quarta-feira, 16 de setembro de 2026

Editorial: A Ilusão da Abundância e a Banalização do Microcrédito

A Transição da Escassez à Armadilha da Bancarização Sem Orientação. Quando a execução na ponta se descolada do propósito original — transformando programas sociais em balcões de metas, por exemplo —, a política pública falha em sua missão transformadora, e o custo do fracasso é pago tanto pela população desassistida quanto pela credibilidade das próprias instituições públicas.





É importante frisar que as políticas públicas dependem de dois fatores: a formulação teórica de uma política pública e a sua aplicação prática na vida real. Muita gente, simplesmente, não se debruça sobre a legislação para cobrarem seus direitos ou se atentarem às suas obrigações. Geralmente, o cidadão atingido pelo fracasso não cobra a empresa terceirizada, a instituição operadora ou o agente que descumpriu a diretriz; a cobrança social e eleitoral recai sobre o governo que assinou o decreto.

Toda abertura de mercado ou expansão de oferta que não seja devidamente orientada e monitorada corre o risco inevitável de romper os limites do razoável. A história econômica recente do Brasil oferece uma aula prática sobre como os extremos no acesso ao dinheiro podem ser igualmente danosos para a classe trabalhadora, variando apenas na forma como a vulnerabilidade social é explorada.

Nos anos 1990, a tônica do sistema financeiro era a restrição severa. Em um país que recém-saía do dragão da hiperinflação e tentava estabilizar sua moeda, o crédito era escasso, seletivo e praticamente inacessível para quem não possuía garantias patrimoniais sólidas. A maioria dos trabalhadores e pequenos empreendedores informais vivia à margem do sistema bancário, dependendo de agiotas ou do apoio familiar para obter qualquer capital de giro. Era a era do sufocamento por exclusão.

O século XXI trouxe uma virada de chave drástica. A partir dos anos 2000, impulsionada pela estabilidade do Real e por políticas de inclusão bancária em massa, a escassez deu lugar a uma enxurrada de liquidez. O discurso oficial celebrava a democratização do dinheiro e a ascensão social pelo consumo. No entanto, sem a devida regulação e educação financeira de base, essa facilidade desenfreada rapidamente revelou suas garras, transformando a inclusão em armadilha e a oportunidade em superendividamento.

Nesse cenário, os programas de microcrédito produtivo orientado surgiram com a promessa de ser o contraponto ético do sistema bancário tradicional. Iniciativas pioneiras e de grande alcance no Nordeste, como o Crediamigo e o CEAPE, nasceram sob a premissa nobre de apoiar o pequeno empreendedor da economia informal — aquele vendedor ambulante, a costureira ou o feirante que precisava de um impulso para prosperar. O diferencial teórico desses programas residia justamente na palavra "orientado": o crédito viria acompanhado da presença constante de um consultor, instruindo sobre gestão, fluxo de caixa e investimento responsável.

A realidade prática, contudo, tratou de corroer o conceito original. Pressionados pela lógica corporativa de bater metas agressivas de expansão e volume de carteira, os programas de microcrédito viram a orientação ser gradativamente abandonada no balcão. O consultor de campo, que deveria atuar como um educador e parceiro do negócio popular, acabou convertido em um mero vendedor de contratos e cobrador de parcelas.

Hoje, a rotina desses agentes reflete a lógica comercial predatória das grandes instituições: o cliente só é procurado em dois momentos específicos — na hora de renovar a operação para inflar os índices da instituição ou quando a primeira parcela entra em atraso. A avaliação contínua do impacto do dinheiro na vida do microempreendedor e a instrução sobre a real capacidade de pagamento foram descartadas em nome da escala.

A transição da rigidez dos anos 90 para a facilidade predatória dos anos 2000 demonstra que a expansão do crédito sem a devida responsabilidade pedagógica não gera desenvolvimento sustentável; apenas transfere o perfil do endividado. Quando o microcrédito abdica da sua vocação educativa para priorizar a meta de produção, ele deixa de ser uma ferramenta de emancipação social e passa a integrar a mesma engrenagem que extrai o suor do trabalhador para alimentar estatísticas bancárias.

