quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Cinzas: O Fim de um Carnaval ou o Início de uma Vida Nova?

De Joelhos no Monte, de Pé na Vida

​A Quarta-feira de Cinzas surge no calendário como um "freio de arrumação". Após a euforia, o excesso e o barulho da "Festa da Carne", o silêncio das cinzas sobre a fronte nos recorda uma verdade implacável, mas libertadora: nossa finitude. Ao ouvirmos a frase "Lembra-te que és pó e ao pó voltarás" (Gênesis 3:19), somos convidados a desinflar o ego. Não é um convite ao pessimismo, mas sim ao realismo espiritual. Se somos pó, tudo o que construímos sobre a vaidade também o é. O que resta, então, quando a folia acaba e as luzes se apagam?

​A Quaresma como "Campo de Treinamento"

​Os 40 dias que se iniciam nas cinzas não devem ser vistos como um período de "castigo" ou uma gincana de privações temporárias. O tripé quaresmal — jejum, oração e esmola — serve para desintoxicar a alma:

Jejum: Para provar que não somos escravos dos nossos desejos.

Oração: Para restabelecer o diálogo com a Fonte da vida.

​Esmola (Caridade): Para nos lembrar que o outro existe e que o amor é a nossa única herança real.

​No entanto, o grande risco da Quarta-feira de Cinzas é tratá-la como um evento isolado. Muitas vezes, vivemos a Quaresma como quem segura a respiração debaixo d'água, esperando ansiosamente pelo Domingo de Páscoa para "voltar ao normal".

​Conversão: Um Estilo de Vida, não um Prazo de Validade

​A verdadeira conversão (metanoia) significa uma mudança de mentalidade. Se a penitência e a busca por Deus terminarem no Sábado de Aleluia, então não houve conversão, apenas uma pausa protocolar.

​"O convite à conversão não deve ser restrito só aos 40 dias. A cinza que recebemos na fronte deve queimar o nosso egoísmo para sempre, e não apenas até a Páscoa."

O desafio cristão é transformar o esforço da Quaresma em um hábito permanente. Se aprendemos a ser mais pacientes, mais sóbrios ou mais generosos durante esses 40 dias, por que abandonar essas virtudes quando o calendário muda?

​A ressurreição de Cristo não é o fim de um período de privação, mas o início de uma vida nova. Viver "além dos 40 dias" significa entender que a poeira que somos só ganha sentido quando soprada pelo Espírito de Deus, transformando nossa fragilidade em amor concreto no dia a dia.

​Reflexão para o Caminho

​A Quarta-feira de Cinzas nos pergunta: o que em você precisa morrer para que algo novo possa nascer? Que este tempo seja o ponto de partida para uma jornada sem volta rumo a uma versão mais humana, espiritual e consciente de nós mesmos.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

CRÔNICA: Memória Financeira e Ignorância Social

O Milionário de Japaratuba e a Régua do Ontem

 

Dizem que o brasileiro tem memória curta, mas o caso do Seu José beira o apagão coletivo. O cenário era uma calçada, na Rodagem, especificamente na antiga Rua da Ponta da Faca, em Japaratuba, Sergipe. De um lado, o vizinho, ostentando o título de ex-milionário de 1992; do outro, Seu José, o cético da vizinhança, que olha para a inflação do passado com a mesma desconfiança de quem ouve história de lobisomem.


— "Paguei 5 milhões na casa", disse o vizinho, com a naturalidade de quem compra um pão.


Seu José quase caiu da cadeira de fios. Para ele, 5 milhões é prêmio da Mega-Sena, é fortuna de herdeiro, é coisa de quem tem nome em prédio na Avenida Paulista. "Tá com febre, homem?", rebateu ele, ríspido. Para o senhor, a verdade tinha que ser mais humilde: "Você pagou 5 mil, aí sim é uma história bonita".


Ora, o que Seu José não percebeu — e ele não está sozinho nessa — é que o Brasil de 1992 era um hospício numérico. Éramos todos milionários de bolsos vazios. O senhor, que atravessou o Plano Real em 1994, parece ter deletado o arquivo "Hiperinflação" do cérebro. Ele vive o fenômeno da régua trocada: tenta medir o caos de trinta anos atrás com a régua do Real de hoje. É como tentar medir a distância de Japaratuba até Aracaju usando uma colher de chá.


