Uma crônica que resgata o cotidiano dos trabalhadores das usinas e antigos engenhos entre Maruim e Laranjeiras, refletindo sobre a densa história escravista da região e a capacidade humana de transformar um inesperado dia de folga em um ato de sutil resistência à beira das águas sergipanas.
Quem caminha pelas margens do rio que dá nome ao Vale, entre o vaivém histórico de Maruim e a altivez de Laranjeiras, consegue escutar, se apurar o ouvido, o eco dos antigos eitos. O Cotinguiba não é apenas um acidente geográfico; é uma cicatriz profunda na pele de Sergipe. Foi ali, naquele chão de massapê escuro e fértil, que bateu por séculos o coração econômico e escravista da província. Uma engrenagem impiedosa movida pelo suor e pelo sangue nas terras do Engenho Pedras, no Cafuz e em tantas outras moendas que transformavam a cana em riqueza para poucos e cativeiro para muitos.
O tempo passou, o Império ruiu, os engenhos viraram usinas, mas a rotina do eito guardou suas marcas de sol a sol. O trabalho naquelas paragens sempre foi de uma mofina danada, daquelas de moer o corpo e testar a paciência do cristão. Mas o povo do Cotinguiba traz no peito uma sabedoria antiga: a arte de cavar pequenas liberdades no meio do canavial.
Num dia desses, o cansaço acumulado pesava nos ombros de um grupo de trabalhadores no Cafuz. A labuta estava naquele ritmo puxado quando, num estalo — que bem podia ter sido um aviso dos céus ou das velhas almas que vigiam o vale —, a usina "quebrou". O maquinário pesado, que costumava ditar o compasso da vida daquela gente com seu barulho infernal, emudeceu.
Fazer o quê ali parados, esperando a boa vontade das peças e dos patrões?
Um deles, limpando o suor da testa com as costas da mão, olhou para o horizonte onde as águas correm e soltou a sentença que virou alforria temporária:
— Moço, vamos para o Boa Viagem pescar.
Não precisou falar duas vezes. Deixaram para trás o cheiro do bagaço queimado e ganharam o trecho. Levaram consigo apenas a esperança miúda e um saco de estopa vazio.
À beira d'água, o tempo no Cotinguiba corre diferente. Longe do chicote da cana, cada puxada de linha era uma pequena vitória. Foram jogando os anzóis, e o rio, generoso como quem compreende a fome de folga daquele povo, foi entregando o que tinha. Mandi, piau, traíra... Tudo o que vinha, ia direto para o fundo do saco.
A pescaria estava tão farta, o sol tão quente na moleira, e o movimento de puxar, limpar e guardar tão repetido que, de repente, o cansaço do eito pareceu pegar de volta a pescaria. Um deles, olhando para a estopa já pesada e volumosa, esticou as costas e soltou um suspiro fundo:
— Rapaz... tô de saco cheio.
O outro olhou de banda, sem saber se o companheiro falava do saco que já não cabia mais um rabo de peixe ou se era a alma que estava farta de tanto insistir na mesma lida, cansada da rotina que amarra o homem à terra de sol a sol. No fundo, no Vale do Cotinguiba, as duas coisas sempre andaram juntas. O saco encheu da fartura da água, mas a paciência ali, desde os tempos das senzalas do Engenho Pedras, vive na iminência de transbordar.
Voltaram para o Cafuz rindo, com o peso nas costas, mas a alma leve. Sabiam que amanhã a usina estaria consertada e o eito cobraria seu preço. Mas, por uma tarde, o Cotinguiba não foi o senhor da vida deles; foi apenas o rio que lavou o cansaço e encheu o saco de quem tem o direito sagrado de parar.







