sábado, 29 de agosto de 2026

Entre a Gestão Emocional e a Dureza dos Fatos: O Retrato da Candidatura de Augusto Cury na TV Globo

ANÁLISE POLÍTICA: A Ilusão da Conciliação: Como o Discurso Abstrato Foge da Realidade da Governança e dos Conflitos Sociais

Imagem meramente ilustrativa

A sabatina do médico, psiquiatra e escritor Augusto Cury (Avante) na TV Globo fechou a rodada de entrevistas com os presidenciáveis expostos ao escrutínio em canal aberto. Conduzida pelos jornalistas Renata Vasconcellos e César Tralli, a transmissão expôs com clareza o modelo e os limites da postulação do autor ao Palácio do Planalto: a tentativa de substituir a gramática tradicional dos conflitos socioeconômicos por um discurso pedagógico e conciliador.

Se por um lado Cury conseguiu marcar posição como uma alternativa à polarização, por outro deixou transparecer as fragilidades práticas e conceituais que cercam propostas de fundo liberal-humanista no Executivo Federal.

Trata-se de um escritor comercial, ou seja, escreve para um público-alvo. Essa é a chave para compreender tanto o sucesso editorial de Augusto Cury quanto os limites da sua atuação no campo político. Assim, a característica que o tornou um dos autores mais vendidos do país — a capacidade de produzir um discurso universalistamente palatável e de fácil consumo — converte-se em seu principal gargalo político, gerando uma plataforma caracterizada por apelo empático, mas despida de substância de governabilidade.

A Ilusão da Neutralidade e o Conflito Distributivo

A tese central de Augusto Cury baseia-se na ideia de um "governo de pacificação", movido por uma mente capitalista e um coração social. No entanto, no escrutínio ao vivo, o discurso da superação ideológica esbarra na realidade da ciência política: a polarização não é um desentendimento retórico nem uma falha de saúde mental coletiva, mas o reflexo direto de conflitos distributivos e de classe.

Ao defender a redução do Estado pela extinção de até dez ministérios, o candidato acena à agenda fiscalista tradicional. Contudo, ao esquivar-se de nomear quais pastas seriam cortadas, evita indicar de onde virão os custos sociais da medida. O orçamento público é finito e impõe escolhas: cortar estruturas governamentais significa inevitavelmente afetar programas, investimentos ou regulação. A abstração, funcional na literatura de autoajuda, converte-se em descompromisso programático quando transposta para a disputa presidencial.

O SUS, o Mercado e os Conflitos de Interesse

A defesa do uso massivo da telemedicina no Sistema Único de Saúde ("Tele Saúde Brasil") foi apresentada como solução tecnológica para desafogar filas de atendimento. Entretanto, a proposta abriu margem para questionamentos severos quanto ao atrito ético e institucional.

Diante das ligações do candidato com iniciativas privadas no setor de educação e tecnologia médica, a tentativa de afastar a ideia de conflito de interesses soarou insuficiente para os parâmetros de transparência da administração pública. A contratação e financiamento de plataformas privadas pelo orçamento da União envolvem interesses corporativos milionários — espaço onde o voluntarismo do humanismo precisa dar lugar a marcos regulatórios e a contabilidade pública rígida.


Foto: Globo/ Manoella Mello


A Manutenção da Abstração

Analistas de conjuntura e opositores apontaram que o tom da entrevista se manteve excessivamente próximo ao estilo de seus livros de autoajuda, priorizando conceitos filosóficos e emocionais em detrimento de planos concretos de gestão fiscal, economia e política externa. A sabatina consolidou a imagem do autor como uma figura que busca despolarizar o debate eleitoral, enquanto levantou questionamentos sobre a viabilidade prática e a profundidade técnica de sua plataforma política.

Um presidente da República não governa apenas com intenções ou conceitos de gestão emocional. O exercício do poder Executivo exige definições orçamentárias rígidas, negociação de cargos e emendas no Congresso Nacional, e escolhas econômicas onde os recursos são escassos. Quando um postulante ao Planalto responde a perguntas sobre teto de gastos, reforma tributária ou política externa utilizando jargões de autoajuda ou apelos genéricos à unidade, o eleitorado e o mercado tendem a interpretar a postura como falta de preparo técnico ou fuga de posicionamentos impopulares.