O sistema financeiro contemporâneo construiu uma estrutura onde o acesso ao crédito, frequentemente vendido como um passaporte para a inclusão social e o consumo, converteu-se em uma armadilha silenciosa para a classe trabalhadora. Sob a promessa da facilidade imediata, cartões de crédito, limites de cheque especial e empréstimos consignados são empurrados diariamente para cobrir o fosso deixado pelos salários defasados e pelo custo de vida crescente. O que a publicidade bancária apresenta como uma solução de liquidez temporária é, na verdade, a porta de entrada para uma engrenagem desenhada para capturar a renda das famílias por longos períodos.

Uma vez inserido nessa ciranda, o consumidor se vê diante do fenômeno devastador dos juros compostos. No Brasil, onde as taxas cobradas no rotativo e nos juros de mora figuram entre as mais elevadas do planeta, uma pequena quantia em atraso rapidamente perde a proporção com a dívida original. A matemática bancária opera de forma implacável: a cada mês que passa, os juros incidem não apenas sobre o capital emprestado, mas sobre os próprios juros acumulados, alimentando uma bola de neve financeira que devora qualquer tentativa de planejamento doméstico. O salário, que deveria garantir a subsistência e a dignidade, passa a ser drenado quase integralmente para a manutenção de encargos extorsivos, criando um cenário de dependência permanente do próprio crédito que originou a crise.

A transição da inadimplência para a condição de dívida impagável impõe um custo que ultrapassa a esfera financeira e atinge diretamente a saúde física e mental do devedor. O superendividamento transforma a rotina em um estado contínuo de ansiedade e privação. A incerteza quanto ao futuro, a necessidade de escolher entre honrar compromissos bancários ou cobrir despesas básicas com alimentação e saúde, e o sentimento de incapacidade corroem as relações familiares e a dignidade pessoal. A dívida deixa de ser um mero saldo devedor em uma planilha para se tornar um transtorno social que paralisa o indivíduo.

Para agravar esse quadro de vulnerabilidade, o sistema de cobrança atua de maneira ostensiva e coercitiva. A ameaça constante de negativação nos órgãos de proteção ao crédito, o bloqueio de linhas telefônicas com chamadas automatizadas a qualquer hora do dia e a sombra iminente de uma ação judicial de execução instauram um clima de pânico psicológico. O fantasma da cobrança judicial, com o risco de penhora de bens ou bloqueio de contas bancárias, é utilizado como instrumento de pressão para forçar o refinanciamento de débitos em condições ainda mais desfavoráveis. Assim, o cidadão permanece encurralado entre a voracidade das instituições financeiras e a omissão de uma regulação estatal que proteja a renda essencial da população diante do poder desproporcional do capital bancário.

O Deus de Esperança: A Certeza que Não se Abala diante das Tempestades

Nesta quarta-feira, 16 de setembro de 2026, a bênção apostólica de Paulo nos revela a fonte inagotável da verdadeira alegria e serenidade interior. Descubra como a esperança divina transcende as ilusões do otimismo humano e nos sustenta com firmeza e propósito nos bastidores dos dias mais desafiadores.



“Ora o Deus de esperança vos encha de todo o gozo e paz em crença, para que abundeis em esperança pelo poder do Espírito Santo.”

  — Romanos 15:13


Muitas vezes, as pessoas perguntam de onde vem a alegria e a serenidade em momentos de tensão e de problemas em nossa vida. Quem espera em Deus não se desespera, pois ele é o Deus da Esperança. E essa é a nossa mensagem de hoje. 

Sabemos que as epístolas de Paulo foram escritas no grego koiné que era o idioma de comunicação universal em todo o Império Romano e na região do Mediterrâneo, isso permitia que as cartas fossem compreendidas por diferentes comunidades na Ásia Menor e na Europa. Por isso, a tradução nos convida a entender a profundidade da mensagem. 

