quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

A Necessidade e o Risco da Polarização e os Perigos da Extrema Direita



A polarização extrema muitas vezes empurra o eleitor para escolhas baseadas na rejeição ao "outro", o que pode mascarar riscos institucionais severos. Tá na hora de eleger os prós e os contras e ver qual lado pesa mais na balança.

O cenário político brasileiro vive um momento de tensão onde o "voto por rejeição" tem ditado os rumos das urnas. No entanto, cientistas políticos alertam: quando o antipetismo se torna o único motor de escolha, ele pode abrir as portas para projetos de extrema direita que colocam em xeque a própria sobrevivência das instituições e da liberdade.

A Identidade por Oposição: Muitas vezes, o voto deixa de ser "a favor de um projeto" para ser "contra um inimigo". O antipetismo, em diversos momentos, tornou-se uma identidade política mais forte do que a adesão a qualquer outra ideologia específica. Quando o foco é destruir ou impedir o "outro", abre-se uma brecha para que propostas sem base democrática sólida sejam aceitas como o "único caminho".

O Nacionalismo como Camuflagem: O uso de símbolos patrióticos para validar discursos autoritários é um fenômeno clássico. Ao rotular a oposição como "inimiga da pátria", o projeto autoritário consegue:

 * Desviar o debate de questões socioeconômicas reais.

 * Criar uma sensação de pertencimento e heroísmo no eleitor.

 * Justificar medidas de exceção sob o pretexto de "salvar a nação".

A Ausência do Projeto Coletivo: a falta de consciência sobre um projeto popular e coletivo fragmenta a sociedade. Quando o eleitor não se vê como parte de uma construção social de longo prazo, ele busca soluções rápidas e figuras messiânicas. O resultado é a entrega do poder a grupos que defendem a liberdade no discurso, mas que, na prática, trabalham para restringir direitos e concentrar poder.

A democracia só amadurece quando o debate sai do campo do "quem eu odeio" e entra no campo do "que tipo de país queremos construir juntos".

Da Luta de Classes ao Equilíbrio Democrático

Historicamente, a polarização política era desenhada pelo conflito de classes: operários versus burguesia. Nessa visão binária, supõe-se que a esquerda represente o socialismo revolucionário, enquanto a direita encarna o capitalismo neoliberal puro.

No entanto, a grande inovação do século XX para evitar o colapso das nações foi a Social Democracia (ou socialismo democrático). Ela surgiu como a verdadeira "terceira via", provando que é possível conciliar o desenvolvimento econômico capitalista com justiça social e bem-estar coletivo, sem recorrer a autoritarismos de nenhum dos lados.

Os Perigos da Extrema Direita

Diferente da direita tradicional ou conservadora, a extrema direita rompe com o pacto da social democracia e fragiliza o tecido social através de:

 * Ataque às Instituições: Questionamento da legitimidade do sistema eleitoral e do Judiciário.

 * Erosão de Direitos: Pautas que marginalizam minorias e atacam conquistas históricas em direitos humanos.

 * Retórica de Confronto: Substituição do debate técnico pelo "inimigo interno", fomentando a violência política.

 * Autoritarismo Disfarçado: O uso do voto para, uma vez no poder, desmantelar o sistema de freios e contrapesos (checks and balances).

Por que o Antipetismo Radical é Perigoso Hoje?

O sentimento de oposição ao PT é legítimo, mas quando se torna um "cheque em branco" para qualquer alternativa oposta, os riscos são altos:

 * A Cega Escolha do "Qualquer Um": O desejo de afastar um partido pode levar o eleitor a ignorar o radicalismo perigoso de outro candidato.

 * O Esvaziamento do Centro: A polarização sufoca a moderação. Sem o espaço da social democracia, o país perde a capacidade de negociar soluções pragmáticas para a economia e a educação.

 * A Normalização do Absurdo: Para derrotar o "inimigo", muitos passam a aceitar discursos de ódio como um "mal menor", degradando a cultura política a longo prazo.

"A democracia não morre apenas por golpes; ela morre quando os cidadãos acreditam que a destruição do adversário justifica o fim das regras do jogo."

