terça-feira, 26 de maio de 2026

O Sopro da Resistência: O Pífano como Patrimônio Vivo e a Urgência de Políticas Culturais no Interior

Enquanto verbas milionárias oxigenam o mercado das festas comerciais de grande porte, a tradição centenária da Banda de Pífanos de Geração em Geração e o legado de Mestre Jailson do Pífano sobrevivem pelo apego à identidade e pela força do sangue ribeirinho.



Por: Flávio Hora


No rescaldo das homenagens ao Dia do Trabalhador Rural, quando os discursos institucionais sobre o homem do campo começam a esvaziar-se nas gavetas do oportunismo político, urge trazer ao debate público a dimensão mais profunda e negligenciada da nossa gente: a sua cultura de raiz. A terra que o camponês corta com a enxada e que produz a macaxeira nos povoados de Japaratuba é a mesma que ecoa, ao cair da tarde, um som agudo, estridente e sagrado. É o som do pífano. Um sopro ancestral que teima em não silenciar nas curvas das nossas rodagens e que desenha a verdadeira cartografia da alma do Vale do Cotinguiba.

Falar sobre a música tradicional do nosso interior não é fazer um exercício de mero passadismo ou folclore de vitrine. É tratar de sobrevivência identitária. No coração dessa resistência pulsa a Banda de Pífanos de Geração em Geração, a mais antiga de Japaratuba e região. Oriunda das comunidades ribeirinhas do Riacho do Poxim — o curso d’água que serve de fronteira física, mas que une culturalmente os municípios de Japaratuba e Japoatã —, a banda nasceu no povoado Encruzilhadas, forjada no seio da agricultura familiar e da vida comunitária. Ali, a taboca, o bambu e, mais recentemente, o cano de PVC converteram-se em extensões da própria voz de um povo que transmite seus saberes pela oralidade, de pai para filho, desafiando o esquecimento. 

E como e quando surgiu o Pífanos nessa região

Contam os mais velhos que essa tradição já vem de seus bisavós, trisavós e tataravós. E foi crescendo de acordo com alguma família que ao adoecer um filho ou pedir alguma graça a um santo, fazia uma promessa e o pagamento era fazer uma novena no dia do santo padroeiro ou de sua devoção. Então, naqueles povoados já havia um calendário de "tocadas", culminando sempre na de Santo Antônio na casa de Seu Dóia, no Povoado Encruzilhadas, cuja filha está, atualmente, com 99 anos de idade. Dessa forma, não há um provável ano de "fundação", apesar de que entre meados do século XIX a  1885, é o intervalo de nascimento entre o pai e o avô de D. Caçula de 99 anos, a mais velha ainda viva. Portanto, mais de 140 anos de existência. 

O Legado de Mestre Jailson e a Mística Ribeirinha

Nenhuma narrativa sobre o pífano em nosso chão se sustenta sem evocar a figura perene do seu principal condutor: o saudoso Mestre Jailson do Pífano (in memoriam). Jailson não era apenas um executor de melodias; ele era o guardião de um portal temporal. Quando posicionava o instrumento nos lábios, o que se ouvia não era o ensaio metódico das partituras urbanas, mas o sopro dos antigos, o ritmo das novenas de Santo Antônio e Santa Luzia, a poeira das estradas e a mística das águas do Poxim.

Sob a ótica do Originalismo, a obra de Mestre Jailson e a continuidade da Banda de Geração em Geração representam a essência da originalidade psíquica e cultural do sergipano. É a manifestação de um Lar que se expande através do som. A música do pífano não se vende nas prateleiras do mercado de consumo rápido; ela se vive, se herda e se protege dentro da estrutura familiar. É o patrimônio imaterial em seu estado mais puro e caridoso (Caritas), aquele que se entrega à comunidade para manter acesa a chama da dignidade local.

O Injustificável Esquecimento Institucional

No entanto, quando confrontamos essa riqueza viva com a atuação das secretarias de cultura locais e estaduais, a realidade se impõe com o amargor da injustiça. Assistimos, ano após ano, a um verdadeiro escárnio orçamentário. O poder público não hesita em injetar verbas vultosas, cifras astronômicas e recursos carimbados para financiar palcos gigantescos, estruturas pirotécnicas e cachês inflacionados para atrações comerciais de fora, que passam pelas nossas cidades deixando apenas o rastro do lixo e do consumo efêmero.

Enquanto o mercado da diversão massificada é oxigenado com o dinheiro do contribuinte, a autêntica raiz do nosso povo é empurrada para a invisibilidade. As bandas de pífano, os grupos de idosos, os mestres de saberes tradicionais sofrem com o completo esquecimento institucional. Falta fomento contínuo, faltam editais desburocratizados de salvaguarda, faltam políticas públicas reais que garantam a manutenção dos instrumentos, o deslocamento dos musicistas e a formação de novas oficinas para a juventude dos povoados.

Para a engrenagem política colonialista que ainda vigora no interior, a cultura de raiz é vista apenas como um adereço exótico para ilustrar folhetos de turismo ou abrir solenidades oficiais por alguns minutos. Recusam-se a entender que o pífano é a nossa certidão de nascimento coletiva. Deixar essa tradição morrer sem apoio é cometer um crime de lesa-pátria contra a memória de Sergipe.

