Da Vitaliciedade Imperial à Transitoriedade Democrática: Como a Confusão Entre a Permanência do Ser e a Passageiridade do Estar Modela a Vaidade e o Poder na Política
Na política, como na vida, a gramática é implacável. Mas enquanto na língua portuguesa o verbo ser e o verbo estar habitam reinos distintos sem grandes sobressaltos, na política partidária a confusão entre ambos costuma ser a origem de quase todas as vaidades, quedas e desilusões.
Na língua e na vida, ser e estar caminham como irmãos gêmeos, mas habitam territórios opostos. O que pertence à natureza intrínseca, ao essencial e ao próprio do homem carrega a marca do verbo ser. Já o que é provisório, efêmero e momentâneo pertence ao domínio do verbo estar. Se o que sou permanece como essência, o que estou é puro movimento, passível de mudança a qualquer virada do tempo. A própria vida flerta com essa dualidade: somos seres vivos, mas estamos vivos apenas enquanto o sopro da existência permitir. Hoje se é; amanhã, pode-se não ser mais.
A monarquia construiu a sua essência sobre o verbo ser. D. Pedro II não estava imperador do Brasil; ele era o imperador. O trono não dependia de uma contagem de votos ao fim de um mandato, nem da oscilação de humor do eleitorado a cada quatro anos. A coroa repousava sobre a cabeça sob a premissa da vitaliciedade e do direito divino. O título fundia-se à própria pessoa do soberano: morrer imperador era o único desfecho possível, porque ser imperador era uma condição de existência, não um contrato temporário.
No regime republicano e na vida partidária, contudo, a lógica muda radicalmente de sintaxe. O poder não eivou a natureza do homem; apenas fez uma visita demorada. Na política democrática, ninguém é mandatário; apenas se está mandatário.
O mandato é um aluguel com data fixa para devolução das chaves. O cargo de prefeito, deputado, senador ou presidente é uma veste emprestada pelo povo, que a recolhe quando o tempo do contrato se esgota. O mandato não se incorpora à alma de quem o exerce. O gabinete carpetado, os aplausos da militância, os carros oficiais e a corte de assessores não pertencem ao indivíduo, mas à cadeira.
Contudo, a reflexão nos mostra que a partícula "se" parece abrir uma licença perigosa para a vaidade humana. É ela que faz o indivíduo "se achar" dono do que é apenas passageiro. Esse fenômeno não se restringe à vida pública; manifesta-se no cotidiano pessoal e profissional. Mas é no universo dos "homens de terno e gravata", nos gabinetes e nos cargos de confiança, que essa ilusão atinge o seu ápice.
Em tempos eleitorais, os postulantes ao poder estão por toda parte: caminham entre a população, batem às portas e curvam-se à procura do eleitor. Todavia, uma vez assinada a procuração nas urnas e ocupadas as cadeiras oficiais, muitos esquecem rapidamente quem lhes conferiu o direito de ali estar. Passam a agir como se a função lhes pertencesse por natureza, confundindo a modesta condição de ocupantes temporários com a posição de proprietários do Estado.
O drama do político contemporâneo reside na trágica incapacidade de reconhecer essa distinção gramatical. Acostumado ao rigor da reverência diária, o líder desatento passa a acreditar que é a autoridade. Confunde o poder da função com o peso da própria voz. Esquece que a faixa presidencial ou o broche parlamentar são adereços transitórios, e não traços de personalidade.
Aquele que acredita ser o cargo sofre imensamente quando o calendário eleitoral impõe o retorno ao verbo estar. Pois quem está como mandatário sabe que a oposição virá, que a derrota é uma possibilidade real e que o anonimato das ruas sempre espera pelo retorno de quem lá saiu. Sabe que o poder é como a névoa da manhã: impressiona enquanto cobre a paisagem, mas se evapora ao menor sinal de mudança do tempo.
Compreender a política é dominar a transitoriedade do verbo estar. Quem governa lembrando-se de que é apenas um inquilino da vontade popular exerce o poder com a sobriedade dos homens sábios. Já quem se julga monarca num sistema eleitoral descobre, no dia seguinte à apuração, que a única coisa verdadeiramente vitalícia no mundo dos homens é a impermanência.