Conclusão: O Caminho da Estabilidade

Para quem defende que o PT não é o caminho, a solução não deve ser o salto no escuro do extremismo. O desafio é fortalecer alternativas que, inspiradas no equilíbrio da social democracia, respeitem a Constituição e foquem na união nacional. A alternância de poder é vital, desde que o sucessor não se proponha a destruir a própria escada democrática que o fez subir.

O primeiro turno das eleições é sempre usado como escudo, pois, permite fugir da polarização. Porém, no segundo turno se definem de que lado realmente está o eleitor, ou do lado da luta operária ou do lado dza zona de conforto da burguesia. 

Quem venceu as eleições de 2022 foi a "Frente Ampla pela Democracia", um reconhecimento claro de que o PT, mesmo com o antipetismo acentuado de 2018, representava a única alternativa para vencer a extrema direita naquele momento. Portanto, foi um ato de bom senso da população baixar a guarda e optar pela democracia. 

Terceira Via? Entre Socialismo revolucionário e Capitalismo neoliberal, existe a social democracia que equilibrar e fazer justiça social dentro do capitalismo. Tem como?

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

8 de Janeiro: O Brasil e ódio ao seu próprio país



O Labirinto da Divisão: Reflexões sobre o 8 de Janeiro e o Espelho da Nação

A história costuma ser escrita com o passar das décadas, mas há momentos que queimam a retina do tempo com tamanha intensidade que exigem reflexão imediata. O 8 de Janeiro (2023) não foi apenas uma data no calendário civil; tornou-se o ápice de uma fratura exposta na alma brasileira.

Utilizando a máxima bíblica citada em Mateus 12:25, "Todo reino dividido contra si mesmo será arruinado", fica claro que o que se viu em Brasília foi o resultado de uma casa que parou de se reconhecer como um lar comum.

Entendemos que a luta de classes operários versus burguesia é legítima, pois, o capitalismo só existe porque explora e suga o trabalhador e fica com o trabalho não pago como lucro. Portanto, não se trata de uma polarização maléfica, mas, uma classificação política necessária para que a luta social tenha seu objetivo cumprido.

A luta de classes saiu do campo ideológico e político para excessivos interesses pessoais, saindo do campo da civilidade para entrar na bárbarie e na reação brutal e violenta contra quem pensa o contrários dos interreses da classe dominante. 

A Contradição dos Atos e o Peso dos Valores

A análise dos fatos revela uma série de paradoxos que desafiam a lógica da convivência democrática e da própria fé professada por muitos dos envolvidos:

O Falso Patriotismo: O conceito de pátria reside no zelo pelas instituições e pelo patrimônio que pertence a todos. Depredar as sedes dos Três Poderes sob o manto da bandeira nacional é uma contradição em termos. Não se protege uma nação destruindo seus alicerces físicos e simbólicos.

O Cristianismo e a Violência: É alarmante observar discursos que se dizem cristãos, mas que flertam com o autoritarismo e a exaltação de meios violentos. A retórica do "derramamento de sangue" é o oposto do "amar ao próximo", revelando que, em muitos casos, a ideologia política sequestrou a espiritualidade.

O Peso das Críticas: Existe uma seletividade retórica latente. Grupos que historicamente condenam invasões de propriedades privadas — como as críticas direcionadas ao MST — viram-se, ironicamente, ignorando ou justificando a invasão e depredação da maior "propriedade" do povo brasileiro: o centro administrativo do Estado.

O Espelho Externo e a Fragilidade Interna

A comparação com potências como os Estados Unidos traz uma reflexão amarga. Enquanto o império norte-americano, apesar de suas contradições e histórico de intervenções, mantém uma coesão interna baseada na preservação rigorosa de suas instituições, o Brasil parece sucumbir ao ódio fratricida.

A idolatria ao estrangeiro somada à normalização de atos brutais praticados em outros territórios demonstra uma perda de identidade nacional. Quando o cidadão passa a admirar a força bruta externa em detrimento da diplomacia e da ordem interna, ele deixa de ser um patriota para se tornar um súdito de ideias alheias.

O Veredito da História: Traição ou Despertar?

