quinta-feira, 22 de outubro de 2026

A Ilusão da Insaciabilidade e o Perigo do Amor ao Dinheiro

Nesta quinta-feira, 22 de outubro de 2026, a reflexão penetrante do Qoheleth no livro de Eclesiastes nos desperta para a armadilha invisível do consumismo e da ganância. Descubra como a busca desenfreada por riquezas gera um vazio insaciável na alma e aprenda a encontrar a verdadeira suficiência na provisão e na comunhão com Deus.



“Quem amar o dinheiro jamais dele se fartará; e quem amar a abundância nunca se fartará da renda; também isto é vaidade.”

— Eclesiastes 5:10


Ao observar as engrenagens da sociedade, a busca incessante por status e a ânsia humana por acumulação material, o autor de Eclesiastes fez um diagnóstico cirúrgico sobre a condição do coração que se apega às riquezas. No texto original em hebraico, a palavra traduzida por "amar" é ’ahav, indicando um afeto profundo, uma devoção e uma entrega que deveriam ser direcionadas exclusivamente a Deus, mas que aqui são depositadas sobre o dinheiro. O verbo hebraico utilizado para "fartará" ou saciar é sava’, que expressa a ideia de ser preenchido a ponto de estar satisfeito, de alcançar o repouso da alma. O mestre da antiguidade declara que aquele que eleva o dinheiro à categoria de objeto de adoração nunca experimentará a saciedade; quanto mais ganha, maior se torna o apetite por mais. A palavra final do versículo, traduzida por "vaidade" (hebel), não significa apenas algo inútil, mas o sopro passageiro, a fumaça que se dissipa rapidamente, mostrando que construir a vida sobre a obsessão financeira é correr atrás do vento.

Trazer essa constatação sóbria de Eclesiastes 5:10 para esta quarta-feira, 21 de outubro de 2026, é um choque de realidade necessário em uma cultura hiperconectada que nos bombardeia o tempo todo com o falso evangelho do consumo. Somos induzidos a acreditar que a paz, a segurança e a felicidade plena estão logo após a conquista do próximo objetivo financeiro, daquela promoção no trabalho ou da aquisição de mais bens materiais. No entanto, o que vemos nos bastidores de muitas vidas bem-sucedidas economicamente é uma alma faminta, esgotada pela ansiedade e prisioneira de um ciclo interminável de insatisfação. O dinheiro em si é um meio neutro para a subsistência e para o sustento da família, mas quando ele deixa de ser uma ferramenta e passa a ser o senhor da nossa existência, o coração se corrompe e a vida perde o seu sentido profundo.

A aplicação prática dessa verdade nos bastidores do nosso cotidiano exige um reajuste radical de prioridades e uma vigilância constante contra a ganância. Vencer a lógica da insaciabilidade significa aprender a arte da gratidão e do contentamento com o que é necessário para viver com dignidade. Nos bastidores do lar, no ambiente profissional e na forma como lidamos com os nossos recursos, somos chamados a administrar o que Deus nos confiou com generosidade e sobriedade, sem permitir que a busca pela renda defina o nosso valor ou roube a nossa comunhão com o Criador. A verdadeira fartura que a alma humana precisa não vem dos saldos bancários ou do acúmulo de bens, mas da certeza de que estamos alinhados com os propósitos de Deus, que cuida de cada um de nós com amor soberano e providência contínua.

Nesta quarta-feira, pare um instante para examinar onde o seu coração tem buscado descanso e segurança. Se a ansiedade pelo ganho ou o medo da escassez têm sufocado a sua paz, entregue essas inquietações nas mãos dAquele que supre todas as nossas necessidades segundo as Suas riquezas em glória. Desapegue-se da corrida insaciável que o mundo impõe e abrace a liberdade de viver com simplicidade, sabendo que a vida abundante que Cristo prometeu não consiste na abundância de bens que o homem possui, mas na comunhão viva e eterna com o Pai.

O que tem ocupado o centro das suas aspirações diárias: a busca infinita por acumulação ou o contentamento em servir a Deus com o que você já tem?

quarta-feira, 21 de outubro de 2026

70 ANOS DE JAILSON DO PÍFANO: UMA VIDA DE LUTA, CULTURA E LEGADO


Se estivesse entre nós, Jailson da Hora Santos (Jailson do Pífano) completaria 70 anos hoje. Uma trajetória marcada pela resistência, pelo trabalho incansável e pelo amor às raízes do nosso povo.