O Futuro do Pife: Resgatar para Emancipar

A Banda de Pífanos de Geração em Geração resiste porque possui a solidez das árvores antigas. Ela não depende do aplauso efêmero das elites políticas para existir; sua força vem do sangue, da memória de Mestre Jailson e do respeito à ancestralidade ribeirinha. Mas a resistência não deve ser sinônimo de desamparo.

Nesta terça-feira, 26 de maio de 2026, cobramos uma inversão de prioridades na gestão cultural do Vale do Cotinguiba. Menos espetáculo de palanque e mais salvaguarda na base. Precisamos de escolas municipais que incluam o pífano em suas atividades multidisciplinares, de incentivo financeiro direto aos mestres que dedicam a vida a repassar o sopro aos netos e do reconhecimento definitivo desses grupos como patrimônio vivo.

O som que ecoa de Encruzilhadas e cruza as águas do Riacho do Poxim é o lembrete de que somos um povo com história, identidade e prumo. Que as autoridades limpem os ouvidos do barulho ensurdecedor do comércio cultural e passem a escutar, com a reverência que ele merece, o sopro límpido, forte e eterno da nossa própria terra.

O Dia em que a Missão Virou Cidade

O dia em que a antiga Missão vestiu-se de cidade sob o olhar atento do tempo e de um menino.




Por Flávio Hora


Dizem que essa foto colorida artificialmente é da década de 1930. E nesse período me bate uma saudade daquilo que não vivi. A poeira daquela sexta-feira, 24 de agosto de 1934, não era uma poeira qualquer. Era uma poeira que carregava o peso de 75 anos de emancipação política e a expectativa de um decreto. Quando o coronel Augusto Maynard Gomes assinou o Decreto-lei nº 238, a antiga Missão de Japaratuba não mudava de lugar no mapa, mas mudava de tamanho no peito de sua gente: a sede do município era, finalmente, elevada à categoria de cidade.

E que capricho do destino o calendário reservou: era o Dia do Artista. Japaratuba, terra que mais tarde pariria Arthur Bispo do Rosário e tantos outros mestres da identidade sergipana, nascia cidade sob a benção da criação. Apesar de que a essa altura do campeonato ele já estava homem feito. 

Quem fechar os olhos e tentar voltar àquela sexta-feira vai enxergar a Igreja Matriz, pomposa e soberana, reinando quase absoluta. Ao redor, poucas povoações desenhavam o contorno do que hoje conhecemos. O coreto já estava lá, imponente, como se guardasse o eco das retretas que embalavam os namoros de outrora.

Para quem nasceu mais de meio século depois, resta o exercício sagrado da imaginação. Resta o recurso de recorrer aos guardiões do tempo. Meu avô, nascido em 1928, seria capaz de lembrar daquele alvoroço? Tinha apenas seis anos. E os homens e mulheres ali do povoado Encruzilhadas, nascidos em 1924 ou 1926? Esses centenários, ou quase centenários, carregam nos olhos a Japaratuba que os livros de história ousaram esquecer. Eles guardam os nomes de pessoas comuns que ergueram as paredes dessa terra, gente que viu gerações nascerem e desaparecerem como a fumaça dos antigos engenhos.

Por décadas, muita gente confundiu as estações. Celebrava-se o 24 de agosto como o aniversário do município. Mas a verdade sempre esteve hasteada no mastro, esperando por quem soubesse ler o tempo.

Na minha meninice, em meados dos anos 90, sentado nos bancos do grupo escolar de Dona, eu já olhava para o tecido da bandeira de Japaratuba e intrigava a minha própria mente:

Se o aniversário é em agosto, por que a bandeira estampa o dia 11 de junho de 1859?

Eu já sabia. Ah, se sabia! A própria professora Dona reforçava o mistério — e a solução — quando nos ensinava a cantar o hino municipal. A letra estava lá, nítida, cantando o 11 de junho como o momento do "desmembrando de Capela". Pronto. A pista sempre esteve na música e no pano.

Ainda me pergunto por que as pessoas preferiram abraçar a primeira versão que ouvem sem antes investigar. Mas a minha natureza sempre foi essa: minuciosa, atenta aos detalhes, desde criança. Foi preciso virar o século, já nos primeiros anos do século XXI, para que as autoridades desfazessem o equívoco e retificassem o calendário oficial. Mas o menino dos anos 90 já tinha decifrado o enigma.

No fundo, quem viveu aquela sexta-feira de agosto de 1934 sentiu a mesma pulsação de felicidade de quem testemunhou a certidão de nascimento do município. E por falar em precisão: o 11 de junho de 1859 caiu em um belo sábado. Duas festas, dois dias de semana, a mesma alma japaratubense.

E subimos a torre. Minha própria história está impregnada nos tijolos e no cal dessa cidade. Fecho os olhos e me vejo menino outra vez, driblando a vigilância do sacristão. Subi, com o coração na boca, os degraus já ruídos da torre da igreja. Uma aventura perigosa para pernas tão curtas, mas Deus sempre me protegeu — e, na minha inocência de criança, gostava de pensar que era com exclusividade. Obrigado, Senhor!

Lá do alto, o vento bateu no rosto e me entregou a geografia inteira de Japaratuba. Uma visão que guardo na memória como uma fotografia que nunca desbota: A praça da igreja, o coração pulsante; A Pedreira, com suas marcas no relevo e O Prata, dizia eu que o avistava também, correndo com suas águas e memórias.