Pois bem, a prova do crime veio num papel amarelado: uma conta de luz de 41 mil cruzeiros. O genro, servindo de tradutor de realidades para o sogro que não aprendeu a ler as letras, mas deveria saber ler a vida, sentenciou: "Se a luz custava isso, a casa era 5 milhões mesmo".


Mas Seu José não se deu por achado. Ele é o retrato de uma parcela do Brasil que vive a história como quem assiste a um filme mudo e sem legenda. Se não doeu no lombo, não aconteceu. É o mesmo sujeito que, vivendo longe do eixo Rio-São Paulo em 64, diz que "no meu tempo não tinha ditadura", simplesmente porque ninguém bateu na porta dele para censurar o bom dia.


O analfabetismo, aqui, não é só de letras; é de contexto. Ao ignorar que aqueles 5 milhões de cruzeiros valeriam hoje pouco mais de R$ 1.800,00, Seu José se protege no conforto da ignorância. Para ele, o passado tem que ser simples, linear e, preferencialmente, barato. Aceitar os milhões do vizinho seria admitir que ele viveu em um país que girava a mil por hora enquanto ele estava parado, sem entender que a moeda mudava de nome como quem troca de camisa suada.


No fim das contas, o debate encerrou porque o vizinho cansou de dar murro em ponta de faca. O "velhinho" continua convicto de que o vizinho é um mentiroso ou um louco. Mal sabe ele que, em 1993, ele provavelmente pagou alguns milhares de cruzeiros num quilo de feijão.

Rir dessa situação é um remédio amargo. É o humor de perceber que o Brasil é um país onde o passado é tão incerto quanto o futuro, e onde muitos de nós somos estrangeiros dentro da nossa própria biografia.

Autor: F. J. Hora, em Crônicas da Ponta da Faca.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

O Voto como Ato de Defesa Social: Por que Lula Ainda é o Eixo da Resistência

Do Chão de Fábrica ao Planalto: Por que Lula ainda é o Eixo da Resistência.



A história política do Brasil é marcada por uma profunda contradição: um país de riquezas continentais que figura entre os mais desiguais do mundo. Essa desigualdade não é um acidente geográfico, mas o resultado de séculos de governos alinhados aos interesses das oligarquias. Nesse cenário, a figura de Luiz Inácio Lula da Silva emerge não apenas como um político, mas como um símbolo de ruptura institucional com o projeto de exclusão das elites.

O momento político é bastante delicado e o "candidato melhor" que Lula, no campo progressista, precisaria não apenas de suas ideias, mas de sua pele. E, até o momento, a política brasileira não produziu outra liderança que consiga fundir tão profundamente a biografia pessoal com a história das conquistas sociais do Brasil.

Há evidências históricas de que votar em Lula nem sempre foi um ato de amor ao candidato, mas, a sensatez de se posicionar ideologicamente contra o autoritarismo e contra os privilégios da burguesia.

Por exemplo, na primeira eleição direta após a ditadura, o Brasil viu o choque entre a "nova política" fabricada pelo marketing de Fernando Collor e a realidade crua de um líder operário. Quando Leonel Brizola, o maior herdeiro do trabalhismo de Vargas e Jango, ficou fora do segundo turno por uma margem mínima, ele proferiu a frase histórica: as elites teriam que "engolir o sapo barbudo".

  • O Significado: Brizola, mesmo sendo um rival ferrenho do PT na época, entendeu que Lula representava a única via legítima contra o "projeto das elites" encarnado em Collor. O voto em Lula ali não era uma adesão cega ao petismo, mas um gesto de sensatez democrática e de classe.

A história mostra que os pobres não são responsáveis pela desigualdade, mas são os únicos que podem alterá-la através de lideranças que possuam identidade de classe. O voto em Lula, de 1989 a 2026, permanece sendo um ato político de quem recusa o "falso patriotismo" e escolhe a via da soberania popular, mesmo mantendo o olhar crítico sobre o governo.