Aos 8 anos, aprendeu a tocar pífano de ouvido com os mais velhos. Conheceu cedo as durezas da vida — trabalhou na roça, foi cortador de cana e enfrentou tempos difíceis para ajudar no sustento da família.

Com garra e visão, construiu uma história marcante no comércio, sendo referência nos Povoados Encruzilhadas, Sibalde e Várzea-Verde e no bairo Rodagem na sede do município. Esteve ao lado dos trabalhadores no MST (2010-2011), atuou na vida pública lançando candidatura a vereador em 2004 e 2008 e foi o grande articulador da cultura popular ao batizar e liderar a Banda de Pífanos de Geração em Geração, honrando a herança dos seus antepassados.

Jailson partiu em 2023, mas a sua força, o som do seu pífano e a sua memória continuam vivos em cada canto de Japaratuba. 

“A história de quem viveu pelo seu povo e pela sua cultura jamais se apaga.”

 

Segue abaixo a música Viajando Pelo Brasil, composição de Jailson do Pífano, cantada por Flávio Hora. 


 

terça-feira, 20 de outubro de 2026

O Poeta, a Musa e o Misterioso Feitiço das Palavras


Existe um charme quase cômico na forma como o mundo tenta nos definir. Outro dia, alguém me apontou o dedo e soltou, entre um sorriso e um espanto: “Você é poético!”

Sorri por dentro. É engraçado como a palavra escapa, como se ser poético fosse apenas um traço de personalidade, um trejeito curioso ou um filtro de luz suave sobre o cotidiano. Tive de traduzir em silêncio: no fundo, a pessoa quis dizer que sou Poeta. E há uma distância colossal entre o adjetivo que adorna e o substantivo que pesa na alma.

Fiquei pensando no quanto a poesia habita os lugares mais improváveis. Lembrei-me de quando perguntei a uma garota se ela gostava de poesia. Ela era a personificação viva da delicadeza: linda, jovial, de uma simpatia tão terna que, para mim, ela própria parecia um poema em movimento — no popular, pura fofura. Para minha surpresa, a resposta veio sem rodeios: não gostava. Para ela, poesia não passava de um "monte de palavras sem sentido", um amontoado desconexo. Achei graça da honestidade. No fim, ela me parabenizou pelo dia e ainda saiu dali com um livro debaixo do braço. Quem sabe, entre uma página e outra, o amontoado de palavras não tenha decidido fazer sentido?

Em outro momento do caminho, o oposto aconteceu. Uma garota — que mais tarde converti em musa — olhou nos meus olhos com uma ousadia deliciosa e lançou o desafio: “Escreve uma poesia sobre mim.”

Ah, a coragem de quem sabe a força que tem! Mas a verdade é que a mulher, por mais que diga não gostar de versos ou do poeta, já carrega a própria poesia no simples ato de existir. Longe de mim imitar o Poetinha e decretar que "a beleza é fundamental". A verdadeira poesia não aceita a ditadura do belo pré-fabricado; simplesmente não existe poesia feia. O que existem, na verdade, são falsos poetas — aqueles que tentam fabricar o sentimento com rimas frias, sem colocar o coração na prensa.

Aceitei o pedido dela. Peguei a pena e fui sincero. Não inventei fadas, mas criei e recriei todo o meu universo ao redor daquela presença. Porque é disso que se trata: a poesia é, em sua essência mais pura, a palavra na mira de quem quer encantar. É o calor humano moldado em letras, a tentativa insistente de eternizar o efêmero, a eterna novidade!

Neste 20 de Outubro, celebra-se o Dia do Poeta. Teria muito mais a dizer sobre esse ofício meio abençoado, meio doloroso, de traduzir o mundo. Mas o tempo da conversa cede espaço ao tempo da criação.

O papel em branco espera. É hora de poetar.


20 de Outubro: Celebrando o Dia do Poeta — Da Tradição Japaratubense ao Parnaso Universal

Celebrando o Dia do Poeta através da voz que resgata o lirismo, o sentimento e a arte genuína.

Imagem meramente ilustrativa

O dia 20 de outubro marca no calendário brasileiro uma das celebrações mais nobres do espírito humano: o Dia do Poeta. A data tem origem no ano de 1976, com o surgimento do Movimento Poético Nacional na casa do renomado escritor, jornalista e pintor Paulo Menotti Del Picchia. É o momento em que a sociedade se volta para aqueles que transformam a matéria intangível dos afetos, das dores e dos sonhos em palavra viva e monumento de memória.