Três cenários que a nova cidade, estreada naquela sexta-feira de 1934, preparou para o meu futuro. Cenários repletos de segredos, de heróis anônimos e de esquinas poéticas. Histórias vivas que, no tempo certo, eu ainda irei contar.

segunda-feira, 25 de maio de 2026

VII FLIG 2026: Academia Gloriense de Letras abre inscrições para lançamento de livros em Nossa Senhora da Glória

O maior evento literário do Sertão sergipano acontece em agosto; escritores de diversos gêneros já podem submeter suas obras para a programação oficial.


Imagem: Divulgação

O Sertão sergipano se prepara para se transformar, mais uma vez, na capital da literatura e da cultura regional. A Academia Gloriense de Letras (AGL) anunciou oficialmente a abertura das inscrições para os escritores interessados em lançar suas obras na VII FLIG – Festa Literária de Glória.

O evento, que já se consolidou como um dos maiores e mais importantes marcos do calendário cultural de Sergipe, acontecerá nos dias 25, 26 e 27 de agosto de 2026, no município de Nossa Senhora da Glória.

A FLIG é amplamente reconhecida por promover o encontro democrático entre autores, leitores, artistas, estudantes e pesquisadores. O grande objetivo do encontro é valorizar a produção cultural do Nordeste, além de fortalecer as práticas de leitura e escrita na região.

Como participar dos lançamentos oficiais

Escritores e escritoras de qualquer localidade que possuam obras publicadas nos mais diversos gêneros literários — como romance, poesia, crônica, contos e literatura infantojuvenil — podem pleitear um espaço na programação.

Para garantir a organização e o perfil do evento, a comissão organizadora detalhou algumas orientações importantes para os proponentes:

* Inscrição por obra: O autor deve preencher um formulário específico para cada livro que deseja lançar. Dados incompletos podem inviabilizar a participação.

* Processo de Curadoria: As propostas passarão por uma análise da organização, que levará em conta critérios como a disponibilidade de espaço na grade horária, a diversidade de gêneros e a adequação ao perfil da FLIG.

* Estrutura e Vendas: Os autores selecionados terão direito a uma mesa forrada e água durante o momento do lançamento. Vale ressaltar que a comercialização dos exemplares é de responsabilidade exclusiva do próprio autor.

* Contrapartida Cultural: Como forma de incentivo à leitura local e preservação da memória literária, cada participante deverá doar 02 (dois) exemplares da obra lançada para o acervo permanente da Academia Gloriense de Letras.

* Acessibilidade: O formulário de inscrição conta com um campo de observações para que autores com necessidades específicas de acessibilidade possam informar à organização, garantindo o suporte necessário.

Comunicação e Confirmação

Após o encerramento da fase de inscrições, a organização da VII FLIG entrará em contato direto com os escritores selecionados para confirmar a participação e alinhar os detalhes logísticos, como horários e estrutura de palco.

Para quem respira literatura, a VII FLIG surge como uma vitrine fundamental para fazer ecoar as vozes, a identidade e as histórias da nossa gente.

Serviço:

Evento: VII FLIG – Festa Literária de Glória (2026)

* Data: 25, 26 e 27 de agosto de 2026

* Local: Nossa Senhora da Glória / SE

* Inscrições: Disponíveis através dos canais oficiais e formulários digitais da Academia Gloriense de Letras.

O Suor que Alimenta a Terra: O Trabalhador Rural, a Agricultura Familiar e a Verdadeira Emancipação no Vale do Cotinguiba

No Dia do Trabalhador Rural, a análise do nosso chão revela que a força do campo não está nos latifúndios mecanizados, mas na resistência da agricultura familiar que preserva a nossa subsistência e a nossa integridade original.




Por: Flávio Hora


Nesta segunda-feira, 25 de maio de 2026, abrimos a semana útil celebrando o Dia do Trabalhador Rural. Para quem enxerga a realidade do interior de Sergipe com os olhos anestesiados pelas propagandas de massa, o campo é apenas um cenário de números de exportação e cifras bilionárias. Mas para nós, que guardamos as coordenadas afetivas fincadas na terra, o campo tem rosto, tem calos nas mãos e tem uma história de luta que moldou a própria alma do Vale do Cotinguiba.

Precisamos, antes de tudo, estabelecer a distinção conceitual e econômica que separa a engrenagem viva da nossa subsistência daquilo que o mercado batizou de progresso. O pilar que sustenta a mesa do povo sergipano não é o grande latifúndio; é a Agricultura Familiar. É o pequeno e o médio produtor, o homem e a mulher da piçarra e do massapê, que acordam antes do sol para garantir que o alimento real chegue à mesa das nossas famílias. A agricultura familiar é o coração biológico e social do nosso interior.

Da Enxada Primitiva ao Império do Agronegócio

Para compreender a identidade do trabalhador rural hoje, urge olhar para o espelho do passado. Viemos de um tempo em que a agricultura era essencialmente de subsistência e "artesanal". Uma época em que a lida com a terra dependia do vigor físico, da intimidade com o clima e do manejo de ferramentas simples: a enxada que rasgava o solo, a foice que abria o mato e o facão que limpava o caminho. Era um trabalho duro, herdeiro direto das estruturas oitocentistas dos antigos engenhos de açúcar que outrora dominaram a nossa região, onde o suor humano era a única energia disponível.

