domingo, 1 de fevereiro de 2026

​"Forças Terríveis" ou Erro de Cálculo? O Que Jânio Quadros e Jair Bolsonaro Ensinam Sobre Tentar Dobrar a Democracia

O Enigma da Vassoura: Sete Meses que Abalaram o Brasil



No início de 1961, o Brasil tinha um novo ídolo. Jânio Quadros, com seu jeito excêntrico, óculos tortos e o jingle chiclete "Varre, varre, vassourinha", prometia limpar a corrupção e organizar as contas públicas. Eleito com a maior votação da história republicana até então, ele era a personificação da esperança.
Porém, o que se seguiu foi um governo pautado por medidas inusitadas e uma política externa que desafiava a lógica da Guerra Fria.

O Estilo Jânio: Entre Bilhetinhos e Proibições

Jânio não gostava de reuniões ministeriais; preferia governar por meio de bilhetinhos manuscritos. Enquanto a economia sofria com a inflação, o presidente focava em decretos morais que dividiam a opinião pública:


Proibição do uso de biquínis em desfiles de misses.
Veto às brigas de galo.
Proibição do lança-perfume em bailes de carnaval.


Enquanto isso, na geopolítica, Jânio adotou a Política Externa Independente (PEI). Em pleno auge do conflito ideológico entre EUA e URSS, ele decidiu reatar relações com o bloco soviético e, no gesto mais polêmico de sua carreira, condecorou o revolucionário Ernesto "Che" Guevara com a Ordem do Cruzeiro do Sul.

A Cartada Final: O Dia em que o Brasil Parou

Na manhã de 25 de agosto de 1961, o Congresso recebeu um documento curto, mas bombástico. Jânio alegava que sua tentativa de governar era impedida por "forças terríveis" e interesses internacionais.

"Fui vencido pela reação e assim deixo o governo. [...] Desejava um Brasil para os brasileiros, afrontando, nesse sonho, a corrupção, a mentira e a covardia."


A Teoria do Autogolpe:

A maioria dos historiadores concorda que a renúncia foi uma estratégia política mal calculada. Jânio acreditava que, ao renunciar, o povo e as Forças Armadas implorariam pelo seu retorno, concedendo-lhe poderes ditatoriais para governar sem o Congresso. Ele apostava no caos, já que seu vice, João Goulart (Jango), era visto com extrema desconfiança pelos militares e pela elite por suas inclinações de esquerda. Umas das forças terríveis era a própria engrenagem da política institucional que ele desprezava. 

O Tiro que Saiu pela Culatra

Jânio esperou o clamor popular na Base Aérea de Cumbica, em São Paulo. O clamor nunca veio. O Congresso, em vez de rejeitar a renúncia, aceitou-a prontamente em uma sessão relâmpago. Em poucas horas, o "homem da vassoura" era um ex-presidente, e o país mergulhava em uma crise institucional sem precedentes.

Jânio acreditou no seu próprio personagem. Ele achou que era o "Salvador da Pátria" indispensável. Ao renunciar em um dia de sexta-feira (dia de baixo movimento político) e partir para São Paulo, ele deixou o poder livre para ser ocupado por quem tinha pressa: o Congresso, que aceitou a renúncia em poucos minutos.

Pressão externa , por causa da condecoração de Che Guevara o governo Kennedy fechou as portas para o crédito e asfixiou a economia. Por outro lado, Carlos Lacerda, antes apoiador agora era oposição, isso sem falar no isolamento político, Quadros era o presidente dos bilhetinhos e desprezava o Congresso.  

​O resultado não foi o seu retorno triunfal nos braços do povo, mas sim o início de uma crise que levaria o Brasil ao parlamentarismo de fachada e, eventualmente, ao golpe de 1964.

As Consequências: O Caminho para 1964

A renúncia de Jânio não apenas encerrou sua carreira nacional de forma melancólica, mas também:


Gerou a Crise da Legalidade: Os militares tentaram impedir a posse de João Goulart.
Instaurou o Parlamentarismo: Uma solução de curto prazo para reduzir os poderes de Jango.
Abriu as portas para o Golpe de 64: A instabilidade gerada naquele agosto de 61 foi o catalisador para a intervenção militar que duraria 21 anos.


Jânio Quadros saiu de cena deixando uma pergunta que ecoa até hoje: quem, afinal, eram as "forças terríveis"? Para muitos, a resposta é simples: o próprio ego e a falta de tato político de um líder que tentou varrer a democracia para debaixo do tapete.

A novela de 1961 e o remake de 2023

A Narrativa do "Nós contra Eles": Ambos os líderes construíram uma imagem de "outsiders" perseguidos por forças ocultas ou sistemas corruptos (as "forças terríveis" de Jânio e o "sistema" de Bolsonaro).


​A Estratégia do Caos: Jânio renunciou esperando que o medo de uma guerra civil fizesse o povo exigir sua volta com plenos poderes. Bolsonaro questionou as instituições e o processo eleitoral, mantendo uma mobilização que culminou no 8 de janeiro, apostando que a instabilidade geraria uma intervenção.


​O Erro de Cálculo: Ambos subestimaram a resiliência das instituições. Em 1961, o Congresso aceitou a renúncia de Jânio em minutos. Em 2023, os Três Poderes se uniram rapidamente para condenar as invasões e manter a ordem constitucional.