O Apelo Final: Terapia Individual versus Governança Estatal

No minuto final, Cury recorreu ao seu ambiente de conforto: falou diretamente ao eleitorado atingido por dores emocionais, citando os dados crescentes de ansiedade e depressão e propondo uma "pacificação das mentes".

Embora o movimento gere forte apelo empático junto a parcelas desiludidas com a classe política, a análise de conjuntura expõe o equívoco de premissa:

1. Reducionismo: Conflitos estruturais como a fome, a informalidade trabalhista e a arrecadação tributária não resultam do esgotamento emocional do cidadão, mas das relações de produção e da alocação de poder e recursos no país.

2. Governabilidade: Um Presidente da República não maneja a máquina do Estado com apelos morais, mas com a construção de maiorias no Congresso Nacional e negociação orçamentária direta.

Ao encerrarem-se as sabatinas, a participação de Augusto Cury na TV Globo cumpriu o papel de desenhar os contornos do seu projeto: uma postulação que oferece o conforto do diagnóstico sentimental, mas que permanece devendo as respostas pragmáticas exigidas a quem pretende gerir um Estado complexo, desigual e polarizado como o Brasil, ou seja, a abstração funciona bem como plataforma de apelo eleitoral para eleitores desiludidos com o radicalismo, mas se torna um entrave real quando o candidato é cobrado a apresentar como pretende governar um país de dimensões e conflitos reais como o Brasil.

A Coragem do Primeiro Passo e a Ferida que o Tempo Não Cura

Neste sábado, 29 de agosto de 2026, o ensino direto de Jesus no Sermão da Montanha desmonta a ilusão de que o tempo cura mágoas sem atitude e de que rituais religiosos compensam relacionamentos quebrados. Descubra por que a verdadeira espiritualidade exige a coragem de buscar a reconciliação e priorizar a paz com o próximo antes de qualquer gesto de devoção.




“Portanto, se você estiver apresentando a sua oferta diante do altar e ali se lembrar de que o seu irmão tem algo contra você, deixe a sua oferta ali, diante do altar, e vá primeiro reconciliar-se com o seu irmão; depois, volte e apresente a sua oferta.

 — Mateus 5:23-24


É preciso aprender a pedir perdão, a se reconciliar. Reconciliação não é opcional para quem quer se aproximar de Deus de verdade, é o preço da nossa paz.  

No capítulo 5 do Evangelho de Mateus, Jesus faz um dos alertas mais práticos e desconcertantes de todo o Seu ensino, confrontando a tendência humana de usar a religiosidade para mascarar pendências do coração. No texto original em grego, a palavra traduzida como "reconciliar-se" (diallagēti) carrega o sentido de mudar de atitude, restaurar a harmonia e remover o obstáculo que separa duas pessoas. A cena pintada pelo Mestre é forte: a pessoa já está no templo, com a oferenda nas mãos, pronta para o ato sagrado, mas é instruída a interromper o culto imediatamente. A prioridade de Deus não é o ritual bonito ou a aparência de fé, mas a honestidade dos relacionamentos. O texto nos ensina que nenhuma oração bonita ou oferta valiosa substitui a humildade de pedir perdão e consertar o que foi trincado pelo orgulho.

Trazer essa verdade de Mateus 5:23-24 para o nosso cotidiano é encarar uma realidade que quase todos nós tentamos evitar. Todos nós carregamos alguma relação quebrada que preferimos não mexer. Aquele silêncio constrangedor com um familiar, a mágoa antiga que nunca foi resolvida com um amigo de infância, ou aquela conversa franca que evitamos há anos porque sabemos que vai doer. A nossa tendência natural é ir empurrando com a barriga, fingindo que nada aconteceu e alimentando a falsa esperança de que o tempo sozinho vai resolver o que só a atitude de reconciliação pode curar. O tempo, por si só, não cura feridas de relacionamentos; ele apenas anestesia a dor e fossiliza a mágoa nos bastidores da alma.

A aplicação prática desse ensinamento exige maturidade moral e um desapego enorme do próprio orgulho. Fazer a coisa certa diante de Deus significa entender que a nossa comunhão com o Criador está diretamente ligada à forma como tratamos as pessoas ao nosso redor. Se existe uma pendência ao seu alcance, tome a iniciativa de buscar a paz nesta jornada. Não espere que o outro dê o primeiro passo ou reconheça o erro; seja você o adulto na relação que estende a mão, que manda a mensagem, que marca a conversa e que desarma as defesas. Mesmo que o outro recuse a reconciliação, a sua parte de buscar a paz e limpar o coração estará cumprida com transparência e integridade.

