quarta-feira, 27 de maio de 2026

O Palco Contra a Pena: O Esvaziamento da Identidade no Festival de Poesia de Japaratuba

A ausência de veteranos da terra e a insatisfação com critérios que priorizam a performance teatral em detrimento da literatura de raiz acendem o debate sobre a perda de identidade cultural no tradicional certame de Japaratuba.



O anúncio do resultado final da triagem das poesias classificadas para o XXVIII Festival de Poesia de Japaratuba traz consigo mais do que uma lista de nomes e pontuações frias. Traz à tona, novamente, um eco de insatisfação que reverbera nos bastidores culturais do município há mais de uma década. Diante de uma tabela dominada por notas técnicas e uma pulverização de concorrentes de outras cidades, a pergunta que não quer calar nos cantos da cidade é uma só: Cadê os poetas japaratubenses?

A crise de identidade do festival não é nova. Para compreendê-la, precisamos retroceder a 2013, ano em que o certame sofreu um duro golpe de credibilidade quando uma delegação de poetas lagartenses, frustrada com os rumos organizacionais e os critérios de avaliação, retirou-se de cena desapontada. O que parecia um caso isolado de "bairrismo" ou "dor de cotovelo" revelou-se o sintoma de uma doença crônica que acabou por afastar os maiores tesouros da própria casa.

Onde estão as vozes de veteranos da terra como Darquiran Costa, o Poeta Afamado, Flávio Hora e Antônio Glauber? A ausência desses baluartes na linha de frente do festival não é fruto de escassez de talento ou de ócio criativo. É um boicote silencioso. É o cansaço daqueles que se recusam a submeter a pureza da sua escrita ao crivo de uma produção majoritariamente teatral, muitas vezes travestida de poesia.

A Ditadura da Performance sobre a Escrita

O nó górdio dos festivais de poesia contemporâneos reside na confusão milenar entre o texto literário e a performance de palco. O que deveria ser uma celebração da métrica, da rima, do sentimento lapidado na ponta da caneta — a essência do Cordel e da poesia de raiz que o prêmio tanto evoca homenagear — transformou-se em um espetáculo cênico.

Ganha mais pontos quem grita mais alto, quem chora melhor ou quem domina as técnicas de expressão corporal aprendidas em oficinas de teatro na capital. O texto, a alma do poeta, virou mero coadjuvante de um show de entretenimento formatado para agradar jurados que, muitas vezes, operam sob planilhas burocráticas e distantes da realidade lírica do interior sergipano.

Para o poeta tradicional, aquele que traz a oralidade na sua forma mais pura e despida de artifícios acadêmicos ou cênicos, o palco virou um ambiente hostil. Pra que se submeter a isso?

A Lição Incompossível de Gibras

Para ilustrar a miopia desse formato, basta lembrar o ano de 2013, quando o festival homenageou o saudoso poeta Gibras. Um homem cuja genialidade e importância para a cultura de Japaratuba são inquestionáveis. No entanto, há uma ironia dolorosa nessa homenagem: Gibras partiu sem nunca ter vencido o festival que o aplaudiu de pé.

A história de Gibras prova que a legitimidade cultural não cabe dentro de uma nota de 0 a 10 dada por uma banca itinerante. O respeito do povo e dos seus pares é imutável, enquanto as decisões dos júris de festival são efêmeras e, frequentemente, injustas. Se os nossos maiores nomes precisam ser ignorados em vida pelos critérios do concurso para só serem validados após a morte através de homenagens póstumas, o mecanismo está quebrado.

Um Festival para Quem?

É fundamental reconhecer que o Festival de Poesia de Japaratuba é um patrimônio que projeta o município regionalmente e atrai oxigênio cultural de fora. A integração com poetas de Estância, Capela e Aracaju é rica. Contudo, a universalidade do evento não pode acontecer às custas do epistemicídio da cultura local.

Se o festival continuar a priorizar a "produção teatral" em detrimento da literatura de raiz, ele continuará a ver suas maiores mentes locais se retirarem para o silêncio de suas casas. Homenagear o Mestre Ninizio na edição deste ano é um passo bonito, mas contraditório, se o formato do evento sufoca os herdeiros diretos dessa mesma tradição.

