quinta-feira, 8 de outubro de 2026

O Prazo de Validade das Coisas e das Liberdades

 


Dona Maria guardava a roupa de domingo no lado mais alto do guarda-roupa, envolvida num lençol antigo para não pegar poeira. Aquele vestido de linho não era apenas pano e linha; era o resultado de meses de economia, o símbolo visível de uma dignidade conquistada a duras penas. O sapato de couro do meu pai recebia graxa e polimento quinzenal, durando mais de década, e a geladeira — aquela relíquia pesada que funcionava a gás — parecia feita para atravessar eras sem dar um único estalo de hesitação.

Naqueles tempos, as coisas tinham peso porque o esforço para obtê-las era descomunal. Meus pais souberam o que era a escassez real, aquela que doía no estômago e tirava o sono. Por isso, cada colher de comida, cada calçado solado e cada garantia mínima de paz eram tratados com uma veneração quase sagrada.

Hoje, a roupa de sair tornou-se descartável na terceira lavagem. O sapato moderno traz uma cola com prazo de validade calculado em fábrica, e a geladeira inteligente já sai da loja com a sentença de morte decretada pela obsolescência programada de sua placa eletrônica. Acostumamo-nos a jogar fora o que quebra, sem o trabalho de consertar, fascinados pelo brilho do novíssimo modelo da vitrine.

O problema é que essa lógica de consumo rápido contaminou a nossa percepção da história.

As novas gerações nasceram sob o teto da estabilidade, ouvindo o zumbido constante da geladeira elétrica e tomando a moeda forte, o prato cheio e o direito de ir e vir como dados da natureza, tão garantidos quanto o nascer do sol. Esqueceu-se o preço do suor que ergueu essas paredes. Criou-se a ilusão perigosa de que o "berço esplêndido" é eterno e que a barbárie do passado jamais ousará bater à porta novamente.

Mas a história, assim como a indústria, também conhece a sua própria obsolescência programada — só que operada por mãos humanas.

Em nome do cansaço ou da ilusão do consumo fácil, a sociedade começa a entregar a chave da casa para autocratas habilidosos. Eles já não vêm de farda ou com tanques na rua; vêm vestindo o terno do momento, falando a língua do povo e usando as regras do próprio jogo democrático para aparelhar as instituições por dentro. Apresentam-se como salvadores, mas vendem a erosão gradual dos direitos enquanto a plateia aplaude a novidade.

Vota-se no autoritário disfarçado de democrata com a mesma leviandade com que se descarta um aparelho celular usado. Confia-se a liberdade a quem abertamente a despreza, acreditando que a democracia é uma estrutura de concreto inabalável, quando na verdade ela se parece muito mais com uma planta delicada, que seca e morre se não for regada todos os dias.

Como alertava a canção popular, é preciso lutar e ajudar, antes que se perca o que já foi conquistado. Quando a última engrenagem da liberdade for corroída pela complacência e pela ignorância histórica, descobriremos — tarde demais — que a democracia não tinha garantia de fábrica, nem peças de reposição na prateleira.

A Fé Que Se Traduz em Ação e Justiça Prática

Nesta quinta-feira, 8 de outubro de 2026, o chamado do profeta Isaías nos confronta a sair do discurso e viver uma fé encarnada. Descubra como a verdadeira espiritualidade se manifesta nos bastidores da rotina por meio da defesa dos vulneráveis, da prática da justiça e do amor que transforma a sociedade ao nosso redor.




“Aprendei a fazer o bem; procurai a justiça, desagravai o oprimido; fazei justiça ao órfão, pleiteai a causa da viúva.”

— Isaías 1:17


Não podemos ser bondosos só na teoria e no discurso. Não podemos selecionar a quem pregar a palavra. O doente é quem precisa de médico. Por isso, temos que aprender a fazer o bem, na vida prática, sem que precise estar nas redes sociais mostrando que faz o bem. O aprendizado é também um exercício de tradução para entendermos a força da palavra. 