Neste sábado, não deixe para depois a cura de relacionamentos que pedem atenção hoje. Recuse a tentação do silêncio covarde, vença a barreira do orgulho e faça da busca pela paz uma prioridade real na sua vida. Apenas quando nos dispomos a consertar as pontes quebradas com os nossos irmãos é que o nosso coração fica leve e a nossa vida se torna uma verdadeira oferta agradável ao Pai.

sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Entre a compostura e a esquiva: o tom tático de Flávio Bolsonaro não esconde as velhas contradições

Com nota média de 2,4 dada por colunistas do GLOBO, o parlamentar manteve a serenidade, mas tropeçou em ilações sobre as urnas, esquivou-se de apurações financeiras e voltou a recorrer a narrativas desmentidas.


Imagem meramente ilustrativa

A maratona de sabatinas promovida pelo Grupo Globo com os pré-candidatos ao Planalto ganhou contornos de alta tensão com a participação do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Em um desempenho classificado como "treinado" e "tático", o parlamentar alcançou uma nota média de 2,4 (em uma escala de 1 a 5) atribuída pelos colunistas do jornal OGLOBO.

O resultado o coloca à frente do ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado (1,4) e do ex-governador de Minas Gerais Romeu Zema (2,0), empatando tecnicamente com a estreia de Renan Santos (2,6) e ficando abaixo da performance do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, avaliado com nota 3,0 na quinta-feira.

A despeito da postura serena e do tom contido — uma clara tentativa de se distanciar dos rompantes agressivos que marcaram as aparições públicas de seu pai, Jair Bolsonaro —, a estratégia do senador revelou fragilidades substanciais assim que o escrutínio sobre o seu histórico e suas propostas se aprofundou.

O "escudo" da moderação frente às sombras do passado

O contraste entre a forma e o conteúdo foi a tônica da sabatina. Flávio preparou-se para entregar respostas decoradas e manter o autocontrole perante questionamentos incisivos. No entanto, o alinhamento retórico não foi suficiente para dissipar as dúvidas centrais sobre os episódios mais controversos de sua trajetória política e pessoal.

Entre os principais gargalos e contradições evidenciados ao longo do programa, destacam-se:

  • O elo com a fraude bancária: O senador voltou a apelar para justificativas genéricas para se esquivar de explicações detalhadas sobre sua intimidade com o banqueiro Daniel Vorcaro e os aportes de R$ 60 milhões relacionados à produção de uma cinebiografia. Flávio recusou-se a assumir o compromisso de divulgar o contrato firmado com a instituição financeira, alegando de forma evasiva que o documento já havia sido exposto pela imprensa.
  • A reescrita do histórico da milícia: Ao abordar sua ligação com o ex-capitão do BOPE Adriano da Nóbrega — apontado como chefe do grupo de exterminadores "Escritório do Crime" —, Flávio sustentou a tese de que, à época em que o homenageou na Assembleia Legislativa do Rio (Alerj) e empregou seus familiares em seu gabinete, Nóbrega seria um "policial exemplar". A narrativa ignora as investigações e relatórios de inteligência que já ligavam o ex-militar ao crime organizado no mesmo período.
  • Esquiva nas apurações e na economia: O pré-candidato esquivou-se de dar respostas objetivas sobre as suspeitas de "rachadinha" em seu antigo gabinete na Alerj e evitou qualquer detalhe prático de como pretende conduzir a recuperação econômica do país, renegando inclusive medidas de ajuste fiscal e de contenção de gastos defendidas pelos próprios economistas e investidores que sustentam seu projeto político.

Imagem: Globo/ Manoella Mello

Desinformação e o resgate da pauta antidemocrática

Mesmo tentando adotar um perfil mais institucional, o parlamentar não hesitou em lançar mão de alegações sabidamente falsas para contornar situações desfavoráveis na bancada.