Japaratuba precisa urgentemente repensar o seu festival. É preciso criar salvaguardas para a poesia da terra, equilibrar o peso entre o texto escrito e a performance cênica, e, acima de tudo, resgatar o respeito dos seus veteranos. Caso contrário, o Barracão Cultural continuará cheio de luzes e aplausos, mas profundamente vazio da verdadeira alma japaratubense.

Criados com Intenção — A Resposta Bíblica Para a Crise de Identidade Moderna

Neste dia, voltamos ao livro de Gênesis para compreender por que o sentido da vida humana não depende do reconhecimento do mundo, mas do selo de identidade que o Criador imprimiu em nossa alma.




“Criou Deus o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou.”
 — Gênesis 1:27

 A Mensagem: O Selo do Criador


O texto não começa falando sobre religião, regras ou instituições. Ele começa falando sobre identidade. Antes de o ser humano trabalhar, construir cidades, produzir riqueza ou receber títulos, Deus lhe concede dignidade.

Muitas vezes passamos a vida inteira tentando descobrir o nosso propósito como se ele fosse um tesouro escondido em alguma ilha deserta, ou um enigma que precisamos decifrar sozinhos. A verdade bíblica, no entanto, inverte essa lógica: o propósito não começa no que fazemos, mas em quem somos. E quem somos é definido por Aquele que nos desenhou.

No relato da criação, todas as coisas — as estrelas, os oceanos, as florestas e os animais — foram trazidas à existência pela palavra de comando de Deus. Mas quando se trata do ser humano, o processo é diferente, quase artesanal. Deus decide colocar em nós a Sua própria assinatura: a Imago Dei (a Imagem de Deus).

Você não é o resultado de um acidente biológico, nem uma engrenagem aleatória no motor do universo. Há uma intenção consciente por trás de cada detalhe da sua existência. Você foi feito para espelhar as virtudes do Criador: a capacidade de amar, de criar, de exercer justiça, de produzir beleza e de se relacionar.

Conexão com os Dias de Hoje: A Ditadura dos Filtros


Vivemos na era da imagem, mas ironicamente enfrentamos a maior crise de identidade da história. Somos bombardeados diariamente por algoritmos que ditam como devemos nos vestir, quanto devemos ganhar, qual deve ser a nossa opinião e qual o padrão de felicidade aceitável. Medimos nosso valor pelo número de curtidas, pelo status do cargo profissional ou pela aprovação em praça pública.

Nesse cenário de "filtros digitais" e vidas plasticamente perfeitas, o texto de Gênesis funciona como um grito de libertação:

* Seu valor não é negociável: Ele não aumenta quando você acerta, nem diminui quando você falha. Seu valor foi estabelecido na fábrica, pelo Selo Real que você carrega na alma.
* Identidade precede a missão: Antes de se preocupar com o "fazer" (sua profissão, seus projetos, suas metas de 2026), você precisa descansar no "ser". Você é filho, imagem e semelhança do Deus Altíssimo.

Quando compreendemos que fomos criados com uma intenção divina, a ansiedade de tentar "ser alguém na vida" desaparece, porque nós já somos alguém para Deus. O nosso primeiro e mais nobre propósito é, simplesmente, refletir a luz d'Ele no metro quadrado onde fomos colocados.

O texto nos convida a olhar para o espelho de outra forma: não como consumidores tentando parecer perfeitos, mas como criaturas carregando marcas do Criador.

E isso muda tudo:

  • muda a forma como tratamos os outros;

  • muda a forma como lidamos com nossos fracassos;

  • muda a forma como entendemos propósito;

  • muda até a forma como enfrentamos a solidão.

Porque se fomos criados à imagem de Deus, então a nossa existência nunca foi um acidente.

💬 Para Refletir e Compartilhar:

Em quais áreas você tem buscado a aprovação do mundo em vez de descansar na identidade que Deus já te deu? Lembrar que você carrega a imagem do Criador muda a forma como você se olha no espelho hoje?

