domingo, 10 de maio de 2026

Maria Pereira de Jesus: A Pedagogia do Afeto que Moldou Gerações

Este é um relato de vida extraordinário, é um testemunho da força da educação e da cultura no interior de Sergipe.



Por: Flávio Hora


Neste Dia das Mães, não podemos esquecer de  honrar a história de quem, por décadas, foi  e ainda é a "mãe" de centenas de crianças japaratubenses: a Professora Maria Pereira de Jesus.

Filha de Japaratuba, nascida em 1962, Maria conheceu as realidades de Santo Amaro das Brotas antes de fixar suas raízes definitivamente em nossa terra, ao lado do seu marido Jailson da Hora Santos (in memorian). Desde os anos 90, quando lecionava no "grupo de Dona", antes passando pela Escola Maria Amada de Encruzilhadas e por Malhada dos Bois, ela não apenas ensinou o ABC, mas moldou o caráter de gerações.

Como pedagoga, "Tia Maria" entende que educar é um ato de "cuidar". Esse dom natural, que transpôs as barreiras da sala de aula para acolher a mim, seu filho, e a tantos outros, é a essência do que defendemos. Ela não é apenas uma educadora do Estado; ela é uma educadora da alma regional.

Sua veia artesã e seu papel como incentivadora cultural mostram que a educação e a arte caminham juntas. Hoje, ao olharmos para sua trajetória, vemos a materialização do que buscamos: uma gestão baseada no amor e na valorização das nossas raízes.

Neste domingo, não celebro apenas minha mãe, mas a professora Maria Pereira, que até hoje atua na área, provando que a missão de educar é eterna. Obrigado, " Tia" Maria, por ser o alicerce da nossa história e a musa inspiradora do meu compromisso com a cultura e a educação.



A sala de aula, para certas mulheres, nunca foi apenas um espaço de quatro paredes e lousa de giz; sempre foi uma extensão da varanda de casa, um puxadinho do coração onde o verbo "educar" se conjuga exatamente como o verbo "maternar".

Existem professoras que carregam no molho de chaves não apenas o acesso às salas, mas o segredo de abrir sorrisos tímidos. São aquelas que, ao corrigirem um caderno, não buscam apenas o erro da gramática, mas tentam ler nas entrelinhas o que a criança não disse: a fome de pão, a sede de abraço ou o medo do escuro.

Essa "mãe de giz" é uma figura mística do nosso interior. Ela é quem traz o botão reserva para o uniforme que descasou, quem tem o remédio para o joelho ralado no recreio e, principalmente, quem possui o olhar que tudo vê. Ela sabe distinguir o choro de birra do choro de abandono. Ela entende que, muitas vezes, o aluno que mais desafia a sua paciência é justamente o que mais precisa da sua mão.

No balanço dos anos, essas mulheres formam uma prole que não cabe na árvore genealógica, mas transborda no reconhecimento das ruas. É o médico que a cumprimenta com reverência, o pedreiro que tira o chapéu ao vê-la passar e o escritor que, ao buscar a palavra certa, ainda ouve a voz dela ecoando baixinho, incentivando a primeira letra.

Maternar no ensino é um ato de resistência e de esperança. É acreditar que cada criança é uma semente de futuro, mesmo quando o solo parece seco. É ser o porto seguro para quem ainda está aprendendo a navegar nos mares das letras e da vida.

No final do dia, quando as luzes da escola se apagam, ela leva para casa o cansaço do ofício, mas também o calor de centenas de "tias" e "professora!" que soam como "mãe". Porque, para essas mestras, a maior lição nunca esteve nos livros, mas na certeza de que ninguém aprende nada se não for, primeiro, amado.

A Matriz do Sentimento: O Dia das Mães e a Literatura das Raízes

Hoje o portal faz uma pausa nas análises técnicas para celebrar a raiz de tudo: a Mãe. ❤️



Por: Flávio Hora

10 de maio de 2026


Neste domingo, o Brasil faz uma pausa para celebrar a figura materna. Para muitos, é um dia de flores e almoços em família; para nós, que buscamos na escrita a essência do "Originalismo", o Dia das Mães é, acima de tudo, a celebração da nossa primeira matriz cultural.