Ao profetizar durante o reinado de reis como Uzias, Jotão, Acaz e Ezequias em Judá, o profeta Isaías trouxe uma mensagem contundente de confronto contra uma religiosidade de fachada. O povo de Israel mantinha os rituais, os cultos e as ofertas em dia, mas o coração permanecia distante do caráter de Deus e indiferente às injustiças sociais. No texto original em hebraico, o verbo traduzido por "aprendei" é lāmad, que indica um processo contínuo de aprendizado prático, um treinamento que exige esforço, disciplina e mudança de hábitos. A expressão "procurai a justiça" vem do verbo dārash, o mesmo imperativo que significa buscar ativamente, investigar e trabalhar com empenho para restaurar o mishpāt — o direito e a equidade devidos a cada ser humano. Quando Deus envia o profeta para defender o oprimido (chāmōtz), o órfão (yāthōm) e a viúva (almānāh), Ele coloca o dedo na ferida daquela comunidade, mostrando que os mais vulneráveis eram o verdadeiro parâmetro para medir a autenticidade do culto que ofereciam ao Senhor.

Trazer essa exortação profética de Isaías 1:17 para esta quinta-feira, 8 de outubro de 2026, é um freio de arrumação urgente para a nossa caminhada cristã no dia a dia. É muito fácil cair na armadilha de limitar a fé às quatro paredes do templo, às canções que cantamos aos domingos ou às frases bonitas que compartilhamos na internet, enquanto continuamos insensíveis às dores e às necessidades de quem vive ao nosso lado. Deus não se impressiona com rituais religiosos orquestrados se eles não resultarem em corações transformados e dispostos a praticar o bem. A verdadeira espiritualidade bíblica não é uma fuga da realidade social, mas uma força geradora de compaixão, honestidade e amparo a quem foi injustiçado ou esquecido pelo sistema.

A aplicação prática desse ensinamento nos bastidores da nossa semana nos desafia a transformar a nossa fé em gestos concretos de amor e responsabilidade. Fazer a justiça que agrada a Deus começa na nossa postura diária: no cumprimento honesto dos nossos deveres, na forma como tratamos quem trabalha conosco, no combate às fofocas e calúnias que destroem a reputação alheia e na disposição de estender a mão aos mais necessitados. Nos bastidores do lar, do trabalho e da vizinhança, o cristão é chamado a ser a voz de quem não tem voz, socorrendo os desamparados e promovendo pontes de restauração onde há opressão e egoísmo. A graça que recebemos gratuitamente de Cristo na cruz precisa fluir através de nós como um rio de justiça e acolhimento para o mundo.

Nesta quinta-feira, peça ao Espírito Santo que abra os seus olhos e o seu coração para enxergar as oportunidades de praticar o bem ao seu redor. Não espere grandes plataformas para ser bênção; comece onde você está, fazendo a diferença na vida de uma pessoa que precisa de amparo, de uma palavra de encorajamento ou de um gesto prático de solidariedade. Lembre-se de que o culto que agrada ao Pai celestial é a vida entregue ao serviço e ao amor ao próximo. Quem aprende a viver a justiça do Reino de Deus nos bastidores da rotina descobre a alegria incomparável de ser as mãos e o coração de Jesus em ação na terra.

Que gestos práticos de justiça e compaixão você pode realizar hoje para que a sua fé seja uma resposta viva às necessidades de quem está ao seu redor?

quarta-feira, 7 de outubro de 2026

A Verdadeira Mudança

A verdadeira mudança não é um estrondo que destrói o que foi construído; é a sabedoria que sabe o que preservar e a coragem que sabe o que transformar.
Vamos refletir sobre o verdadeiro sentido da transformação social e política, a mudança deixa de ser um ato de impulso ou rejeição para se tornar um projeto consciente de cidadania.




