Se o brasileiro médio colocasse metade do esforço que gasta para fugir do Leão na resolução dos seus próprios problemas, já teríamos colônias em Marte. Mas não. A energia do nosso herói nacional é toda canalizada para o milinar esporte da sonegação — uma modalidade praticada com o peito estufado e a consciência em paz.
Seu Valdir é um exemplar clássico dessa fauna. Dono de um comércio próspero, ele é um crítico ferrenho da "máquina pública inchada" e da "carga tributária abusiva". Tem total razão na crítica, claro — o problema é a prática.
Para Seu Valdir, o mundo ideal funciona na base do chacoalhar de notas de papel. O cartão de crédito é uma invenção do demônio para rastrear seus passos; o Pix, uma armadilha comunista da Receita Federal. "Na minha loja é só no dinheiro, meu patrão, ou no Pix da chave aleatória do meu cunhado que é isento", avisa ele, com um sorriso de mestre da estratégia.
O fenômeno é fascianante: a loja do Valdir gira R$ 100 mil por mês no Pix "paralelo", mas, para o fisco, ele é um monge franciscano que sobrevive heroicamente com um pro-labore de R$ 3 mil. Como ele consegue comprar a picape do ano e pagar a mensalidade da faculdade do filho com três salários mínimos? Milagre da multiplicação dos pães, obviamente.
Na mesma mesa do bar onde Valdir se orgulha de "não dar um tostão pra esses políticos ladrões", senta o Juninho. O Juninho é o oposto no método, mas irmão gêmeo na lógica. Vive pendurado num cargo comissionado na prefeitura, mamando na fonte que nunca seca. Adora criticar o imposto da gasolina, mas esquece — com uma amnésia conveniente — que o contracheque dele não nasce no pé de jacarandá da praça central. Depende puramente da mesma arrecadação que o Valdir faz questão de drenar. O sanguessuga reclama da falta de sangue, enquanto o doador faz torniquete no próprio braço.
Mas o grande ápice dessa comédia pastelão brasileira não acontece no bar, nem na prefeitura. Acontece no escritório de contabilidade.
Lá vem o Valdir, esfalfado, suando frio, segurando o celular como se fosse uma bomba-relógio. O gerente do banco pediu um comprovante de renda decente para aprovar o financiamento do novo imóvel. A casa caiu? Não, basta "chamar o contador".
— "Dr. Claudinei, pelo amor de Deus, arruma uma declaração aí de R$ 25 mil por mês pra mim!" — implora o empresário.
— "Seu Valdir, o senhor declara três mil. Se eu emitir uma DECORE de vinte e cinco sem nota emitida, a Receita nos pega em dois minutos", avisa o contador, mantendo a sanidade por um fio.
— "Mas você é meu contador ou é fiscal do governo? Dá um jeito, inventa uma renda! Eu preciso desse imóvel!"
E o contador que lute para transformar mágica em documento contábil.
A cereja do bolo vem a cada quatro anos. O brasileiro que passa 1.460 dias burlando a nota fiscal, usando o CPF da avó para cadastrar o carro e pedindo "desconto sem nota" no mecânico, veste a camisa verde e amarela e vai às urnas. Acredita piamente que ao digitar dois dígitos na urna eletrônica, o país vai virar uma Suíça numa única canetada presidencial. Esquece que o Brasil não é um monobloco, que existe Congresso, STF, federação... e, acima de tudo, esquece que um país feito de pequenos espertos dificilmente produzirá um destino honesto.
No fim do dia, Valdir assiste ao jornal, vê as notícias de corrupção, dá um soco na mesa e esbraveja: "Neste país, ninguém é sério!".
Depois, desliga a TV, pega o maço de notas de 100 reais guardado no fundo da gaveta de meias e vai dormir o sono dos justos.







