associação comunitária sem cobrar honorários; é o escritor que usa suas palavras para dar voz a causas nobres e invisíveis; é o cidadão que contribui ativamente para aliviar a fome e a vulnerabilidade social na sua cidade.

* O milagre do fluxo contínuo: A Bíblia garante nos versículos seguintes que "Deus é poderoso para fazer abundar em vós toda a graça". Quando você se torna um canal por onde os recursos de Deus fluem para abençoar a sociedade, o próprio Deus garante que nunca faltará semente ao que semeia. A generosidade rompe o ciclo do egoísmo e gera ações de graças coletivas ao Senhor.

A sua vida financeira e os seus talentos não existem apenas para edificar o seu próprio império pessoal. Eles foram concedidos para que você seja um agente de justiça distributiva e compaixão no mundo real. Abra as mãos hoje, olhe ao seu redor e identifique onde Deus quer que você jogue a sua próxima semente.

💬 Para Refletir e Compartilhar:

O que tem sido mais desafiador para você semear com alegria atualmente: o seu dinheiro, o seu tempo ou o seu conhecimento técnico? Como você pode ser um canal prático de generosidade na vida de alguém ou de uma instituição nesta semana?

sexta-feira, 12 de junho de 2026

O Guardador de Cafonices Sagradas: Memórias de um Tempo sem Filtro

No Dia dos Namorados, o resgate de um bilhete antigo guardado na gaveta revela o abismo entre a entrega visceral do passado e o afeto vigiado pelas telas na modernidade.



No fundo de uma gaveta de jacarandá, bem ali onde o verniz já cedeu ao tempo e o cheiro de mofo disputa espaço com a nostalgia, repousa uma relíquia. Não é uma joia de família, nem uma escritura de terra, muito menos um extrato bancário. É apenas um pedaço de papel. Tem duas dobras exatas, as bordas sutilmente gastas pelo toque repetido dos anos e uma caligrafia que teima em não sumir, escrita com aquela urgência de quem precisava desarmar uma bomba no peito antes que o dia acabasse.

Hoje, nesta sexta-feira, 12 de junho de 2026, enquanto as telas dos celulares piscam freneticamente com notificações padronizadas de "Feliz Dia dos Namorados" — a maioria acompanhada por emojis idênticos de corações vermelhos ou foguinhos —, segurar esse papel é como tocar uma fenda no tempo.

Houve uma época em que o amor não sofria da miséria do minimalismo. Não havia o pavor contemporâneo do "print", essa guilhotina virtual que faz todo mundo calibrar o afeto em doses homeopáticas para não parecer "emocionado" no grupo de WhatsApp dos amigos. Amar, no tempo daquele papel, era um esporte de altíssimo risco e de uma coragem quase ingênua. As pessoas tinham a audácia de serem ridículas.

O sobressalto começava na entrega. O romance não chegava com um bipe mecânico no bolso; ele se materializava. Vinha escondido de mansinho no fundo da sacola de feira, deixado estrategicamente ao lado da garrafa de café em cima da mesa, ou enfiado às pressas no bolso da camisa durante a despedida no portão. Às vezes, dependia da diplomacia de um amigo de confiança, que trazia o bilhete com aquela cara de cúmplice e dizia em tom de segredo: "Olha, mandaram te entregar". Noutras, vinha com o carimbo demorado e solene dos Correios, alimentando a bonita agonia da espera.

Ao abrir o papel, a caligrafia era a própria assinatura da alma. As linhas tortas, que subiam e desciam de acordo com o batimento cardíaco de quem empunhava a caneta, não deixavam margem para dúvidas ou ambiguidades textuais. Era a literatura visceral do desespero e da entrega.

Naquele bilhete guardado, as palavras não pediam licença para queimar: "Deixo fazer comigo o que quiser... Te amo". Era uma rendição absoluta, sem cláusulas de barreira, sem o orgulho defensivo da modernidade. E o desfecho, ah, o desfecho era uma celebração da cafonice mais pura e sagrada que o ser humano já foi capaz de produzir: "Beijos, smack, meu amor, meu chuchuzinho..."

Quem, em pleno 2026, tem a coragem de escrever "chuchuzinho" ou de desenhar a onomatopeia de um beijo estalado como "smack" em uma mensagem? Quase ninguém. O vocabulário do afeto foi pasteurizado pelos corretores automáticos e pelo medo do julgamento. Transformamos a paixão em um contrato de termos discretos.