Mudar é uma palavra que carrega em si a leveza da esperança e o peso do imprevisível. Ela assusta porque exige sair do terreno conhecido, mas fascina porque promete novos horizontes. No entanto, quando a mudança entra pelo portão da política, ela precisa deixar a paixão cega e a raiva da porta para fora. Política não é e não pode ser torcida de futebol, onde se escolhe um lado para odiar o outro, vibrando mais com a derrota do rival do que com o avanço do conjunto.

A verdadeira mudança não nasce do ressentimento ou do desejo simplista de "tirar fulano para ver o que acontece depois". O futuro é generoso demais para ser entregue ao acaso. Muda-se com consciência, com a cabeça no lugar e com a humildade de quem reconhece o valor da própria caminhada. Muda-se com planejamento e estratégia, compreendendo que um país não se reconstrói do zero a cada eleição, mas se edifica em camadas.

Nossa história mais recente no Brasil nos ensina justamente isso: as maiores conquistas surgiram do encontro, e não da negação. Quando a estabilidade econômica conquistada na era FHC — que garantiu a previsibilidade da moeda e os fundamentos da nossa economia — encontrou a inclusão social acelerada da era Lula — que abriu as portas da cidadania, do consumo e da dignidade para milhões —, o Brasil descobriu a sua melhor versão. Essa complementaridade provou que a responsabilidade fiscal e o compromisso humano não são inimigos, mas duas faces da mesma moeda.

No sistema capitalista em que vivemos, o mercado tem, sim, seu papel indispensável. Ele organiza a produção, gera oportunidades e busca a eficiência. Mas a vida humana nunca poderá ser tratada como mercadoria. A vida carrega sentimentos, memórias e afetos. Se o dinheiro e a estabilidade financeira compram as paredes de uma casa, só o afeto, a segurança social e a dignidade constroem um lar.

Por isso, mudar de verdade é recusar o canto das sereias que pedem o desmonte do país, a entrega das nossas riquezas ao estrangeiro ou o apagamento da nossa memória. A verdadeira mudança não é trocar o certo pelo incerto sob o pretexto da raiva; é ter a coragem de somar o rigor econômico com o abraço social. É fazer da política uma ponte para a maturidade, onde cada passo à frente honre a história que nos trouxe até aqui.

terça-feira, 6 de outubro de 2026

SANTA CATARINA E O ENIGMA DO PLENO EMPREGO: O QUE FAZ DO ESTADO UM SULCO DE OPORTUNIDADES NO BRASIL

Enquanto o país busca caminhos para a retomada econômica, o modelo catarinense apoia-se em descentralização, diversificação industrial e raízes cooperativistas para manter taxas históricas de ocupação no mercado de trabalho.



Em um cenário nacional onde a concentração econômica frequentemente estrangula o desenvolvimento das periferias regionais, Santa Catarina segue na contramão. Com uma das menores taxas de desocupação do país e um ambiente produtivo singular, o estado sulista desperta a curiosidade de economistas, sociólogos e gestores públicos: qual é, afinal, o “segredo” por trás da força de trabalho catarinense?

A resposta, longe de milagres econômicos ou fórmulas mágicas, reside na arquitetura de sua formação territorial e na diversidade de sua matriz produtiva. Diferente de estados cuja força econômica gravita em torno de uma única metrópole, Santa Catarina consolidou um modelo estritamente policêntrico.

Mas, defender a ideia de Santa Catarina como um "oásis autossuficiente" ou uma "ilha isolada" de prosperidade não apenas ignora a realidade econômica do país, mas sustenta uma ilusão perigosa. Nenhum estado brasileiro é uma ilha — nem econômica, nem social, nem politicamente.

O desenvolvimento de Santa Catarina só é possível porque o estado está umbilicalmente conectado ao restante do Brasil, integrando uma engrenagem nacional de interdependência que funciona em mão dupla.