Com o avanço das décadas, o cenário transformou-se. O que antes era o manejo íntimo do ecossistema converteu-se no Agronegócio — que nada mais é do que a industrialização da agricultura. O agronegócio substituiu o homem pela máquina, a enxada pela colheitadeira de grande porte e a diversidade de culturas pela monotonia da monocultura em larga escala.

Se, por um lado, essa industrialização trouxe eficiência técnica e conectou o campo às correntes do comércio global — como vimos na transição das lavouras de fumo em Lagarto na década de 60 ou na própria modernização do café —, por outro, ela gerou um profundo esvaziamento humano. O agronegócio enxerga a terra como uma fábrica a céu aberto e o trabalhador como um mero operador de engrenagens ou, pior, como um passivo a ser descartado pela automação.

O Verdadeiro Sentido do "Lar" e a Crítica ao Mandonismo

Sob a ótica da filosofia do Originalismo, a terra onde o trabalhador rural planta não é uma mercadoria ou um ativo financeiro; ela é o prolongamento do seu Lar. Uma família caridosa e consciente compreende que a dignidade humana está umbilicalmente ligada à soberania sobre o próprio chão. Quem trabalha a terra com as próprias mãos desenvolve uma relação mística de respeito e reciprocidade com a natureza — o oposto exato da lógica predatória que muitas vezes sufoca as nossas bacias hidrográficas, como o sofrido Rio Japaratuba.

É por isso que, neste 25 de maio, o nosso papel não é distribuir tapinhas nas costas ou proferir discursos elogiosos falsos. A nossa missão é denunciar que o trabalhador rural do Vale do Cotinguiba ainda é o alvo preferencial do assistencialismo de palanque praticado pelos "coronéis modernos" da política local.

Para essa oligarquia que herdou os vícios do mandonismo colonial, interessa manter o pequeno produtor rural sem assistência técnica, sem linhas de crédito desburocratizadas e em eterna situação de vulnerabilidade. Por quê? Porque o estômago vazio e a incerteza da safra são as ferramentas ideais para a manutenção do voto de cabresto. Transformam o que deveria ser política pública de fortalecimento da agricultura familiar em um "favor pessoal" cobrado nas urnas.

A Emancipação pela Autonomia do Campo

A verdadeira caridade (Caritas, o amor em ação) e a justiça social exigem a emancipação do trabalhador rural. E ela não virá pelas mãos generosas do poder público oligárquico, mas pela conquista da independência econômica.

Exemplos recentes em nosso estado nos mostram o caminho. Quando vemos o renascimento do café arábica sustentável no interior de Sergipe, impulsionado pela teimosia de produtores independentes e da agricultura familiar, percebemos que o campo pode sim prosperar com tecnologia sem perder a sua essência artesanal e humana. O trabalhador rural do século XXI precisa de conhecimento técnico, cooperativismo forte e liberdade de mercado para que o fruto do seu labor retorne para o seu próprio bolso e para a estrutura do seu lar.

As Contradições do Espaço Rural de Japaratuba – Entre os Monocultivos e a Resistência da Agricultura Familiar

Contextualização Territorial e Geohistórica

O município de Japaratuba, localizado na sub-região do Leste Sergipano e integrante da Bacia Hidrográfica do Rio Japaratuba, carrega em sua organização espacial as marcas profundas de uma estrutura agrária historicamente excludente. Desde o período oitocentista, as terras de massapê e os vales férteis da região foram submetidos à lógica do grande latifúndio agroexportador. Tradicionalmente dominado pelo binômio cana-de-açúcar e pecuária extensiva, o espaço rural japaratubense reflete a clássica contradição entre a produção de *commodities* voltadas ao mercado externo/industrial e a agricultura de base familiar voltada para a subsistência e o abastecimento dos mercados locais.

Nas últimas décadas, essa paisagem foi reconfigurada pela introdução de novos vetores de exploração mineral e agroindustrial — como os polígonos de extração de petróleo (com mais de mil poços identificados na bacia) e a expansão dos canaviais mecanizados para o abastecimento de usinas. No entanto, paralelamente a essa engrenagem industrial, sobrevive e resiste um campesinato dinâmico, estabelecido em povoados, assentamentos de reforma agrária e comunidades tradicionais, que atua como o verdadeiro garantidor da soberania alimentar do município.

I. A Cartografia da Resistência Alimentar: Povoados Encruzilhadas e Várzea-Verde

Enquanto os eixos viários e as planícies mais férteis são frequentemente absorvidos pelo avanço do capital canavieiro, o espaço vivido da agricultura familiar se territorializa em núcleos de forte identidade comunitária e artesanal. No desenho dessa geografia camponesa, destacam-se os povoados Encruzilhadas e Várzea-Verde.

Historicamente, além da onipresença da cana-de-açúcar (que muitas vezes encurrala os pequenos lotes por meio de contratos de arrendamento ou pressão lindeira), essas localidades mantêm viva a tradição da mandiocultura. A produção de mandioca e macaxeira nesses povoados cumpre uma dupla função estratégica:

1. Segurança Alimentar e Subsistência: Atua como a base da dieta calórica familiar e comunitária, mantendo viva a tradição culinária do interior profundo.

2. Reprodução Socioeconômica (As Casas de Farinha): A mandioca colhida em Encruzilhadas e Várzea-Verde alimenta as tradicionais estruturas das "casas de farinha" artesanais. Esse processo de beneficiamento transforma a raiz in natura em farinha, goma e tucupi, agregando valor ao trabalho familiar e gerando uma circulação monetária autônoma, que escapa à dependência exclusiva dos salários sazonais do corte da cana.

