Há um vício antigo enraizado na alma das nossas elites e reproduzido sem reflexão no nosso cotidiano: o costume tacanho de olhar para o próprio umbigo com desprezo e para o Norte com vassalagem. Essa servidão cultural — que o mestre Nelson Rodrigues batizou com precisão cirúrgica de "síndrome de vira-lata" — não se manifesta apenas na política ou na economia; ela corrói, antes de tudo, a nossa própria linguagem e a nossa percepção de quem somos no mundo.
É hora de dar um basta. É chegada a hora de fazer um chamamento firme e soberano ao povo brasileiro e a todos os irmãos da América Latina para uma tomada de consciência urgente.
1. A América é Nossa: Devolver o Nome ao Seu Verdadeiro Dono
O primeiro ato de libertação cultural consiste em recuperar a nossa geografia. O habitante dos Estados Unidos da América não é o único "americano" do planeta. A América não é um país do Norte; a América é um supercontinente inteiro, que vai das terras geladas do Alasca até as pontas frias da Patagônia.
Nós — nascidos na caatinga, na floresta, no pampa, no cerrado, nas fozes dos nossos rios e nas praias do litoral — somos tão americanos quanto qualquer habitante de Nova York ou Washington. Ao cedermos a eles a exclusividade do gentílico "americano", aceitamos passivamente o papel de quintal, como se fôssemos intrusos no solo em que nascemos.
Chamar quem nasce nos Estados Unidos pelo que ele realmente é — estadunidense — não é mero preciosismo linguístico. É um ato político de justiça, um resgate de soberania e o reconhecimento de que todos os povos latino-americanos compartilham a mesma casa continental.
2. O Combate sem Trégua ao Estrangeirismo Servil
Paralelamente à disputa do nome, precisamos promover a descolonização do nosso vocabulário cotidiano. Virou moda em escritórios, meios de comunicação e redes sociais substituir a riqueza da língua portuguesa por um jargão em inglês asséptico, pedante e desnecessário.
Troca-se o bom e claro termo notícia falsa ou mentira midiática por "fake news". Abandona-se a entrega para falar "delivery". Descarta-se a oficina ou o encontro de trabalho para adotar "workshop". Troca-se o retorno ou a crítica construtiva por "feedback". Até a nossa capacidade de pensar foi renomeada para "mindset".
Essa enxurrada de anglicismos não representa modernidade nem avanço cultural; representa preguiça mental e subserviência. A língua portuguesa brasileira é uma das mais ricas, expressivas e maleáveis do mundo. Ela possui sonoridade, ritmo, força poética e capacidade sintética para dar nome a qualquer fenômeno da vida moderna, da tecnologia ou do trabalho sem precisar pedir esmola a idioma estrangeiro.
3. A Força da Nossa Língua Viva, do Povo e do Regionalismo
Superar a condição de colônia cultural exige abraçar a nossa linguagem de raiz. A verdadeira alma do Brasil não habita nos manuais importados nem na fala polida dos salões alinhados com o estrangeiro; ela vive na oralidade do povo, no linguajar sertanejo, na cadência caipira, na sabedoria dos mais velhos, nos falares regionais de cada canto do país e até na veia visceral do palavrão e do calão popular quando usados com a força da indignação autêntica.
A cultura brasileira não precisa pedir licença para existir. O nosso cinema, a nossa literatura, as nossas tradições populares e a nossa música não têm o dever de imitar as fórmulas pré-fabricadas de fora para ter valor. A universalidade da arte nasce justamente quando o criador afunda os pés no chão da sua terra e canta a sua própria realidade.
Ergue-te, América Nossa!
Não seremos mais o quintal de ninguém. Que tenhamos a coragem de limpar o nosso falar da poeira importada, de usar as palavras do nosso povo e de afirmares, com o peito aberto e sem vacilar: nós somos americanos, donos da nossa história e senhores da nossa própria língua.