O discurso ufanista de "terra perfeita" costuma invisibilizar a periferia das cidades catarinenses, a especulação imobiliária predatória e os desafios de absorção e acolhimento social.

Mosaico Regional: A Força da Descentralização

Caminhar pelo território catarinense é testemunhar diferentes vocações industriais e de serviços em pleno funcionamento a poucas horas de distância umas das outras:

  • O Norte Metalmecânico: Com polos em Joinville e Jaraguá do Sul, a região abriga gigantes mundiais da produção de motores, peças e eletrodomésticos, funcionando como o motor pesado da exportação regional.
  • O Vale Têxtil e Tecnológico: Historicamente reconhecido pela tradição têxtil em Blumenau e Brusque, o Vale do Itajaí reconverteu-se também em um sólido ecossistema de tecnologia da informação e inovação.
  • O Oeste Agroindustrial: Em cidades como Chapecó e Concórdia, a cultura do cooperativismo rústico deu origem a conglomerados alimentícios de alcance internacional na proteína animal.
  • O Sul e o Litoral: Do polo cerâmico e extrativista de Criciúma à efervescência da construção civil, do turismo e do complexo portuário (Itajaí, Navegantes e Itapoá), o litoral catarinense completa uma engrenagem logística e imobiliária de alto impacto.

Essa pulverização atua como um escudo protetor. Quando um setor enfrenta retrações conjunturais, outros mantêm o nível de contratações em alta, amortecendo oscilações bruscas no mercado de trabalho.

A Herança da Pequena Propriedade e o Cooperativismo

Para compreender a dinâmica das vagas de emprego no interior catarinense, é preciso recuar na história da ocupação territorial. Ao contrário do modelo de latifúndio e monocultura que marcou vastas extensões do território brasileiro, a colonização do interior de Santa Catarina esteve fundamentada na pequena propriedade familiar.

A necessidade de sobrevivência e escoamento da produção dos pequenos agricultores deu origem a um movimento cooperativista maduro. A pequena propriedade alimentou a pequena oficina, que por sua vez gerou as médias indústrias e as cooperativas de crédito e produção hoje consolidadas. O resultado é uma densa rede de Pequenas e Médias Empresas (PMEs) — as maiores responsáveis pela geração de empregos formais com carteira assinada no estado.

"A descentralização das oportunidades não apenas distribui a renda de forma mais uniforme, mas estabelece um ciclo virtuoso: o trabalhador consome no próprio município, movimentando o comércio e os serviços locais."

Os Gargalos do Crescimento Acelerado

Contudo, a fama de terra das oportunidades traz consigo o peso de seus próprios desafios. A atração contínua de contingentes migratórios e a rápida expansão urbana impõem pressões severas sobre o estado:

1. Gargalo Logístico: A infraestrutura rodoviária padece com o tráfego pesado e a saturação de artérias vitais, exigindo investimentos urgentes em duplicações e malha ferroviária.

2. Custo de Vida e Habitação: O adensamento populacional nos principais polos elevou drasticamente o custo da moradia, pressionando a renda das famílias de menor poder aquisitivo.

3. Escassez de Mão de Obra: Em diversos setores — do chão de fábrica à alta tecnologia —, a taxa de desemprego em níveis residuais gera o chamado "apagão de talentos", impondo às empresas o desafio constante de atração e retenção de profissionais.

Uma Lição de Equilíbrio Territorial

O exemplo catarinense demonstra que o verdadeiro motor do desenvolvimento regional não reside na dependência de incentivos isolados, mas na construção de uma rede produtiva diversificada, onde a identidade cultural, o cooperativismo e a infraestrutura caminham integrados.

O "segredo" de Santa Catarina, portanto, é uma lição clara sobre o valor da descentralização econômica: quando o trabalho vai até onde as pessoas estão, o desenvolvimento deixa de ser uma promessa distante para se tornar a rotina do cidadão.