A Arquitetura do Verso e da Emoção

O poeta não é apenas quem versifica ou domina a métrica e a rima; é, antes de tudo, o tradutor das sensibilidades invisíveis do mundo. Seja através da fluidez da poesia lírica (subjetiva e focada na intimidade do eu-lírico), da grandiosidade da épica, do impacto da poesia dramática ou da sonoridade singular da poesia falada e de cordel, o ato poético busca a fruição — a experiência pura de encantar e comover quem lê ou escuta.

Como bem expressa o poema Por que Chamam de Poesia, de F. J. Hora:


"Por que chamam de poesia

Tudo que há de lindo e sublime

E não só o que a tinta imprime

No papel, o sonho e a alegria?


(...) A poesia é a palavra na mira

De quem quer encantar!"

 

A Constelação Poética: Da Aldeia ao Mundo

A poesia não tem fronteiras, mas possui raízes. Celebrar o Dia do Poeta é honrar tanto os grandes nomes da literatura universal quanto as vozes que cantam a identidade local.

A Riqueza Literária de Japaratuba

Japaratuba firma-se como um verdadeiro celeiro cultural e poético de Sergipe. Nomes como Garcia Rosa, Gibras, Ivanildo Souza (O Poeta Afamado), Flávio Hora, Darquiran Costa e Antônio Glauber, entre inúmeros, representam a salvaguarda da memória, da oralidade e do lirismo que pulsa na terra do folclore e das tradições populares. Eles dão voz às dores, aos afetos e às belezas do cotidiano japaratubense.

Os Pilares do Lirismo Nacional

Na escala nacional, a poesia brasileira ergueu-se sobre ombros de gigantes. Temos diversos nomes consagrados, entre eles:

  • Vinicius de Moraes: Mestre do soneto e do lirismo amoroso, que aproximou a alta literatura da música popular brasileira.
  • Castro Alves: O "Poeta dos Escravos", cuja voz altiva e engajada ecoou em defesa da liberdade e da justiça social.
  • Carlos Drummond de Andrade: O olhar agudo sobre a modernidade, o indivíduo e as contradições da existência humana.

O Monumento Universal

  • Luís Vaz de Camões: O maior expoente da língua portuguesa no mundo, capaz de aliar o rigor formal das grandes epopeias ao sentimento trágico e sublime dos sonetos de amor.

Um Convite à Sensibilidade

Neste 20 de outubro, homenagear os poetas é defender a preservação do pensamento crítico, da arte e da sensibilidade. Que os versos dos nossos poetas japaratubenses continue se entrelaçando aos cânones nacionais e universais, provando que a poesia é, e sempre será, a palavra que eterniza a vida!

O Veneno Guardado e o Espaço Cedido à Amargura

Nesta terça-feira, 20 de outubro de 2026, a instrução direta do apóstolo Paulo nos confronta sobre o destino que damos aos nossos sentimentos feridos. Descubra a sabedoria divina de resolver os conflitos no tempo certo e a diferença entre sentir indignação legítima e ceder lugar à raiz de amargura que contamina a alma e os relacionamentos nos bastidores da vida.



“Irai-vos, e não pequeis; não se ponha o sol sobre a vossa ira.”

— Efésios 4:26


O apóstolo Paulo, ao escrever à comunidade cristã em Éfeso, estava profundamente ciente das tensões e desafios inerentes ao convívio humano, mesmo entre irmãos de fé. No texto original em grego, a expressão "irai-vos" vem do verbo orgizō, que pode indicar tanto a reação de indignação legítima diante da injustiça quanto o sentimento de raiva que brota de ofensas pessoais. A instrução não é uma proibição do sentimento — o próprio Jesus se indignou diante da dureza de coração (Marcos 3:5) e expulsou os cambistas do templo. A advertência crucial reside na continuação do versículo: "e não pequeis". O verbo grego para "pecar" é hamartanō, que significa "errar o alvo". O pecado acontece quando a raiva legítima se desvia do seu propósito e se transforma em ressentimento, vingança ou calúnia. A sabedoria divina estabelece um prazo prático: "não se ponha o sol sobre a vossa ira". O prazo não é burocrático, mas terapêutico; o pôr do sol sinaliza o encerramento do dia e o momento de libertar a alma do peso da ofensa, antes que a mágoa se aprofunde e gere consequências devastadoras.