A mãe é a primeira narradora que conhecemos. Antes dos livros, antes dos portais de notícias e antes das complexas análises contábeis, foi o timbre da voz materna que nos apresentou o mundo. Em Sergipe, e especialmente no interior, essa voz carrega o sotaque da terra, o ritmo das nossas festas e a resiliência de quem sustenta a identidade de um povo no dia a dia.

Das lições da vida, aprender a rezar, ouvir histórias de Trancoso, nada é mais gratificante do que nossa mãe ser nossa primeira professora, inclusive a a alfabetizção. Ah, ser filho de professora é bom demais. Você já entra na escola sabendo ler e escrever. 

A Mãe como Guardiã do "Originalismo"

No manifesto que estamos desenvolvendo, defendemos o retorno às raízes. E quem, senão a mãe, é o tronco principal dessa árvore? Ela é quem preserva as tradições, quem mantém vivo o folclore nas cantigas de ninar e quem transmite os valores que o tempo não pode apagar.

Escrever sobre nossas mães é escrever sobre a história de Japaratuba e do Vale do Cotinguiba. Cada crônica, cada soneto que rima com saudade ou com esperança, tem um pouco dessa herança materna. Elas são as revisoras invisíveis do nosso caráter e as musas silenciosas da nossa poesia mais profunda.

O Cuidado que se Transforma em Legado

Neste dia, o meu olhar de escritor e contador se volta para o imaterial. O valor de uma mãe não entra em balanços financeiros, pois seu rendimento é o futuro que ela planta em cada filho. Na nossa região, onde a vida muitas vezes exige a força de uma guerreira, celebrar o Dia das Mães é reconhecer que a nossa maior riqueza não está nos fundos públicos, mas na base familiar que nos permite voar sem esquecer de onde viemos.

Seja através da prosa psicológica ou da poesia regionalista, hoje rendemos homenagens àquelas que nos deram a vida e, com ela, a capacidade de sonhar. Que este 10 de maio seja um convite para "ler" as histórias das nossas mães com o mesmo zelo que dedicamos aos grandes clássicos. Afinal, a biografia de cada um de nós começa no coração delas.

O que seria do japaratubense, do sergipano e do rapaz sonhador do interior se não fossem as mães? Por isso,  estamos silenciando por um instante as análises técnicas e o turbilhão das notícias para prestar a mais justa das homenagens. No balanço final da vida, existe um ativo que é imensurável, um patrimônio que não se deprecia e uma herança que não se conta em moedas, mas em afetos: a Mãe.

Para nós, que defendemos o Originalismo — esse retorno às raízes e à essência da alma humana —, a mãe é a raiz primeira. Ela é a biógrafa silenciosa dos nossos primeiros passos e a revisora paciente dos nossos maiores erros.

A Guardiã da Identidade

Nas terras do Vale do Cotinguiba, a figura materna assume uma força quase mitológica. Ela é a guardiã das tradições, aquela que mantém acesa a chama da cultura regional nas cantigas, nas receitas passadas de geração em geração e na resiliência que define o povo de Japaratuba. Se hoje escrevemos crônicas e sonetos sobre o que somos, é porque um dia fomos lidos e amparados pelo olhar de uma mãe.

O Manto do Cuidado

Assim como o artista plástico borda o seu mundo para que ele não se perca, a mãe borda em nós os valores que levamos para a vida inteira. Ela é a nossa primeira escola, o nosso primeiro porto seguro e o incentivo para que possamos voar, sempre sabendo que há um ninho para onde voltar.

Neste dia, rendemos graças a todas as mães guerreiras de Sergipe. Àquelas que estão presentes, cujo abraço é o melhor refúgio; e àquelas que se tornaram memória e poesia, continuando a guiar nossos caminhos através do exemplo e da saudade.

Um Brinde à Vida

Que cada filho possa, hoje, dedicar um tempo para "ler" o coração de sua mãe. Que possamos reconhecer nelas a arte mais pura e a gestão mais eficiente: a de criar seres humanos com amor e dignidade.

A todas as mães de Japaratuba e do mundo, o nosso reconhecimento e o nosso mais profundo afeto.

"Se a poesia é o canto da alma, a Mãe é a melodia que a ensina a cantar."