A contradição mais sobressalente da noite ocorreu quando o senador acusou o ex-comandante da Aeronáutica, brigadeiro Baptista Jr. — nomeado durante a gestão de Jair Bolsonaro —, de ter declarado voto no presidente Lula. A afirmação, totalmente carente de lastro fático, funcionou como uma tentativa de descredibilizar um dos principais depoimentos colhidos no âmbito dos inquéritos das tramas golpistas.

Além disso, Flávio reeditou velhas narrativas:

1. Pauta Ambiental: Demonstrou desconhecimento técnico ao questionar o consenso científico sobre as mudanças climáticas e rejeitar dados consolidados sobre o aquecimento global.

2. Sistema Eleitoral: Manteve o discurso de recusa quanto ao compromisso incondicional com o resultado das urnas, reproduzindo a ilação recorrente de desconfiança sobre o processo democrático.

Quadro Comparativo: O Desempenho nas Sabatinas

As notas conferidas pelos analistas e colunistas do OGLOBO refletem a recepção técnica e política dos postulantes ao longo da semana de sabatinas:


Pré-candidato / EntrevistadoMédia do Painel (1 a 5)Síntese da Avaliação dos Colunistas
Luiz Inácio Lula da Silva3,0Desempenho mais firme da semana; apelo à agenda social e defesa do mandato.
Renan Santos2,6Surpreendeu no debate conceitual, mas encontrou resistência em propostas de governabilidade.
Flávio Bolsonaro2,4"Treinado e tático". Teve compostura formal, mas acumulou esquivas e contradições.
Romeu Zema2,0Dificuldade em articular pautas nacionais e desempenho considerado engessado.
Ronaldo Caiado1,4Apresentou tom excessivamente bélico, focado no antipetismo, com pouca profundidade programática.

A estratégia do antipetismo como linha de fuga

Ao perceber-se encurralado pelos dados e fatos apresentados pelos entrevistadores, Flávio Bolsonaro adotou o mesmo figurino utilizado dias antes por Ronaldo Caiado: a busca pela polarização direta. As citações frequentes ao presidente Lula e o resgate contínuo da retórica antipetista serviram como uma cortina de fumaça calculada para afastar os holofotes de suas pendências judiciais e conceituais.

Ao fim do programa, a tentativa de polir a imagem pública e transparecer moderação entregou um candidato disciplinado no controle emocional, mas substancialmente frágil nas explicações — demonstrando que a mudança de tom não apaga a ausência de respostas sobre o passado.

O Paradoxo do "Novo": Por Que a Renovação Política no Brasil É Uma Ilusão de Ótica

O labirinto institucional entre o fetiche do Executivo, a captura do Congresso pelo fisiologismo e a ilusão dos salvadores da pátria



A cada ciclo eleitoral, o ecossistema político brasileiro é tomado por uma necessidade quase mística de redenção: a busca pelo “novo”. Candidatos remodelam suas identidades visuais, discursos de rompimento com o establishment ganham as telas e analistas tentam decifrar quem será a bola da vez na corrida pela Presidência da República. No entanto, quando as urnas se fecham e a poeira das campanhas baixa, o país se reencontra com a mesma engrenagem de sempre. O “novo” na política brasileira não é apenas um conceito em disputa — é um paradoxo estrutural.

A raiz desse paradoxo reside em um vício de origem do eleitorado e da cultura política nacional: a obsessão pelo Poder Executivo. Espera-se que a eleição de um "salvador da pátria" no Palácio do Planalto transforme o país num passe de mágica, ignorando deliberadamente as regras do presidencialismo de coalizão. O resultado é uma frustração crônica. Um Presidente da República, por mais bem intencionado ou desvinculado de oligarquias que seja, não governa sem o Congresso Nacional.

É no Legislativo que a renovação real é sufocada na base. Enquanto a atenção pública se desgasta na polarização do topo, a sociedade continua alimentando o Centrão — esse bloco fisiológico e pragmático que não possui ideologia além da própria perpetuação no poder. Trata-se de um estamento que transformou a prerrogativa constitucional de legislar e fiscalizar em um mecanismo de chantagem sobre o Executivo, chantageando governos com a aprovação de contas e a liberação de orçamentos secretos e emendas impositivas. O Congresso tomou as chaves do cofre, mas esquivou-se das responsabilidades da gestão.