Ao encaminhar a conclusão de sua carta aos cristãos de Roma, o apóstolo Paulo pronuncia uma oração em forma de bênção que sintetiza o topo da experiência comunitária e pessoal com o Evangelho. No texto original em grego, a expressão "Deus de esperança" (ho theos tēs elpidos) revela que o Criador não é apenas o concessor da expectativa futura, mas a própria essência e garantia de que o amanhã está seguro sob a Sua soberania. O verbo "encha" traduz plērōsai, que significa preencher até transbordar, sem deixar espaços vazios para o medo ou a perturbação. Esse preenchimento divino é composto por "gozo" (charas, alegria graciosa) e "paz" (eirēnēs, serenidade integral), que são vivenciados "em crença" (en tō pisteuein), ou seja, através do ato contínuo de confiar e descansar na fidelidade de Deus. O resultado dessa plenitude é um estado onde os crentes "abundam" (perisseuein, ter em extrema abundância) em esperança, não por mérito ou esforço mental próprio, mas pela ação capacitadora do Espírito Santo (en dynamei pneumatos hagiou). A esperança que brota do relacionamento e da comunhão com Deus é a única verdadeiramente confiável, capaz de produzir em nós segurança e confiança no futuro, mesmo em meio às circunstâncias difíceis desta vida, e a certeza da vida eterna no porvir. Essa esperança não é comum nem está ancorada em garantias humanas. É uma esperança sobrenatural, que não depende das circunstâncias e permanece mesmo diante de situações que, de outra forma, poderiam produzir desespero.

Trazer esse texto de Romanos 15:13 para esta quarta-feira, 16 de setembro de 2026, é um antídoto indispensável para a ansiedade e a incerteza que tantas vezes tentam dominar o nosso cotidiano. O mundo costuma confundir esperança com mero otimismo humano — um desejo vago de que as coisas "dem certo" por sorte ou pela força das circunstâncias. No entanto, quando as crises financeiras se instalam, a saúde fraqueja ou as decepções nos relacionamentos acontecem, o otimismo humano rapidamente desmorona e dá lugar ao desespero. A esperança cristã opera em uma dimensão totalmente oposta: ela não é uma ilusão ingênua e nem depende de cenários favoráveis para existir. Ela está firmada no caráter imutável do "Deus de esperança", garantindo-nos que as dores do presente não têm a palavra final sobre a nossa vida e que a glória eterna prometida por Cristo é uma realidade inabalável.

A aplicação prática dessa bênção nos bastidores do nosso dia a dia exige que decidamos onde depositar o nosso descanso moral e a nossa confiança diária. Ter abundante esperança nos bastidores da rotina significa enfrentar os problemas do trabalho, as pressões familiares e as responsabilidades diárias sem se deixar levar pela murmuração ou pelo pânico. Significa lembrar, no silêncio do coração, que o Espírito Santo habita em nós para renovar as nossas forças quando as nossas energias humanas se esgotam. Quando nos alimentamos da Palavra e cultivamos a comunhão com Deus, a paz e a alegria celestiais preenchem a nossa mente, tornando-nos pessoas serenas, equilibradas e capazes de transmitir firmeza e consolação para aqueles que convivem conosco e estão prestes a desanimar.

Nesta quarta-feira, entregue as suas preocupações e planos nas mãos d'Aquele que é a fonte de toda a esperança. Peça ao Espírito Santo que preencha a sua alma de tal maneira que a dúvida e o medo não encontrem espaço para se instalar. Quem aprende a confiar e a descansar no Deus de esperança não caminha à mercê dos ventos das circunstâncias; pelo contrário, vive com o coração firme, experimenta a alegria que o mundo não pode tirar e avança para o futuro com a certeza de que a vitória em Cristo já está garantida.

Em que área da sua vida você precisa parar de confiar em garantias humanas e permitir que o Deus de esperança encha o seu coração de paz e alegria no dia de hoje?

terça-feira, 15 de setembro de 2026

As Novas Roupagens da Dominação: Bolsonarismo, Anti-intelectualismo e a Fantasia do Poder Político

A reflexão sobre como as ideologias dominantes moldam a sociedade, reduzem a cidadania ao consumo e transformam a educação em mera engrenagem mercadológica é um tema central para compreender a crise existencial contemporânea. Contudo, ao olharmos para o cenário socio-político brasileiro, torna-se indispensável atualizar esse diagnóstico crítico diante do surgimento de fenômenos como o bolsonarismo, a consolidação do antipetismo e a institucionalização do anti-intelectualismo.