#DiaDasMães #CulturaSergipana #Literatura #Originalismo #Japaratuba #FJHoraOnLine


Informe: as imagens são meramente ilustrativas, criadas por inteligência artificial.

sábado, 9 de maio de 2026

A Anatomia de um "Não-Negócio"

Existe Inveja ou Rivalidade Histórica? Sim, às vezes, o sucesso ou a simples existência de alguém incomoda sem motivo aparente.




Pois bem, vou lhes contar uma história.

Tudo começa com Estevão, o Agente de Saúde. Estevão é aquele tipo de criatura rara, o "bonachão profissional", que trabalha para o Estado mas faz bico de relações públicas gratuito. Ele vê uma casa à venda e, em vez de focar nos focos de dengue, decide focar no marketing imobiliário. Júlio, o dono, concorda. Mal sabiam eles que a logística do interior é movida a uma energia mística chamada fofoca retroativa.

– Bom dia! – A casa está a venda? – perguntou Estevão, o Agente de Saúde.

– Sim – respondeu Júlio, o dono da casa.

– Ótimo, vou divulgar – completou o Agente de Saúde.

Ora, Estevão era um moço bonachão, gostava de ajudar e não exigia nada em troca.

E seu eu lhe disser que Estevão foi um ótimo corretor e o Comprador entrou em êxtase, como o noivo ao "conhecer" a noiva na fase de  Lua de Mel assim que viu a casa? Pois, foi assim que meses depois, surge o Comprador. Ele entra na casa e é amor à primeira vista. Imagine a cena: o sujeito está quase escolhendo a cor da cortina. Ele olha os três quartos e já visualiza onde vai colocar a cristaleira. A casa é um brilho, o preço deve estar bom, e o filho do dono, Sílvio, é o anfitrião perfeito.

O Veredito: "Exatamente do jeito que eu quero! A casa é minha."

Nesse momento, no Código Civil não escrito das cidades pequenas, o contrato está assinado em sangue invisível. O aperto de mão foi dado. O problema? O Comprador ainda não tinha feito o "check-up" da árvore genealógica do imóvel.

Ora, alegrou-se o garoto pois a promessa de compra e venda havia se formalizado. Estava apalavrada na linguagem local conforme a cultura. O arrependimento seria uma desfeita e uma imoralidade tamanha. E continuou a planejar as reformas que faria para ajustar a moradia ao seu fino gosto.  

E a casa ficava ali numa das travessas da Rua da Rodagem. Mas, Japaratuba, assim como toda cidade já traz a profecia bíblica: “nenhum profeta é bem recebido em sua terra natal”. O leitor deve se perguntar: estaria o dono da casa “de volta” e seria rejeitado?

O Comprador, já se sentindo o dono do pedaço, comete o erro fatal de qualquer turista emocional: ele olha para a mesa de canto. E lá está ela. Uma foto. Um porta-retrato. O rosto de Júlio.

A transformação é digna de um Oscar de vilão de novela das nove. O sujeito, que estava com "ar de proprietário", subitamente ativa o "ar de pantera". O sangue esfria, a pupila dilata.

— "É seu pai?" — ele pergunta, já sentindo o gosto amargo da decepção.

— "Sim, é ele mais jovem" — responde o inocente Sílvio.

A partir daí, a lógica sai pela janela e entra o puro suco do preconceito geográfico. O Comprador descobre que o dono da casa é o Júlio. E quem é Júlio? Talvez ninguém importante. Talvez alguém que ele simplesmente decidiu detestar por esporte.

O comprador mete aquela mentira clássica, o famoso "passo na volta":

"Diga ao seu pai que virei na próxima semana para fechar o negócio."

Spoiler: Ele não voltou. Nem na semana seguinte, nem no mês seguinte, nem nunca.

O que será que aconteceu? Em lugares como Japaratuba (ou qualquer cidade onde o sobrenome precede o CPF), as pessoas não compram tijolos; elas compram a energia de quem morou ali. O comprador não viu uma casa; ele viu um monumento ao Júlio.

O fato de Júlio nunca ter feito nada de mal para o sujeito é o detalhe mais ácido: a rejeição é gratuita. É o prazer mesquinho de não dar lucro a alguém que, por algum motivo puramente arbitrário, não faz parte do seu fã-clube.

