A transição das paixões locais: como o debate sobre a gestão e as políticas públicas em Japaratuba foi sufocado pelo jogo de torcidas e pelas fofocas dos bastidores partidários.
Quem tem boa memória há de lembrar do tempo em que as esquinas e os balcões de Japaratuba eram tribunais sagrados do futebol. As discussões inflamadas tinham como réus os juízes de domingo, demonizados sem dó a cada pênalti duvidoso ou impedimento mal marcado. "Você viu aquele gol?", "E aquela jogada?" — eram os refrões que ditavam o ritmo da cidade, dividida entre as cores dos grandes clubes ou a rivalidade dos times locais. O futebol era a paixão dominante, o entretenimento que unia e separava os japaratubenses na mesma mesa de bar.
Os tempos mudaram, e o apito final parece ter ecoado de vez. Hoje, a bola murchou nas conversas de calçada, mas a paixão — aquela mesma, passional, barulhenta e muitas vezes cega — não desapareceu; ela simplesmente mudou de endereço. A paixão nacional do futebol foi substituída, com folga, pela paixão política partidária. Japaratuba agora vive em ritmo de campeonato eleitoral permanente.
O problema não é a política em si, que deveria ser o motor de transformação da nossa terra. O nó da questão está na metamorfose do debate. Não se fala em políticas públicas. Pergunte na praça sobre o orçamento municipal, sobre a aplicação dos recursos públicos ou sobre projetos estruturais para a cultura e a infraestrutura, e o silêncio será a resposta. O que move o clamor das massas agora são as "fofocas políticas".
A lógica da torcida organizada foi transferida integralmente para os palanques e grupos de mensagens. Os bastidores viraram o novo "Lance Polêmico": "Quem rompeu com quem?, "Qual correligionário mudou de lado na calada da noite?, "Quem subirá no palanque de quem na próxima eleição?"
Essa engrenagem do "disse me disse" funciona como o placar do jogo dominical. Alimenta o ego das torcidas políticas, entretém o público e, principalmente, serve como uma belíssima cortina de fumaça. Enquanto a cidade se divide para saber quem vai "ganhar a taça" do próximo pleito, os problemas reais, crônicos e estruturais de Japaratuba continuam jogados no banco de reservas, sem os holofotes da cobrança popular.
Trocaram a discussão tática de um esporte pela fofoca de bastidor de um governo. No fim das contas, quando o futebol era o centro das atenções, o erro do juiz terminava no apito final e a vida seguia. Agora, nesse novo campeonato de vaidades partidárias, o preço de torcer sem cobrar é pago ao longo de quatro anos inteiros, com o futuro da nossa própria população em jogo.