A Legitimidade que o Marketing não Compra

Diferente da maioria dos líderes que tentam "mimetizar" uma conexão popular através de camisas de futebol ou linguagem informal, a identidade de Lula com os trabalhadores é orgânica.

  • A Origem Operária: Lula é o único presidente brasileiro vindo do chão de fábrica. Sua escola foi o sindicato; sua retórica foi forjada na negociação por direitos básicos.


  • O "Sapo Barbudo" e as Elites: A trajetória de Lula, desde o icônico "sapo barbudo" de 1989 até o cenário de 2026, é o relato de uma resistência histórica contra o que Brizola chamava de "filhotes da ditadura" e as elites econômicas que detêm as chaves da desigualdade brasileira. Comparar esses momentos revela como a democracia foi, por décadas, o único campo de batalha possível para quem vem da base. Desde 1989, o termo de Brizola define a relação: a elite econômica nunca aceitou Lula por ele representar a ascensão de quem "deveria apenas servir". O ódio direcionado a ele é, no fundo, um preconceito contra a classe que ele representa.

O Voto como Barreira Sanitária contra o Autoritarismo

Votar em Lula, especialmente nos pleitos de 2022 e no horizonte de 2026, transcende a admiração pessoal ou a concordância integral com o governo. Trata-se de um voto estratégico pela democracia.

  • Democracia vs. Barbárie: Enquanto a extrema-direita utiliza o "falso patriotismo" para desmantelar direitos trabalhistas e atacar as instituições, Lula opera dentro da liturgia do cargo. O voto nele é a garantia de que o campo de batalha continuará sendo a política, e não a força.


  • A Única Via Real: No atual cenário, Lula é o único líder capaz de amalgamar uma "frente ampla" que impeça o retrocesso civilizatório. Mesmo com críticas à gestão econômica ou política, ele permanece sendo o único estadista com capilaridade suficiente para enfrentar o projeto autoritário.

Direitos Coletivos vs. Privilégios da Burguesia

A grande disputa atual é entre dois modelos de país:

  1. O Modelo das Elites: Foca no indivíduo, no desarmamento do Estado e na manutenção de privilégios econômicos (como a baixa taxação sobre super-ricos).


  1. O Modelo Coletivo: Prioriza o Estado como indutor de bem-estar, focado em tirar o Brasil do Mapa da Fome, valorizar o salário mínimo e expandir o acesso à saúde e educação.

A Trajetória de Base Real (Marina Silva e Guilherme Boulos)

Existem figuras que, assim como Lula, possuem uma origem legítima em movimentos sociais, mas com alcances e nichos diferentes:

  • Marina Silva: É a figura que mais se aproxima da história de superação de Lula. De seringueira analfabeta a ministra e líder ambiental global. Sua luta é humanista e ambiental, mas ela enfrenta a dificuldade de transformar essa trajetória em um movimento de massas tão amplo quanto o sindicalismo de Lula.

  • Guilherme Boulos: Representa a tentativa de renovação da esquerda via movimento de moradia (MTST). Embora venha de uma família de classe média alta (pais médicos), ele escolheu a base social como campo de atuação.

    • O desafio: A mimetização aqui é inversa; ele busca validar sua liderança através da vivência com os trabalhadores, mas ainda luta para romper a barreira do "preconceito de classe" que as elites e parte da classe média impõem a quem lidera ocupações.

O "Tecno-Populismo" (Ciro Gomes)

Ciro tenta se posicionar como o defensor da soberania nacional e dos trabalhadores através do Projeto Nacional de Desenvolvimento.

  • A tática: Usa um discurso contundente contra o capital financeiro.

  • O limite: Sua origem é nitidamente de uma oligarquia política cearense (família Ferreira Gomes). Por mais que sua pauta seja em defesa do trabalhador, ele fala "para" o povo a partir de um lugar de autoridade intelectual, e não "como" o povo.

 Existe algum candidato "melhor" que Lula?

A resposta depende do critério. Se o critério for histórico de luta e identidade com a classe trabalhadora, a resposta curta é: não há paralelo no cenário atual.

  • A Única Cédula com "DNA" Popular: Enquanto outros candidatos propõem pautas para os trabalhadores, Lula é o resultado dessas pautas. Sua legitimidade não vem de um escritório de marketing, mas das assembleias de porta de fábrica do ABC.