O Presidente "Ocupa" o Governo, mas a Elite Financeira Domina o Poder

Uma das distinções mais fundamentais para compreender a política contemporânea é a separação entre estar no governo e deter o poder. Enquanto a presidência da República e os cargos eletivos representam a ocupação temporária do aparelho estatal, a elite financeira e o grande capital continuam sendo os verdadeiros "donos do poder".

As decisões que realmente afetam a estrutura socioeconômica — como a política monetária, a taxa de juros, a precarização das relações de trabalho e a priorização do agronegócio voltado para a exportação em detrimento da sustentabilidade — passam pelo crivo do sistema financeiro. Os ocupantes do Palácio do Planalto, independentemente de sua retórica ideológica, negociam dentro dos limites estreitos impostos pelos detentores dos meios de produção e da grande mídia, reafirmando que o capital financeiro dita a agenda real do país.

Bolsonarismo e Antipetismo como Ferramentas Ideológicas de Coesão

O bolsonarismo emergiu não como um acidente isolado, mas como a canalização do ressentimento social através do antipetismo, que foi alimentado por anos como o grande motor afetivo dessa engrenagem, transformando a disputa política em uma guerra moralista e maniqueísta.

Essa polarização fabricada serve perfeitamente às elites econômicas: enquanto a população se divide em embates identitários e discursos de ódio, as pautas de transferência de renda, justiça fiscal e preservação ambiental são sistematicamente esvaziadas. O bolsonarismo ofereceu a ilusão de um discurso "anti-establishment" que, na prática, manteve e aprofundou as reformas que retiram direitos sociais e preservam os privilégios da elite financeira.

A Guerra contra o Saber: O Anti-intelectualismo Organizacional

Se a educação libertadora — conforme defendida por autores como Paulo Freire e abordada no debate sobre cidadania — busca formar indivíduos conscientes e dotados de senso crítico, o anti-intelectualismo surge como o anticorpo do sistema capitalista autoritário.

A oposição ostensiva ao pensamento crítico, o ataque às universidades públicas e a descredibilização da ciência e das humanidades não são atitudes impensadas; são políticas deliberadas de dominação. Ao demonizar o conhecimento filosófico e sociológico e priorizar uma formação meramente mecanicista e voltada à utilidade imediata do mercado, o sistema garante uma massa de trabalhadores qualificados do ponto de vista técnico, porém alienados e incapazes de questionar as estruturas de exploração.

A Urgência de Resgatar a Cidadania Crítica

Diante desse cenário em que a tecnologia e as redes sociais são utilizadas como dispositivos de alinhamento comportamental e desinformação, a reconstrução da cidadania exige mais do que participação eleitoral passiva.

Para superar a dominação ideológica que nos reduz a consumidores estressados e eleitores manipuláveis, é preciso:

  • Reinventar a educação pública: Foco na interdisciplinaridade, na reflexão ética e na formação humana integral, resistindo à mercantilização do ensino;
  • Sustentabilidade socioambiental: Compreender os impactos do modelo desenvolvimentista e do agronegócio predatório sobre o meio ambiente;
  • Reconstrução do tecido social: Fomentar a solidariedade orgânica e o pensamento coletivo (o "nós") em oposição ao individualismo exacerbado.

Apenas através da conscientização sobre quem realmente detém o poder e do combate contínuo às narrativas de alienação será possível vislumbrar uma verdadeira transformação social e a construção de uma cidadania plena e soberana.

A Régua e a Lupa: Entre o Julgamento que Condena e o Julgamento que Discerne

A distância entre a arrogância do tribunal moral e o dever cívico do bom senso



No ruído contínuo do debate público, poucas frases são tão repetidas — e tão mal compreendidas — quanto o imperativo bíblico: “Não julgueis, para que não sejais julgados”. Transformada em um escudo retórico para blindar condutas e esquivar de críticas, a máxima costuma ser invocada como se qualquer análise sobre a conduta alheia fosse um pecado de presunção. Trata-se de um equívoco conceitual. Há uma fronteira abissal entre o julgamento de condenação e o julgamento de discernimento — e saber navegar essa diferença é o que separa a arrogância moral da maturidade cidadã.