Diante desse balcão de negócios, a história recente provou que a longevidade eleitoral do PT e da figura de Lula não ocorreu por acaso ideológico, mas por um pragmatismo que entregou inclusão social dentro das regras da economia de mercado. A famosa Carta aos Brasileiros de 2002 simbolizou a consagração da conciliação de classes: a base conquistou ganhos reais de consumo e crédito, enquanto o topo financeiro continuou registrando lucros recordes.

Quando esse pacto conciliador se esgota ou sofre reveses, o sistema não produz alternativas de transformação; produz narrativas de medo. A direita brasileira, historicamente ligada aos interesses da elite financeira e ao privatismo, passou a recorrer ao espantalho do "comunismo" para demonizar a esquerda. Essa estratégia alimenta um antipetismo moral que dispensa a apresentação de um projeto socioeconômico inclusivo, bastando erguer-se como barreira ao PT. Enquanto a crítica da esquerda sobre as prioridades do capital encontra lastro em dados fiscais e reformas desregulamentadoras, a retórica do "perigo vermelho" serve apenas como cortina de fumaça para proteger velhos privilégios.

É nesse cenário que a pergunta se impõe: é possível emergir um candidato genuinamente novo, sem rabo preso com as famílias tradicionais do erário — como a dinastia dos Sarneys e tantas outras oligarquias estaduais —, que represente a justiça social prevista na Constituição de 1988?

A resposta é sim, mas com uma ressalva incisiva. O novo é paradoxal no Brasil porque o sistema foi desenhado para impedir sua sobrevivência. As regras do jogo — o monopólio das legendas partidárias, a distribuição do Fundo Eleitoral controlada por caciques e a necessidade de coalizão para não sofrer um impeachment — forçam qualquer candidato "puro" a escolher entre duas tragédias: ceder ao fisiologismo das velhas raposas para conseguir governar ou aceitar a paralisia institucional e o isolamento.

A verdadeira renovação não virá da descoberta de um rosto jovem ou de um discurso "nem direita, nem esquerda". Ela só deixará de ser uma ilusão quando a sociedade brasileira entender que o "novo" não é uma pessoa, mas uma mudança de comportamento coletivo. Isso exige tratar a eleição para o Deputado e o Senador com o mesmo rigor dedicado à Presidência, asfixiando os currais eleitorais e exigindo uma reforma política que retire do Congresso o poder de achaque sobre o Orçamento da União.

O "novo" na política é utópico, porque a sociedade não elabora, nem debate um projeto de nação e escolhe o representante mais preparado intelectual e moralmente. O eleitorado aguarda que alguém se apresente e tenha destaque na mídia e dependendo do carisma, discurso e momento político consiga se identificar e projetar ele como o cara que vai resolver os problemas do Brasil. Recentemente, o projeto de Brasil se tornou uma aversão a determinado político ou grupo e não o real debate sobre os problemas do país e quais seriam as soluções.

Desde a redemocratização que o brasileiro repete erros, por exemplo: Collor usou o discurso de um culpado pelos problemas do Brasil, o funcionário público ou o "marajá" (expressão popular pejorativa para definir funcionários públicos que trabalham pouco e ganham muito, além das regalias). Esqueceram e elegeram em 2018 sobre a égide do antissistema um político que botou a culpa dos problemas do Brasil na esquerda. Resultado: todos dois foram uma tragédia em seus governos.

Caiado é o representante das elites. É o cara que no governo vai ser o menino de recado das elites financeiras. Juntamente com Zema, Renan Santos e Augusto Cury representam os interesses do capital. É histórico essa cegueira de que não consegue enxergar que a direita governa para o capital e a esquerda para o social (cujo capital já está inserido).

Lula resiste até hoje porque é o único que consegue governar atendendo os interesses do capital e inserindo políticas de inclusão social. Mas, o que precisamos entender é que o Presidente da República não governa sozinho. O Congresso precisa começar a ser responsabilizado pelo "rombo" nos gastos públicos, pois, eles gastam o dinheiro e o governo é quem tem que explicar o que aconteceu. Para muitos brasileiros, toda a responsabilidade é do Executivo.

Enquanto buscarmos a salvação no Palácio do Planalto sem desmontar o balcão do Congresso, continuaremos trocando as moscas sem alterar o banquete das velhas oligarquias. O "novo" na política brasileira só deixará de ser um paradoxo quando deixar de ser uma promessa individual e se tornar um projeto de cidadania consciente.