A permanência desses cultivos tradicionais demonstra que o espaço rural de Japaratuba não é homogêneo. Ele é disputado e fraturado por visões de mundo inconciliáveis: a terra como ativo financeiro (Agronegócio) versus a terra como meio de vida, abrigo e ancestralidade (Lar Camponês).

II. Redes Sociotécnicas e a Busca por Soluções Ecológicas: A Parceria com a Embrapa

Reconhecendo as fragilidades produtivas impostas pelo isolamento institucional e a histórica falta de assistência técnica estatal para o pequeno produtor, a gestão local do município buscou novos caminhos de articulação científica. Em março de 2025, a Secretaria de Agricultura de Japaratuba formalizou agendas de cooperação técnica com a Embrapa Tabuleiros Costeiros (sediada em Aracaju/SE).

Essa articulação visa reverter os gargalos tecnológicos que afetam diretamente comunidades como Encruzilhadas, Várzea-Verde e os assentamentos locais. O escopo da parceria estrutura-se sobre os seguintes pilares:

* Caracterização de Demandas de Base Ecológica: Substituição gradual dos pacotes químicos de insumos por tecnologias de manejo agroecológico, mitigando os impactos da degradação dos solos e preservando as matas ciliares protetoras dos corpos d'água locais.

* Estruturação de Redes Sociotécnicas: Integração entre a pesquisa científica da Embrapa, o conhecimento empírico dos agricultores, as cooperativas de base familiar e os agentes de fomento (como a Sala do Empreendedor do Sebrae). O objetivo é garantir que o conhecimento tecnológico não seja vertical, mas sim coconstruído respeitando o saber tradicional.

* Sustentabilidade dos Sistemas Agrícolas Localizados: Otimização do cultivo de raízes (mandioca/macaxeira) e fruticultura tropical através de sementes e manivas selecionadas e livres de patógenos, conferindo maior produtividade por tarefa sem a necessidade de expansão predatória sobre as poucas áreas de reserva ambiental.

III. Quadro Comparativo: As Contradições do Espaço Rural Japaratubense


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Conclusão

Que esta segunda-feira nos chame à realidade. O trabalhador rural que empunha a enxada ou que hoje lidera uma cooperativa familiar não quer esmola; ele quer respeito, estradas vicinais trafegáveis para escoar sua produção e a garantia de que seu suor não servirá para engordar os cofres de usinas poluidoras ou os palanques eleitoreiros. Salvar a agricultura familiar é proteger a nossa segurança alimentar, a nossa economia real e, acima de tudo, a originalidade soberana do povo sergipano.

O futuro do espaço rural de Japaratuba depende do reequilíbrio dessas forças. O fortalecimento da agricultura familiar, amparado por parcerias científicas inovadoras como a da Embrapa, sinaliza que a emancipação do camponês japaratubense passa, obrigatoriamente, pela valorização de seus cultivos tradicionais e pela quebra das correntes do mandonismo econômico que secularmente imobilizou o campo sergipano.

domingo, 24 de maio de 2026

O aroma da Presença: O Café, as Ausências Digitais e o Chão Sergipano

No Dia Nacional do Café, a memória do pilão no sítio do meu pai cruza-se com o renascimento sustentável da lavoura em Sergipe, lembrando-nos de que o verdadeiro afeto exige o calor da mesa, e não a frieza do ecrã.



Por: Flávio Hora


Há uma sabedoria geométrica no vapor que se desprende de uma xícara de café fresco numa manhã de domingo. Uma física do afeto que nenhuma tecnologia foi capaz de simular. Nas décadas de 50, 60, 70, e até nos idos de 80 e 90, o tempo parecia correr numa velocidade regulada pelo passar da água no coador de pano. Eram tempos de infâncias sem Wi-Fi, de quintais onde os joelhos ralados curavam-se com terra e de salas onde os silêncios não eram preenchidos pelo brilho azulado e hipnótico de um smartphone.

Naqueles tempos analógicos, a saudade e o amor não se liquidavam num "emoji" instantâneo enviado numa fração de segundo. Eles exigiam o peso físico do papel. Quem não se recorda, com um nó de saudade no peito, dos bilhetes e cartas de amor que cruzavam o correio e começavam com aquela liturgia quase sagrada: "É com prazer que pego nesse lápis para lhe escrever essa epístola"? Não eram textos lapidados por escritores de academia ou estetas profissionais; eram linhas tortas, mas profundamente humanas, escritas por pessoas apaixonadas, saudosas e inteiras, cujo único filtro era a pureza do que sentiam.

O café era o maestro desse quotidiano. Servia de ponto de encontro para as paqueras de portão, os flertes discretos sob o olhar vigilante da família e os namoricos que começavam com um esbarrão de xícaras. Mas também era o centro gravitacional das orações nas horas de aflição e das confraternizações ruidosas após as colheitas ou as missas de domingo. A grande verdade que o século XXI tenta apagar é que, enquanto o telemóvel une as distâncias, o café une as presenças. O aparelho digital aproxima quem está longe ao custo de afastar quem está sentado ao nosso lado; o café, ao contrário, exige o olho no olho, o calor do bule e a partilha do pão.