O julgamento de condenação opera no campo da sentença definitiva. É a postura do juiz sem toga que não busca compreender, mas rotular; não analisa atos, mas massacra a pessoa. Esse tipo de julgamento nasce da necessidade quase infantil de autopromoção moral: aponta-se o erro do outro para criar a ilusão de virtude própria. Ele é movido pelo desprezo e encerra o diálogo. Na vida pública e social, o julgamento de condenação gera o fanatismo, o cancelamento e a demonização do adversário. É precisamente contra essa arrogância que o alerta de Mateus se levanta.

Por outro lado, o julgamento de discernimento não é um privilégio do ego, mas um dever da inteligência. Discernir é a capacidade de avaliar fatos, pesar consequências, notar inconsistências e escolher caminhos. Não se trata de tribunal, mas de bússola. Quando um cidadão avalia o histórico de um gestor, a coerência de um discurso ou a aplicação de recursos públicos, ele não está usurpando o papel de Deus na consciência do outro; está exercendo o direito e a obrigação de proteger o bem comum.

Sem o julgamento de discernimento, a sociedade naufraga no relativismo ingênuo, onde o certo e o errado, a probidade e a corrupção passam a ter o mesmo peso. Discernir é olhar com profundidade, examinar as causas e entender a realidade antes de tomar uma decisão. É um ato de responsabilidade moral e cívica.

A diferença crucial, portanto, reside na ferramenta e na intenção:

  • A intenção: O julgamento de condenação quer destruir o indivíduo; o julgamento de discernimento quer proteger a verdade e a coletividade.
  • A ferramenta: O julgamento de condenação usa a régua da hipocrisia, medindo os outros com rigidez absoluta enquanto perdoa os próprios desvios; o discernimento usa a lupa da coerência, analisando os fatos com equidade e autocrítica.

A célebre exortação para não julgar jamais foi um convite à cegueira ou à conivência. Trata-se de um apelo à humildade. Julgar com discernimento é admitir que não conhecemos o coração de ninguém, mas que temos o dever de avaliar os frutos do que é feito no mundo. Quem confunde discernimento com condenação acaba privado do bom senso — e uma sociedade incapaz de discernir é uma sociedade incapaz de escolher o próprio futuro.

Discernimento e o Perigo das Pérolas Lançadas aos Porcos

Nesta terça-feira, 15 de setembro de 2026, a advertência solene de Jesus no Sermão do Monte nos chama ao discernimento e à sabedoria nas nossas palavras e posições. Descubra como evitar o desgaste em debates políticos infrutíferos, onde o interesse coletivo e a busca pela verdade são ignorados em favor do fisiologismo e da defesa de privilégios pessoais nos bastidores da sociedade.




“Não deem o que é santo aos cães, nem joguem pérolas aos porcos; pois os porcos pisotearão as pérolas, e os cães se voltarão contra vocês e os atacarão.”

 — Mateus 7:6


No nosso cotidiano nos deparamos com uma situação triste, mas que acontece com muita frequência quando o texto bíblico é lido ao pé da letra, sem a compreensão da linguagem de parabólica e da cultura da época. Essa reação da pessoa em se sentir ofendida mostra exatamente a falta de discernimento sobre o que Jesus estava ensinando.

Na cultura judaica daquela época, o cão de rua e o porco eram figuras simbólicas associadas à incapacidade de reconhecer o valor das coisas sagradas. O porco, por exemplo, não tem a capacidade biológica nem cognitiva de apreciar a beleza ou o valor de uma pérola; se você jogar uma pedra preciosa para ele, ele vai achar que é comida, verá que não dá para mastigar, vai pisotear e ainda pode avançar em você com raiva por ter sido enganado.

No Sermão do Monte, logo após ensinar sobre o perigo do julgamento hipócrita e da trave no olho, Jesus introduz uma máxima de sabedoria que exige profundo discernmento da comunidade. No texto original em grego, as "coisas santas" (to hagion) e as "pérolas" (margaritas) representam os ensinamentos sagrados, as verdades espirituais mais preciosas e os princípios da justiça do Reino. O uso metafórico de "cães" (kynas) e "porcos" (choirōn) no contexto judaico do primeiro século não era apenas uma referência aos animais considerados cerimonialmente impuros, mas uma caracterização moral de pessoas que demonstravam escárnio, hostilidade deliberada e incapacidade de valorar a verdade moral. Jesus adverte que insistir em entregar verdades elevadas a quem rejeita a ética e busca apenas a destruição resulta em dois males: a profanação do que é precioso, expresso pelo verbo "pisotear" (katapatēsousin), e o ataque agressivo ao próprio mensageiro, quando os opressores se "voltam" (straphentes) para despedaçar quem tentou instruí-los.

