Como o mercado santificou o patrimônio, precificou o trabalho e transformou o afeto na última anomalia do mundo moderno.
O balcão da Lan House na esquina não perdoa. O homem de ombros caídos conta as moedas de dez e vinte e cinco centavos sobre o vidro arranhado. Faltam cinquenta centavos para pagar as três cópias da identidade e do comprovante de residência. Três folhas de papel sulfite que, para a engrenagem, atestam que aquele homem existe. A atendente, com o olhar blindado pela repetição diária da miséria alheia, aponta para a placa colada no monitor: Não vendemos fiado. Não insista. Ali, a dois reais e cinquenta centavos de distância da dignidade, o mundo para. O capitalismo exige o seu dízimo. Sem moedas, sem papel; sem papel, sem existência.
Esse mesmo homem, duas ruas acima, um automóvel importado ruge o motor, rasgando o asfalto quente da tarde. O sujeito ao volante não precisou contar moedas como fez na Lan House. Pagou centenas de milhares de reais por uma máquina que faz exatamente o mesmo que um modelo popular: move-se do ponto A ao ponto B. Mas o carro de luxo não foi comprado para transportar o corpo; foi comprado para transportar o ego. No tribunal das calçadas, ninguém questiona o preço absurdo daquele metal reluzente. O excesso ali é visto como virtude, uma demonstração de poder aquisitivo que arranca olhares de cobiça e respeito. No mercado das vaidades, o supérfluo é sagrado; na esquina da necessidade, o centavo é implacável.
Essa distorção de lentes acompanha o homem até o escritório. O mesmo mercado que aceita pagar milhões pelo status de um bem material engasga na hora de valorizar o trabalho humano. O advogado, quando vence uma causa, extrai sua porcentagem sobre o ganho tangível do cliente — uma fatia do dinheiro novo que entra, justa e aceita sem grandes contestações. Mas o contador, que passa noites em claro decifrando o manicômio fiscal para evitar que a empresa seja engolida pelo Estado, é visto como um custo a ser esmagado. O cliente paga o honorário fixo com o mesmo rancor de quem paga uma multa. Querem a blindagem, mas choram o preço do escudo. Afinal, na lógica mercantil, prevenir o prejuízo não tem o mesmo brilho que ostentar o ganho.
O capitalismo, percebe-se, suporta qualquer coisa. Ele suporta a fila do osso, o hospital sem leito, a criança sem eira nem beira na calçada da grande avenida. Ele não se importa com a fome, com a peste ou com o luto. Essas são apenas externalidades, linhas tortas no rodapé de um relatório de riscos. Se o sujeito morre por falta de recursos, a máquina não chora; apenas registra que a demanda potencial diminuiu em uma unidade. Matar ou deixar morrer são consequências aceitáveis do jogo.
O único pecado imperdoável, a heresia que faz o sistema acionar seus tribunais, suas polícias e seus exércitos, é o furto ou o roubo. A propriedade privada é o Deus vivo desse templo de papel-moeda. Se você deve ao banco e a dívida vira uma avalanche, a instituição até lhe dará um desconto agressivo na assessoria de cobrança — não por caridade, mas porque o cálculo frio mostra que receber trinta por cento de alguma coisa é melhor do que gastar com advogados para receber cem por cento de nada. É puro pragmatismo de balanço patrimonial. Mas tente levar um pão sem pagar. Tente fraudar a regra do jogo. O sistema prefere gastar dez vezes o valor do bem roubado na engrenagem da punição do que permitir que o pacto da posse seja violado. O capital perdoa a miséria, mas não tolera a insolvência.
No meio desse deserto de afetos calculados, resta uma única anomalia sistêmica: a mãe.
Só uma mãe quebra a espinha dorsal do capitalismo. Quando o filho precisa, ela não calcula o retorno sobre o investimento (ROI). Ela não exige garantias reais, não cobra juros de mora, não protesta o nome no cartório e, com uma frequência que escandalizaria qualquer comitê de crédito, perdoa a dívida antes mesmo de ela ser paga. Se o filho cai, ela rasga a caderneta de cobranças e estende a mão. Não faz isso por filantropia corporativa — aquela que os bilionários usam para abater impostos e ganhar status de humanitários enquanto expandem seus conglomerados. A mãe faz pelo puro e escandaloso valor de uso da vida daquela criatura.
O amor materno é a última trincheira da economia do dom em um mundo colonizado pelo valor de troca. É o único espaço onde o ser humano ainda vale mais do que o título de crédito. Enquanto as mães existirem, o capitalismo terá que conviver com a humilhação diária de saber que a força mais poderosa do universo não aceita cartão de crédito e não está à venda na próxima esquina.