Se Jânio "plantou" a crise que culminou em 21 anos de ditadura, o episódio recente de Bolsonaro resultou em um fortalecimento (ainda que sob tensão) dos mecanismos de defesa da democracia, como a rápida resposta do Judiciário e a condenação política dos atos de vandalismo.


​A lição que fica é clara: no Brasil, a tentativa de governar sem o "sistema" — ou tentando destruí-lo por dentro — costuma terminar com o líder fora do jogo, enquanto o sistema, com todos os seus defeitos, permanece de pé.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

O NEGÓCIO DA IGNORÂNCIA: O "Doutor" do WhatsApp e a Fábrica de Pobres-Premium

 O "Doutor" do WhatsApp e a Fábrica de Pobres-Premium

​O mundo mudou, mas o roteiro é o mesmo. Antigamente, para entender de economia, você precisava de um livro grosso e três cafés. Hoje? Meio vídeo de um influenciador com um jatinho ao fundo e pronto: você já está pronto para explicar por que a taxação de jatinhos é o que vai impedir você — que vai de ônibus para o trabalho — de ficar milionário.

​É a era do "Orgulho da Ignorância". O intelectual virou o "preguiçoso das ideias". Afinal, para que gastar neurônio com materialismo histórico se você pode apenas repetir que "justiça social é coisa de quem não gosta de acordar cedo"?

​A retórica é um espetáculo de mágica: A elite financeira convence o sujeito de que o verdadeiro inimigo dele não é o juro do cartão de crédito ou a falta de saneamento, mas o "fantasma do comunismo" que vai expropriar a sua bicicleta aro 26.

​Enquanto isso, o "Doutor do WhatsApp" — aquele que se orgulha de nunca ter aberto um livro de sociologia, mas "manja tudo de mercado" — jura de pé junto que os super-ricos são seres benevolentes. "Eles são os provedores!", diz ele, emocionado. Na cabeça desse cidadão, o bilionário não quer lucro; ele quer apenas, do fundo do seu coração de ouro, gerar empregos para que o pobre possa, um dia, comprar um curso de "Como ser um Leão em um Mundo de Ovelhas".

​O segredo do poder atual é genial: terceirizaram a defesa da elite.Não é mais o patrão que diz que o salário está alto; é o próprio funcionário, com sede de "meritocracia", que defende o patrão no Facebook, achando que, se ele latir alto o suficiente para os intelectuais, ganha uma vaga no camarote da riqueza.

​É o triunfo da distorção proposital. O sujeito não quer ser independente, ele quer ser um "pobre-premium". Ele troca a reflexão filosófica por um post de autoajuda e o espírito científico por uma teoria da conspiração bem temperada.

​No fim, a elite ri, toma seu vinho de 5 mil reais e agradece: "Graças a Deus que eles acham que estudar é coisa de comunista. Assim, a gente continua sendo dono das máquinas... e das opiniões deles também."

Moral da história: Se o seu conhecimento vem de quem ganha dinheiro com a sua ignorância, parabéns: você não é um investidor, você é o investimento.

terça-feira, 27 de janeiro de 2026

"COMBATI O BOM COMBATE": Saiba qual o significado e quais as interpretações erradas.


O Combate da Essência contra a Vitrine: O Resgate do Humano na Era do Espetáculo


No corredor da morte, em uma cela úmida de Roma, o apóstolo Paulo escreveu sua última sentença de vitória: "Combati o bom combate, acabei a carreira, guardei a fé". Séculos depois, essa frase atravessou as eras, mas ao chegar na modernidade, sofreu uma mutação perigosa. O que era um hino ao desapego e à fidelidade espiritual tornou-se, nas mãos de uma mídia oportunista e de um sistema financeiro voraz, um slogan para a busca incessante por poder, lucro e status.

1. A Desvirtuação do Sagrado

O "bom combate" de Paulo não era contra inimigos externos ou escassez financeira, mas uma luta de integridade contra a corrupção do espírito. No entanto, a lógica do capitalismo desenfreado operou um sequestro semântico dessa fé.

Hoje, prega-se que "vencer o combate" é sinônimo de prosperidade material e sucesso no mercado. Essa distorção ignora o alerta de 1 Timóteo 6:10, transformando o "amor ao dinheiro" — a raiz de todos os males — em uma suposta evidência de favor divino. Quando a fé se torna ferramenta de lucro, ela deixa de libertar o homem para escravizá-lo ao ego.

2. A Coisificação e a Sociedade do Espetáculo

Essa transição do "ser" para o "ter" atingiu seu ápice com a Sociedade do Espetáculo. Como analisado pela sociologia contemporânea, o ser humano deixou de existir plenamente para apenas "parecer".

A coisificação é o produto final desse processo: o homem é transformado em mercadoria. Nas redes sociais, nossa vida, nossa fé e até nossa caridade são "embaladas" para o consumo. O próximo deixa de ser um irmão e passa a ser um espectador ou um número de engajamento. Nesse mercado de almas, o "tesouro no céu" é trocado por curtidas, e a paz de espírito é sacrificada no altar da comparação constante.