O amor moderno pode até ser mais prático, mais seguro e bem catalogado pelos algoritmos das redes sociais. Mas enquanto o mundo digital celebra sua perfeição fria, o velho pedaço de papel continua ali, na gaveta, provando que a imortalidade do sentimento reside justamente na sua capacidade de se expor por inteiro. Podem apagar os servidores, derrubar a internet e sumir com os aplicativos: o que foi escrito à mão, com coragem e tinta, fica para sempre cravado no peito.

Da Pequena Escolha ao Grande Debate: Por que Precisamos do Olhar Crítico

Como o simples ato de discernir no cotidiano revela que a análise rigorosa não busca a destruição, mas é o alicerce indispensável para o aperfeiçoamento das ideias e das sociedades.


Imagine que você está no mercado escolhendo frutas para levar para casa. Instintivamente, você não pega as primeiras que vê pela frente. Você as observa, avalia a cor, sente a textura, afasta as que estão passadas ou verdes demais e escolhe as melhores. Esse gesto simples, cotidiano e quase inconsciente, é o exercício mais puro do ato de criticar. Na sua raiz, a palavra vem do grego krinein, que significa exatamente isso: separar, discernir, escolher com critério.

Ninguém compra uma fruta estragada apenas para ser "positivo" ou para não ferir os sentimentos do pomar. Fazemos escolhas baseadas na qualidade porque nos importamos com o resultado final.

No entanto, quando saímos do corredor do mercado e entramos na arena das ideias, da política, da cultura ou do ambiente de trabalho, o ato de discernir sofre um estranho preconceito. Quem aponta um erro no cálculo de uma estrutura, uma falha em um projeto ou a incoerência em um discurso público é, muitas vezes, rotulado como alguém amargo, destrutivo ou simplesmente "reclamão". O termo "crítica" foi distorcido pelo senso comum, tornando-se sinônimo de ataque pessoal ou desdém.

Essa resistência nasce de uma confusão natural do ser humano: confundimos o julgamento do objeto com o julgamento do sujeito. Quando alguém analisa uma ideia que defendemos, nosso cérebro tende a interpretar isso como uma ameaça à nossa própria identidade. É uma reação de defesa, mas que cobra um preço alto para a coletividade.

Se transportarmos o exemplo da feira para a história da humanidade, percebemos que o avanço da civilização dependeu inteiramente de pessoas que se recusaram a aceitar as coisas como elas eram apresentadas. A medicina só evoluiu porque cientistas criticaram métodos antigos que não funcionavam; a engenharia só se tornou segura porque os erros de cálculo do passado foram expostos e corrigidos; e as sociedades só se tornaram mais justas porque cidadãos ousaram criticar leis e costumes que perpetuavam a opressão.

A crítica não é o oposto da construção; ela é o alicerce sobre o qual as coisas duradouras são feitas. Uma sociedade que discrimina o pensamento crítico e exige o aplauso unânime condena-se à estagnação. Afinal, onde todos pensam exatamente igual, ou onde ninguém pode apontar o que está quebrado, corre-se o risco de que ninguém esteja, de fato, pensando.

O olhar criterioso não nasce da vontade de destruir, mas do desejo profundo de que as coisas — desde a escolha de uma fruta até a gestão de um país — alcancem a sua melhor versão possível.

O Império do "Print" e a Morte da Caligrafia: Onde Foram Parar as Cartas de Amor?

Neste 12 de junho, entre o imediatismo das telas e o medo de parecer "emocionado", o Vale do Cotinguiba silencia a literatura do coração.



Houve um tempo em que amar era um ato de bravura que exigia calos nos dedos, o vinco exato do papel dobrado e uma dose cavalar de coragem. Cruzar as esquinas de Japaratuba ou de qualquer cidadezinha do Vale do Cotinguiba com um bilhete apaixonado escondido no bolso da camisa de botão era carregar uma bomba-relógio de sentimentos. Hoje, nesta sexta-feira, 12 de junho de 2026, o Dia dos Namorados bate à porta, mas aquela literatura visceral e urgente do peito parece ter virado uma poeirenta peça de museu.

As cartas de amor sumiram. E não foi porque o ser humano desaprende para sempre a arte de querer bem, mas porque a mecânica do afeto foi completamente engolida pela pressa e pelo pragmatismo das telas.