Moral da história: No interior, você pode ter a melhor casa, o melhor preço e a melhor pintura, mas se o seu rosto na foto de família não agradar o fígado do comprador, o negócio vira "conversa de pescador". A casa continua à venda, e o ego do comprador continua intacto, embora ele continue sem a casa dos sonhos. Prioridades, né?


Informe: as imagens são meramente ilustrativas, criadas por inteligência artificial.

A Engrenagem Perdida: O Retrocesso Logístico que Travou o Vale do Cotinguiba

Uma análise sobre como o abandono das ferrovias isolou cidades produtivas e por que a integração com o Porto de Sergipe é a única saída para recuperar o tempo perdido.



Falar de ferrovias em Sergipe é, inevitavelmente, tocar em uma ferida aberta que oscila entre a saudade do progresso e o trauma do maior desastre ferroviário da história do Brasil. Neste 09 de maio, enquanto olhamos para as estações em ruínas que pontilham o Vale do Cotinguiba, somos obrigados a refletir: o que restou do projeto de integração que outrora prometia ser a espinha dorsal da nossa economia?

Para entender o presente, precisamos revisitar o fatídico 18 de março de 1946. O acidente ferroviário de Aracaju — ocorrido no trecho entre Riachuelo e Laranjeiras — não foi apenas uma tragédia com 185 mortos e centenas de feridos; foi o marco de um descarrilamento que parece ter se estendido por décadas na nossa política de infraestrutura. O desastre, causado por falhas técnicas e excesso de peso, ecoa até hoje como um aviso sobre o que acontece quando a gestão da segurança e do patrimônio é negligenciada.

Recentemente, a notícia de que o Governo Federal planeia uma malha ferroviária para ligar as capitais nordestinas é o reconhecimento tardio de que o isolamento logístico da região é um entrave ao seu PIB. Para o Vale do Cotinguiba e para Sergipe, esta promessa não é apenas sobre transporte de passageiros; é sobre integração econômica real.

O Patrimônio que Virou Pó

Do ponto de vista contábil e de gestão, as antigas estações ferroviárias representam um imobilizado público desperdiçado. Cidades como Japaratuba, Laranjeiras e Riachuelo têm no seu DNA a cultura dos trilhos. Contudo, ao permitirmos que esses prédios históricos desmoronem sob o peso do abandono, estamos praticando uma "queima de ativos" imaterial.

Onde deveria haver centros culturais, museus da memória ou pontos de apoio ao turismo regional, sobra o silêncio do mato que cresce sobre os dormentes. A falta de transparência e de planos municipais para a revitalização desses espaços é uma forma de "acidente administrativo" continuado.

O Custo Logístico do Vazio

A morte das ferrovias em Sergipe condenou o nosso desenvolvimento a uma dependência asfixiante do modal rodoviário. O escoamento da produção do Vale do Cotinguiba, que poderia ser feito de forma barata e eficiente pelos trilhos, hoje sofre com o alto custo dos fretes e o desgaste das nossas BRs e SEs.

A ausência de uma malha ferroviária ativa é um gargalo que impede a atração de indústrias de grande porte para o interior do estado. Quando discutimos a aplicação de recursos de outorgas ou fundos de desenvolvimento, a logística deveria ser o pilar central. Sem trilhos — reais ou metafóricos — o progresso não chega; ele apenas passa por nós.

O Porto de Sergipe como Coração de um Sistema Multimodal: O Fim do Isolamento do Interior

A verdadeira virada de chave para a economia de Sergipe, e especialmente para o Vale do Cotinguiba, não reside apenas na manutenção de estradas, mas na transformação do **Porto de Sergipe** em um hub de integração ferroviária. Hoje, o porto opera como uma ilha: cercado de potencial, mas desconectado da veia aorta que outrora eram os trilhos.

A Engrenagem que Falta

Para cidades como Japaratuba, Riachuelo e Laranjeiras, a reativação de um ramal ferroviário moderno conectado ao porto significaria o fim do "custo da distância".

Escoamento Industrial: Imaginemos a produção de fertilizantes e cimento saindo diretamente das fábricas para os vagões, chegando ao porto sem enfrentar os gargalos da BR-101. Isso reduz o custo logístico em até **30%**, tornando o produto sergipano muito mais competitivo no mercado internacional.