3. O Reflexo Político-Econômico

O capitalismo, ao colocar o capital acima da dignidade humana, espelha essa filosofia do espetáculo. Na esfera política, as decisões são muitas vezes pautadas pela manutenção dessa vitrine de poder, negligenciando o "bem-estar da alma" da sociedade. Onde o dinheiro é o centro, a empatia é vista como custo e a espiritualidade autêntica como ameaça, pois um homem que não se vende é um homem que o sistema não pode controlar.

4. O Caminho da Resistência

Resistir à coisificação é o verdadeiro "bom combate" do século XXI. Isso exige:

Desmercantilizar a fé: Entender que a conexão com o divino é gratuita e não se mede por posses.

Praticar a interioridade: Cultivar tesouros que não podem ser postados ou vendidos.

Humanizar o outro: Romper a tela do espetáculo para enxergar o próximo além do algoritmo.

5. O Abismo entre o Significado e o Uso

​A frase "E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará" (João 8:32) tornou-se o pilar da comunicação de Jair Bolsonaro. No entanto, há um abismo teológico entre o texto e o uso:

No Contexto Bíblico: A "Verdade" é uma pessoa (Jesus) e uma realidade espiritual que liberta o homem do pecado e do egoísmo. É uma libertação interna.

No Discurso Político: A "Verdade" foi recontextualizada como "informação política correta" (o discurso do próprio candidato), enquanto a "mentira" era atribuída exclusivamente aos oponentes. A libertação prometida não era da alma, mas de um sistema político específico.

​Essa manobra cria o que acadêmicos chamam de Messianismo Político. O líder deixa de ser um administrador público para se tornar um "enviado", blindando-se de críticas racionais, pois questioná-lo passa a ser visto pelos seguidores como um ataque à própria vontade de Deus.

Conclusão

Paulo terminou sua corrida com as mãos vazias de ouro, mas o coração cheio de eternidade. A lição que fica para os dias atuais é clara: a vida bem vivida não é aquela que se acumula para o espetáculo, mas a que se preserva íntegra diante do invisível. O acúmulo de riquezas pode construir monumentos na terra, mas apenas o amor e a fidelidade ao propósito divino guardam o coração para o que é eterno.


terça-feira, 20 de janeiro de 2026

ENTREVISTA: Literatura ou Carnaval? André Lucas expõe abandono dos escritores

Entrevista com André Lucas: O grito da literatura japaratubense.



André Lucas - (André Lucas dos Santos, Japaratuba - SE,  26 de dezembro de 1988), amplamente conhecido no meio artístico como Dé Lucas, é um poeta, cantor e ativista cultural cujas raízes em Japaratuba moldaram sua visão crítica sobre a arte e a política. Mais do que um fazedor de cultura, André tornou-se um especialista em políticas públicas e sistemas de financiamento cultural, sendo hoje uma das figuras mais consultadas sobre a implementação das leis Paulo Gustavo e Aldir Blanc em Sergipe.

​Sua trajetória combina a prática artística com a vigilância institucional:

Experiência em Conselhos: Atualmente, é Conselheiro Suplente do CMPC de Aracaju (Cadeira de Música) e já exerceu a suplência no conselho de sua terra natal, Japaratuba.

Articulação Política: É membro fundador do Comitê Estadual Paulo Gustavo, fórum decisivo para a construção dos editais que socorreram a cultura sergipana nos últimos anos.

Luta Sindical: Atua como Diretor de Comunicação do Sindicato dos Músicos Profissionais de Sergipe, onde defende a regularização do Sistema Nacional de Cultura (SNC).

Voz Ativa na Comunicação: É um dos principais nomes por trás do portal Japaratuba EM FOCO, plataforma utilizada para denunciar o descaso com a literatura local e lutar pela transparência no uso dos recursos públicos federais.

Referência no combate à "espetacularização" da cultura, André Lucas dedica sua vida a garantir que a literatura, a música e as tradições de Japaratuba não sejam sacrificadas em prol de interesses comerciais ou políticos momentâneos.



Confira os pontos principais da entrevista:

F. J. Hora: Ser artista é um desafio e ao mesmo tempo um válvula de escape para as tensões pessoais e sociais. Você concorda? O que é ser artista pra você?

André Lucas: Acredito que o artista é o ator que materializa a arte. Penso que a arte te escolhe e não a gente escolhe a arte, não é sobre vocação, mas é sobre só se realizar em contato com a arte.

Ser artista é ser o motor que impulsiona a história das pessoas, pois a arte é parte essencial da história da humanidade.

F. J. Hora: Quem é André Lucas? Um poeta, um ativista cultural... Como e quando você despertou para o mundo artístico?


André Lucas: André Lucas é alguém que nasce no seio social de costumes coletivos afroindigena, tendo seus primeiros valores e contato com o mundo no Sítio Pilões, no trecho do povoado Badajós, conhecido como Olhos D’água, em Japaratuba, porém teve maior parte da sua vida na capital sergipana.

Sempre tive contato com a arte, principalmente com pessoas que no seu cotidiano faziam jererés, vassouras, esteiras, gaiolas e outros fazeres artísticos.
Meu pai foi um dos maiores expoentes de incentivo, natural de Riachão do Dantas, tratorista de profissão, foi quem incentivou o contato com a música, principalmente com o violão.

Em 2003 tenho meu primo contato com o violão, meu objetivo era tocar a música "A desconhecida" de Fernando Mendes, para tocar para meu pai que era fã de Fernando Mendes. 