Antigamente, a espera era o oxigênio do romance. O rapaz sentava-se à mesa sob a luz amarelada, escolhia a melhor caneta e gastava parágrafos inteiros tentando traduzir o impacto de um olhar cruzado na feira de sábado. Havia um rito: a escolha do papel, o cuidado para a tinta não borrar e o suspense dos dias — às vezes semanas — que o envelope levava para ir e voltar pelos caminhos do interior. A distância alimentava o mistério; a caligrafia era a própria extensão da alma de quem escrevia.

Na modernidade de 2026, fomos condenados à ditadura do tempo real. O amor virou uma sequência de interações dinâmicas e pasteurizadas no Instagram ou no WhatsApp. O esforço cognitivo de desenhar uma metáfora foi substituído pelo emoji de um coração pegando fogo ou por uma figurinha piscando. Se uma mensagem um pouco mais intensa é enviada e a tela exibe o tique azul da visualização sem uma resposta em cinco minutos, a ansiedade consome o remetente. A pressa matou o tempo de maturação que o sentimento precisa para virar prosa.

Mais do que a pressa, o que assassinou as declarações inflamadas foi o medo. Declarar-se com intensidade hoje em dia tornou-se um esporte de altíssimo risco. No passado, uma carta manuscrita era um segredo sagrado, guardado a sete chaves no fundo de uma gaveta de jacarandá ou entre as páginas de um livro de poesias. Era um pacto absoluto de intimidade.

Hoje, a intimidade é vulnerável ao primeiro deslize do polegar. O pavor contemporâneo do "print" — de ter a sua vulnerabilidade exposta em um grupo de amigos no WhatsApp ou ridicularizada nos stories — faz com que as pessoas calibrem o sentimento em doses homeopáticas e defensivas. Para evitar o julgamento público, o afeto adota uma linguagem minimalista, quase irônica. Ninguém mais quer parecer "emocionado". É o império do "gosto de você" protocolar, idêntico ao de todo mundo.

É claro que a modernidade trouxe suas facilidades comerciais. O e-commerce entrega o presente na porta, os algoritmos sugerem o restaurante ideal e a publicidade celebra, com justa pluralidade, todas as formas de amor. Mas no meio desse banquete hiperconectado, fica um vazio de palavras autênticas. O comentário padronizado de "Linda" ou "Meu gato" na foto da rede social não tem o cheiro, o peso e nem a permanência do papel rasgado às pressas.

Talvez a resistência desse amor analógico ainda sobreviva, meio disfarçada, no cotidiano grosso do interior. Está no bilhete de bom dia deixado ao lado da garrafa de café na segunda-feira, no rádio que toca aquela canção antiga ou no ato de compartilhar um texto que diz exatamente o que a boca engoliu. O papel mudou de textura e as cartas se perderam no tempo, mas a teimosia de se entregar por inteiro, sem medo do rascunho, ainda é a única coisa capaz de acender o verdadeiro fogo no peito de cada um de nós.

O Poder das Palavras — Como Edificar Bastidores e Comunidades Através da Fala

No décimo sétimo dia da nossa jornada, debruçamo-nos sobre a carta aos Efésios para compreender a responsabilidade do que sai da nossa boca. Descubra como o seu propósito se manifesta na escolha de usar a comunicação para construir pontes e curar, em vez de ferir e polarizar.



“Não saia da boca de vocês nenhuma palavra torpe, mas apenas a que for útil para edificar os outros, conforme a necessidade, para que transmita graça aos que a ouvem.”

— Efésios 4:29


A Mensagem: O Filtro da Edificação

Dando continuidade à nossa semana focada nos relacionamentos e na convivência, o apóstolo Paulo nos convida hoje a analisar a ferramenta mais poderosa e perigosa que possuímos para interagir com o próximo: a nossa língua. Depois de nos chamar para suportar e perdoar as queixas no dia anterior, a Bíblia estabelece uma guarda rigorosa sobre a nossa comunicação diária.

No texto original grego, a expressão "palavra torpe" utiliza o termo sapros, que carrega o significado de algo podre, estragado, corrompido ou sem valor. Paulo não está se referindo apenas a termos de baixo calão ou palavrões explícitos, mas a todo tipo de fala que contamina o ambiente — a fofoca, o sarcasmo destrutivo, a murmuração constante, a mentira e a difamação.