As minhas coordenadas afetivas estão cravadas no chão do sítio do meu pai. Lá, a terra era um ventre generoso onde tinha de tudo: do milho à macaxeira, da fruteira carregada à beleza primitiva dos pés de café. Lembro-me, como se fosse hoje, do ritual primitivo e belo: o grão colhido no tempo certo, seco ao sol, pisado com ritmo e força no velho pilão de madeira, moído e, finalmente, coado. O resultado não era apenas uma bebida preta; era um café único, denso, com o sabor do suor do meu pai e do mistério da nossa terra. Um café que alimentava não o corpo, mas a alma.

Essa vivência da infância liga-se, por fios invisíveis de identidade, à própria história econômica do nosso estado. Como bem registou o historiador Emmanuel Franco, a região da Cotinguiba foi, no século XIX, o império da cana-de-açúcar. Mas com a crise do oitocentos, muitos intelectuais e capitais migraram para o Sudeste cafeeiro. O café em Sergipe parecia ter ficado guardado apenas nos quintais domésticos e nas memórias dos antigos, como uma herança esquecida sob a sombra dos canaviais.

No entanto, a filosofia do Originalismo ensina-nos que o que é autêntico sempre encontra uma forma de brotar novamente através do chão. O café plantado em Sergipe deixou de ser apenas uma lembrança do passado ou um sonho distante para se tornar uma realidade pujante e transformadora.

Histórias como a do produtor José Bartolomeu dos Santos, o "Bartô" — um típico retirante nordestino que trabalhou pelos "trechos" deste Brasil e regressou para resgatar a cultura cafeeira em Lagarto, no povoado Urubu Tinga, inspirado pelo seu tio-avô Pedrito —, mostram a força do homem da nossa terra. Ao lado do amigo Daniel Barbosa, Bartô transformou a desconfiança das instituições financeiras e a omissão inicial do Estado numa revolução silenciosa, distribuindo mudas de café arábica e provando que municípios como Simão Dias, que já tiveram uma economia rural pujante nos anos 30 e 40, podem sim ver o grão de ouro brilhar novamente nos seus campos.

Lembro-me também do café com DNA sergipano, sim um que nasceu da ousadia e do suor do nosso próprio chão tinha o sabor único da nossa mais profunda originalidade. Era o Café Maratá. O pacote que nunca faltava na dispensa de uma família caridosa e séria tornou-se o combustível para as prosas demoradas de calçada e o ponto de união das nossas presenças dominicais. Ver o fumegar daquele pó forte na garrafa térmica era saber que, independentemente da pressa do mundo exterior, ali dentro do Lar residia uma estabilidade que o tempo não podia corromper.

Mais do que isso, Sergipe hoje destaca-se na vanguarda da agricultura sustentável, como bem demonstram as reportagens técnicas do programa Estação Agrícola, da TV Sergipe. O cultivo moderno do café no nosso estado não agride a terra com o veneno das monoculturas coloniais. Ele renasce sob o signo da sustentabilidade, integrando-se ao ecossistema, gerando emprego de base familiar e mostrando que o desenvolvimento económico não precisa de sacrificar o nosso património natural nem a dignidade do trabalhador rural.

Celebrar este Dia Nacional do Café neste domingo, 24 de maio, é fazer um pacto com a nossa própria história. O café sustentável que hoje cresce em Sergipe é o mesmo que, no passado, sustentou a infância de muitos de nós no interior, pisado no pilão e coado na santidade das cozinhas de outrora.

Que possamos, neste dia, desligar por algumas horas os ecrãs frios que nos isolam em bolhas virtuais. Que resgatemos a coragem daquelas cartas de amor escritas a lápis e a mística dos pontos de encontro presenciais. Vamos passar um café forte, sentar à mesa com os nossos e celebrar o que realmente importa: a presença, o abraço e a nossa identidade original. Afinal, a vida acontece no espaço que fica entre uma xícara e outra.

sábado, 23 de maio de 2026

A verdade sobre os juros no Brasil que vai te deixar indignado

Por que precisamos falar sobre o que acontece com o seu dinheiro?


Você já reparou que, não importa o cenário econômico do Brasil, as manchetes dos jornais parecem viver em duas realidades paralelas? De um lado, o trabalhador enfrenta a inflação no mercado, o salário que encolhe antes do fim do mês e o malabarismo para pagar os boletos. Do outro, os balanços financeiros dos grandes bancos revelam lucros recordes de bilhões de reais, trimestre após trimestre.

Como essa conta fecha? Se a economia real está sufocada, de onde vem tanta prosperidade corporativa?

Nós fomos ensinados a enxergar as instituições financeiras como parceiras do nosso crescimento. Afinal, as propagandas na televisão e os aplicativos modernos prometem facilidade, inclusão e apoio aos nossos sonhos. Mas, por trás dessa cortina de fumaça do marketing, existe uma engrenagem matemática fria e implacável que foi desenhada para fazer o sistema ganhar sempre — e você quase nunca.

Falar sobre o que acontece com o seu dinheiro não é apenas uma discussão técnica sobre taxas e gráficos. É sobre entender por que o sistema penaliza quem poupa e estrangula quem precisa de crédito. É sobre desmascarar o mecanismo que permite que práticas consideradas crimes para um cidadão comum virem "estratégias legítimas de mercado" quando praticadas por um grande CNPJ.