Em 2004, acometido por doenças de chagas (barbeiro), meu pai falece, mas meses antes da sua morte consegui tocar e cantar com ele.

F. J. Hora: André, sua história começa no Sítio Pilões, entre o Badajós e os Olhos D’água, em um ambiente de saberes afroindígenas e fazeres manuais como jererés e esteiras. Como essa vivência do "cotidiano artístico" da zona rural de Japaratuba moldou o ativista que você é hoje?


André Lucas: Antes da gente ser formado no chão da escola ou da universidade, a gente é formado pelo chão da sociedade que a gente pisa. Com certeza foram os primeiros valores que adquiri naquele solo que moldaram minha percepção sob o mundo, além de uma preservação histórica e cultural, a busca pela própria identidade e formação de um povo.

Se relacionar com a natureza como parte integrante da vida humana, a preservação dos saberes ancestrais é impulso vital para ser o Ativista que busca compreender o povo, o chão social e a história.

F. J. Hora: Apesar de ser artista, você tem se engajado na luta social. Como você vê a situação não só da nossa cidade, mas do nosso país em relação à mobilização social e ao interesse das pessoas em reivindicar seus direitos?


André Lucas: O que me impulsionou a ser Ativista foi justamente a falta de espaço para a música autoral e a poesia local, sergipana.

Entendi que eu precisa compreender o sistema para poder entender como melhorar agir.
Me conectar com pessoas de outras gerações e de outras cidades me ajudou a compreender melhor o bonde da história.

A compreensão da importância da mobilização social veio da formação social e política através do movimento estudantil na universidade.

O nosso país é um continente de uma riqueza cultural e diversidade incrível, mas que desde sempre sofre apagamento estratégico.

As pessoas não acreditam que podem interferir positivamente contra o sistema que o utiliza. Isso é histórico, de tanta opressão, falar é se posicionar e isso pode gerar retaliação, o mundo capitalista vive da punição.

F. J. Hora: Como você define a importância da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB) para municípios de forte tradição cultural como Japaratuba?


André Lucas: A Política Nacional Aldir Blanc é resultado de Lei Aldir Blanc, que em 2020 com a pandemia e sem Ministério da Cultura, precisou da organização social para pensar uma maneira de ajudar a nossa cultura.

Com a volta do Ministério da Cultura, as políticas moldadas pelas mãos da sociedade civil ganhou forças e disso nasce a Lei Paulo Gustavo, com incentivo principal a produção audiovisual.

A Política Nacional Aldir Blanc (PNAB) prevê repasse anual para os Estados e Municípios, cabendo aos entes federados administrar e viabilizar o acesso a cadeia cultural.

Esses recursos deveriam prioritariamente subsidiar projetos que pudessem chegar as pontas, a quem vive a alimenta a cultura. Cultura tradicionais, comunidades tradicionais, povos originários são sempre prioridades, inclusive contando com cotas.
Se o município não envia recursos por exemplo para a literatura, a PNAB seria a oportunidade perfeita para fortalecer o segmento, mas isso não acontece.

É importante lembrar que só através da Lei Aldir Blanc que algumas pessoas tiveram contato com editais pela primeira vez.

F. J. Hora: Como conselheiro e membro fundador do Comitê Paulo Gustavo, você acompanhou de perto as diretrizes do Ministério da Cultura. O que o CNPC (Conselho Nacional de Políticas Culturais) orienta especificamente sobre o fomento à literatura?


André Lucas: Irei disponibilizar e-mail enviado a mim pelo CNPC

Por meio dessa política, é possível investir em projetos e programas de maneira regular, e não só de modo emergencial, como aconteceu na Lei Aldir Blanc 1 e na Lei Paulo Gustavo. Desse modo, os recursos podem ser utilizados em todas as áreas da cultura, inclusive na área de BIBLIOTECAS, LIVROS E LEITURA, tanto para reforma e recuperação quanto para aquisição de livros e muito mais. 

POR QUE INVESTIR EM BIBLIOTECAS PÚBLICAS? 

Bibliotecas públicas são fundamentais para o desenvolvimento cultural, social e econômico. Esses equipamentos contribuem para ampliar o acesso à informação e à leitura, tanto de materiais impressos quanto digitais, ajudando a formar, a partir dos municípios e estados, o Brasil como sociedade leitora.
AÇÃO/ATIVIDADE 

Reforma, construção, formação, organização, manutenção e ampliação de bibliotecas; 

COMO FAZER? 

Editais de licitação, inexigibilidade ou dispensa de licitação – Lei nº 14.133/2021 

AÇÃO/ATIVIDADE 

Aquisição de acervos e coleções de obras literárias, equipamentos eletrônicos (como computadores, notebooks, e readers, etc) e demais materiais afetos ao âmbito da biblioteca 

COMO FAZER? 

Editais de licitação, inexigibilidade ou dispensa de licitação – Lei nº 14.133/2021 

AÇÃO/ATIVIDADE 

Firmar parceria com Organização da Sociedade Civil para gestão compartilhada da Biblioteca

COMO FAZER? 

Editais MROSC – Lei 13.019/2014 

AÇÃO/ATIVIDADE 

Contratação de artistas locais e demais serviços que compõem a programação cultural da biblioteca

COMO FAZER? 