A alternativa bíblica é revolucionária: a nossa fala deve passar por um filtro triplo. Ela precisa ser útil, precisa ter o objetivo de edificar (construir, fortalecer) e deve ser adaptada conforme a necessidade do momento. O objetivo final da comunicação humana no projeto de Deus não é inflar o nosso próprio ego ou provar que estamos sempre certos, mas funcionar como um veículo que transporta a graça divina para o coração de quem nos escuta.

Conexão com os Dias de Hoje: Curando a Fala no Século dos Debates Inflamados

Se a gestão das palavras já era um desafio na antiguidade, hoje, com a ampliação dos canais digitais, o cenário tornou-se crítico. Estamos imersos na cultura do comentário rápido, das discussões acaloradas em grupos de mensagens (como o WhatsApp) e dos debates políticos e sociais onde vencer o argumento na base da agressividade virou virtude. Escondidos atrás de telas, fomos condicionados a disparar julgamentos sem medir o impacto das nossas sentenças na vida alheia.

Trazer Efésios 4:29 para a rotina diária é resgatar a dignidade e o impacto social da nossa voz:

* A ética nos grupos de debate e convivência: Seja moderando discussões, conversando no ambiente de trabalho ou interagindo em círculos sociais, o cristão é aquele que introduz a sobriedade. Silenciar diante de uma fofoca, escolher não responder a uma provocação irônica ou redigir uma correção de forma mansa e fundamentada são manifestações reais do seu propósito.

* Palavras como ferramentas de trabalho e vida: Se você escreve artigos, atende clientes, lidera uma equipe ou cuida da sua família, compreenda que a sua escrita e a sua fala possuem peso espiritual. Palavras de incentivo sincero podem resgatar um colega desanimado; palavras de justiça e transparência fiscal podem proteger uma comunidade; e palavras de carinho fortalecem os laços domésticos nos bastidores onde ninguém está olhando.

A sua boca não pode ser uma fonte que jorra água limpa e água suja ao mesmo tempo. Que o seu falar hoje seja um reflexo do caráter moldado pelo Oleiro, levando cura, clareza e esperança por onde você passar.

💬 Para Refletir e Compartilhar:

Você consegue se lembrar de algum momento recente em que uma palavra ríspida azedou um ambiente, ou quando uma palavra de incentivo mudou o seu dia? Como você pode exercitar o silêncio intencional ou a fala edificante nas suas conversas de hoje?

quinta-feira, 11 de junho de 2026

Japaratuba, 167 Anos de Emancipação: O Sopro do Pífano e as Linhas da História

Uma análise histórica, crítica e cultural sobre a trajetória de autonomia da Freguesia de Nossa Senhora da Saúde, desde as suas raízes em Santo Amaro das Brotas e Capela até à consolidação da sua identidade no Vale do Cotinguiba.




Edição Especial — 11 de Junho de 2026 Por: Flávio Hora


Neste 11 de junho de 2026, o município de Japaratuba desperta sob o eco secular de suas tradições para celebrar o marco de 167 anos de sua emancipação política. No entanto, o olhar que lançamos sobre esta data não se curva ao simplismo das efemérides protocolares. Celebrar a maturidade de uma terra exige o exercício rigoroso da memória, uma arqueologia das identidades que se sobrepuseram no solo do Vale do Cotinguiba e o entendimento crítico das amarras geopolíticas que desenharam nosso território.

Fontes históricas atribuem o nome a uma homenagem ao chefe indígena Japaratuba, pertencente à tribo dos Tupinambás. Há divisões quanto ao nome Japaratuba, se foi o índio que deu nome ao rio, ou se o rio que deu nome ao índio. O fato é que, de acordo com o dicionário Michaelis, o termo Japara significa "terreno arenoso na beira do mar e que se alaga no inverno", e tuba (ou tiba) expressa "abundância". Segundo o cronista Teodoro Sampaio, Yapara-Tyba traduz-se como "o sítio dos arcos, onde abundam arcos". 