Deixe sua resposta nos comentários e acompanhe nossa jornada de 40 dias rumo ao propósito! 👇

#EstudoBíblico #Propósito #Dia1 #Identidade #Gênesis #Devocional #Reflexão

RESULTADO FINAL: Poesias Classificadas para XXVIII Festival de Poesia de Japaratuba

O coração da cultura nordestina bate mais forte! Já está disponível a lista oficial com as 15 poesias selecionadas na triagem para o XXVIII Festival de Poesia de Japaratuba (Prêmio: Couro, Cordel e Poesia – Homenagem ao Mestre Ninizio).

Parabéns a todos os poetas e poetisas que enriquecem a nossa literatura e mantêm viva a chama da poesia falada! 🌟




🏆 Confira a lista dos classificados:

  • 01. Cidade Interior – Antonio Bispo (Estância) | 29 pts

  • 02. Pneuma, o Sopro da Poesia – Jenilton Lima (Capela) | 29 pts

  • 03. Travessia do Pássaro Espantado – David Alexandre (Japaratuba) | 29 pts

  • 04. 1:48 da Madrugada – Elker Lucas (Japaratuba) | 28 pts

  • 05. No Céu dos Meus Devaneios – José Edson (Estância) | 28 pts

  • 06. Poemas de Vidro – Thaylane Aragão (Estância) | 28 pts

  • 07. Relógio do Tempo – Poliana Araújo (Aracaju) | 28 pts

  • 08. A Decaída – Cláudio Hiroshy (Estância) | 27 pts

  • 09. A Estante do Agora – Elias Marinho (Japaratuba) | 27 pts

  • 10. Meros Enganos – Alton Rodrigo (N. S. Socorro) | 27 pts

  • 11. Na Caatinga – Dalas Elias (Graccho Cardoso) | 26 pts

  • 12. Venha Ver o Pôr do Sol – Manuela Silva (Japaratuba) | 26 pts

  • 13. Juntando os Próprios Pedaços – Kátia Góis (Propriá) | 25 pts

  • 14. O Mundo Entre Telas – Ítalo Martônio (Japaratuba) | 25 pts

  • 15. Prece Nordestina – Cícero José (Graccho Cardoso) | 25 pts

Agende-se para a Grande Noite!

Venha prestigiar a voz e o talento dos nossos artistas em uma noite de muita emoção e identidade cultural.

  • 🗓 Data: 05 de Junho

  • 🕖 Horário: 19h

  • 📍 Local: Barracão Cultural

Realização: Prefeitura Municipal de Japaratuba e SECULTE Apoio: SECOM


Fonte: Prefeitura Municipal de Japaratuba/Divulgação 

O Grande Golpe dos Bancos: Como a Agiotagem se Tornou Legalizada no Brasil

Por trás do marketing de parceria e inovação, descubra como o sistema financeiro nacional opera captando o seu suor a preço de banana e revendendo o crédito a juros extorsivos com o aval do Estado.

Este espaço é dedicado ao exercício pleno da liberdade de expressão, do pensamento crítico e do direito ao contraditório, pilares inalienáveis do Estado Democrático de Direito, conforme assegurado pela Constituição Federal.

As reflexões e análises aqui publicadas pautam-se pelo respeito absoluto aos direitos humanos e pela defesa da cidadania. Nosso objetivo é promover o debate estrutural, educacional e informativo sobre as engrenagens do sistema financeiro nacional. Nenhuma crítica aqui tecida possui o intuito de atacar a honra de pessoas físicas, incitar o ódio ou desrespeitar as instituições constituídas. Trata-se de um manifesto técnico e social voltado para a conscientização econômica e a democratização do debate público.

Por exemplo, a resposta para a pergunta clássica: A agiotagem é legalizada no Brasil? A Resposta é simples: Não, a agiotagem nunca foi legalizada no Brasil. A prática de emprestar dinheiro a juros abusivos por pessoas ou empresas não autorizadas pelo Banco Central é considerada crime contra a economia popular. Porém, ao comparar situações semelhantes entre pessoas comuns e bancos, as instuições financeiras cobram juros mais caros. A diferença é que o banco paga IOF e tem uma blindagem econômica legal.