Editais de licitação, inexigibilidade ou dispensa de licitação – Lei nº 14.133/2021 

AÇÃO/ATIVIDADE 

Seleção de projetos culturais propostos pela comunidade cultural, realizados no âmbito da biblioteca pública 

COMO FAZER? 

Edital de fomento à execução de ações culturais - Ações e Eventos Literários 

- Decreto nº 11.453/2023 e Lei nº 14.903/2024 - Marco regulatório do fomento à cultura 

Assim, considerando a importância das Bibliotecas Públicas para a cultura nacional, a Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura traz uma ótima oportunidade aos estados, Distrito Federal e municípios de reestruturarem suas bibliotecas, seja fazendo reformas, compartilhando a gestão por meio de parcerias com Organizações da Sociedade Civil (OSC), adquirindo novos livros, entre outras inúmeras possibilidades.

F. J. Hora: Você atua em parceria no portal Japaratuba EM FOCO. De que forma esse canal de comunicação tem sido fundamental para dar visibilidade a essas pautas que a gestão oficial tenta omitir?


André Lucas: Com avanço da tecnologia, ainda mais pós pandemia, as redes sociais se tornaram não só parte integrante da vida moderna, mas como também deu voz a quem antes pouco tinha espaço, bem, isso tem dois lados, mas irei focar no lado positivo.

A gente já bateu 500 mil visualizações no perfil do Japaratuba em Foco, isso significa que a gente consegue dar amplitude a nossa voz e romper as barreiras geográficas, isso coloca Japaratuba com outros olhos para ela, as coisas do cotidiano. Ocupar esse espaço com uma proposta independente e que nasceu muito antes da minha chegada tem se mostrado importante para a população e cumpre o papel ao qual se propõe.

F. J. Hora: Recentemente, houve a denúncia de que a literatura foi "sacrificada" no segundo ciclo da PNAB. Como essa exclusão aconteceu no plano de ação municipal?


André Lucas: As audiências públicas são obrigatórias e organizadas pela secretaria. Nessas audiência são definidas as diretrizes ouvindo a população, segundo o CMPC não houve concordância com a exclusão da literatura. O teatro também iria ficar sem recursos, mas o secretário adjunto intercedeu pelo segmento e conseguiu junto ao presidente do conselho ainda destinar algum recurso.
A justificativa é que a literatura entraria em um próximo ciclo, notando que o recurso é pouco.

F. J. Hora: O recurso que deveria ir para os escritores foi destinado ao que a gestão chamou de "Bloco Cultural". Qual a diferença técnica e prática entre um projeto literário e o que esses blocos representam para a cidade?


André Lucas: A participação através do CMPC deveria ter um tom mais posicional na defesa da estrutura do CMPC, que é regido e instruído por lei.
Técnico e conceitual há uma diferença entre cultura e entretenimento, e isso não quer dizer que a cultura não pode gerar entretenimento, mas não pode ser resumida apenas a essa modalidade.
A preservação cultura é a preservação da identidade e história de um povo, de um lugar. Manter essas tradições sempre foi um desafio, inclusive pelo projeto nacional político de apagamento da identidade de povo brasileiro.

A categoria bloco Cultural está como cultura tradicional, o que por si só já é um afirmação duvidosa, para isso é necessário compreender em que momento nasceu os bloco culturais em Japaratuba.
O que se vê desde sempre são blocos de Carnaval, com finalidade comercial de entretenimento, com distribuição de bebidas, vendas de abadás e reunião de foliões em pleno o Carnaval, o que nada dialoga com a categoria bloco Cultural. 
Fosse blocos carnavalescos de escolas de sambas, com uma proposta estética e crítica, com enredo, coreografia, corpo Técnico, corpo de dança, movimentação da cadeia produtiva para criação de carros alegóricos, onde agrega composições, escritores, músicos e técnicos, seria uma questão, mas reunião folião no Carnaval é outra coisa.

A dificuldade de publicar um livro é imenso, desde a sua concepção como ideia até sua materialização e chegada ao leitor, carece de muito recurso e rigor técnico, hora a fio dedicadas a redação, passa por revisão, correção, vai a gráfica e aí começa os princípios entraves, os recursos para a execução e finalização e que não para por aí, com a falta de incentivo a leitura e a literatura, essas obras mesmo que saiam da gráfica, podem morrer nas prateleiras sem quem um único leitor veja sua capa, isso não é sobre a qualidade das obras, mas a falta de políticas de fomento e incentivo à leitura e a literatura.

F. J. Hora: Existe uma diferença clara entre "Cultura" e "Entretenimento Comercial". Você acredita que a prefeitura está confundindo esses conceitos ao priorizar blocos de carnaval em editais de fomento à cultura?


André Lucas: Não sei se há confusão, o que observo é o favorecimento de pessoas e projetos proximo a quem apoia a gestão.
A justificativa de apoiar novas iniciativas não precisa passar pela exclusão de outras.
Mas segundo alguns apoiadores, o entretenimento traz turistas para a cidade.

Ainda acredito que há uma negação aos estudos e à academia como também da ciência e das pesquisas.
Há uma falta de compromisso com a real história cultural de Japaratuba.

F. J. Hora: Japaratuba possui um Secretário de Cultura que vem da área da literatura. Na sua visão, por que existe essa desconexão entre a origem do gestor e a falta de políticas para os escritores locais?