Trazer esse ensino de Mateus 7:6 para esta terça-feira, 15 de setembro de 2026, é um diagnóstico urgente sobre a nossa postura nos debates políticos da atualidade. Vivemos num cenário em que a discussão sobre o bem comum frequentemente se deteriora em bate-bocas infrutíferos, dominados pelo fanatismo partidário e pelo fisiologismo. O voto e a participação cidadã, que deveriam ser instrumentos nobres para promover a justiça social, a transparência e a melhoria da coletividade, são frequentemente apequenados por uma mudança de ótica egoísta: em vez de perguntar o que é melhor para o município, para o estado ou para o país, muitos passam a avaliar a política puramente pelo favorecimento particular, pelas promessas de empregos fáceis, vantagens pessoais ou pela defesa cega de grupos de poder. Tentar travar debates sérios sobre ética, bem público e princípios morais com quem já vendeu a sua consciência ao interesse privado é exatamente como lançar pérolas aos porcos: a verdade é pisoteada pela ganância, e a tentativa de diálogo racional só gera agressão, inimizade e desgaste inútil.

A aplicação prática desse ensinamento nos bastidores do nosso cotidiano exige discernimento e coragem para saber onde investir o nosso tempo e o nosso testemunho. Ser sábio nesta terça-feira significa não gastar energia em discussões estéreis em grupos de mensagens, nas praças ou nas redes sociais com pessoas que não querem a verdade, mas apenas defender o seu patrocínio ou atacar os seus adversários. O cristão consciente deve exercer a sua cidadania com sobriedade, mantendo o valor do seu voto firme na defesa do bem comum, da honestidade e da justiça social, sem se deixar contaminar pelo balcão de negócios que degrada a política. Nos bastidores da vida diária, a verdadeira maturidade consiste em calar diante da provocação de quem busca apenas a vantagem pessoal e reservar a nossa voz e o nosso esforço para dialogar com aqueles que sinceramente buscam edificar a sociedade e honrar a justiça.

Portanto, a figura linguagem não se refere ao "valor da pessoa" aos olhos de Deus — até porque Cristo morreu por todos —, mas sim à postura mental e ao estado de espírito em que a pessoa se encontra naquele momento. Quando alguém está cego pelo orgulho, tomado pelo fanatismo, interessado apenas no próprio benefício ou determinado a defender uma mentira, essa pessoa se torna incapaz de valorizar uma verdade elevada ou um conselho ético. 

Nesta terça-feira, peça ao Pai celestial o dom do discernimento para guardar o seu coração e a sua mente das contendas políticas vazias. Lembre-se de que a verdade, o caráter e a fé são preciosidades que não devem ser lançadas no lamaçal da conveniência e da barganha eleitoral. Quem cultiva a sabedoria de Cristo aprende a afastar-se da agressividade dos debates infrutíferos, foca a sua vida na prática do amor e da integridade e usa a sua liberdade para promover transformações reais e abençoadas ao seu redor.

Você tem gasto a sua energia tentando convencer quem só busca o interesse particular na política, ou tem guardado as suas "pérolas" para promover o bem comum com sabedoria e discernimento no seu dia a dia?

segunda-feira, 14 de setembro de 2026

A Ilusão do Verbo: Diferença Entre Ser e Estar

Da Vitaliciedade Imperial à Transitoriedade Democrática: Como a Confusão Entre a Permanência do Ser e a Passageiridade do Estar Modela a Vaidade e o Poder na Política



Na política, como na vida, a gramática é implacável. Mas enquanto na língua portuguesa o verbo ser e o verbo estar habitam reinos distintos sem grandes sobressaltos, na política partidária a confusão entre ambos costuma ser a origem de quase todas as vaidades, quedas e desilusões.