No texto a seguir, nós vamos abrir a caixa-preta do sistema bancário brasileiro. Vamos viajar no tempo para entender a sua verdadeira origem, destrinchar a mecânica cruel do *spread* bancário e expor as amarras jurídicas que mantêm o trabalhador refém desse modelo. Mais do que uma crítica, este é um convite para você recuperar a soberania sobre o fruto do seu próprio suor.

Abra a mente, questione o óbvio e descubra as regras de um jogo que você joga todos os dias — mas que raramente foi feito para você ganhar.

A Engrenagem Secreta: Por Que os Bancos Lucram Bilhões Enquanto Você Fica no Vermelho?



Se você abrir a aba “Quem Somos” de qualquer grande conglomerado financeiro no Brasil, o impacto visual é quase poético. Imagens de famílias sorridentes, promessas de "inclusão financeira", selos de "sustentabilidade" e jargões sobre "parcerias para o seu crescimento". No entanto, ao afastar a cortina de fumaça do marketing institucional e olhar para as engrenagens da história, a poesia dá lugar a uma realidade fria e puramente matemática: a acumulação primitiva e a exploração contínua do trabalho alheio.

Este espaço é dedicado ao exercício pleno da liberdade de expressão, do pensamento crítico e do direito ao contraditório, pilares inalienáveis do Estado Democrático de Direito, conforme assegurado pelo Artigo 5º, incisos IV e IX, da Constituição Federal.

Toda e qualquer publicação, artigo ou análise aqui veiculada pauta-se pelo compromisso estrito com a informação, o interesse público e a educação social. Nosso objetivo é o debate estrutural, técnico e histórico sobre o funcionamento do sistema financeiro, econômico e de suas dinâmicas de mercado.

Os bancos modernos não nasceram para salvar o mundo, mas para financiar o avanço do próprio capitalismo na transição do feudalismo. A premissa vendida nos livros tradicionais de economia parece justa: captar recursos de quem tem sobra (os poupadores) e injetar em quem precisa produzir (os tomadores). O banco seria o coração pulsante, o motor da economia. Na prática e sob a ótica da sobrevivência do capital, a missão real sempre foi outra: centralizar o dinheiro para monopolizar o poder econômico.

No cenário brasileiro, essa dinâmica ganhou contornos de crueldade cirúrgica. O que temos hoje não é um mercado competitivo, mas um oligopólio consolidado, onde um punhado de instituições controla quase a totalidade do fluxo monetário do país. Quando o poder está concentrado nas mãos de tão poucos, a tal da "livre escolha" do consumidor vira uma ilusão. O cliente não negocia; ele obedece.

É dentro dessa estrutura monopolista que opera o que podemos chamar, sem medo das palavras, de agiotagem legalizada. Afinal, agiotagem é o empréstimo com juros extorsivos, crime previsto na lei 1.521/51. O contrato de mútuo entre particulares é permitido, mas a taxa de juros não pode exceder 12% ao ano, conforme decreto 22.626/93.

Se um cidadão comum emprestar dinheiro a juros abusivos na esquina, ele comete um crime tipificado por lei. Mas se uma instituição financeira captar o suor do trabalhador pagando uma taxa irrisória de 0,5% ao mês na poupança e, logo em seguida, emprestar esse exato mesmo dinheiro cobrando taxas que facilmente ultrapassam os dois ou três dígitos ao ano, o nome muda. Passa a se chamar "estratégia de mercado" e "gestão de risco através do spread bancário".

O correntista é sistematicamente lesado em duas frentes. Ele perde poder de compra quando deixa seu dinheiro guardado recebendo migalhas que mal cobrem a inflação real, e é estrangulado quando precisa de crédito para sobreviver ou empreender. O banco opera milagres matemáticos trabalhando quase que exclusivamente com o dinheiro dos outros, enquanto transfere todo o risco do colapso social para as costas do consumidor.

Mas por que o Estado permite que essa engrenagem continue girando com tamanha violência? A resposta está na simbiose perfeita entre o poder político e o financeiro. O governo não é um mero espectador; ele é sócio oculto desse banquete.

Enquanto a população se afoga no cheque especial e no rotativo do cartão, os bancos registram lucros recordes e exorbitantes, trimestre após trimestre, alheios a qualquer crise, recessão ou pandemia. Parte expressiva desse lucro retorna aos cofres públicos na forma de uma pesada arrecadação tributária e, mais importante, na compra de títulos da dívida pública. O Estado precisa dos bancos para se financiar e se manter de pé; os bancos precisam das leis do Estado para legitimar suas práticas de cobrança, a retenção de saldos em conta e a automação de débitos programados que confiscam a renda antes mesmo que o trabalhador possa comprar a comida do mês.

Trata-se de um pacto de elites onde o cidadão comum entra apenas com o insumo: o trabalho e a dívida. Chamar esse sistema de "motor de desenvolvimento" é ignorar o rastro de famílias superendividadas e negócios locais destruídos pelas taxas de juros. O sistema bancário, em sua essência capitalista, funciona como o ápice da exploração moderna. Ele não gera riqueza real; ele drena a riqueza produzida por quem de fato trabalha.

A Conveniência do Estado

O Estado tolera e normatiza essa assimetria por uma razão puramente fiscal. Os grandes bancos são os maiores compradores de títulos da dívida pública brasileira. Se o governo gasta mais do que arrecada, ele emite papéis da dívida e quem os compra, financiando o Estado, são os bancos (utilizando, inclusive, o dinheiro depositado pelos correntistas).