Portos Secos e Entrepostos: A integração permitiria a criação de "Portos Secos" no interior. Isso transformaria as antigas estações ou áreas adjacentes em centros de logística, onde a carga é consolidada e despachada. É o passado ferroviário sendo adaptado para a eficiência do século XXI.

A Lição das Metrópoles Globais

Cidades como Roterdã (Holanda) e Xangai (China) não atingiram o topo do comércio mundial apenas por terem mar; elas venceram porque o porto é o destino final de uma malha ferroviária imensa que traz a riqueza do interior de forma rápida e barata. No Brasil, o exemplo de Santos (SP) demonstra que, sem a ferrovia, o porto simplesmente para.

O Plano Diretor como Mapa do Tesouro

Não podemos mais planejar nossas cidades olhando apenas para o asfalto. É urgente que os novos Planos Diretores dos municípios do Vale protejam as antigas faixas de domínio ferroviário. Transformar leitos de trilhos em avenidas comuns é um erro estratégico irreversível; é destruir o caminho por onde o grande desenvolvimento poderia passar.

A integração entre o Porto de Sergipe e uma malha ferroviária revitalizada é a única forma de garantir que o interior não seja apenas um "corredor de passagem", mas o motor real da produção estadual. É hora de parar de ver o trem como uma nostalgia em sépia e passar a enxergá-lo como a tecnologia logística mais sustentável e econômica que o futuro nos exige.

Conclusão: Para não Esquecer

O "retrocesso" é real. O passado nos deixou a infraestrutura (os trilhos), e a tecnologia atual nos dá os trens modernos (mais rápidos e sustentáveis). O que falta é a vontade política de integrar esses dois mundos nos Planos Diretores atuais.

Adaptar o histórico ferroviário aos dias de hoje não é "voltar no tempo", é finalmente entrar no século XXI com uma logística que não seja refém apenas de uma via de asfalto.

O acidente de 1946 nos ensinou, da forma mais dolorosa possível, o preço da negligência. Hoje, em 2026, a nossa negligência é outra: é o esquecimento. Não podemos deixar que a história das nossas ferrovias seja apenas uma nota de rodapé sobre tragédias.

É preciso que as prefeituras e o Governo do Estado resgatem o valor desses caminhos. Que a memória dos que partiram naqueles vagões em Riachuelo sirva para nos lembrar de que a gestão pública lida com vidas, e que cada projeto abandonado é um trilho a menos no caminho para o futuro. O progresso de Sergipe não pode continuar esperando na plataforma de uma estação que já não existe mais.



Informe: as imagens são meramente ilustrativas, criadas por inteligência artificial.

sexta-feira, 8 de maio de 2026

O Império do Grave: Quando a Batida Atropelou a Alma

O declínio da orquestração: por que a juventude atual trocou a poesia de "A Beleza da Rosa" pelo impacto descartável dos graves de ciclo único. E, como a busca pelo "agito moderno" e o preconceito contra o estilo "corno" criaram uma geração que consome ritmo, mas ignora o sentimento.




"Isso é brega! É música de corno... Vixe!" Essa é a frase que sela o destino de qualquer canção que ouse priorizar o sentimento em vez do grave. Para grande parte da juventude atual, bastam alguns acordes de violão ou uma letra que fale abertamente de saudade para que o selo de "antiguidade" seja aplicado. No tribunal do gosto musical moderno, a "sofrência" só é aceita se vier embalada por uma batida eletrônica frenética e um sintetizador que esconda qualquer vestígio de orquestração. Mas o que esse desprezo pelo "cafona" esconde sobre a nossa própria capacidade de sentir? Enquanto o jargão popular descarta o passado como "música de corno", a indústria recicla esses mesmos clássicos para alimentar os paredões, provando que o que os jovens tentam evitar não é a música em si, mas a alma que ela carrega.

A música "A Beleza da Rosa", de José Ribeiro é um exemplo perfeito do que estamos falando: o Brega-Romântico clássico. Ela ilustra como esse gênero, muitas vezes rotulado como "cafona", utiliza metáforas simples, mas profundamente universais, para falar de sentimentos complexos. Enquanto o sertanejo universitário de hoje fala sobre "beijar várias" para esquecer alguém, "A Beleza da Rosa" prefere cultivar o medo de que a "flor" deixe de existir. É uma forma de amar muito mais contemplativa e, de certa forma, mais literária.