Na língua e na vida, ser e estar caminham como irmãos gêmeos, mas habitam territórios opostos. O que pertence à natureza intrínseca, ao essencial e ao próprio do homem carrega a marca do verbo ser. Já o que é provisório, efêmero e momentâneo pertence ao domínio do verbo estar. Se o que sou permanece como essência, o que estou é puro movimento, passível de mudança a qualquer virada do tempo. A própria vida flerta com essa dualidade: somos seres vivos, mas estamos vivos apenas enquanto o sopro da existência permitir. Hoje se é; amanhã, pode-se não ser mais.

A monarquia construiu a sua essência sobre o verbo ser. D. Pedro II não estava imperador do Brasil; ele era o imperador. O trono não dependia de uma contagem de votos ao fim de um mandato, nem da oscilação de humor do eleitorado a cada quatro anos. A coroa repousava sobre a cabeça sob a premissa da vitaliciedade e do direito divino. O título fundia-se à própria pessoa do soberano: morrer imperador era o único desfecho possível, porque ser imperador era uma condição de existência, não um contrato temporário.

No regime republicano e na vida partidária, contudo, a lógica muda radicalmente de sintaxe. O poder não eivou a natureza do homem; apenas fez uma visita demorada. Na política democrática, ninguém é mandatário; apenas se está mandatário.

O mandato é um aluguel com data fixa para devolução das chaves. O cargo de prefeito, deputado, senador ou presidente é uma veste emprestada pelo povo, que a recolhe quando o tempo do contrato se esgota. O mandato não se incorpora à alma de quem o exerce. O gabinete carpetado, os aplausos da militância, os carros oficiais e a corte de assessores não pertencem ao indivíduo, mas à cadeira.

Contudo, a reflexão nos mostra que a partícula "se" parece abrir uma licença perigosa para a vaidade humana. É ela que faz o indivíduo "se achar" dono do que é apenas passageiro. Esse fenômeno não se restringe à vida pública; manifesta-se no cotidiano pessoal e profissional. Mas é no universo dos "homens de terno e gravata", nos gabinetes e nos cargos de confiança, que essa ilusão atinge o seu ápice.

Em tempos eleitorais, os postulantes ao poder estão por toda parte: caminham entre a população, batem às portas e curvam-se à procura do eleitor. Todavia, uma vez assinada a procuração nas urnas e ocupadas as cadeiras oficiais, muitos esquecem rapidamente quem lhes conferiu o direito de ali estar. Passam a agir como se a função lhes pertencesse por natureza, confundindo a modesta condição de ocupantes temporários com a posição de proprietários do Estado.

O drama do político contemporâneo reside na trágica incapacidade de reconhecer essa distinção gramatical. Acostumado ao rigor da reverência diária, o líder desatento passa a acreditar que é a autoridade. Confunde o poder da função com o peso da própria voz. Esquece que a faixa presidencial ou o broche parlamentar são adereços transitórios, e não traços de personalidade.

Aquele que acredita ser o cargo sofre imensamente quando o calendário eleitoral impõe o retorno ao verbo estar. Pois quem está como mandatário sabe que a oposição virá, que a derrota é uma possibilidade real e que o anonimato das ruas sempre espera pelo retorno de quem lá saiu. Sabe que o poder é como a névoa da manhã: impressiona enquanto cobre a paisagem, mas se evapora ao menor sinal de mudança do tempo.

Compreender a política é dominar a transitoriedade do verbo estar. Quem governa lembrando-se de que é apenas um inquilino da vontade popular exerce o poder com a sobriedade dos homens sábios. Já quem se julga monarca num sistema eleitoral descobre, no dia seguinte à apuração, que a única coisa verdadeiramente vitalícia no mundo dos homens é a impermanência.

A Lição da Paciência: Esperança e União na Caminhada Cristã

Nesta segunda-feira, 14 de setembro de 2026, a Palavra de Deus nos convida a cultivar a virtude da paciência como fruto do aprendizado das Escrituras. Descubra como a mansidão no convívio com os idosos, com os de raciocínio mais lento e com os sem instrução revela a verdadeira comunhão e glorifica a Deus com uma só voz nos bastidores do cotidiano.