A contrapartida dessa aliança é a manutenção de um ambiente regulatório onde o banco tem ferramentas jurídicas agressivas para cobrar: as já mencionadas cláusulas de compensação, o débito automático programado e a exclusão da Lei da Usura.

É por isso que a expressão "agiotagem legalizada" define perfeitamente o cenário: a conduta econômica (emprestar a juros sufocantes) é idêntica à do agiota, mas o verniz da legalidade confere ao banco o aparato do próprio Estado para executar a cobrança.

A Anatomia da Assimetria Jurídica

A Regra para os Mortais (Decreto 22.626/33 - Lei da Usura): Estipula que nenhum contrato de mútuo (empréstimo) entre particulares pode cobrar juros superiores ao dobro da taxa legal (o que historicamente limita os juros a 12% ao ano). Além disso, a Lei 1.521/51 tipifica como crime contra a economia popular a cobrança de juros extorsivos. Se você emprestar dinheiro ao seu vizinho cobrando 5% ao mês, você pode ser processado e preso.

A Exceção para os Bancos (Súmula 596 do STF): É aqui que o sistema se blinda. Na década de 1960, com a criação do Sistema Financeiro National (Lei 4.595/64), o Supremo Tribunal Federal consolidou o entendimento de que a Lei da Usura NÃO se aplica às instituições financeiras.

O privilégio do CNPJ bancário: Por força de lei e jurisprudência, os bancos receberam o superpoder institucional de cobrar taxas flutuantes de mercado. Na prática, o que é crime de agiotagem para uma pessoa física na calçada vira "operação de crédito legítima" para o banco dentro da agência, mesmo que a taxa seja de 400% ao ano no rotativo do cartão.

O Bode Expiatório Digital: Quando o Mau Político Tenta Amordaçar a Verdade

A estratégia populista de linchar a imprensa local, manipular o ressentimento do eleitor e usar o assédio judicial para blindar os abusos do poder.




A cena repete-se com a precisão coreográfica das tragédias anunciadas. Diante de uma denúncia de nepotismo, de um contrato de licitação sob suspeita ou do colapso óbvio de um serviço público essencial, o mau político não apresenta notas fiscais, certidões ou justificativas técnicas. Ele apresenta um culpado. E, quase sempre, o escolhido para ocupar o banco dos réus da opinião pública é o mensageiro: o jornalista independente, o portal local, o blogueiro que se recusou a trocar o brio profissional por uma fatia da verba publicitária institucional.

Transformar a imprensa livre em bode expiatório é um método tão antigo quanto o próprio absolutismo, mas que ganhou contornos alarmantes na era dos algoritmos e da polarização hipertrofiada. A estratégia é cirúrgica e perversa: consiste em desviar os olhos do cidadão do foco do escândalo e apontá-los para quem o revelou, convertendo uma falha de gestão em uma suposta perseguição política.

Para que essa engrenagem funcione, o governante ou parlamentar inescrupuloso precisa de um combustível específico: o voto movido pelo fígado, e não pela cabeça. Apelar às entranhas do eleitorado significa sequestrar o debate racional e substituí-lo pelo ressentimento, pelo fanatismo e pela urgência do julgamento sumário. O eleitor que vota com o fígado não quer saber se o portal de notícias provou, com documentos obtidos via Lei de Acesso à Informação, que houve desvio de finalidade na aplicação de recursos públicos. Ele quer apenas saber se o jornalista pertence ao seu "time" ou ao "time adversário". Se a denúncia atinge o seu político de estimação, o fato é rebaixado a "intriga de blogueirinho".

Essa manipulação se vale da fragilidade estrutural do jornalismo independente nas pequenas e médias cidades. Enquanto as corporações tradicionais de mídia possuem blindagem jurídica e distância geográfica dos fatos narrados, o jornalista local divide a calçada com o prefeito, com o secretário e com os vereadores. Ele é vulnerável ao assédio judicial — aquela enxurrada de processos por danos morais cujo objetivo real não é a reparação de uma calúnia inexistente, mas o estrangulamento financeiro do profissional.

Quando o mau político carimba um portal independente como "inimigo do povo" ou "página de fofocas", ele está emitindo uma ordem velada para que suas milícias digitais iniciem o linchamento virtual. O objetivo final vai muito além de desacreditar uma única matéria: busca-se criar um efeito pedagógico pelo medo. Intimida-se o profissional de hoje para que o de amanhã opte pelo silêncio obsequioso e confortável das notas oficiais e das propagandas pagas.

Uma sociedade que consome e aplaude a destruição da imprensa local está, deliberadamente, assinando um cheque em branco para o autoritarismo e para a corrupção de província. Sem o olhar atento do jornalismo independente, os contratos de gaveta prosperam, os recursos que deveriam ir para a saúde evaporam em eventos fantasmas e a transparência pública vira ficção jurídica.

O antídoto para o populismo visceral é a insistência na racionalidade. O cidadão que compreende o valor do voto precisa aprender a ler com a mente fria, a cruzar dados e a defender quem, muitas vezes de forma solitária e corajosa, dá voz à fiscalização que os grandes centros esquecem. Atacar o termômetro nunca curou a febre de uma administração doente. Quebrar a vidraça da imprensa livre só serve para deixar o patrimônio público exposto aos que preferem governar na mais completa escuridão.