Santa Catarina é um motor industrial e produtivo admirável, mas seu sucesso é parte da engrenagem chamada Brasil. Reconhecer essa integração não diminui o mérito das conquistas locais; pelo contrário, dá a elas o devido contexto dentro da complexidade e da riqueza de uma nação continental.

O Suicídio Institucional: Quando o Eleitor Vota contra a Liberdade

Quando o governante eleito passa a usar a legitimidade das urnas para aparelhar instâncias de controle, nomear juízes alinhados e alterar leis em benefício próprio, a estrutura democrática entra em colapso interno. Não há um sobressalto; a destruição ocorre em fogo brando.



Você já parou para pensar na ironia que é usar a própria liberdade para acabar com a liberdade? Pois é exatamente isso que vem acontecendo em vários cantos do mundo hoje em dia.

Criou-se na cultura popular o mito de que a existência de sufrágio universal é condição suficiente para garantir uma sociedade livre. Trata-se de um engano perigoso. As eleições periódicas são apenas a dimensão procedimental do regime democrático — a ferramenta para a escolha cíclica de governantes.

Antigamente, quando a gente pensava no fim de uma democracia, a imagem que vinha à cabeça era bem clara e assustadora: tanques de guerra nas ruas, militares tomando o palácio do governo e um ditador anunciando na televisão que a Constituição não valia mais nada. Era um golpe rápido, violento e sem disfarces. Mas as coisas mudaram bastante. Hoje em dia, a democracia raramente morre com um estrondo; ela vai morrendo aos pouquinhos, em silêncio, e o pior de tudo: através do nosso próprio voto.

O grande problema é que a gente se acostumou a achar que democracia é só uma coisa: ir até a urna a cada quatro anos e apertar os botões. Só que votar é apenas a porta de entrada. A verdadeira democracia de um país depende do que acontece no dia a dia entre uma eleição e outra. Depende de ter juízes independentes que não baixam a cabeça para o presidente, de uma imprensa livre que possa investigar e criticar sem medo, e de leis que protejam todo mundo, inclusive quem pensa diferente do governo.

Quando a gente coloca no poder um líder com mentalidade autoritária, ele não precisa dar um golpe no dia seguinte. Em vez disso, ele começa um trabalho de formiguinha. Primeiro, aparelha os órgãos de fiscalização e coloca amigos no Judiciário. Depois, muda uma regrinha eleitoral ali, corta a verba de jornais críticos acolá e vai sufocando a oposição. Quando a população finalmente percebe, o jogo já está completamente viciado. As eleições continuam existindo, o presidente continua dizendo que é um líder democrático porque foi eleito pela maioria, mas, na prática, a estrutura que garantia a liberdade de todos já foi destruída por dentro.

É por isso que precisamos ficar muito atentos. Apoiar um político que ataca as instituições só porque ele defende a nossa bandeira hoje é um tiro no pé. O voto não é um cheque em branco para um governante fazer o que quiser com o país. Se a gente não aprender a defender as regras do jogo e a liberdade das instituições acima de qualquer paixão partidária, vamos continuar entregando a chave do nosso futuro nas mãos de quem quer justamente trancar a porta da nossa liberdade.

A democracia é o único sistema político que concede ao povo a prerrogativa de sua própria destruição. Se não compreendermos que o voto é a ferramenta de preservação de direitos — e não um cheque em branco para o desmonte de garantias —, continuaremos assistindo a democracias morrerem silenciosamente, com o aplauso do próprio público.

O Médico das Almas e o Perigo do Orgulho Espiritual

Nesta terça-feira, 6 de outubro de 2026, a resposta de Jesus aos religiosos de Sua época revela a essência graciosa do Evangelho. Descubra como reconhecer nossas próprias feridas nos bastidores da vida nos liberta da autossuficiência e nos aproxima do único Médico capaz de restaurar a alma.