“Porque tudo o que dantes foi escrito, para nosso ensino foi escrito, para que pela paciência e consolação das Escrituras tenhamos esperança. Ora, o Deus de paciência e consolação vos conceda o mesmo sentimento uns para com os outros, segundo Cristo Jesus, Para que concordes, a uma boca, glorifiqueis ao Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo.”

— Romanos 15:4-6


A paciência de Jó ficou famosa assim como a fé de Abraão. São pilares fundamentais para uma convivência saudável tanto na vida espiritual quanto na vida pública. 

Ao dar continuidade à sua exortação sobre a convivência fraterna e o suporte mútuo na comunidade de Roma, o apóstolo Paulo conecta a maturidade espiritual com o tesouro pedagógico da revelação bíblica. No texto original em grego, a palavra traduzida por "paciência" é hypomonē, que descreve a perseverança firme e a capacidade de suportar circunstâncias e pessoas difíceis sem desistir do amor. Já "consolação" traduz paraklēsis, a ajuda encorajadora que o Espírito Santo e a Palavra trazem ao coração humano para gerar uma "esperança" (elpis) viva e inabalável. Paulo aponta que o próprio Criador é o "Deus da paciência e da consolação" (ho theos tēs hypomonēs kai tēs paraklēseōs), o que significa que essas virtudes não nascem do esforço puramente humano, mas fluem da própria natureza divina. O propósito de receber essa graça e aprender com os relatos do passado é capacitar os crentes a terem o "mesmo sentimento" (to auto phronein) uns para com os outros, segundo o modelo de Cristo Jesus, para que, em perfeita concordância e com "uma só boca" (en heni stomati), a comunidade glorifique ao Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo.

Trazer esse ensino de Romanos 15:4-6 para esta segunda-feira, 14 de setembro de 2026, é um antídoto urgente contra a pressa e a intolerância do mundo moderno. Vivemos em uma época acelerada, onde a cultura da velocidade exige respostas instantâneas, raciocínio ágil e eficiência técnica a todo custo. Nessa corrida alucinada, infelizmente é comum ver a falta de paciência crônica com aqueles que pensam "mais devagar", com os idosos que possuem o seu próprio tempo para caminhar e falar, e com os irmãos sem instrução formal que têm dificuldade para entender termos complexos ou manusear as ferramentas da vida moderna. Tratar quem é mais lento ou menos instruído com rispidez, ironia ou desprezo é uma violação direta do caráter de Cristo, que jamais esmagou a cana quebrada nem apagou a torcida que fumega, mas sempre se inclinou com paciência para ensinar e acolher a todos.

A aplicação prática desse ensinamento nos bastidores do nosso dia a dia exige uma mudança profunda na forma como tratamos as pessoas dentro do lar, no ambiente de trabalho, no comércio e no seio da igreja. Ter a paciência que vem das Escrituras significa desacelerar o nosso ritmo para caminhar no passo do mais fraco, explicar com carinho o que o outro não entendeu de primeira e valorizar a sabedoria da experiência dos idosos, mesmo quando suas limitações físicas ou de memória exigirem repetição. A verdadeira comunhão não é construída com discursos refinados ou debates intelectuais, mas na capacidade de ouvir com empatia, estender a mão sem afobação e acolher quem tem menor estudo com o mesmo respeito dedicado aos doutores. Quando controlamos a nossa irritação nos bastidores da vida e demonstramos mansidão com quem precisa de mais tempo, revelamos que a Palavra de Deus realmente moldou o nosso caráter.

Nesta segunda-feira que inicia mais uma semana de trabalho e compromissos, peça a Deus a graça de ser um instrumento de consolação e paciência onde quer que você esteja. Lembre-se de que o mesmo Senhor que usa de infinita paciência com os nossos erros e lentidões nos chama a exercer essa mesma compaixão com o nosso próximo. Quem cultiva a tolerância amorosa com os idosos, com os simples e com os que aprendem devagar ajuda a construir um ambiente de paz, unifica o corpo de Cristo e glorifica ao Pai celestial com a harmonia de um testemunho irrepreensível.

Como você pode exercitar a paciência e a delicadeza no dia de hoje com alguém que possui um ritmo mais lento ou menor instrução do que você?