O Grande Golpe dos Bancos: Como a Agiotagem se Tornou Legalizada no Brasil



Imagine que você decida abrir um negócio. Para fazê-lo funcionar, você precisa comprar matéria-prima, investir em maquinário e pagar mão de obra. Se o seu produto final for caro demais e ninguém comprar, você quebra. No capitalismo tradicional, o risco é o preço da busca pelo lucro. Mas existe uma casta nesse sistema que opera sob uma lógica completamente diferente, uma verdadeira "mágica" onde o produto vendido é o dinheiro — e o detalhe mais perverso: o dinheiro dos outros.

A engenharia financeira dos grandes bancos brasileiros é uma obra-prima da exploração consentida. Enquanto o trabalhador é doutrinado a acreditar que deixar o dinheiro na poupança ou em uma conta corrente é um ato de segurança, na prática, ele está financiando o próprio algoz. Ao depositar suas economias na instituição financeira, o cidadão está, tecnicamente, emprestando dinheiro para o banco. Por esse empréstimo, a instituição paga uma remuneração irrisória, que historicamente ronda os 0,5% ao mês.

A mágica acontece cinco minutos depois. O banco pega esse exato mesmo dinheiro — o fruto do suor, da renúncia e do trabalho do correntista — e o repassa para outro trabalhador que precisa de crédito, cobrando taxas que facilmente chegam a 16% ao ano em linhas comuns, saltando para os três dígitos no cheque especial ou no rotativo do cartão.

O nome técnico e polido para essa disparidade é spread bancário. Na vida real e nas ruas, se um cidadão comum ousar praticar essa mesma margem de juros extorsivos contra outra pessoa, ele estará cometendo o crime de usura e agiotagem, tipificado pela Lei nº 1.521/51, que pune contratos particulares que excedam os limites legais. No entanto, através de privilégios regulatórios consolidados nas últimas décadas, as instituições financeiras ganharam imunidade a essa lei. O que na calçada é crime de polícia, dentro da agência vira "estratégia legítima de mercado".

E a armadilha é milimetricamente protegida por uma burocracia que sufoca qualquer tentativa de reação. O correntista comum é lesado duas vezes: primeiro, ao ver seu poder de compra ser corroído por aplicações que sequer cobrem a inflação real; segundo, ao se tornar refém de um ecossistema projetado para capturar sua renda de forma automática.

A prova de que o sistema é desenhado para proteger o capital em detrimento da subsistência humana está nas próprias normas que regulam o cotidiano bancário. O Banco Central, através da Resolução nº 4.790, tenta dar um verniz de escolha ao consumidor ao exigir autorização prévia para débitos em conta. No entanto, a mesma norma escancara as portas para o abuso ao chancelar contratualmente a realização de débitos sobre o limite de crédito e lançamentos parciais decorrentes de obrigações vencidas.

Na prática cotidiana, isso significa que se você atrasar uma parcela de empréstimo porque precisou escolher entre o banco e o supermercado, o sistema está autorizado a "sequestrar" qualquer centavo que toque a sua conta corrente ou conta-salário, fazendo raspagens parciais imediatas ou empurrando sua conta para o saldo negativo do cheque especial. O banco se torna juiz e executor da própria cobrança, garantindo a lucratividade da sua carteira antes mesmo que o trabalhador possa exercer o direito básico de gerenciar sua sobrevivência.

Essa "agiotagem institucionalizada" só se sustenta porque o Estado opera como sócio desse banquete. Os bancos utilizam o dinheiro dos depositantes para comprar títulos da dívida pública, financiando os gastos do governo. Em troca, o poder público mantém um ambiente de oligopólio com regulação altamente conivente, onde um punhado de marcas controla o fluxo monetário nacional.