O 8 de Janeiro será lembrado como um ato de traição à pátria, não apenas pelo dano material aos prédios de Niemeyer, mas pela tentativa de silenciar o voto e a vontade popular através do caos. O ódio político e o antipetismo radicalizado cegaram a percepção de que governantes são passageiros, mas as instituições devem ser perenes.

A verdadeira reconstrução do Brasil não passa apenas por reformas econômicas ou políticas, mas por uma reforma ética e civilizatória. É preciso decidir se continuaremos a ser uma casa dividida — e, portanto, fadada à ruína — ou se seremos capazes de discordar sem destruir o chão onde todos pisamos.

O maior inimigo de uma nação não é o adversário político do outro lado da rua, mas a incapacidade de reconhecer que ambos pertencem à mesma terra.




domingo, 4 de janeiro de 2026

2026: O Brasil e a América Latina contra o imperialismo estadunidense

O ano de 2026 começa com um roteiro conhecido, mas intensificado: o uso da força bruta e da pressão econômica como ferramentas de diplomacia por parte de Washington. Enquanto o mundo observa as movimentações no tabuleiro global, a "sede" energética americana volta a ditar o ritmo de tensões na América Latina e no Pacífico, colocando em xeque a soberania de nações em desenvolvimento.

2026: O Despertar do Arsenal e a Geopolítica da "Commodity"

A estratégia dos EUA para este ano é clara: assegurar o domínio sobre o fluxo global de petróleo para controlar a inflação interna e sufocar adversários. Recentemente, a ofensiva contra a Venezuela e as pressões sobre o Mar do Sul da China mostram que os Estados Unidos não aceitam nada menos que a hegemonia absoluta sobre as rotas de energia.

O cenário de 2026 desenha-se como um dos momentos mais críticos para a soberania da América Latina. O ataque à Venezuela e o sequestro do presidente Nicolás Maduro por forças sob o comando de Donald Trump não são apenas atos contra um país vizinho; são mensagens diretas de que a Doutrina Monroe foi atualizada para uma versão muito mais agressiva.

EUA vs. China: Investimento Militar na Energia

A comparação entre as duas potências revela visões de mundo distintas:

 * Estados Unidos: O orçamento militar americano (que em 2025 já era quatro vezes maior que o chinês) foca na proteção de rotas marítimas e intervenção direta. Em 2026, os EUA ampliaram sua presença no Pacífico com o objetivo explícito de "conter" o avanço chinês sobre áreas ricas em hidrocarbonetos.

 * China: Pequim adotou uma estratégia de "Modernização de Defesa" com foco em IA e ciberguerra para proteger suas importações. Embora o gasto militar chinês (cerca de US$ 249 bilhões) seja menor, ele é direcionado para a negação de acesso aos EUA em águas regionais, tentando quebrar o cerco imperialista sobre seus suprimentos de energia.

O Papel do Brasil: Diplomacia Sob Pressão

Em meio a este cenário, o Brasil assume um papel de equilíbrio crítico. Sob um governo de esquerda liderado pelo presidente Lula, o país defende o multilateralismo e a soberania sobre seus próprios recursos, como as reservas do Pré-Sal e os minerais críticos (terras raras).

 "Ninguém põe a mão nas riquezas brasileiras." — Esta frase resume a postura de Brasília frente ao interesse predatório de Washington.

Como um país diplomático, o Brasil rejeita a guerra, mas enfrenta o dilema da segurança: como se proteger de uma superpotência que utiliza sanções e ameaças militares para baixar o preço do barril "no grito"?

A resposta não é simples, mas passa por dois pilares fundamentais que precisam caminhar juntos:

1. Diplomacia de Soberania (O Escudo Político)

O governo atual, liderado pelo presidente Lula, tem a tradição de ser o "fiel da balança" na região. A diplomacia brasileira deve:

 * Condenar a Unilateralidade: Reafirmar que ataques sem respaldo da ONU são atos de guerra coloniais.

 * Fortalecer o Bloco Regional: Sem uma união sul-americana, cada país será "engolido" individualmente pela sede imperialista.