  • A "Muralha de Votos": As pesquisas de 2025 e 2026 continuam mostrando Lula liderando ou em empate técnico com nomes da direita (como Tarcísio ou Michelle Bolsonaro). O "melhor" candidato, na visão estratégica, é aquele que consegue vencer. Até agora, nenhum nome de centro ou de outra esquerda conseguiu mobilizar o "voto de resistência" que Lula detém organicamente.

Conclusão: Um Voto de Dignidade, não de Santificação

Votar em Lula não significa "santificá-lo" ou absolvê-lo de erros. Significa reconhecer que, entre um líder que respeita as regras do jogo e um projeto que ameaça a soberania nacional e os direitos do povo, a sensatez é a única saída. Como o "sapo barbudo" de 89, Lula continua sendo a escolha de quem entende que a democracia é o solo sobre o qual se constrói a igualdade.

Para as elites, o "problema" de Lula nunca foi a corrupção — já que estas mesmas elites convivem bem com ela em outros redutos —, mas sim a ousadia de um operário colocar o pobre no orçamento e a empregada doméstica na universidade. Em 2026, a escolha permanece: ou o projeto de uma nação para todos, ou a perpetuação da desigualdade sob o mando de quem odeia o povo.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

O Medo da Barriga Cheia: Por que a Autonomia dos Pobres Incomoda as Elites

O Mito do "Voto Comprado": A Engenharia Invisível do Bolsa Família

Bolsa Família: O Direito que Libertou o Voto e Desmontou o Coronelismo


Por trás da narrativa simplista de que programas de transferência de renda servem apenas para "comprar votos", existe uma complexa engrenagem institucional que envolve milhares de servidores públicos concursados, prefeituras de todas as ideologias e um sistema de monitoramento rigoroso. Ao analisarmos o papel dos municípios, a tese do assistencialismo barato começa a desmoronar diante da realidade técnica.

A Armadilha da "Cultura da Pobreza"



O termo Cultura da Pobreza foi cunhado pelo antropólogo Oscar Lewis nos anos 50. Para a sociologia e antropologia, ele não significa que a pobreza é uma escolha ou um "hábito", mas sim um mecanismo de adaptação.

O Significado: Quando gerações vivem sob privação extrema, elas desenvolvem comportamentos, valores e estratégias de sobrevivência para lidar com o desespero e a falta de oportunidades.

O Círculo Vicioso: Se o ambiente não oferece infraestrutura, educação de qualidade e capital social, o indivíduo nasce em um "jogo" onde as regras estão viciadas contra ele. Não é uma herança genética de pobreza, mas uma herança de falta de acesso.

Meritocracia vs. Realidade Brasileira


A meritocracia é o conceito de que o sucesso depende exclusivamente do esforço individual. No papel, é justo; na prática social, é frequentemente usado como uma ferramenta de manutenção de privilégios.

1. O "Ponto de Partida": A meritocracia ignora que, enquanto um jovem herda uma rede de contatos e educação bilíngue, outro luta contra a insegurança alimentar. Exigir o mesmo resultado de ambos é ignorar a física social.

2. O "Pobre de Direita": Esse fenômeno ocorre, muitas vezes, pela identificação com valores morais ou pela crença de que o Estado é um entrave. Há também o desejo de ascensão: ao adotar o discurso das elites, o indivíduo sente que pertence a um grupo superior, mesmo que suas condições materiais ainda sejam de exploração.

Por que a Resistência às Políticas Sociais?



A crítica da "direita" e do pensamento capitalista ortodoxo às políticas de transferência de renda geralmente se apoia em três pilares:

Austeridade Fiscal: O argumento de que o Estado não deve gastar mais do que arrecada.

Temor da "Acomodação": O mito de que o Bolsa Família desestimula o trabalho (embora dados mostrem que a maioria dos beneficiários continua trabalhando, mas em empregos informais/precários).

Manutenção de Mão de Obra Barata: Do ponto de vista da exploração capitalista radical, se o trabalhador não está desesperado pela sobrevivência imediata (fome), ele ganha um pequeno poder de barganha para recusar trabalhos análogos à escravidão ou extremamente mal pagos.