Trazer essa exortação de Efésios 4:26 para esta terça-feira, 20 de outubro de 2026, é um freio de arrumação urgente para a nossa saúde emocional e espiritual nos bastidores da nossa semana. É muito fácil cair na armadilha de achar que o problema é "estar certo", enquanto o verdadeiro veneno é o espaço que a mágoa guardada ocupa em nosso coração. Paulo continua: "nem deis lugar ao diabo" (Efésios 4:27). O termo grego para "lugar" é topos, indicando um território cedido. Quando alimentamos o ressentimento dia após dia, narramos e ampliamos internamente a ofensa, estamos entregando uma área da nossa vida ao controle do inimigo, permitindo que o que começou como uma mágoa passageira se torne a nossa própria identidade. Guardar rancor é, como diz a famosa frase de autoria incerta, beber veneno esperando que o outro adoeça.

A aplicação prática desse ensinamento nos bastidores do nosso cotidiano exige coragem para lidar honestamente com as nossas emoções feridas diante de Deus. Tiago nos oferece o caminho prático: "pronto para ouvir, tardio para falar, tardio para se irar" (Tiago 1:19). O que Paulo nos propõe ao estabelecer o prazo do pôr do sol não é o fingimento de que não fomos machucados, mas a decisão consciente de não alimentar a raiz de amargura que, como nos alerta Hebreus 12:15, brota escondida e perturba e contamina muitos. Resolver pode nem sempre ser possível de imediato, e Paulo reconhece isso: "se possível, quanto depender de vós, tende paz com todos os homens" (Romanos 12:18). Mas a nossa parte é entregar a Deus o direito de retribuição, perdoar para não sermos consumidos e não ceder território à amargura.

Nesta terça-feira, peça a Deus a graça de discernir a sua raiva e a coragem de não deixá-la virar moradia em sua alma. Não permita que o peso de ofensas passadas ou presentes roube a sua paz e contamine o seu futuro. Nomeie a sua mágoa diante do Senhor com sinceridade e receba o alívio que só o Espírito Santo pode dar. O perdão não é um favor que fazemos ao outro, mas uma libertação que damos a nós mesmos para caminharmos com leveza, justiça e coerência, glorificando a Deus nos bastidores da nossa história e em todos os nossos relacionamentos.

O que você tem alimentado mais nos bastidores da sua vida: o seu direito de estar certo ou a sua saúde espiritual e emocional ao entregar as suas feridas a Deus?

segunda-feira, 19 de outubro de 2026

Cuidado com o Salto no Escuro

Tirar quem está no poder é um direito; entregar o país a um tirano é um suicídio democrático. A democracia permite demitir o governante, mas não tolera a ingenuidade de dar a chave da casa ao incendiário.



A porta do voto é estreita, mas o vão por onde se espreita o destino do país é imenso.

Tem gente que chega à urna com o peito cheio de um cansaço antigo. O desejo de mudar é legítimo, cristalino, quase uma urgência física. Quer tirar quem está lá? Tire. A democracia é essa engrenagem viva que se alimenta da alternância, que garante a qualquer cidadão o sagrado direito de olhar para o governante do momento e dizer: "Chega, o seu tempo acabou." Não há controvérsia nisso. O voto é livre, e a soberania do eleitor não aceita rédeas.

O perigo, porém, nunca esteve no ato de abrir a gaiola; está em não olhar para onde o passarinho vai voar.

Na pressa de fechar uma porta, há quem se esqueça de checar a estrutura da casa que se pretende ocupar. Troca-se o incômodo do presente pela promessa reluzente do primeiro que passa gritando alto na rua. Mas a história — essa senhora austera que não costuma perdoar a ingenuidade — vive nos lembrando: a ruína quase nunca avisa quando entra. Ela vem fantasiada de remédio amargo.

Tire o poder de quem você quiser. Mas tenha o cuidado quase sagrado de não entregar a chave da casa a quem flerta com o incêndio. Não coloque no pedestal quem tem alergia ao povo, quem olha para o trabalhador com o desdém de quem nunca viu um calo na mão, nem sabe quanto custa o quilo do feijão ao fim do mês. Não confie o destino da nação a quem se incomoda com a arte, com o pensamento livre, com a cor da pele alheia ou com a voz dos que sempre foram silenciados.