“E Jesus, respondendo, disse-lhes: Não necessitam de médico os que estão sãos, mas, sim, os que estão enfermos; Eu não vim chamar os justos, mas, sim, os pecadores, ao arrependimento.”

— Lucas 5:31-32


Ao sentar-se à mesa na casa de Levi, o recém-chamado publicano, Jesus provocou a indignação dos fariseus e escribas, que não concebiam como um mestre religioso podia se misturar com pessoas de má reputação. No texto original em grego do Evangelho de Lucas, a palavra usada para "médico" é iatros, aquele que cura, alivia dores e restaura a saúde comprometida. Quando Jesus afirma que veio chamar pecadores ao "arrependimento", Ele utiliza a palavra metanoia, que significa uma mudança radical de mente, uma guinada completa no rumo da vida e na forma de enxergar a realidade. O grande contraste daquela cena estava no fato de que os fariseus se consideravam "sãos" (hygiainontes), moralmente irrepreensíveis e autossuficientes, tornando-se cegos para a própria enfermidade espiritual. Ao se declararem sadios sem o serem, eles rejeitaram o único tratamento capaz de salvá-los. Jesus não veio para os que fingem perfeição, mas para aqueles que reconhecem a sua condição de doentes e necessitados de cura.

Trazer esse ensinamento transformador de Lucas 5:31-32 para esta terça-feira, 6 de outubro de 2026, é um antídoto indispensável contra a religiosidade rígida e o julgamento alheio que ainda contaminam as nossas relações. Vivemos em um ambiente social onde é muito fácil apontar o dedo para os erros dos outros enquanto maquiamos as nossas próprias falhas morais e emocionais. Quando vestimos a capa da superioridade espiritual, nos afastamos do coração de Cristo, que sempre se moveu com compaixão em direção aos quebrantados, aos marginalizados e aos feridos da vida. A igreja e o lar cristão não foram desenhados por Deus para serem museus de santos perfeitos ou tribunais de acusação, mas sim hospitais de alma onde pessoas imperfeitas encontram acolhimento, restauração e a graça imerecida do Pai.

A aplicação prática desse texto nos bastidores do nosso cotidiano começa no momento em que despimos o orgulho e olhamos com honestidade para o nosso próprio coração. Ser um seguidor de Jesus não significa que nos tornamos imunes a erros ou que somos melhores do que qualquer outra pessoa; significa apenas que reconhecemos a nossa doença e encontramos o Médico certo. Nos bastidores do trabalho, da família e da comunidade, essa percepção muda completamente a forma como tratamos aqueles que falham ou que pensam diferente de nós. Em vez de afastar ou condenar os que estão enfrentando dilemas e quedas espirituais, a atitude cristã autêntica é estender a mão, oferecer acolhimento e apresentar o Evangelho da metanoia — a oportunidade graciosa de um recomeço real em Cristo.

Nesta terça-feira, examine o seu coração na presença de Deus e abandone qualquer ilusão de autossuficiência. Peça ao Senhor que lhe dê a humildade necessária para reconhecer onde você precisa de cura e a sensibilidade espiritual para olhar para o próximo com os mesmos olhos de compaixão que Jesus teve ao sentar-se à mesa com Levi. Lembre-se de que a mesa da graça divina está sempre aberta para quem reconhece a sua necessidade. Quem aprende a depender diariamente do Médico das almas encontra alívio para as suas dores e torna-se um instrumento vivo da compaixão de Deus para o mundo.

Você tem se apresentado diante de Deus como alguém 'são' e autossuficiente ou como alguém que precisa diariamente da cura e da graça do Grande Médico?

segunda-feira, 5 de outubro de 2026

O Dia Seguinte: Soberania Divina e Unidade Acima das Urnas

Nesta segunda-feira pós-eleição, 5 de outubro de 2026, a sabedoria bíblica nos convida a virar a página com serenidade, fé e maturidade espiritual. Descubra como superar as divisões políticas, pacificar o coração e reafirmar a nossa lealdade ao Reino inabalável de Deus nos bastidores da rotina.




