Uma reflexão íntima sobre o Dia Mundial do Meio Ambiente e a mística de junho no interior, onde a preservação da terra confunde-se com a guarda da nossa própria ancestralidade.
Diz o homem da capital que hoje é o dia de salvar o planeta, como se a Terra fosse um conceito abstrato desenhado em mapas ou discutido em relatórios de repartição. Para quem tem o calcanhar rachado pelo massapê e os olhos acostumados ao desenho das copas contra o poente, a terra não é um cenário. É parente.
Os mais velhos não sabem nem o nome do mês, só sabem que é o mês de São João. Ah, e o próximo é o mês de Santana.
Junho entra pelas frestas das portas trazendo um vento que não pede licença. É um sopro frio, com cheiro de mato molhado e promessa de noite longa. É o aviso de que o tempo da semeadura já passou e que, agora, o mistério acontece debaixo do chão, no escuro do útero do mundo, onde o caroço de milho rompe a própria casca para virar sustento e festa.
Há uma santidade silenciosa nesse pacto entre o homem e o seu pedaço de chão. Uma cumplicidade que se revela no estalar da lenha que seca no terreiro, no respeito ao rio que corre lento, cansado de carregar as impurezas do progresso alheio, mas ainda teimando em dar de beber às margens. Salvar o mundo, no interior, começa no cuidado com a nascente que os antigos chamavam de sagrada.
Quando a noite de junho cai de vez, o tempo parece sofrer uma dobra. O estalar das primeiras fogueiras pequenas — aquelas que a gente acende na calçada só para esquentar as pernas e prosear com o vizinho — liberta um perfume que nenhuma indústria consegue replicar: o cheiro de fumaça de lenha boa misturado com a terra que respira o orvalho.
Nesse instante, em torno do fogo, não há passado ou futuro. O estalar da brasa é o mesmo que o tataravô ouvia quando as primeiras bandas de pífano ensaiavam as marchinhas sacras sob o luar da província. A fumaça que sobe ao céu leva os nossos olhos para o alto, mas são os nossos pés, plantados na terra úmida, que sustentam a nossa verdade.
Preservar esse chão não é uma tese política; é um ato de devoção à própria memória. Porque se um dia esquecermos o gosto do milho assado na brasa, o som do ferro da enxada batendo na pedra ou o respeito pelo silêncio das matas que nos cercam, não teremos perdido apenas as árvores. Teremos perdido a nós mesmos. E contra a seca da alma, não há chuva que dê jeito.