A Arqueologia de um Território: De Santo Amaro e Capela à Autonomia


A história oficial de Japaratuba comemora o desmembramento ocorrido em 11 de junho de 1859, quando a antiga Freguesia de Nossa Senhora da Saúde libertou-se da tutela administrativa de Capela, sendo elevada à categoria de Vila. Todavia, a genealogia territorial do nosso chão guarda camadas mais profundas e complexas de dependência e submissão. Antes de se reportar a Capela, este pedaço de chão esteve atrelado à imensa e primordial jurisdição de Santo Amaro das Brotas, o ventre administrativo de onde brotou grande parte dos municípios da região litorânea e canavieira de Sergipe.

Essas sucessivas transições não foram meros acasos cartográficos; refletiram os ciclos de poder econômico das elites agrárias. Quando o açúcar se expandia e novos engenhos se consolidavam, a máquina burocrática provincial retalhava sesmarias, transferindo sedes e alterando limites. Ser "vassalo" administrativo de Santo Amaro e, posteriormente, de Capela moldou em Japaratuba um sentimento de urgência pela autoafirmação. A Resolução Provincial de 1859 não foi um presente da corte, mas o reconhecimento tardio de uma comunidade que já pulsava com vida, economia e identidade próprias às margens do seu rio homônimo.

Essa trajetória é, antes de tudo, nativa. Os primeiros a habitar estas paragens foram os indígenas da tribo Tupinambá, liderados pelo cacique morubixaba Japaratuba, cujos domínios iam do Rio Siriri ao Rio Poxim do Norte. Em 1590, diferentemente de outras regiões do estado marcadas pelo sangue, a conquista local deu-se de forma pacífica: o cacique Japaratuba encontrou-se com o conquistador Cristóvão de Barros e selou um pacto de paz, estendido ao seu irmão, o cacique Pacatuba.

A calmaria, contudo, foi rompida nos séculos seguintes pela ganância colonial. Expulsos de suas terras à margem esquerda do Rio Japaratuba-Mirim (em Canavieirinhas), os nativos só conseguiram retornar em 1704, sob o amparo de religiosos como o frei Antônio da Piedade e a Irmandade dos Carmelitas Calçados, liderada pelo frei João da Santíssima Trindade. Naquele mesmo ano, um severo surto de varíola forçou a transferência da aldeia para o Alto do Lavradio (ou do Borgado). Ali nasceu a "Missão de Japaratuba" e ergueu-se a igreja em honra a Nossa Senhora do Carmo, cujo nome foi mais tarde alterado para Nossa Senhora da Saúde — um brado desesperado de socorro enviado à Virgem contra as moléstias que dizimavam a população.

Com a posterior ascensão do Marquês de Pombal e a expulsão dos carmelitas, o convento foi abandonado, servindo de cemitério urbano até a década de 1920, restando hoje apenas as ruínas de suas paredes como sentinelas do passado. Os indígenas remanescentes dispersaram-se, mas a semente da terra já estava plantada.

“Compreender Japaratuba é reconhecer que sua autonomia política foi forjada no avesso das dependências históricas. Ser ontem Santo Amaro e Capela foi a condição geográfica que impulsionou a busca por uma identidade indomável e absolutamente original.”

As Contradições do Ouro Negro e da Cana: Uma Análise Crítica


O percurso econômico de Japaratuba é atravessado por uma dualidade profunda. No século XIX, fomos o epicentro do fausto açucareiro na Região Cotinguiba. Engenhos como Flor da Murta, Bury, Palma e São José ostentavam opulência às custas de uma realidade severa: o município chegou a abrigar uma população de escravizados maior do que a de homens livres. A riqueza aristocrática erguida sobre o suor escravo gerou, por outro lado, a semente da resistência viva em Patioba, um dos quilombos mais emblemáticos do estado, cujos descendentes resguardam até hoje o orgulho e a força de sua ancestralidade.

Ainda no  século XX, o mapa geopolítico continuou a mudar. Em 24 de agosto de 1934, o decreto-lei nº 238 do interventor Augusto Maynard Gomes concedeu os foros de Cidade e de Sede de Comarca a Japaratuba (então englobando Carmópolis e Japoatã). Décadas mais tarde, em 1963, o município viu o antigo povoado litorâneo de Pirambu conquistar sua própria independência política.