“O coração do homem planeja o seu caminho, mas o SENHOR lhe dirige os passos.”

— Provérbios 16:9



Terminada a contagem dos votos e arrefecido o calor das urnas, a segunda-feira pós-eleitoral nos coloca diante do desafio prático de retomar o curso da vida diária com o coração pacificado. No texto original em hebraico do livro de Provérbios, a palavra traduzida por "planeja" vem da raiz chāshab, que descreve o ato de articular, arquitetar, projetar metas e fazer estratégias humanas. É natural que homens e sociedades façam seus planos, depositem suas expectativas em projetos políticos e articulem caminhos para o futuro da nação. No entanto, o texto bíblico estabelece um contraponto definitivo ao declarar que é o Senhor (YHWH) quem "dirige" (yākîn) os passos. Esse verbo traz a ideia de firmar, consolidar, estabelecer com autoridade e dar estabilidade. A teologia bíblica nos ensina que, independentemente do cenário político resultante das urnas, o controle da história jamais escapa das mãos do Criador. Governos e mandatários são temporários e estão sujeitos aos limites da providência divina, enquanto o Reino de Deus permanece inabalável de geração em geração.

Trazer essa verdade pacificadora de Provérbios 16:9 para esta segunda-feira, 5 de outubro de 2026, é um bálsamo indispensável para tratar os sentimentos de euforia ou de frustração que costumam tomar conta das pessoas no dia seguinte às eleições. O cristão amadurecido não celebra a vitória política com soberba ou zombaria contra o próximo, tampouco se deixa dominar pelo desespero, pelo medo ou pela amargura diante de resultados desfavoráveis. Se a nossa esperança estivesse amarrada aos projetos deste mundo, qualquer oscilação política seria capaz de desestabilizar a nossa fé. Contudo, quando a nossa vida está fundamentada na rocha que é Cristo, entendemos que o nosso chamado primário continua o mesmo: ser sal da terra, luz do mundo e agentes de reconciliação em meio a uma sociedade tantas vezes ferida e fragmentada pelas disputas de poder.

A aplicação prática dessa postura espiritual nos bastidores da nossa semana exige um esforço consciente de cura e unificação nos ambientes em que vivemos. O dia seguinte ao pleito é o momento de desarmar os espíritos, recolher as palavras duras e estender a mão aos familiares, amigos, vizinhos e irmãos na fé de quem nos distanciamos por causa de divergências ideológicas. Nos bastidores do lar, da igreja e do ambiente de trabalho, o testemunho de amor e de maturidade do cristão deve falar mais alto do que a paixão partidária. A ordem bíblica constante em passagens como 1 Timóteo 2:1-2 nos convoca a orar por todas as autoridades constituídas — independentemente de termos votado neles ou não —, pedindo a Deus sabedoria, justiça e paz para que possamos viver uma vida quieta e sossegada.

Nesta primeira segunda-feira de outubro, decida começar a semana com o coração leve e a mente renovada pela Palavra. Deixe de lado as provocações, as discussões estéreis nas redes sociais e o peso desnecessário das incertezas políticas. Faça o seu trabalho com excelência, cuide da sua família, sirva à sua comunidade e continue semeando a paz e a verdade por onde passar. Lembre-se de que nenhum resultado eleitoral altera a fidelidade de Deus ou anula o Seu cuidado diário sobre a sua vida. Quem aprende a confiar na soberania do Altíssimo caminha com a cabeça erguida, sabendo que os homens fazem seus planos, mas a palavra final e o governo do mundo pertencem para sempre ao Senhor.

Como você pretende encarar esta semana pós-eleição: alimentando as divisões do ontem ou vivendo a paz e o propósito de Deus para o hoje?