O Mercado de Trabalho: Existe Dignidade para Todos?



A pergunta "Existe trabalho para todos?" esbarra na lógica do Exército de Reserva. Para o capitalismo, ter um excedente de pessoas desempregadas é funcional: isso mantém os salários baixos, pois sempre haverá alguém disposto a aceitar menos para não passar fome.

Dignidade: O trabalho digno requer o que a OIT (Organização Internacional do Trabalho) chama de proteção social, salário justo e segurança. No Brasil, o avanço da "uberização" e da informalidade mostra que o mercado de trabalho está se afastando da dignidade para abraçar a sobrevivência precária.

Resumindo: o Bolsa Família não é apenas uma transferência de dinheiro; é uma ferramenta que tenta quebrar a "Cultura da Pobreza" ao exigir contrapartidas em saúde e educação. O preconceito contra o programa revela um medo estrutural de que, ao garantir o mínimo, a base da pirâmide social deixe de ser submissa.

A desigualdade no Brasil não é um erro do sistema, mas, para muitos analistas, um projeto. Superá-la exige entender que o mérito só existe de fato quando as oportunidades são verdadeiramente iguais.


A Descentralização como Antídoto ao Coronelismo

O Bolsa Família não é um "presente" enviado por Brasília via Pix. Sua execução depende do Sistema Único de Assistência Social (SUAS). Quem operacionaliza o cadastro não é um agente político do Governo Federal, mas o assistente social do CRAS (Centro de Referência de Assistência Social) no município.

Essa descentralização significa que:

1. A porta de entrada é técnica: O assistente social avalia a vulnerabilidade com base em critérios objetivos e legais.

2. Gestão multipartidária: Prefeitos de partidos de oposição ao Governo Federal gerem o Cadastro Único em suas cidades. Se o programa fosse uma ferramenta de "compra de votos" exclusiva de um partido, prefeitos rivais seriam os primeiros a sabotar ou denunciar o processo. Na prática, eles o mantêm porque o recurso injetado via beneficiários aquece a economia local (o mercadinho, a farmácia, a feira).

Assistencialismo ou Direito Social?


A sociologia distingue o "assistencialismo" da "assistência social". O primeiro é discricionário: o político dá o benefício a quem quer, criando uma dívida de gratidão. O segundo é um direito republicano: se você atende aos critérios de renda, o Estado é obrigado a conceder o benefício, independentemente de quem você é ou em quem vota.

O relançamento do programa com foco na composição familiar (pagando mais para quem tem mais filhos) reforça o caráter de justiça distributiva. Não se trata de dar "esmola", mas de garantir que a estrutura mínima de uma família não colapse, permitindo que as crianças frequentem a escola e tenham acompanhamento de saúde — as chamadas "condicionalidades" que visam romper o ciclo intergeracional da pobreza.

O Mercado de Trabalho e o "Medo" da Autonomia


A crítica de que esses programas "viciam" o cidadão ignora a realidade econômica. Com um teto de renda de R$ 218 por pessoa, ninguém "fica rico" ou "desiste de trabalhar" por causa do Bolsa Família. O que ocorre é um alívio do desespero. Quando o trabalhador tem o mínimo para comer, ele não aceita qualquer condição de exploração degradante por um prato de comida. Isso incomoda setores que dependem da miséria extrema para manter salários aviltantes.

Conclusão


Dizer que o Bolsa Família é compra de votos é subestimar a inteligência do eleitor pobre e ignorar o trabalho de milhares de profissionais da assistência social. O programa é, na verdade, uma política de Estado vitoriosa que sobreviveu a diferentes governos porque sua eficácia é mensurável.