No século XX e neste alvorecer do século XXI, o açúcar cedeu protagonismo ao extrativismo mineral. O subsolo japaratubense revelou-se um manancial de sal-gema, calcário, gás natural e, fundamentalmente, o petróleo operado na emblemática Base Saquinho, na Fazenda Soledade. No entanto, cabe a reflexão crítica neste aniversário: em que medida a riqueza mineral e os dividendos dos royalties têm se convertido em emancipação social real para o homem do campo, para as casas de farinha e para os povoados como Várzea Verde e Badajós? A verdadeira emancipação política só se completa quando o controle dos recursos públicos traduz-se em transparência, desenvolvimento sustentável e dignidade para os filhos da terra.

Nota Histórico-Geográfica: O Riacho do Poxim, limite natural que separa Japaratuba de Japoatã, guarda em suas margens a memória viva das comunidades ribeirinhas, cuja sobrevivência e tradições resistiram aos ciclos econômicos impositivos da cana e do petróleo.

O Respiro da Alma: O Pífano e as Vozes das Letras


Se a economia e a política dividem o corpo social, é na cultura que Japaratuba encontra sua unidade e sua transcendência. A maior prova da resiliência deste povo não está nos decretos de 1859 ou 1934, mas na continuidade de manifestações que se recusam a morrer. Exemplo master dessa resistência é a Banda de Pífanos de Geração em Geração. Nascida há mais de um século nas entranhas do Povoado Encruzilhadas pelas mãos de Manuel da Hora (Seu Dóia), o antigo "Terno da Zabumba" atravessou gerações. Do final da década de 70 até 2023, teve a liderança firme de Jailson da Hora Santos e seus pares, o sopro do pífano nas novenas da Quaresma e nas Festas de Reis mantinham viva a alma dos povos ribeirinhos do Poxim, após seu falecimento, o grupo segue se recompondo e mantendo suas raízes. 

Ao lado da música rústica e do gênio universal de Arthur Bispo do Rosário — que transformou o sofrimento em estandarte artístico mundial —, Japaratuba se afirma como uma pátria de escritores e poetas. A intelectualidade contemporânea, herdeira da altivez de Antônio Garcia Rosa, o eterno Poeta da Ladeira, continua a inscrever o município na vanguarda das letras sergipanas. É através da sensibilidade imortal de Gilberto "Gibras" (1952-1922), da métrica popular e afiada de Ivanildo Souza (O Poeta Afamado), da lírica feminina de Liu Poetisa, e do vigor de Darquiran Costa, Jorge Ramos, Jota Erre, F. J. Hora (Flávio Hora) e Antônio Glauber, que a nossa história é recontada. É nesta efervescência que este autor propõe o Originalismo: o retorno conceitual às nossas raízes mais puras como ferramenta de leitura para o mundo contemporâneo.

Outras Grandes Personalidades


A tradição histórica de Japaratuba elenca figuras proeminentes nascidas ou vinculadas a Japaratuba que se destacaram na vida pública, nas ciências e nas artes, como o escritor e farmacêutico Antônio Garcia Rosa (o "Poeta da Ladeira"), a renomada pesquisadora e bióloga Dra. Maria Auxiliadora Santos , o educador Emiliano Nunes de Moura , a professora e defensora folclórica Maria de Souza Campos ("Dona" do Maracatu, que dá nome à Academia de Letras, Artes e Ciências de Japaratuba - AJLAC) , além de destacados políticos, juristas e clérigos da história sergipana.

Japaratuba tem diversos artistas e personalidades ainda anônimas ou desconhecidas do público como o Mestre Ambrósio, um artista plástico e músico que desfila entre o artesanato, o desenho e os artefatos culturais típícos da região: pífanos, zabumba, cavaquinho, foguete de vara, correntes de madeira, cestos e derivados da taboca ou taquara e o desenho artístico. Devido à idade avançada, não frequenta mais as feiras livres da região de Capela, Japaratuba e Pirambu, onde costumava vender e mostrar seus trabalhos.

Reflexão para o Futuro


Aos 167 anos, Japaratuba não deve apenas olhar para o espelho do passado com complacência. Que a lembrança dos tempos de Santo Amaro das Brotas e de Capela nos sirva de lição sobre a constante necessidade de vigiar e defender nossa autonomia. Que a educação, outrora impulsionada por Emiliano Nunes de Moura e preservada pela AJLAC, seja a ferramenta de libertação definitiva. 