Se você acha que a expressão "agiotagem legalizada" é um exagero retórico, olhe para a realidade das telas dos aplicativos de contas digitais e fintechs que prometem "dinheiro expresso e sem burocracia". Em uma simulação realizada na plataforma Mercado Pago, para um empréstimo de R$ 3.200,00 com prazo de pagamento de meros 28 dias, o valor final cobrado é de R$ 3.955,00. Estamos falando de R$ 755,00 de juros em menos de um mês. Isso representa uma taxa de aproximadamente 23,5% ao mês, o que equivale a uma projeção de mais de 1.300% ao ano. O sistema capta o dinheiro do investidor pagando migalhas e o revende na velocidade de um clique a taxas que fariam qualquer agiota de calçada parecer amador. A tecnologia mudou, mas a mecânica da espoliação continua a mesma.



Em audiência pública realizada no Senado para debater o fenômeno do superendividamento, a então coordenadora do Núcleo de Defesa do Consumidor da Defensoria Pública do Rio de Janeiro, Alessandra Bentes, classificou publicamente a oferta banalizada de crédito fácil e as propagandas sedutoras das instituições financeiras como "agiotagem legalizada".

O depoimento da defensora pública Alessandra Bentes ataca a raiz psicológica e social do capitalismo financeirizado. Ao afirmar que o superendividamento afeta pessoas de todas as faixas de renda — desde o salário mínimo até quem ganha R$ 20 mil mensais  —, ela desmonta a falácia liberal de que "só se endivida quem não sabe se planejar". O sistema é desenhado para capturar a todos.  A expressão "agiotagem legalizada", usada na própria tribuna do Senado por uma autoridade de defesa do consumidor, chancela juridicamente o termo. O texto da matéria expõe como os grandes grupos financeiros exploram as vulnerabilidades estruturais do Brasil, como o alto índice de analfabetismo funcional , para empurrar contratos ininteligíveis através de abordagens sedutoras na rua ou por cliques no celular

Enquanto a educação financeira tradicional tenta culpar o cidadão pelo seu endividamento, a macroeconomia real nos mostra que o trabalhador brasileiro não está quebrado por falta de foco ou excesso de consumo. Ele está quebrado porque o sistema bancário funciona como um dreno invisível, uma máquina que capta a riqueza produzida pela base da sociedade a preço de banana e a revende de volta para a mesma base a preços impraticáveis. Romper essa dependência e entender essa mágica cruel é o primeiro passo para que o dinheiro volte a servir a quem de fato trabalha para produzi-lo.

terça-feira, 26 de maio de 2026

O Sopro da Resistência: O Pífano como Patrimônio Vivo e a Urgência de Políticas Culturais no Interior

Enquanto verbas milionárias oxigenam o mercado das festas comerciais de grande porte, a tradição centenária da Banda de Pífanos de Geração em Geração e o legado de Mestre Jailson do Pífano sobrevivem pelo apego à identidade e pela força do sangue ribeirinho.



Por: Flávio Hora


No rescaldo das homenagens ao Dia do Trabalhador Rural, quando os discursos institucionais sobre o homem do campo começam a esvaziar-se nas gavetas do oportunismo político, urge trazer ao debate público a dimensão mais profunda e negligenciada da nossa gente: a sua cultura de raiz. A terra que o camponês corta com a enxada e que produz a macaxeira nos povoados de Japaratuba é a mesma que ecoa, ao cair da tarde, um som agudo, estridente e sagrado. É o som do pífano. Um sopro ancestral que teima em não silenciar nas curvas das nossas rodagens e que desenha a verdadeira cartografia da alma do Vale do Cotinguiba.

Falar sobre a música tradicional do nosso interior não é fazer um exercício de mero passadismo ou folclore de vitrine. É tratar de sobrevivência identitária. No coração dessa resistência pulsa a Banda de Pífanos de Geração em Geração, a mais antiga de Japaratuba e região. Oriunda das comunidades ribeirinhas do Riacho do Poxim — o curso d’água que serve de fronteira física, mas que une culturalmente os municípios de Japaratuba e Japoatã —, a banda nasceu no povoado Encruzilhadas, forjada no seio da agricultura familiar e da vida comunitária. Ali, a taboca, o bambu e, mais recentemente, o cano de PVC converteram-se em extensões da própria voz de um povo que transmite seus saberes pela oralidade, de pai para filho, desafiando o esquecimento. 