A música popular brasileira sempre foi um território de sentimentos expostos. De José Ribeiro a Fagner, do Sertanejo Raiz ao Brega-Romântico, a canção era um exercício de narrativa: existia um jardim, existia uma rosa e, invariavelmente, existia o medo do espinho. No entanto, o cenário atual revela uma mutação drástica. Estamos testemunhando a transição da música como obra de arte sentimental para a música como produto de impacto físico.

A Ditadura dos 20 por Cento


Hoje, a anatomia de um sucesso não é mais medida pela riqueza de sua harmonização ou pela profundidade de sua lírica. Para a juventude que orbita em torno dos "paredões" e dos algoritmos de consumo rápido, a música tornou-se uma equação desproporcional: 80% de batida e, no máximo, 20% de letra.

Nesse novo ecossistema, a letra deixou de ser o corpo da mensagem para se tornar um acessório. Não se busca mais a identificação com o eu-lírico que sofre por amor; busca-se a vibração do grave que reverbera no peito. A palavra agora serve apenas como um "gancho" (hook) para sustentar o ritmo. Se a letra for complexa demais, ela exige reflexão; e a reflexão é o antônimo do que o mercado atual exige: o transe coletivo e o entretenimento anestésico.

O Medo do "Museu" e a Reciclagem Estética


O jovem contemporâneo vive sob o pavor constante do jargão "novo com alma de velho". Em uma era de hiperconectividade, parecer antiquado é uma morte social. Por isso, nomes sagrados como Luiz Gonzaga ou composições sofisticadas de Peninha e Dalto só conseguem furar a bolha da nova geração se forem "devidamente purificados" pelo filtro do remix eletrônico.

Ao transformar "O Chêro de Carolina" ou "Os Brincos de Bela" em batidas de paredão, o mercado promove uma espécie de canibalização cultural. Utiliza-se a melodia testada pelo tempo — a única que ainda possui alguma criatividade melódica — mas remove-se dela a orquestração, a nuance e o silêncio. O que sobra é uma embalagem moderna para um conteúdo que o jovem consome sem saber a origem, validado apenas porque o "cantor do momento" deu o aval.

A Blindagem do Sentir


Essa mudança não é apenas estética, é comportamental. O cérebro da nova geração parece ter criado uma blindagem cognitiva contra ritmos que não sejam binários e acelerados. Onde antes havia a contemplação de um "triste jardim", hoje há o "agito moderno".

A ironia reside no fato de que essas remixagens e sucessos de "paredão" possuem a validade de um produto descartável. Duram um ciclo de verão e desaparecem. Enquanto isso, as obras originais, com suas orquestrações e letras que ocupavam 100% da atenção do ouvinte, permanecem intactas no alicerce da cultura.

Considerações Finais


A música brasileira não ficou "chata" ou "demodê"; ela apenas exige uma entrega que a pressa atual não permite. Enquanto o mercado ditar que o volume do grave vale mais que o peso da palavra, continuaremos a ver uma juventude que ouve muito, mas sente pouco. O "paredão" pode até estremecer o chão, mas raramente consegue fazer o que a velha música sentimental fazia com um simples violão: estremecer o coração.

Entre violões que contavam histórias e paredões que priorizam o impacto, a música brasileira vive uma transformação silenciosa. O sentimento profundo deu lugar ao consumo rápido, onde o grave vale mais que a poesia. Clássicos antes chamados de “brega” hoje sobrevivem reciclados em batidas descartáveis, enquanto a juventude aprende a dançar sem necessariamente sentir. No fim, a modernidade amplificou o som, mas reduziu a escuta da alma.

É uma troca triste: ganhamos em potência sonora e acesso, mas perdemos aquela identidade artesanal que fazia a música brasileira ser um espelho de sentimentos profundos. O jardim de rosas foi cimentado para virar um estacionamento de paredões.


Informe: as imagens são meramente ilustrativas, criadas por inteligência artificial.

A Vitrine de Vidro: Entre o Marketing de Fachada e a Gestão de Resultados

Propaganda ou transparência? No Dia do Profissional de Marketing, analisamos como os municípios de Sergipe estão gastando com publicidade e a importância de focar em resultados reais para o cidadão.