Se Arthur Bispo do Rosário tivesse nascido e vivido toda a sua vida em Japaratuba, será que seria famoso mundialmente? Quem o teria descoberto? Japaratuba precisa despertar para sua real identidade que hoje está sendo tragada pelo forte acirramento da disputa político-partidária. A cultura pulsa forte, mas, ainda está apagada. Avante, japaratubenses!

Parabéns, Japaratuba, pelo teu dia; que o seu pífano continue a ecoar, livre, soberano e eterno, guiando os teus filhos rumo a um porvir de justiça e esplendor.

O Poder do Vínculo Perfeito — Suportando e Perdoando Uns aos Outros

No décimo sexto dia da nossa jornada, avançamos pela carta aos Colossenses para descobrir as vestes espirituais indispensáveis para a convivência. Compreenda como o perdão e a paciência nos bastidores das nossas relações são as maiores provas de maturidade do nosso chamado.



“Portanto, como povo escolhido de Deus, santo e amado, revistam-se de profunda compaixão, bondade, humildade, mansidão e paciência. Suportem-se uns aos outros e perdoem as queixas que tiverem uns contra os outros. Perdoem como o Senhor os perdoou. Acima de tudo, porém, revistam-se do amor, que é o vínculo perfeito.” 

— Colossenses 3:12-14

A Mensagem: O Guarda-Roupa do Caráter Cristão

Ontem, compreendemos que o propósito desenhado por Deus é essencialmente relacional. Hoje, o apóstolo Paulo nos leva para a dimensão prática dessa realidade, usando uma metáfora visual muito comum no mundo antigo: o ato de se vestir. Ele nos convida a abrir o "guarda-roupa" do Espírito e escolher as virtudes que devem cobrir a nossa nudez emocional e o nosso orgulho nas interações diárias.

A igreja ou qualquer comunidade humana não é um museu de pessoas perfeitas, mas um hospital e uma oficina de restauração. Por isso, Paulo não tem ilusões românticas sobre a convivência. Ele usa uma palavra realista: suportem-se. No original grego, anechomai significa "sustentar o peso", "tolerar" ou "dar espaço para as fraquezas do outro". Significa entender que, assim como os outros têm dias difíceis e falhas de temperamento, nós também temos.

O texto vai além e exige o próximo passo: o perdão. A medida do perdão que devemos oferecer nas nossas queixas diárias não é baseada no tamanho da ofensa ou no merecimento de quem errou, mas na exata proporção do perdão que nós mesmos já recebemos da parte de Deus. O amor é classificado aqui como o vínculo perfeito — o cinto ou a faixa que une todas as outras vestes, garantindo que a estrutura das nossas relações não se desfaça diante das primeiras tempestades.

Conexão com os Dias de Hoje: A Cultura do Cancelamento vs. A Graça que Sustenta

Vivemos em uma época marcada pela intolerância crônica e pela pressa em descartar pessoas. Na internet ou nos ambientes de debate, qualquer ruído de comunicação, divergência de opinião ou falha de comportamento é motivo para o "cancelamento" e para o rompimento definitivo de laços. As pessoas são julgadas sumariamente e raramente encontram espaço para o arrependimento ou para o recomeço.

Trazer as orientações de Colossenses para o nosso dia a dia é escolher caminhar na contramão dessa rigidez moderna:

* A paciência no ambiente profissional e social: Seja lidando com um colega de trabalho burocrático, com as demandas confusas de um cliente, com participantes inflamados em grupos de debate ou com as manias dos nossos familiares, vestir a mansidão é uma escolha de poder. Suportar o outro não é ser conivente com o erro, mas ter a grandeza de não revidar a cada provocação.

* O perdão como higiene mental e espiritual: Ruminar mágoas e guardar um catálogo de queixas consome uma energia preciosa que deveria estar sendo canalizada para a sua escrita, para o seu trabalho e para os seus projetos de vida. O perdão libera o ofensor para o julgamento de Deus e livra o seu próprio coração de morrer envenenado pela amargura.

Uma vida com propósito se manifesta na nossa capacidade de manter as pontes intactas, mesmo quando o tráfego sobre elas é pesado. O amor verdadeiro não desiste diante das imperfeições do próximo; ele se fortalece nelas através da graça.

💬 Para Refletir e Compartilhar:

Existe alguma queixa ou mágoa antiga que você precisa liberar hoje para aliviar a bagagem do seu coração? Como você pode exercitar a virtude de "suportar com paciência" alguém difícil com quem você convive atualmente?