 * Neutralidade Ativa: Manter o diálogo técnico com Washington (vitórias econômicas rápidas) sem ceder o controle de recursos estratégicos (minerais raros e petróleo).

2. Defesa Bélica e a Questão Nuclear (O Escudo de Dissuasão)

O debate sobre armas nucleares no Brasil é historicamente complexo, mas em um mundo onde a força bruta ignora tratados, a Dissuasão Estratégica torna-se um tema inevitável:

 * A "Faca no Pescoço": Países como Coreia do Norte e Irã mostram que a posse de tecnologia nuclear é, na prática, a única garantia de que os EUA não realizarão uma invasão direta.

 * Capacidade Técnica: O Brasil já domina o ciclo completo do urânio. A decisão de não ter a bomba é política e ética. No entanto, muitos analistas defendem que, para proteger o Pré-Sal da "arrogância estadunidense", o Brasil precisa, no mínimo, de uma Marinha e Aeronáutica com tecnologia de ponta (como o Submarino Nuclear) que torne o custo de qualquer agressão proibitivo para o invasor.

O Dilema da Paz

O Brasil é um país de paz, mas a paz sem defesa é, muitas vezes, apenas uma espera pela rendição. Entre a diplomacia e a defesa bélica, o caminho mais seguro parece ser a Diplomacia Armada: falar a linguagem do direito internacional, mas ter poder de fogo suficiente para que ninguém ouse "sequestrar" a soberania brasileira por causa de seu petróleo.

A Dissuasão Nuclear como Escudo Contra o Imperialismo

Um debate que ganha força em 2026 é a eficácia das armas nucleares como única barreira real contra o imperialismo estadunidense. Historiadores e estrategistas apontam que países sem capacidade de dissuasão nuclear (como o Iraque ou a Líbia) foram alvos fáceis de invasões justificadas por "necessidade energética".

A posse de armas nucleares, nesta ótica, não seria para o ataque, mas para garantir que o custo de uma intervenção americana seja proibitivo. Para muitos países do Sul Global, o armamento atômico surge como o "último recurso" de soberania em um mundo onde as regras internacionais são dobradas conforme o interesse da Casa Branca.

IA: O Novo Soldado na Extração de Petróleo

Enquanto o arsenal nuclear serve de escudo, a Inteligência Artificial serve de espada econômica. Em 2026, a IA não é mais usada apenas para escritórios; ela controla perfurações autônomas e prevê falhas em tempo real, permitindo que os EUA e gigantes como a Petrobras extraiam petróleo de áreas antes consideradas inviáveis, barateando o custo de produção e aumentando a resiliência nacional.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

O PRAZER COMO TIRANO: "Faça-me feliz" é uma falácia?

 

O PRAZER COMO TIRANO: Faça-me feliz é uma falácia?

Há quem diga que sim. Porque prazer e felicidade não são sinônimos. Existe uma promessa silenciosa que orienta boa parte das nossas escolhas: se eu alcançar isso, serei feliz. Esse “isso” muda de forma — um relacionamento, uma conquista profissional, um objeto desejado, uma experiência intensa —, mas a lógica permanece a mesma. A felicidade é projetada para fora, colocada nas mãos de algo ou alguém. É aqui que o prazer assume o trono. E, como todo tirano, ele governa por instantes de euforia e longos períodos de vazio.

Prazer e felicidade não são sinônimos. O prazer é imediato, externo e reativo. Ele nasce do estímulo e morre com ele. A felicidade, por sua vez, é serena, interna e construída. Não depende do pico, mas da base. Enquanto o prazer grita “agora!”, a felicidade sussurra “permaneça”.

O problema não está em sentir prazer. Ele faz parte da condição humana. O erro começa quando o prazer é elevado à condição de finalidade da vida. Quando isso acontece, passamos a organizar nossas decisões não pelo que nos torna íntegros, mas pelo que nos excita, nos distrai ou nos anestesia. O prazer, então, deixa de ser convidado e se torna senhor.

A armadilha é sutil. O prazer entrega recompensas rápidas e cobra juros altos. Cada pico exige outro maior. Cada satisfação momentânea amplia o intervalo de insatisfação que a sucede. É um mecanismo de dependência: quanto mais se busca, menos se encontra. A sensação de vazio não surge por falta de prazer, mas por excesso dele — um excesso sem raízes.

