Dona Maria guardava a roupa de domingo no lado mais alto do guarda-roupa, envolvida num lençol antigo para não pegar poeira. Aquele vestido de linho não era apenas pano e linha; era o resultado de meses de economia, o símbolo visível de uma dignidade conquistada a duras penas. O sapato de couro do meu pai recebia graxa e polimento quinzenal, durando mais de década, e a geladeira — aquela relíquia pesada que funcionava a gás — parecia feita para atravessar eras sem dar um único estalo de hesitação.
Naqueles tempos, as coisas tinham peso porque o esforço para obtê-las era descomunal. Meus pais souberam o que era a escassez real, aquela que doía no estômago e tirava o sono. Por isso, cada colher de comida, cada calçado solado e cada garantia mínima de paz eram tratados com uma veneração quase sagrada.
Hoje, a roupa de sair tornou-se descartável na terceira lavagem. O sapato moderno traz uma cola com prazo de validade calculado em fábrica, e a geladeira inteligente já sai da loja com a sentença de morte decretada pela obsolescência programada de sua placa eletrônica. Acostumamo-nos a jogar fora o que quebra, sem o trabalho de consertar, fascinados pelo brilho do novíssimo modelo da vitrine.
O problema é que essa lógica de consumo rápido contaminou a nossa percepção da história.
As novas gerações nasceram sob o teto da estabilidade, ouvindo o zumbido constante da geladeira elétrica e tomando a moeda forte, o prato cheio e o direito de ir e vir como dados da natureza, tão garantidos quanto o nascer do sol. Esqueceu-se o preço do suor que ergueu essas paredes. Criou-se a ilusão perigosa de que o "berço esplêndido" é eterno e que a barbárie do passado jamais ousará bater à porta novamente.
Mas a história, assim como a indústria, também conhece a sua própria obsolescência programada — só que operada por mãos humanas.
Em nome do cansaço ou da ilusão do consumo fácil, a sociedade começa a entregar a chave da casa para autocratas habilidosos. Eles já não vêm de farda ou com tanques na rua; vêm vestindo o terno do momento, falando a língua do povo e usando as regras do próprio jogo democrático para aparelhar as instituições por dentro. Apresentam-se como salvadores, mas vendem a erosão gradual dos direitos enquanto a plateia aplaude a novidade.
Vota-se no autoritário disfarçado de democrata com a mesma leviandade com que se descarta um aparelho celular usado. Confia-se a liberdade a quem abertamente a despreza, acreditando que a democracia é uma estrutura de concreto inabalável, quando na verdade ela se parece muito mais com uma planta delicada, que seca e morre se não for regada todos os dias.
Como alertava a canção popular, é preciso lutar e ajudar, antes que se perca o que já foi conquistado. Quando a última engrenagem da liberdade for corroída pela complacência e pela ignorância histórica, descobriremos — tarde demais — que a democracia não tinha garantia de fábrica, nem peças de reposição na prateleira.