Neste 08 de maio, celebramos o Dia do Profissional de Marketing. No setor privado, a data exalta a capacidade de conectar produtos a desejos; no setor público, entretanto, a data nos convida a uma reflexão mais profunda: onde termina a comunicação institucional e onde começa a propaganda política financiada pelo contribuinte?

Sabemos que há uma campanha mundial financiada por setores específicos do poder econômico para desinformar a população para colocá-las contra a quem fiscaliza e 

Em Sergipe, e particularmente nas cidades que compõem o Vale do Cotinguiba, assistimos a uma explosão de "prefeituras digitais". Perfis em redes sociais repletos de vídeos em alta resolução, edições dinâmicas e drones que sobrevoam a cidade capturando ângulos que o cidadão, a pé, dificilmente reconhece. Mas, como contador e jornalista, sinto o dever de questionar: o marketing público está sendo usado para atrair progresso ou para maquiar a realidade?

O Custo da "Curtida"

A gestão pública moderna exige transparência. Nesse sentido, o marketing deveria ser pedagógico: informar prazos de vacinação, explicar a aplicação de fundos municipais ou prestar contas sobre os rendimentos das outorgas da Deso. Contudo, o que vemos com frequência é o uso da máquina para o Personal Branding do gestor.

Do ponto de vista contábil, é preciso analisar o custo-benefício. Quando o gasto com agências de publicidade e impulsionamento de posts supera o investimento em projetos de fomento ao emprego e renda, a "vitrine" torna-se mais cara que a própria loja. O marketing de um município deve ser o seu Branding Territorial — ou seja, construir uma marca que atraia investidores e orgulhe o morador pela eficiência, não pela estética do Instagram.

Japaratuba e o Valor da Identidade

Cidades com o vigor cultural de Japaratuba possuem um merarketing natural: o nosso folclore, o pífano e a força do nosso povo. O marketing público legítimo deveria potencializar esses ativos para o turismo e para a preservação histórica. Investir em marketing é válido quando ele serve para colocar a cidade no mapa do desenvolvimento, e não apenas para garantir a reeleição de quem detém a caneta.

O marketing que o cidadão realmente deseja não é o que coloca filtros nas fotos dos buracos das ruas, mas o que utiliza as plataformas digitais para ouvir as demandas da comunidade e responder com dados concretos. A melhor peça publicitária de uma prefeitura é um portal da transparência intuitivo, onde o cidadão consiga ver, sem esforço, como cada centavo do seu imposto está sendo revertido em benefício social.

Sugestão do dia

Que o dia de hoje sirva para profissionalizarmos a comunicação pública em nossos municípios. Que os gestores entendam que o marketing político passa, mas a gestão — e seus números — fica.

O jornalismo independente continuará aqui, agindo como o "contraponto do filtro", lembrando que, por trás de cada arte bem diagramada nas redes sociais, existe uma realidade técnica que precisa fechar. Afinal, em uma gestão séria, a melhor propaganda é o resultado que se sente no bolso e na vida do povo, e não apenas o que se vê na tela do celular.

Outras comemorações do dia 08 de Maio

Não se pode falar de imagem e comunicação neste 08 de maio sem reverenciar o Dia do Artista Plástico Brasileiro. A data não é aleatória: celebra o nascimento de José Ferraz de Almeida Júnior, o pintor que teve a coragem de tirar a arte brasileira dos palácios neoclássicos e levá-la para o cotidiano do homem comum, do caipira, do trabalhador rural.

Enquanto o marketing digital muitas vezes busca a perfeição efêmera, a arte plástica busca a verdade duradoura. O artista plástico é aquele que materializa o sentimento de uma época. Se o marketing público municipal fosse guiado pelo espírito de Almeida Júnior, veríamos campanhas menos preocupadas com o brilho dos gabinetes e mais focadas na luz que incide sobre o trabalhador e sobre o patrimônio histórico.

Ao celebrarmos o Dia do Artista Plástico, é impossível para nós, sergipanos, não voltarmos o olhar para a genialidade de Arthur Bispo do Rosário. Se o marketing busca embalar o mundo em mensagens rápidas, a obra de Bispo fez o oposto: ele desintegrou o mundo material para reconstruí-lo em bordados, mantos e estandartes que hoje são reverenciados nos maiores museus do planeta. Bispo do Rosário levou Japaratuba para o centro da arte contemporânea mundial. Sua obra é a prova viva de que o regional, quando tratado com profundidade e verdade, torna-se universal.