E como e quando surgiu o Pífanos nessa região

Contam os mais velhos que essa tradição já vem de seus bisavós, trisavós e tataravós. E foi crescendo de acordo com alguma família que ao adoecer um filho ou pedir alguma graça a um santo, fazia uma promessa e o pagamento era fazer uma novena no dia do santo padroeiro ou de sua devoção. Então, naqueles povoados já havia um calendário de "tocadas", culminando sempre na de Santo Antônio na casa de Seu Dóia, no Povoado Encruzilhadas, cuja filha está, atualmente, com 99 anos de idade. Dessa forma, não há um provável ano de "fundação", apesar de que entre meados do século XIX a  1885, é o intervalo de nascimento entre o pai e o avô de D. Caçula de 99 anos, a mais velha ainda viva. Portanto, mais de 140 anos de existência. 

O Legado de Mestre Jailson e a Mística Ribeirinha

Nenhuma narrativa sobre o pífano em nosso chão se sustenta sem evocar a figura perene do seu principal condutor: o saudoso Mestre Jailson do Pífano (in memoriam). Jailson não era apenas um executor de melodias; ele era o guardião de um portal temporal. Quando posicionava o instrumento nos lábios, o que se ouvia não era o ensaio metódico das partituras urbanas, mas o sopro dos antigos, o ritmo das novenas de Santo Antônio e Santa Luzia, a poeira das estradas e a mística das águas do Poxim.

Sob a ótica do Originalismo, a obra de Mestre Jailson e a continuidade da Banda de Geração em Geração representam a essência da originalidade psíquica e cultural do sergipano. É a manifestação de um Lar que se expande através do som. A música do pífano não se vende nas prateleiras do mercado de consumo rápido; ela se vive, se herda e se protege dentro da estrutura familiar. É o patrimônio imaterial em seu estado mais puro e caridoso (Caritas), aquele que se entrega à comunidade para manter acesa a chama da dignidade local.

O Injustificável Esquecimento Institucional

No entanto, quando confrontamos essa riqueza viva com a atuação das secretarias de cultura locais e estaduais, a realidade se impõe com o amargor da injustiça. Assistimos, ano após ano, a um verdadeiro escárnio orçamentário. O poder público não hesita em injetar verbas vultosas, cifras astronômicas e recursos carimbados para financiar palcos gigantescos, estruturas pirotécnicas e cachês inflacionados para atrações comerciais de fora, que passam pelas nossas cidades deixando apenas o rastro do lixo e do consumo efêmero.

Enquanto o mercado da diversão massificada é oxigenado com o dinheiro do contribuinte, a autêntica raiz do nosso povo é empurrada para a invisibilidade. As bandas de pífano, os grupos de idosos, os mestres de saberes tradicionais sofrem com o completo esquecimento institucional. Falta fomento contínuo, faltam editais desburocratizados de salvaguarda, faltam políticas públicas reais que garantam a manutenção dos instrumentos, o deslocamento dos musicistas e a formação de novas oficinas para a juventude dos povoados.

Para a engrenagem política colonialista que ainda vigora no interior, a cultura de raiz é vista apenas como um adereço exótico para ilustrar folhetos de turismo ou abrir solenidades oficiais por alguns minutos. Recusam-se a entender que o pífano é a nossa certidão de nascimento coletiva. Deixar essa tradição morrer sem apoio é cometer um crime de lesa-pátria contra a memória de Sergipe.

O Futuro do Pife: Resgatar para Emancipar

A Banda de Pífanos de Geração em Geração resiste porque possui a solidez das árvores antigas. Ela não depende do aplauso efêmero das elites políticas para existir; sua força vem do sangue, da memória de Mestre Jailson e do respeito à ancestralidade ribeirinha. Mas a resistência não deve ser sinônimo de desamparo.

Nesta terça-feira, 26 de maio de 2026, cobramos uma inversão de prioridades na gestão cultural do Vale do Cotinguiba. Menos espetáculo de palanque e mais salvaguarda na base. Precisamos de escolas municipais que incluam o pífano em suas atividades multidisciplinares, de incentivo financeiro direto aos mestres que dedicam a vida a repassar o sopro aos netos e do reconhecimento definitivo desses grupos como patrimônio vivo.