Paixões intensas, consumo compulsivo, validação constante, comida em excesso, trabalho como fuga, entretenimento sem pausa. Todas essas formas têm algo em comum: prometem preencher um espaço interno que não se deixa ocupar por estímulos externos. O prazer atua como um paliativo elegante. Alivia, mas não cura. Distrai, mas não sustenta.

A felicidade, ao contrário, não se oferece como espetáculo. Ela se constrói na coerência entre valores e ações, na aceitação dos limites, no compromisso com o que faz sentido mesmo quando não é confortável. Por isso, ela não seduz as massas. Ela exige maturidade.

Buscar prazer não é errado. Submeter a vida a ele é. Quando o prazer governa, a pessoa se torna refém do próximo estímulo, da próxima dose, da próxima aprovação. Vive-se em função de algo que nunca se fixa. O resultado é previsível: ansiedade quando falta, frustração quando passa, vazio quando acaba.

A felicidade não elimina a dor, mas dá significado a ela. O prazer tenta eliminar qualquer desconforto, e ao fazer isso, elimina também a profundidade. Uma vida guiada apenas pelo prazer tende a ser rasa — barulhenta na superfície, silenciosa no sentido.

É nesse ponto que a pergunta essencial surge: onde você tem buscado seu prazer? E, mais importante ainda: o que você espera que ele resolva?

sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

Sobrevivência ou Submissão: A Armadilha do Emprego Político nas Pequenas Cidades

Sobrevivência ou Submissão: A Armadilha do Emprego Político nas Pequenas Cidades

Interior do Brasil – Em muitas pequenas cidades, o relógio da economia não gira no ritmo do comércio ou da indústria, mas sim ao compasso da caneta do prefeito. Sem políticas públicas efetivas de geração de emprego e renda, e com um setor comercial asfixiado pela falta de incentivo, a população se vê diante de um dilema cruel: ou se submete ao "beija-mão" nos gabinetes políticos ou faz as malas em busca de oportunidades fora.

A Prefeitura como "Única Empresa"

A realidade é nua e crua: em municípios com pouca diversificação econômica, a Prefeitura se torna o maior – e às vezes único – empregador formal. O que deveria ser um serviço público técnico transforma-se em um balcão de negócios eleitorais.

O cidadão, refém da falta de opções, acaba sendo forçado a "pedir" emprego ao político. Cria-se, assim, uma massa de trabalhadores contratados precariamente, cuja estabilidade dura apenas até a próxima eleição ou até o próximo humor do gestor.

Dentro das repartições, o cenário é de desvalorização. Enquanto servidores dedicados carregam o piano da administração, uma casta de apadrinhados – muitos dos quais apenas batem o ponto (quando batem) – recebe salários e gratificações em troca de fidelidade canina ao grupo no poder. Essa distorção desmotiva quem realmente trabalha e onera os cofres públicos sem retorno em qualidade de serviço para a sociedade.

O Clientelismo que Elege e Escraviza

Supõe-se, não sem razão, que a reeleição de muitos prefeitos esteja alicerçada nessa "folha de pagamento paralela". Ao inchar a máquina pública com contratos temporários, o gestor não apenas "ajuda" famílias aliadas, mas garante um exército de cabos eleitorais.

Essa prática nefasta é a principal barreira para a realização de concursos públicos. O concurso liberta o cidadão da amarra política; o contrato temporário o mantém de joelhos. Para o político tradicional, o cidadão livre é um perigo. Além de, a maioria das prefeituras, não pagarem todos os direitos trabalhistas, nem o piso da categoria. 

O "Capitão do Mato" do Século 21 e a Guerra de Pobres

Em meio à escassez, surge uma figura socialmente trágica: o "capitão do mato" moderno. São pessoas da própria classe trabalhadora que, por migalhas de poder ou pequenas vantagens financeiras, entregam seus companheiros e fiscalizam a fidelidade política alheia em nome do "patrão".