André Lucas: O Brasil acreditou que Fernando Henrique Cardoso seria um bom projeto porque era sociólogo, mas isso não foi o suficiente para que o sociólogo fizesse reformas estruturantes.

O secretário é sempre premiado em concurso fora da cidade, mas talvez essa visão de concurseiro de premiação faça-o entender que o festival de poesia seja o suficiente, além de que também pôde-se notar que a FLIJA foi inciativa da Secretaria de educação.

F. J. Hora: Você mencionou que os blocos de carnaval favoreceu a "pessoas". De que forma o uso de recursos da PNAB para esses fins fere o princípio da democratização cultural proposta pela lei federal?



André Lucas: A lei federal inclusive veta apoio a iniciativas privadas de comercialização e talvez aí more a estratégia de mudar de bloco de Carnaval para bloco Cultural. Nenhum bloco é associação com CNPJ, apenas CPF, o que configura um benefício a uma inciativa pessoal e individual dos donos dos blocos, donos de blocos não são mestres.

F. J. Hora: Como a ausência de editais para literatura afeta os escritores da terra, como Flávio Hora, Jorge Ramos, Poeta Afamado e tantos outros que lutam para publicar suas obras?


André Lucas: Não só essas pessoas citadas, que ao menos conseguem ter notoriedade, ainda há muita gente que precisa da ampliação desse espaço. O concurso de Aguada apresentou duas novas estudantes poetas, que forma premiada a través da escritura e da interpretação poética, essa pessoas que despertam aos poucos para grandes cenários precisam de mais apoio de casa para alcançar novos voos.

Ademais os citados como Flávio Hora, Jorge Ramos, professora Geane deixam de ter possibilidades maiores de fomentar suas obras.

F. J. Hora: Além da questão orçamentária, como você avalia o formato atual dos eventos literários da cidade, como o Festival de Poesias? A essência da palavra ainda é respeitada?


André Lucas: Desde que de que comecei a fazer parte do coletivo estadual dos novos poetas sergipanos, em 2015, que converso com pessoas de outras cidades e outras gerações, como os poetas Assuero Cardoso e Anderson Ribeiro, da cidade de Largato, sobre a estética do festival poeta Garcia Rosa, que desde os primórdios preserva mais a atuação e estética teatral do que da poesia facada, como se propõe o festival.

Em 2023 fui jurado e penso que a visão do jurado também influencia na estrutura do festival. Neste festival no qual fui jurado, a estética de palco materializada em cenário teve pouca influência. Porém vejo como enraizada na história do festival.

F. J. Hora: Para encerrar, qual o caminho para que os artistas e escritores de Japaratuba retomem o controle sobre as políticas culturais do município e garantam que o Sistema Nacional de Cultura (SNC) seja respeitado?


André Lucas: A participação social, sem dúvidas. E tudo passa pelo Sistema Municipal de Cultura, que é guiado pelo Sistema Nacional de Cultura. Um Conselho atuante, atento e ativo é necessário, pois os desafios são grandes, mas também a organização em coletivos, associação, cooperativas a atividade independentes da sociedade civil para a sociedade civil, sejam essenciais para mudanças estruturantes.



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Pix Grátis, Renda Tributável: A Lei é a Mesma desde 1988.

Pix Gratuito, Imposto Devido: Por que o canal de pagamento não muda a regra do IR?




Desde o seu lançamento, o Pix revolucionou a forma como o brasileiro lida com o dinheiro pela sua agilidade e, principalmente, pela gratuidade para pessoas físicas. No entanto, essa isenção de tarifas bancárias gerou uma confusão perigosa na mente de muitos contribuintes: a ideia de que valores recebidos via Pix estariam "fora do radar" da Receita Federal ou isentos de impostos.

A realidade jurídica é bem diferente. A obrigação de pagar Imposto de Renda (IR) nasce do fato gerador — o ganho de capital ou a percepção de renda — e não do meio utilizado para transferir o valor.

O Princípio da Pecunia non Olet

Na doutrina tributária, vigora o princípio do Pecunia non olet ("dinheiro não tem cheiro"). Para o Fisco, não importa se o dinheiro chegou até você por Pix, TED, DOC, criptomoedas ou em espécie dentro de um envelope. Se o valor caracteriza acréscimo patrimonial, ele é, em tese, tributável.

As leis que regem essa lógica são muito anteriores à tecnologia moderna:

Lei nº 7.713/1988: Define o que é rendimento bruto e a incidência do imposto sobre a renda.

Lei nº 9.250/1995: Estabelece normas sobre o ajuste anual e as deduções.

O Pix é apenas o "veículo". O que a Receita Federal observa é o "passageiro": a natureza do montante.

As Mudanças para 2026: O Novo Patamar de Isenção


Com a recente Lei nº 15.270/2025, o cenário tributário brasileiro passou por uma atualização histórica. A partir de 2026, a faixa de isenção foi ampliada, o que traz um alívio para grande parte da população, mas também exige maior atenção ao que deve ser declarado.

Situação

Regra de Tributação

Rendimentos até R$ 5.000,00

Isento de Imposto de Renda conforme a nova tabela.

Rendimentos acima de R$ 5.000,00

Sujeito às alíquotas progressivas da Receita Federal.

Altas Rendas

Instituição de tributação mínima para garantir a justiça fiscal.