O som que ecoa de Encruzilhadas e cruza as águas do Riacho do Poxim é o lembrete de que somos um povo com história, identidade e prumo. Que as autoridades limpem os ouvidos do barulho ensurdecedor do comércio cultural e passem a escutar, com a reverência que ele merece, o sopro límpido, forte e eterno da nossa própria terra.

O Dia em que a Missão Virou Cidade

O dia em que a antiga Missão vestiu-se de cidade sob o olhar atento do tempo e de um menino.




Por Flávio Hora


Dizem que essa foto colorida artificialmente é da década de 1930. E nesse período me bate uma saudade daquilo que não vivi. A poeira daquela sexta-feira, 24 de agosto de 1934, não era uma poeira qualquer. Era uma poeira que carregava o peso de 75 anos de emancipação política e a expectativa de um decreto. Quando o coronel Augusto Maynard Gomes assinou o Decreto-lei nº 238, a antiga Missão de Japaratuba não mudava de lugar no mapa, mas mudava de tamanho no peito de sua gente: a sede do município era, finalmente, elevada à categoria de cidade.

E que capricho do destino o calendário reservou: era o Dia do Artista. Japaratuba, terra que mais tarde pariria Arthur Bispo do Rosário e tantos outros mestres da identidade sergipana, nascia cidade sob a benção da criação. Apesar de que a essa altura do campeonato ele já estava homem feito. 

Quem fechar os olhos e tentar voltar àquela sexta-feira vai enxergar a Igreja Matriz, pomposa e soberana, reinando quase absoluta. Ao redor, poucas povoações desenhavam o contorno do que hoje conhecemos. O coreto já estava lá, imponente, como se guardasse o eco das retretas que embalavam os namoros de outrora.

Para quem nasceu mais de meio século depois, resta o exercício sagrado da imaginação. Resta o recurso de recorrer aos guardiões do tempo. Meu avô, nascido em 1928, seria capaz de lembrar daquele alvoroço? Tinha apenas seis anos. E os homens e mulheres ali do povoado Encruzilhadas, nascidos em 1924 ou 1926? Esses centenários, ou quase centenários, carregam nos olhos a Japaratuba que os livros de história ousaram esquecer. Eles guardam os nomes de pessoas comuns que ergueram as paredes dessa terra, gente que viu gerações nascerem e desaparecerem como a fumaça dos antigos engenhos.

Por décadas, muita gente confundiu as estações. Celebrava-se o 24 de agosto como o aniversário do município. Mas a verdade sempre esteve hasteada no mastro, esperando por quem soubesse ler o tempo.

Na minha meninice, em meados dos anos 90, sentado nos bancos do grupo escolar de Dona, eu já olhava para o tecido da bandeira de Japaratuba e intrigava a minha própria mente:

Se o aniversário é em agosto, por que a bandeira estampa o dia 11 de junho de 1859?

Eu já sabia. Ah, se sabia! A própria professora Dona reforçava o mistério — e a solução — quando nos ensinava a cantar o hino municipal. A letra estava lá, nítida, cantando o 11 de junho como o momento do "desmembrando de Capela". Pronto. A pista sempre esteve na música e no pano.

Ainda me pergunto por que as pessoas preferiram abraçar a primeira versão que ouvem sem antes investigar. Mas a minha natureza sempre foi essa: minuciosa, atenta aos detalhes, desde criança. Foi preciso virar o século, já nos primeiros anos do século XXI, para que as autoridades desfazessem o equívoco e retificassem o calendário oficial. Mas o menino dos anos 90 já tinha decifrado o enigma.

No fundo, quem viveu aquela sexta-feira de agosto de 1934 sentiu a mesma pulsação de felicidade de quem testemunhou a certidão de nascimento do município. E por falar em precisão: o 11 de junho de 1859 caiu em um belo sábado. Duas festas, dois dias de semana, a mesma alma japaratubense.