Essa dinâmica é alimentada por condições de trabalho indignas e pela disputa desesperada por sobrevivência. O sistema é desenhado para colocar pobre contra pobre, enquanto a elite política se mantém intocada.

A Raiz do Problema: Educação e Desinformação

Analistas apontam que esse ciclo de dependência não é acidental. Ele é mantido pelos precários investimentos em educação crítica e potencializado, nos últimos anos, pela ofensiva antiintelectualista.

A disseminação de notícias falsas e a retórica extremista, muitas vezes associada à extrema direita, criam uma cortina de fumaça. O trabalhador é induzido a votar no seu próprio explorador, acreditando em pautas morais ou no medo de "comunismos" imaginários, enquanto a política real – aquela que tira o pão de sua mesa e o emprego de seu filho – é gerida para manter o status quo.

Sem uma política econômica que fortaleça o pequeno comércio e sem uma educação que liberte a mente, as pequenas cidades continuarão sendo reféns de um feudalismo moderno, onde a saúde financeira do município e a dignidade de seu povo dependem, exclusivamente, da vontade do "dono" da cidade.

Entre o Balcão e o Guichê: O Dilema da Identidade nos Correspondentes Bancários em Sergipe

Entre o Balcão e o Guichê: O Dilema da Identidade nos Correspondentes Bancários em Sergipe

Análise Reflexiva

Em muitas cidades do interior de Sergipe, a paisagem urbana sofreu uma mudança drástica nos últimos anos. Com o fechamento de agências bancárias devido à insegurança e aos constantes arrombamentos, a figura do "Correspondente Bancário" — carinhosamente ou por vezes erroneamente chamado de "Ponto" — tornou-se o novo centro de gravidade das comunidades. No entanto, por trás da placa azul do Banco do Brasil ou do selo de outras instituições, esconde-se um dilema empresarial profundo: onde termina o banco e começa a loja?

O Fenômeno da "Loja Invisível"

Diferente das Casas Lotéricas ou do Ponto Banese, que possuem ambientes projetados exclusivamente para o fluxo financeiro, o correspondente bancário em farmácias, mercados e papelarias é um hóspede que, muitas vezes, acaba expulsando o "dono da casa".

O que deveria ser um serviço adicional para atrair público acaba gerando a "síndrome da marca apagada". O cliente entra buscando o terminal de saques e ignora as prateleiras. Para muitos empreendedores sergipanos, o prestígio de ser um braço do Banco do Brasil traz consigo o ônus de ver sua identidade comercial obscurecida. O estabelecimento deixa de ser a "Farmácia do João" para se tornar "o lugar onde paga o boleto".

A Luta Contra a Sazonalidade e o Caixa

A operação financeira de um correspondente é um exercício de equilibrismo. A conta não é simples: para o cliente sacar nos primeiros cinco dias úteis, é preciso que alguém tenha depositado nos dias anteriores. O lojista se vê em uma encruzilhada logística.

 * O Pico do Saque: No início do mês, filas dobram a esquina. O fluxo de pessoas aumenta, mas a carga de trabalho e o risco de segurança também.

 * O Limite do Depósito: Passado o período de pagamentos, o terminal trava no limite de R$ 5 mil imposto pela tecnologia e segurança.

O resultado? Um fluxo intenso de pessoas que consome o tempo dos funcionários da loja, ocupa o espaço físico e, frequentemente, não consome um único produto das prateleiras.

A Ilusão da Estrutura de Agência

O ponto nevrálgico desse conflito é a expectativa do consumidor. Amparados pela necessidade, muitos usuários buscam no balcão de uma mercearia o mesmo atendimento complexo de uma agência bancária. Quando o sistema cai ou o dinheiro acaba, a frustração é direcionada ao lojista, e não à instituição financeira. A verdade é que correspondente não tem dinheiro, o numerário do "ponto" é o resultado do movimento de depósitos e recebimentos de contas para entrar dinheiro que servirá para o saque ou para o alívio. 