A verdadeira "compra de votos" no Brasil historicamente se deu pela ausência do Estado, onde o cidadão dependia de favores pessoais de políticos. Ao transformar a sobrevivência em um direito automatizado e auditável, o Bolsa Família, paradoxalmente, liberta o cidadão do cabresto político.

domingo, 1 de fevereiro de 2026

​"Forças Terríveis" ou Erro de Cálculo? O Que Jânio Quadros e Jair Bolsonaro Ensinam Sobre Tentar Dobrar a Democracia

O Enigma da Vassoura: Sete Meses que Abalaram o Brasil



No início de 1961, o Brasil tinha um novo ídolo. Jânio Quadros, com seu jeito excêntrico, óculos tortos e o jingle chiclete "Varre, varre, vassourinha", prometia limpar a corrupção e organizar as contas públicas. Eleito com a maior votação da história republicana até então, ele era a personificação da esperança.
Porém, o que se seguiu foi um governo pautado por medidas inusitadas e uma política externa que desafiava a lógica da Guerra Fria.

O Estilo Jânio: Entre Bilhetinhos e Proibições

Jânio não gostava de reuniões ministeriais; preferia governar por meio de bilhetinhos manuscritos. Enquanto a economia sofria com a inflação, o presidente focava em decretos morais que dividiam a opinião pública:


Proibição do uso de biquínis em desfiles de misses.
Veto às brigas de galo.
Proibição do lança-perfume em bailes de carnaval.


Enquanto isso, na geopolítica, Jânio adotou a Política Externa Independente (PEI). Em pleno auge do conflito ideológico entre EUA e URSS, ele decidiu reatar relações com o bloco soviético e, no gesto mais polêmico de sua carreira, condecorou o revolucionário Ernesto "Che" Guevara com a Ordem do Cruzeiro do Sul.

A Cartada Final: O Dia em que o Brasil Parou

Na manhã de 25 de agosto de 1961, o Congresso recebeu um documento curto, mas bombástico. Jânio alegava que sua tentativa de governar era impedida por "forças terríveis" e interesses internacionais.

"Fui vencido pela reação e assim deixo o governo. [...] Desejava um Brasil para os brasileiros, afrontando, nesse sonho, a corrupção, a mentira e a covardia."


A Teoria do Autogolpe:

A maioria dos historiadores concorda que a renúncia foi uma estratégia política mal calculada. Jânio acreditava que, ao renunciar, o povo e as Forças Armadas implorariam pelo seu retorno, concedendo-lhe poderes ditatoriais para governar sem o Congresso. Ele apostava no caos, já que seu vice, João Goulart (Jango), era visto com extrema desconfiança pelos militares e pela elite por suas inclinações de esquerda. Umas das forças terríveis era a própria engrenagem da política institucional que ele desprezava. 

O Tiro que Saiu pela Culatra

Jânio esperou o clamor popular na Base Aérea de Cumbica, em São Paulo. O clamor nunca veio. O Congresso, em vez de rejeitar a renúncia, aceitou-a prontamente em uma sessão relâmpago. Em poucas horas, o "homem da vassoura" era um ex-presidente, e o país mergulhava em uma crise institucional sem precedentes.

Jânio acreditou no seu próprio personagem. Ele achou que era o "Salvador da Pátria" indispensável. Ao renunciar em um dia de sexta-feira (dia de baixo movimento político) e partir para São Paulo, ele deixou o poder livre para ser ocupado por quem tinha pressa: o Congresso, que aceitou a renúncia em poucos minutos.

Pressão externa , por causa da condecoração de Che Guevara o governo Kennedy fechou as portas para o crédito e asfixiou a economia. Por outro lado, Carlos Lacerda, antes apoiador agora era oposição, isso sem falar no isolamento político, Quadros era o presidente dos bilhetinhos e desprezava o Congresso.  

​O resultado não foi o seu retorno triunfal nos braços do povo, mas sim o início de uma crise que levaria o Brasil ao parlamentarismo de fachada e, eventualmente, ao golpe de 1964.

As Consequências: O Caminho para 1964

A renúncia de Jânio não apenas encerrou sua carreira nacional de forma melancólica, mas também:


Gerou a Crise da Legalidade: Os militares tentaram impedir a posse de João Goulart.
Instaurou o Parlamentarismo: Uma solução de curto prazo para reduzir os poderes de Jango.
Abriu as portas para o Golpe de 64: A instabilidade gerada naquele agosto de 61 foi o catalisador para a intervenção militar que duraria 21 anos.