Transferência entre amigos é renda?


É importante distinguir renda de movimentação financeira, da mesma forma que lucro é diferente de faturamento. 

Não é tributável: O reembolso de um jantar dividido entre amigos, uma transferência entre contas do mesmo titular ou um presente (doação) dentro dos limites de isenção estadual (ITCMD).

É tributável: O pagamento por um serviço prestado, a venda de um produto ou o recebimento de aluguéis.

Mesmo que o serviço tenha sido pago via Pix "gratuito", o profissional autônomo deve recolher o imposto via Carnê-Leão se ultrapassar o teto mensal.

O Monitoramento da Receita (IN RFB nº 2299/2025)


A fiscalização tornou-se mais refinada. Através da Instrução Normativa RFB nº 2299/2025, os mecanismos de cruzamento de dados foram atualizados. As instituições financeiras são obrigadas a reportar movimentações suspeitas ou de valores elevados através da e-Financeira.

Portanto, a "malha fina" não busca o Pix em si, mas sim a incompatibilidade entre o que você movimentou no banco e o que você declarou como renda.

Nota de Atenção: A gratuidade bancária é um benefício de custo operacional, não um salvo-conduto fiscal. Omissão de rendimentos, independentemente da via de recebimento, configura sonegação fiscal. 

 

Conclusão:


O Pix facilitou a vida do brasileiro, mas as leis de 1988 e 1995 — agora atualizadas pela reforma de 2025 — continuam valendo. Se você recebeu mais de R$ 5.000,00 por mês como fruto do seu trabalho ou investimentos, o leão está atento, seja o pagamento feito por QR Code ou em dinheiro vivo.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

A Necessidade e o Risco da Polarização e os Perigos da Extrema Direita



A polarização extrema muitas vezes empurra o eleitor para escolhas baseadas na rejeição ao "outro", o que pode mascarar riscos institucionais severos. Tá na hora de eleger os prós e os contras e ver qual lado pesa mais na balança.

O cenário político brasileiro vive um momento de tensão onde o "voto por rejeição" tem ditado os rumos das urnas. No entanto, cientistas políticos alertam: quando o antipetismo se torna o único motor de escolha, ele pode abrir as portas para projetos de extrema direita que colocam em xeque a própria sobrevivência das instituições e da liberdade.

A Identidade por Oposição: Muitas vezes, o voto deixa de ser "a favor de um projeto" para ser "contra um inimigo". O antipetismo, em diversos momentos, tornou-se uma identidade política mais forte do que a adesão a qualquer outra ideologia específica. Quando o foco é destruir ou impedir o "outro", abre-se uma brecha para que propostas sem base democrática sólida sejam aceitas como o "único caminho".

O Nacionalismo como Camuflagem: O uso de símbolos patrióticos para validar discursos autoritários é um fenômeno clássico. Ao rotular a oposição como "inimiga da pátria", o projeto autoritário consegue:

 * Desviar o debate de questões socioeconômicas reais.

 * Criar uma sensação de pertencimento e heroísmo no eleitor.

 * Justificar medidas de exceção sob o pretexto de "salvar a nação".

A Ausência do Projeto Coletivo: a falta de consciência sobre um projeto popular e coletivo fragmenta a sociedade. Quando o eleitor não se vê como parte de uma construção social de longo prazo, ele busca soluções rápidas e figuras messiânicas. O resultado é a entrega do poder a grupos que defendem a liberdade no discurso, mas que, na prática, trabalham para restringir direitos e concentrar poder.

A democracia só amadurece quando o debate sai do campo do "quem eu odeio" e entra no campo do "que tipo de país queremos construir juntos".

Da Luta de Classes ao Equilíbrio Democrático

Historicamente, a polarização política era desenhada pelo conflito de classes: operários versus burguesia. Nessa visão binária, supõe-se que a esquerda represente o socialismo revolucionário, enquanto a direita encarna o capitalismo neoliberal puro.

No entanto, a grande inovação do século XX para evitar o colapso das nações foi a Social Democracia (ou socialismo democrático). Ela surgiu como a verdadeira "terceira via", provando que é possível conciliar o desenvolvimento econômico capitalista com justiça social e bem-estar coletivo, sem recorrer a autoritarismos de nenhum dos lados.

Os Perigos da Extrema Direita

Diferente da direita tradicional ou conservadora, a extrema direita rompe com o pacto da social democracia e fragiliza o tecido social através de:

 * Ataque às Instituições: Questionamento da legitimidade do sistema eleitoral e do Judiciário.

 * Erosão de Direitos: Pautas que marginalizam minorias e atacam conquistas históricas em direitos humanos.

 * Retórica de Confronto: Substituição do debate técnico pelo "inimigo interno", fomentando a violência política.

 * Autoritarismo Disfarçado: O uso do voto para, uma vez no poder, desmantelar o sistema de freios e contrapesos (checks and balances).

Por que o Antipetismo Radical é Perigoso Hoje?

O sentimento de oposição ao PT é legítimo, mas quando se torna um "cheque em branco" para qualquer alternativa oposta, os riscos são altos:

 * A Cega Escolha do "Qualquer Um": O desejo de afastar um partido pode levar o eleitor a ignorar o radicalismo perigoso de outro candidato.