A Resolução nº 3.954/2011 do Banco Central é clara: o correspondente deve manter sua identidade e informar que é apenas um prestador de serviços. Mas, na prática, a comunicação visual agressiva dos bancos e a carência da população criam um "curto-circuito" informacional. O empreendedor não pode cobrar taxas extras pelo serviço — o que é justo para o consumidor, mas frustrante para quem vê os custos de energia, internet e pessoal subirem sem uma contrapartida direta nas vendas da loja.

Reflexão Final: Vale a Pena Ser um "Ponto"?

A resposta para essa pergunta não está nos números frios das comissões bancárias, que costumam ser baixas, mas na estratégia de sobrevivência.

Ser um correspondente bancário em Sergipe hoje é, acima de tudo, uma prestação de serviço social. Vale a pena se o lojista conseguir transformar o "homem do boleto" em um "comprador de conveniência". Se o fluxo de pessoas não for convertido em venda de produtos, o comerciante corre o risco de se tornar um gerente de banco não remunerado, arcando com os riscos e o cansaço de uma estrutura que não é sua.

Para o pequeno empresário, fica o desafio: como reaver a identidade da sua loja quando o adesivo do banco no vidro parece brilhar mais do que os seus próprios produtos? A transparência exigida pelo Banco Central não é apenas uma regra jurídica; é, para o lojista, uma necessidade de sobrevivência de marca.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2025

EDUCAÇÃO: Afinal, professor "ganha" bem ou mal?

Na prática, o professor brasileiro recebe mal, o que é uma contradição ética e um obstáculo ao desenvolvimento nacional.

​O cerne da questão é que a sociedade e o Estado brasileiro não traduzem o alto valor (o "ganho") do professor em remuneração justa (o "recebimento"). Enquanto essa disparidade persistir, a profissão será marcada pela desvalorização, e a qualidade da educação permanecerá comprometida. O salário do professor deve refletir o investimento na construção de um país. 

O debate sobre se R$ 2.000 ou R$ 5.000 é "ganhar bem" no Brasil desvia o foco da verdadeira questão: o salário do professor não é apenas uma remuneração, é um investimento direto no futuro da nação. Defender um salário digno para o magistério não é um pleito corporativo; é uma estratégia de desenvolvimento social e econômico inadiável.

O professor é a base de todo o capital humano do país. Nenhuma outra profissão – seja ela na medicina, engenharia, direito ou tecnologia – pode sequer existir sem a fundação sólida estabelecida por um educador. O professor não apenas transmite conteúdo; ele molda o pensamento crítico, incentiva a criatividade e, fundamentalmente, fornece as ferramentas cognitivas e éticas necessárias para o exercício pleno da cidadania e da produtividade.

A Rotina Invisível: O salário não remunera apenas as horas em sala de aula (a execução). A rotina do educador transcende o horário de sala de aula e consome muito além da carga horária oficial. A função vai muito além de meramente ministrar as lições: envolve o planejamento, a elaboração, a execução adaptativa do currículo e a avaliação rigorosa dos resultados. Sem tempo remunerado adequado para essas etapas cruciais, a qualidade do ensino inevitavelmente se degrada.

Contudo, a sobrecarga de trabalho é agravada por uma doação pessoal e financeira injusta e insustentável. Em escolas carentes e regiões com baixo investimento, o acesso à educação de qualidade depende diretamente do bolso do professor. A inércia de governos que não priorizam a educação e não fornecem os recursos necessários acaba pesando financeiramente para o professor, que custeia materiais, cópias e até recursos lúdicos, apenas para garantir um ambiente de aprendizado minimamente funcional.

A desvalorização salarial atual, comprovadamente baixa em comparação a outras carreiras de nível superior e à média internacional, cria um ciclo vicioso destrutivo. Ela afasta os talentos mais promissores da carreira docente e impõe aos profissionais que permanecem na área essa dupla jornada de trabalho e custeio.

Portanto, equiparar o salário do professor à média de outras profissões de nível superior não é um gasto, mas sim o custo necessário para garantir a excelência educacional. Somente com remunerações justas, que reflitam a importância e a complexidade integral de sua missão – da elaboração pedagógica ao custeio de materiais em escolas deficientes – o Brasil conseguirá atrair, motivar e reter os melhores profissionais. A valorização salarial do professor é, em essência, a valorização do futuro do Brasil.