Jânio Quadros saiu de cena deixando uma pergunta que ecoa até hoje: quem, afinal, eram as "forças terríveis"? Para muitos, a resposta é simples: o próprio ego e a falta de tato político de um líder que tentou varrer a democracia para debaixo do tapete.

A novela de 1961 e o remake de 2023

A Narrativa do "Nós contra Eles": Ambos os líderes construíram uma imagem de "outsiders" perseguidos por forças ocultas ou sistemas corruptos (as "forças terríveis" de Jânio e o "sistema" de Bolsonaro).


​A Estratégia do Caos: Jânio renunciou esperando que o medo de uma guerra civil fizesse o povo exigir sua volta com plenos poderes. Bolsonaro questionou as instituições e o processo eleitoral, mantendo uma mobilização que culminou no 8 de janeiro, apostando que a instabilidade geraria uma intervenção.


​O Erro de Cálculo: Ambos subestimaram a resiliência das instituições. Em 1961, o Congresso aceitou a renúncia de Jânio em minutos. Em 2023, os Três Poderes se uniram rapidamente para condenar as invasões e manter a ordem constitucional.

Se Jânio "plantou" a crise que culminou em 21 anos de ditadura, o episódio recente de Bolsonaro resultou em um fortalecimento (ainda que sob tensão) dos mecanismos de defesa da democracia, como a rápida resposta do Judiciário e a condenação política dos atos de vandalismo.


​A lição que fica é clara: no Brasil, a tentativa de governar sem o "sistema" — ou tentando destruí-lo por dentro — costuma terminar com o líder fora do jogo, enquanto o sistema, com todos os seus defeitos, permanece de pé.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

O NEGÓCIO DA IGNORÂNCIA: O "Doutor" do WhatsApp e a Fábrica de Pobres-Premium

 O "Doutor" do WhatsApp e a Fábrica de Pobres-Premium

​O mundo mudou, mas o roteiro é o mesmo. Antigamente, para entender de economia, você precisava de um livro grosso e três cafés. Hoje? Meio vídeo de um influenciador com um jatinho ao fundo e pronto: você já está pronto para explicar por que a taxação de jatinhos é o que vai impedir você — que vai de ônibus para o trabalho — de ficar milionário.

​É a era do "Orgulho da Ignorância". O intelectual virou o "preguiçoso das ideias". Afinal, para que gastar neurônio com materialismo histórico se você pode apenas repetir que "justiça social é coisa de quem não gosta de acordar cedo"?

​A retórica é um espetáculo de mágica: A elite financeira convence o sujeito de que o verdadeiro inimigo dele não é o juro do cartão de crédito ou a falta de saneamento, mas o "fantasma do comunismo" que vai expropriar a sua bicicleta aro 26.

​Enquanto isso, o "Doutor do WhatsApp" — aquele que se orgulha de nunca ter aberto um livro de sociologia, mas "manja tudo de mercado" — jura de pé junto que os super-ricos são seres benevolentes. "Eles são os provedores!", diz ele, emocionado. Na cabeça desse cidadão, o bilionário não quer lucro; ele quer apenas, do fundo do seu coração de ouro, gerar empregos para que o pobre possa, um dia, comprar um curso de "Como ser um Leão em um Mundo de Ovelhas".

​O segredo do poder atual é genial: terceirizaram a defesa da elite.Não é mais o patrão que diz que o salário está alto; é o próprio funcionário, com sede de "meritocracia", que defende o patrão no Facebook, achando que, se ele latir alto o suficiente para os intelectuais, ganha uma vaga no camarote da riqueza.

​É o triunfo da distorção proposital. O sujeito não quer ser independente, ele quer ser um "pobre-premium". Ele troca a reflexão filosófica por um post de autoajuda e o espírito científico por uma teoria da conspiração bem temperada.

​No fim, a elite ri, toma seu vinho de 5 mil reais e agradece: "Graças a Deus que eles acham que estudar é coisa de comunista. Assim, a gente continua sendo dono das máquinas... e das opiniões deles também."

Moral da história: Se o seu conhecimento vem de quem ganha dinheiro com a sua ignorância, parabéns: você não é um investidor, você é o investimento.

terça-feira, 27 de janeiro de 2026

"COMBATI O BOM COMBATE": Saiba qual o significado e quais as interpretações erradas.