E subimos a torre. Minha própria história está impregnada nos tijolos e no cal dessa cidade. Fecho os olhos e me vejo menino outra vez, driblando a vigilância do sacristão. Subi, com o coração na boca, os degraus já ruídos da torre da igreja. Uma aventura perigosa para pernas tão curtas, mas Deus sempre me protegeu — e, na minha inocência de criança, gostava de pensar que era com exclusividade. Obrigado, Senhor!

Lá do alto, o vento bateu no rosto e me entregou a geografia inteira de Japaratuba. Uma visão que guardo na memória como uma fotografia que nunca desbota: A praça da igreja, o coração pulsante; A Pedreira, com suas marcas no relevo e O Prata, dizia eu que o avistava também, correndo com suas águas e memórias.

Três cenários que a nova cidade, estreada naquela sexta-feira de 1934, preparou para o meu futuro. Cenários repletos de segredos, de heróis anônimos e de esquinas poéticas. Histórias vivas que, no tempo certo, eu ainda irei contar.

segunda-feira, 25 de maio de 2026

VII FLIG 2026: Academia Gloriense de Letras abre inscrições para lançamento de livros em Nossa Senhora da Glória

O maior evento literário do Sertão sergipano acontece em agosto; escritores de diversos gêneros já podem submeter suas obras para a programação oficial.


Imagem: Divulgação

O Sertão sergipano se prepara para se transformar, mais uma vez, na capital da literatura e da cultura regional. A Academia Gloriense de Letras (AGL) anunciou oficialmente a abertura das inscrições para os escritores interessados em lançar suas obras na VII FLIG – Festa Literária de Glória.

O evento, que já se consolidou como um dos maiores e mais importantes marcos do calendário cultural de Sergipe, acontecerá nos dias 25, 26 e 27 de agosto de 2026, no município de Nossa Senhora da Glória.

A FLIG é amplamente reconhecida por promover o encontro democrático entre autores, leitores, artistas, estudantes e pesquisadores. O grande objetivo do encontro é valorizar a produção cultural do Nordeste, além de fortalecer as práticas de leitura e escrita na região.

Como participar dos lançamentos oficiais

Escritores e escritoras de qualquer localidade que possuam obras publicadas nos mais diversos gêneros literários — como romance, poesia, crônica, contos e literatura infantojuvenil — podem pleitear um espaço na programação.

Para garantir a organização e o perfil do evento, a comissão organizadora detalhou algumas orientações importantes para os proponentes:

* Inscrição por obra: O autor deve preencher um formulário específico para cada livro que deseja lançar. Dados incompletos podem inviabilizar a participação.

* Processo de Curadoria: As propostas passarão por uma análise da organização, que levará em conta critérios como a disponibilidade de espaço na grade horária, a diversidade de gêneros e a adequação ao perfil da FLIG.

* Estrutura e Vendas: Os autores selecionados terão direito a uma mesa forrada e água durante o momento do lançamento. Vale ressaltar que a comercialização dos exemplares é de responsabilidade exclusiva do próprio autor.

* Contrapartida Cultural: Como forma de incentivo à leitura local e preservação da memória literária, cada participante deverá doar 02 (dois) exemplares da obra lançada para o acervo permanente da Academia Gloriense de Letras.

* Acessibilidade: O formulário de inscrição conta com um campo de observações para que autores com necessidades específicas de acessibilidade possam informar à organização, garantindo o suporte necessário.

Comunicação e Confirmação

Após o encerramento da fase de inscrições, a organização da VII FLIG entrará em contato direto com os escritores selecionados para confirmar a participação e alinhar os detalhes logísticos, como horários e estrutura de palco.

Para quem respira literatura, a VII FLIG surge como uma vitrine fundamental para fazer ecoar as vozes, a identidade e as histórias da nossa gente.

Serviço:

Evento: VII FLIG – Festa Literária de Glória (2026)

* Data: 25, 26 e 27 de agosto de 2026

* Local: Nossa Senhora da Glória / SE

* Inscrições: Disponíveis através dos canais oficiais e formulários digitais da Academia Gloriense de Letras.