O salvador da pátria é uma invenção antiga de gabinete e palanque. Ele costuma vir engomado, com discurso fácil e aroma de privilégio, prometendo milagres que nunca precisou construir com o próprio suor. É o herói de vitrine que nunca sentiu na pele a dor da fila do posto de saúde, nem a angústia de quem conta os trocados para fechar a conta do mês.

Mudança sem critério não é evolução; é salto no escuro. E o problema do salto no escuro é que o chão costuma ser duro demais para quem está lá embaixo.

Escolher novos rumos é um ato de coragem, mas exige memória e lucidez. Que a vontade de mudar nunca seja maior do que o dever de proteger a própria liberdade de continuar mudando amanhã.

sábado, 17 de outubro de 2026

O Cidadão de Bem e a Arte da Contabilidade Oculta



Se o brasileiro médio colocasse metade do esforço que gasta para fugir do Leão na resolução dos seus próprios problemas, já teríamos colônias em Marte. Mas não. A energia do nosso herói nacional é toda canalizada para o milenar esporte da sonegação — uma modalidade praticada com o peito estufado e a consciência em paz.

Seu Valdir é um exemplar clássico dessa fauna. Dono de um comércio próspero, ele é um crítico ferrenho da "máquina pública inchada" e da "carga tributária abusiva". Tem total razão na crítica, claro — o problema é a prática.

Para Seu Valdir, o mundo ideal funciona na base do chacoalhar de notas de papel. O cartão de crédito é uma invenção do demônio para rastrear seus passos; o Pix, uma armadilha comunista da Receita Federal. "Na minha loja é só no dinheiro, meu patrão, ou no Pix da chave aleatória do meu cunhado que é isento", avisa ele, com um sorriso de mestre da estratégia.

O fenômeno é fascianante: a loja do Valdir gira R$ 100 mil por mês no Pix "paralelo", mas, para o fisco, ele é um monge franciscano que sobrevive heroicamente com um pro-labore de R$ 3 mil. Como ele consegue comprar a picape do ano e pagar a mensalidade da faculdade do filho com três salários mínimos? Milagre da multiplicação dos pães, obviamente.

Na mesma mesa do bar onde Valdir se orgulha de "não dar um tostão pra esses políticos ladrões", senta o Juninho. O Juninho é o oposto no método, mas irmão gêmeo na lógica. Vive pendurado num cargo comissionado na prefeitura, mamando na fonte que nunca seca. Adora criticar o imposto da gasolina, mas esquece — com uma amnésia conveniente — que o contracheque dele não nasce no pé de jacarandá da praça central. Depende puramente da mesma arrecadação que o Valdir faz questão de drenar. O sanguessuga reclama da falta de sangue, enquanto o doador faz torniquete no próprio braço.

Mas o grande ápice dessa comédia pastelão brasileira não acontece no bar, nem na prefeitura. Acontece no escritório de contabilidade.

Lá vem o Valdir, esfalfado, suando frio, segurando o celular como se fosse uma bomba-relógio. O gerente do banco pediu um comprovante de renda decente para aprovar o financiamento do novo imóvel. A casa caiu? Não, basta "chamar o contador".

— "Dr. Claudinei, pelo amor de Deus, arruma uma declaração aí de R$ 25 mil por mês pra mim!" — implora o empresário.

— "Seu Valdir, o senhor declara três mil. Se eu emitir uma DECORE de vinte e cinco sem nota emitida, a Receita nos pega em dois minutos", avisa o contador, mantendo a sanidade por um fio.

— "Mas você é meu contador ou é fiscal do governo? Dá um jeito, inventa uma renda! Eu preciso desse imóvel!"

E o contador que lute para transformar mágica em documento contábil.

A cereja do bolo vem a cada quatro anos. O brasileiro que passa 1.460 dias burlando a nota fiscal, usando o CPF da avó para cadastrar o carro e pedindo "desconto sem nota" no mecânico, veste a camisa verde e amarela e vai às urnas. Acredita piamente que ao digitar dois dígitos na urna eletrônica, o país vai virar uma Suíça numa única canetada presidencial. Esquece que o Brasil não é um monobloco, que existe Congresso, STF, federação... e, acima de tudo, esquece que um país feito de pequenos espertos dificilmente produzirá um destino honesto.

No fim do dia, Valdir assiste ao jornal, vê as notícias de corrupção, dá um soco na mesa e esbraveja: "Neste país, ninguém é sério!".

Depois, desliga a TV, pega o maço de notas de 100 reais guardado no fundo da gaveta de meias e vai dormir o sono dos justos.