O Combate da Essência contra a Vitrine: O Resgate do Humano na Era do Espetáculo


No corredor da morte, em uma cela úmida de Roma, o apóstolo Paulo escreveu sua última sentença de vitória: "Combati o bom combate, acabei a carreira, guardei a fé". Séculos depois, essa frase atravessou as eras, mas ao chegar na modernidade, sofreu uma mutação perigosa. O que era um hino ao desapego e à fidelidade espiritual tornou-se, nas mãos de uma mídia oportunista e de um sistema financeiro voraz, um slogan para a busca incessante por poder, lucro e status.

1. A Desvirtuação do Sagrado

O "bom combate" de Paulo não era contra inimigos externos ou escassez financeira, mas uma luta de integridade contra a corrupção do espírito. No entanto, a lógica do capitalismo desenfreado operou um sequestro semântico dessa fé.

Hoje, prega-se que "vencer o combate" é sinônimo de prosperidade material e sucesso no mercado. Essa distorção ignora o alerta de 1 Timóteo 6:10, transformando o "amor ao dinheiro" — a raiz de todos os males — em uma suposta evidência de favor divino. Quando a fé se torna ferramenta de lucro, ela deixa de libertar o homem para escravizá-lo ao ego.

2. A Coisificação e a Sociedade do Espetáculo

Essa transição do "ser" para o "ter" atingiu seu ápice com a Sociedade do Espetáculo. Como analisado pela sociologia contemporânea, o ser humano deixou de existir plenamente para apenas "parecer".

A coisificação é o produto final desse processo: o homem é transformado em mercadoria. Nas redes sociais, nossa vida, nossa fé e até nossa caridade são "embaladas" para o consumo. O próximo deixa de ser um irmão e passa a ser um espectador ou um número de engajamento. Nesse mercado de almas, o "tesouro no céu" é trocado por curtidas, e a paz de espírito é sacrificada no altar da comparação constante.

3. O Reflexo Político-Econômico

O capitalismo, ao colocar o capital acima da dignidade humana, espelha essa filosofia do espetáculo. Na esfera política, as decisões são muitas vezes pautadas pela manutenção dessa vitrine de poder, negligenciando o "bem-estar da alma" da sociedade. Onde o dinheiro é o centro, a empatia é vista como custo e a espiritualidade autêntica como ameaça, pois um homem que não se vende é um homem que o sistema não pode controlar.

4. O Caminho da Resistência

Resistir à coisificação é o verdadeiro "bom combate" do século XXI. Isso exige:

Desmercantilizar a fé: Entender que a conexão com o divino é gratuita e não se mede por posses.

Praticar a interioridade: Cultivar tesouros que não podem ser postados ou vendidos.

Humanizar o outro: Romper a tela do espetáculo para enxergar o próximo além do algoritmo.

5. O Abismo entre o Significado e o Uso

​A frase "E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará" (João 8:32) tornou-se o pilar da comunicação de Jair Bolsonaro. No entanto, há um abismo teológico entre o texto e o uso:

No Contexto Bíblico: A "Verdade" é uma pessoa (Jesus) e uma realidade espiritual que liberta o homem do pecado e do egoísmo. É uma libertação interna.

No Discurso Político: A "Verdade" foi recontextualizada como "informação política correta" (o discurso do próprio candidato), enquanto a "mentira" era atribuída exclusivamente aos oponentes. A libertação prometida não era da alma, mas de um sistema político específico.

​Essa manobra cria o que acadêmicos chamam de Messianismo Político. O líder deixa de ser um administrador público para se tornar um "enviado", blindando-se de críticas racionais, pois questioná-lo passa a ser visto pelos seguidores como um ataque à própria vontade de Deus.

Conclusão

Paulo terminou sua corrida com as mãos vazias de ouro, mas o coração cheio de eternidade. A lição que fica para os dias atuais é clara: a vida bem vivida não é aquela que se acumula para o espetáculo, mas a que se preserva íntegra diante do invisível. O acúmulo de riquezas pode construir monumentos na terra, mas apenas o amor e a fidelidade ao propósito divino guardam o coração para o que é eterno.