A Ilusão da Propriedade e a Remuneração do Suor: Como o Sistema Transforma a Sobrevivência em uma Assinatura Perpétua e o Trabalho em um Imposto Sobre a Existência
O corretor de imóveis estufa o peito, entrega as chaves douradas e pronuncia a sentença de libertação: "Parabéns, o imóvel é seu. Acabou o aluguel!" O novo proprietário sorri, visualizando um horizonte sem boletos de terceiros, o chão firme da estabilidade, o teto sagrado da independência. Mal sabe ele que acabou de assinar o contrato do maior condomínio invisível do mundo.
Ter uma casa própria, no frigir dos ovos mercadológicos, é apenas mudar o nome do senhorio.
O aluguel da parede caiu, é verdade. Mas o condomínio chega na data estipulada, cobrando a taxa de existência daquela comunidade vertical. Se não pagar, a propriedade desaba na esteira dos leilões judiciais. Logo atrás, na fila do guichê da sobrevivência, vêm os aluguéis da infraestrutura: a água que limpa, a luz que alumia, o telefone e a internet que conectam o cidadão ao grande motor do mundo. Experimente atrasar o aluguel do megabyte ou da voltagem para ver em quanto tempo a sua fortaleza se transforma em uma caverna escura e isolada.
E quando você pensa que o solo debaixo dos seus pés é genuinamente seu, a municipalidade bate à porta com o IPTU. O Imposto Predial Territorial Urbano nada mais é do que o aluguel anual que pagamos ao Estado pelo privilégio de ter uma sombra fincada no mapa do município. Somos inquilinos do chão da pátria. Se o tributo falha, o Estado, esse senhorio de terno e Diário Oficial, confisca o teto.
Essa ilusão de posse ganha contornos ainda mais dramáticos no comércio. O microempresário, sufocado pelo boleto do ponto, passa as noites calculando: *"Se eu não pagasse esse aluguel comercial todo mês, eu estava rico. Comprava estoque, trocava de carro, mudava de vida"*. Nasce aí o mito do prédio próprio. O empreendedor investe uma vida inteira, ergue as paredes da sua sede e, quando finalmente senta na cadeira de diretor do imóvel próprio, descobre a mesma pegadinha. O IPTU agora é comercial (e mais pesado), a manutenção triplicou, a segurança cobra seu quinhão. A riqueza que supostamente viria com a "posse" dissolve-se na manutenção da própria estrutura. O teto mudou de dono, mas a engrenagem continua faminta.
Para sustentar essa ciranda de locações perpétuas, o cidadão vende a única coisa que realmente lhe pertence: o tempo.
E aqui reside a grande armadilha linguística do nosso cotidiano. Costuma-se dizer, na informalidade das ruas, que fulano "ganhou" o seu salário no final do mês. Um equívoco crasso, quase uma ofensa ao suor. Ganhar é verbo da casualidade, da benesse, da sorte que contempla o sujeito estático na fila da loteria. Ninguém "ganha" o pão que custa o desgaste da mente e o cansaço dos ossos.
O termo correto, técnico e justo, é remuneração. Trata-se de uma retribuição, uma contraprestação pelo esforço empenhado. E ainda assim, uma retribuição irônica: o trabalhador vende a sua força de trabalho por uma fração, uma margem que quase nunca corresponde ao montante real da riqueza que ele gerou com as próprias mãos. A mais-valia é o aluguel que o trabalhador paga ao sistema para ter o direito de produzir.
No fim das contas, a vida sob o império do capital é uma crônica de locações sucessivas. Aluga-se a força de trabalho pela manhã para, à noite, pagar o aluguel da luz, da água, do condomínio e do imposto. A propriedade privada é uma vidraça bonita que esconde uma verdade incômoda: neste mundo, meu caro, a gente não possui nada. A gente só paga a taxa de permanência até o próximo vencimento.