Informe: as imagens são meramente ilustrativas, criadas por inteligência artificial.

quinta-feira, 7 de maio de 2026

Quando a poesia encontra os números: "A Contadora e o Poeta" narra os amores e dilemas de uma geração universitária

Entre balanços e versos: descubra como a lógica dos números e a sensibilidade da poesia se entrelaçam em um triângulo amoroso inesquecível no coração da universidade.



O romance de F. J. Hora mergulha no cotidiano acadêmico entre 2012 e 2016, explorando a delicada linha que separa a atração intelectual da física em meio à era das redes sociais.

Em um curso de Ciências Contábeis, onde a lógica e a precisão deveriam ditar o ritmo, o que acontece quando um poeta interiorano decide cruzar a porta da sala de aula? Esta é a premissa de "A Contadora e o Poeta", romance lançado em 2020 por F. J. Hora que captura com precisão o espírito da vida acadêmica do início da década de 2010.

Um triângulo amoroso na era do SMS

A trama acompanha Sílvio, um poeta vindo do interior que se vê imerso no ambiente urbano da capital. Em meio aos estudos e aos desafios da graduação, ele vive uma rede de afetos complexa: o encantamento intelectual de Karen, que se fascina por seus "devaneios"; a atração física de Lavínia, movida pela curiosidade sobre a intimidade de um poeta; e a paixão avassaladora por Giulia, a quem Sílvio carinhosamente chama de "Lua".

O livro se destaca por sua narrativa contemporânea. Construída por meio de diálogos em SMS, interações em redes sociais e momentos de convivência universitária, a obra é um retrato fiel de como a tecnologia começou a moldar, para o bem ou para o mal, as nossas relações humanas.

Ora, Sílvio era um guerreiro do interior de Sergipe que ganha uma bolsa para cursar faculdade e, sem ter condições financeira, não tem smartphone moderno, ficando privado de comunicação em crescimento na época: o whatsapp. Então, a comunicação fora do campus era no antigo MSN, SMS ou pelo chat do Facebook.

Literatura inspirada no real

O autor, que possui uma formação sólida na contabilidade, utiliza sua própria vivência para criar um ambiente autêntico. A obra é "inspirada em fatos reais", o que confere ao livro uma camada extra de veracidade, especialmente no que diz respeito ao contraste entre a rigidez técnica do curso de contabilidade e a liberdade criativa do universo de Sílvio.

É uma leitura que promete encantar não apenas quem passou por experiências similares na universidade, mas qualquer um que já se viu dividido entre o amor que estimula a mente e o desejo que pulsa na pele.

Amor Intelectual versus Amor Físico

Entendemos por "Amor Físico" a amizade (ou relacionamento amoroso) aliada ao desejo sexual. Talvez, a leitura deixe no leitor uma vontade de que o livro tenha uma "continuação" onde realmente se resolva esse conflito do espírito com a carne. 

Essa complexa dinâmica entre Karen, Sílvio e Lavínia sugere que Karen opera sob uma divisão clássica (e muitas vezes dolorosa) entre o espírito e a carne. Infelizmente, o narrador só deixa algumas percepções sobre o sentimento de Sílvio, apesar de ser poeta, pensa com "a cabeça de baixo".

Para Karen, Sílvio não era apenas um homem, mas um santuário intelectual. O sentimento dela parece ser uma forma de Amor Intellectualis (o amor pelo intelecto do outro), onde a conexão se dá através das ideias, da linguagem e da alma.

A decisão de empurrar Lavínia para os braços de Sílvio não foi um ato de generosidade pura, mas uma manobra psicológica sofisticada para resolver um conflito interno insuportável.

Karen sentia por Sílvio um amor absoluto, porém mutilado. Ela entregou Lavínia a ele porque não conseguia conciliar a mulher intelectual que ela acreditava ser com a mulher física que ela temia enfrentar.

Afinal, o que aconteceu ? Karen não deu Lavínia a Sílvio por falta de amor, mas por um excesso de medo. Ela preferiu perder o homem para não perder a imagem idealizada que tinha de si mesma e do vínculo deles.

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