 * O Esvaziamento do Centro: A polarização sufoca a moderação. Sem o espaço da social democracia, o país perde a capacidade de negociar soluções pragmáticas para a economia e a educação.

 * A Normalização do Absurdo: Para derrotar o "inimigo", muitos passam a aceitar discursos de ódio como um "mal menor", degradando a cultura política a longo prazo.

"A democracia não morre apenas por golpes; ela morre quando os cidadãos acreditam que a destruição do adversário justifica o fim das regras do jogo."

Conclusão: O Caminho da Estabilidade

Para quem defende que o PT não é o caminho, a solução não deve ser o salto no escuro do extremismo. O desafio é fortalecer alternativas que, inspiradas no equilíbrio da social democracia, respeitem a Constituição e foquem na união nacional. A alternância de poder é vital, desde que o sucessor não se proponha a destruir a própria escada democrática que o fez subir.

O primeiro turno das eleições é sempre usado como escudo, pois, permite fugir da polarização. Porém, no segundo turno se definem de que lado realmente está o eleitor, ou do lado da luta operária ou do lado dza zona de conforto da burguesia. 

Quem venceu as eleições de 2022 foi a "Frente Ampla pela Democracia", um reconhecimento claro de que o PT, mesmo com o antipetismo acentuado de 2018, representava a única alternativa para vencer a extrema direita naquele momento. Portanto, foi um ato de bom senso da população baixar a guarda e optar pela democracia. 

Terceira Via? Entre Socialismo revolucionário e Capitalismo neoliberal, existe a social democracia que equilibrar e fazer justiça social dentro do capitalismo. Tem como?

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

8 de Janeiro: O Brasil e ódio ao seu próprio país



O Labirinto da Divisão: Reflexões sobre o 8 de Janeiro e o Espelho da Nação

A história costuma ser escrita com o passar das décadas, mas há momentos que queimam a retina do tempo com tamanha intensidade que exigem reflexão imediata. O 8 de Janeiro (2023) não foi apenas uma data no calendário civil; tornou-se o ápice de uma fratura exposta na alma brasileira.

Utilizando a máxima bíblica citada em Mateus 12:25, "Todo reino dividido contra si mesmo será arruinado", fica claro que o que se viu em Brasília foi o resultado de uma casa que parou de se reconhecer como um lar comum.

Entendemos que a luta de classes operários versus burguesia é legítima, pois, o capitalismo só existe porque explora e suga o trabalhador e fica com o trabalho não pago como lucro. Portanto, não se trata de uma polarização maléfica, mas, uma classificação política necessária para que a luta social tenha seu objetivo cumprido.

A luta de classes saiu do campo ideológico e político para excessivos interesses pessoais, saindo do campo da civilidade para entrar na bárbarie e na reação brutal e violenta contra quem pensa o contrários dos interreses da classe dominante. 

A Contradição dos Atos e o Peso dos Valores

A análise dos fatos revela uma série de paradoxos que desafiam a lógica da convivência democrática e da própria fé professada por muitos dos envolvidos:

O Falso Patriotismo: O conceito de pátria reside no zelo pelas instituições e pelo patrimônio que pertence a todos. Depredar as sedes dos Três Poderes sob o manto da bandeira nacional é uma contradição em termos. Não se protege uma nação destruindo seus alicerces físicos e simbólicos.

O Cristianismo e a Violência: É alarmante observar discursos que se dizem cristãos, mas que flertam com o autoritarismo e a exaltação de meios violentos. A retórica do "derramamento de sangue" é o oposto do "amar ao próximo", revelando que, em muitos casos, a ideologia política sequestrou a espiritualidade.

O Peso das Críticas: Existe uma seletividade retórica latente. Grupos que historicamente condenam invasões de propriedades privadas — como as críticas direcionadas ao MST — viram-se, ironicamente, ignorando ou justificando a invasão e depredação da maior "propriedade" do povo brasileiro: o centro administrativo do Estado.

O Espelho Externo e a Fragilidade Interna

A comparação com potências como os Estados Unidos traz uma reflexão amarga. Enquanto o império norte-americano, apesar de suas contradições e histórico de intervenções, mantém uma coesão interna baseada na preservação rigorosa de suas instituições, o Brasil parece sucumbir ao ódio fratricida.

A idolatria ao estrangeiro somada à normalização de atos brutais praticados em outros territórios demonstra uma perda de identidade nacional. Quando o cidadão passa a admirar a força bruta externa em detrimento da diplomacia e da ordem interna, ele deixa de ser um patriota para se tornar um súdito de ideias alheias.

O Veredito da História: Traição ou Despertar?

O 8 de Janeiro será lembrado como um ato de traição à pátria, não apenas pelo dano material aos prédios de Niemeyer, mas pela tentativa de silenciar o voto e a vontade popular através do caos. O ódio político e o antipetismo radicalizado cegaram a percepção de que governantes são passageiros, mas as instituições devem ser perenes.

A verdadeira reconstrução do Brasil não passa apenas por reformas econômicas ou políticas, mas por uma reforma ética e civilizatória. É preciso decidir se continuaremos a ser uma casa dividida — e, portanto, fadada à ruína — ou se seremos capazes de discordar sem destruir o chão onde todos pisamos.

O maior inimigo de uma nação não é o adversário político do outro lado da rua, mas a incapacidade de reconhecer que ambos pertencem à mesma terra.