A criação da "Taxa do Agro" em Goiás escancara a contradição entre o discurso liberal de corte de impostos e a busca pelo caixa estadual a qualquer custo.
A cartilha da direita liberal sempre teve como pilar inegociável a defesa do estado mínimo, o respeito ao livre mercado e, acima de tudo, a aversão ao aumento de impostos. Sob essa ótica, governar significa cortar gastos, enxugar a máquina pública e devolver poder de compra ao cidadão e competitividade ao setor produtivo. No entanto, a gestão de Ronaldo Caiado em Goiás serve como um retrato cristalino de como o pragmatismo fiscal, quando conveniente, atropela a própria coerência ideológica.
A sanção do Fundo Estadual de Infraestrutura (Fundeinfra), popularmente batizado de "Taxa do Agro", marcou um ponto de inflexão na trajetória política de Caiado. Para um governante que construiu sua imagem pública na defesa intransigente do agronegócio e sob a bandeira do conservadorismo econômico, a criação de uma cobrança incidente sobre commodities agrícolas como soja, milho e carne representou uma guinada direta na contramão dos princípios liberais.
O malabarismo narrativo para justificar a medida recorreu a eufemismos jurídicos. Denominada como uma "contribuição facultativa" atrelada à manutenção de benefícios fiscais do ICMS, a taxa na prática funcionou como um encargo compulsório sobre quem produz. Afinal, abrir mão do regime tributário diferenciado inviabilizaria a operação de milhares de produtores, tornando a opção pela "contribuição" uma escolha forçada.
A reação do próprio campo conservador escancarou essa contradição. A Confederação Nacional da Indústria (CNI), setores patronais e partidos alinhados à direita liberal — como o Partido Novo — acionaram a Justiça e o Supremo Tribunal Federal questionando a constitucionalidade da medida, classificando-a como um aumento disfarçado da carga tributária. A invasão do plenário da Assembleia Legislativa de Goiás por ruralistas à época da votação demonstrou que o setor produtivo não comprou a tese de que criar tributos é o caminho correto para financiar infraestrutura.
É verdade que o governo estadual argumentou a necessidade de compensar as perdas do ICMS causadas por reformas federais e defendeu que os bilhões arrecadados retornariam em obras rodoviárias. Contudo, a lógica de que o Estado precisa arrecadar mais para entregar serviços básicos é a essência do pensamento progressista/desenvolvimentista — o oposto do que a direita prega nas tribunas. A direita liberal defende que o investimento em infraestrutura venha de concessões privadas, desregulamentação e eficiência orçamentária, não do bolso de quem gera riqueza.
Mesmo com o recente recuo e a movimentação pela extinção do Fundeinfra após forte pressão política, jurídica e do próprio setor, o episódio deixa uma lição indelével sobre a política goiana: ao ser testado pelo aperto das contas públicas, Ronaldo Caiado escolheu o caminho mais fácil e tradicional da política brasileira — aumentar a arrecadação. Ao taxar a espinha dorsal da economia goiana, o governador provou que o discurso de aversão aos impostos costuma durar apenas até que a necessidade de caixa bata à porta do Palácio das Esmeraldas.




