Entre a herança camoniana e as prisões do afeto moderno, uma leitura estética sobre o medo da perda e a coragem da entrega na poesia de F. J. Hora
SONETO
Fascinado, intrigado, hipnotizado
Em minha vida mais uma ilusão
Que para mim só bastava a paixão
Disfarçar-me o desejo, ser amado
Vi de repente aos olhos revelado
O valor humano em transformação
E já num instante virar prisão
O que para libertar foi guardado.
Cá no meu pensamento temo ser
Como a criança sem o seu brinquedo
Não ganho para não ter que perder
Mas, mesmo sendo humano perdi o medo
O qual antes achava já não ter
Revelar-lhe de mim cada segredo.
In: HORA, F. J. Síntese Literária, 2013.
Dizia Camões, no ápice do Maneirismo quinhentista, que o amor é um "não querer mais que bem querer". Séculos se passaram, a língua se moldou, o mundo acelerou, mas o labirinto do afeto humano permanece intacto. É nessa mesma linhagem de perplexidade e rigor formal que o poeta F. J. Hora, em sua obra Síntese Literária (2013), inscreve o seu "SONETO", uma peça que equilibra perfeitamente a lucidez crítica e o abalo emocional.
Ao primeiro contato, o poema nos arrasta para uma ciranda psicológica. O verso de abertura — “Fascinado, intrigado, hipnotizado” — funciona como um portal de tontura. Há uma gradação quase cinematográfica aqui: o eu lírico não apenas olha para o amor; ele é capturado por ele. Contudo, longe de ser uma ode romântica ingênua, o texto assume imediatamente sua faceta crítica. O poeta sabe que a paixão, muitas vezes, é uma arquitetura de espelhos, “mais uma ilusão” projetada pela nossa necessidade urgente de sermos validados pelo outro.
O grande trunfo do soneto reside na sua capacidade de traduzir conceitos abstratos em imagens de forte apelo visual e plástico. Na transição para o segundo quarteto, assistimos a uma espécie de alquimia reversa. O que deveria ser o ápice da liberdade — o sentimento guardado, protegido do mundo exterior — transmuta-se, sob o peso do apego, em “prisão”. Visualmente, o leitor quase consegue enxergar um coração anatômico envolto em correntes douradas: belo, porém imóvel. É o paradoxo clássico da autodefesa; para não sofrer, o indivíduo se enclausura, sem perceber que o castelo que o protege é o mesmo que o isola.
É no primeiro terceto que a crônica do medo atinge seu ápice lírico e conceitual. Com a precisão de um cirurgião do espírito, Hora lança mão da metáfora da infância: “Como a criança sem o seu brinquedo / Não ganho para não ter que perder”. Há uma melancolia devastadora nessa lógica mercantilista do afeto. O eu lírico assume o medo da perda antes mesmo de possuir o objeto do desejo. É a fruição estética pelo avesso: o prazer do leitor aqui nasce do doloroso reconhecimento de uma covardia que é de todos nós. Quem nunca recuou um passo na calçada do amor pelo medo da queda?
No entanto, a arquitetura dos decassílabos de F. J. Hora não foi desenhada para o ceticismo cinzento. O desfecho do soneto é um ato de rebeldia humanista. Ao aceitar as próprias rachaduras — “Mas, mesmo sendo humano perdi o medo” —, o eu lírico quebra as correntes daquela prisão que construíra na segunda estrofe.
O verso final, “Revelar-lhe de mim cada segredo”, funciona como uma fresta de luz que invade um quarto escuro. O ritmo, que antes marchava pesado sob rimas fechadas e tensas, deságua em um desfecho de entrega absoluta.
Ler o soneto de F. J. Hora é experimentar uma catarse geométrica. Através de uma estrutura clássica impecável, herdada dos mestres do passado, o poeta moderno nos lembra de uma urgência contemporânea: a de que viver exige o risco de se quebrar. A verdadeira sofisticação poética não está em criar labirintos insolúveis, mas em oferecer, através da palavra exata, a chave para sairmos de nossas próprias prisões.






