segunda-feira, 8 de junho de 2026

O Antídoto Contra a Ansiedade — Como Trocar as Noites em Claro pela Paz que Protege a Mente

No décimo terceiro dia da nossa jornada, analisamos o conselho prático do apóstolo Paulo na carta aos Filipenses para descobrir como quebrar o ciclo de preocupações sufocantes através da entrega honesta em oração.




“Não andem ansiosos por coisa alguma, mas em tudo, pela oração e súplicas, e com ação de graças, apresentem seus pedidos a Deus. E a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará o coração e a mente de vocês em Cristo Jesus.”

 — Filipenses 4:6-7

A Mensagem: A Sentinela da Paz Divina

Após consolidarmos a integridade em nossos bastidores no dia anterior, deparamo-nos com um dos maiores vilões da constância e da coerência humana: a ansiedade. O apóstolo Paulo escreve estas palavras de dentro de uma cela de prisão romana, cercado por incertezas e com a vida em jogo. No entanto, em vez de redigir um manifesto de desespero, ele envia uma receita prática de blindagem para o intelecto e para as emoções.

O termo grego usado para "ansiedade" no Novo Testamento é merimna, que carrega o significado de "estar dividido, distraído ou estrangulado". A ansiedade fragmenta a nossa atenção, rouba a nossa energia do presente e projeta cenários catastróficos sobre um amanhã que ainda não existe.

A estratégia que Paulo propõe não é o autoengano ou o otimismo superficial. Ele nos orienta a transferir a carga. Quando levamos as nossas preocupações reais a Deus através de uma oração honesta, acompanhada de ação de graças (o hábito de lembrar do que Ele já fez no passado), ocorre uma troca espiritual: nós entregamos as nossas crises e Deus nos devolve uma paz que desafia a lógica humana. Essa paz funciona como uma guarnição militar (phroureo), montando guarda ao redor dos nossos pensamentos para que o medo não invada a nossa alma.

Conexão com os Dias de Hoje: Desplugando da Mente Acelerada

Vivemos no epicentro de uma crise global de saúde mental e emocional. Fomos transformados na geração do hiperestímulo, do overthinking (o excesso de pensamentos) e da pressa. Ao deitarmos a cabeça no travesseiro, as notificações do celular e as preocupações com o fechamento do mês, com a estabilidade financeira dos negócios, com o bem-estar da família ou com os rumos da sociedade continuam girando em falso na nossa cabeça.

Trazer a mensagem de Filipenses para a nossa realidade é um convite urgente a mudar a dinâmica das nossas noites:

* Substitua a tela pela entrega: Em vez de passar a madrugada rolando o feed das redes sociais ou revisando mentalmente os problemas, experimente transformar a sua insônia em um altar de oração sincera. Fale para o Pai exatamente o que te tira o sono. Ele não se assusta com a sua vulnerabilidade.

* O propósito caminha um dia de cada vez: A ansiedade tenta nos fazer viver o futuro antes do tempo, paralisando as nossas mãos para o trabalho que precisa ser feito hoje. Confiar no controle soberano de Deus limpa a névoa da nossa mente, permitindo que foquemos com excelência e integridade naquilo que está ao nosso alcance agora.

O seu amanhã não está à deriva e os seus planos não dependem exclusivamente das suas próprias forças. Aprender a desacelerar e repousar na fidelidade divina é o que mantém a sua mente sã para cumprir o chamado de Deus.

💬 Para Refletir e Compartilhar:

Qual é a principal preocupação ou incerteza financeira, familiar ou profissional que tem tentado roubar a sua paz e sufocar o seu coração esta semana? Você aceita o desafio de entregar esse fardo a Deus em oração hoje, trocando-o pela paz d'Ele?

domingo, 7 de junho de 2026

A Ilusão do Microcrédito Orientado: Entre a Meta Bancária e o Sufocamento do Pequeno Empreendedor

Como a ausência de carência e as armadilhas do aval solidário transformam o maior programa de microcrédito do país em uma esteira de dependência financeira, esvaziando a promessa de desenvolvimento econômico na ponta.




Por Flávio Hora


O discurso institucional em torno do microcrédito produtivo e orientado no Brasil é plasticamente perfeito. Vende-se a ideia de que a democratização do acesso ao capital, aliada a uma suposta consultoria financeira, é o passaporte definitivo para a emancipação econômica da periferia e dos pequenos municípios. O Crediamigo, capitaneado pelo Banco do Nordeste (BNB) como o maior programa do gênero no país, é o principal estandarte dessa narrativa. Contudo, quando confrontamos os manuais de marketing bancário com a realidade nua e crua do comércio e da informalidade na ponta, a engrenagem revela falhas estruturais profundas. A promessa de desenvolvimento dá lugar a um mecanismo de endividamento crônico e subsistência perpétua.

O primeiro grande mito a desabar é o da "orientação financeira". Na prática das agências e do cotidiano dos assessores de crédito, a consultoria de gestão transformou-se em uma utopia burocrática. Pressionados por metas volumosas de liberação de recursos e renovação de carteiras, os assessores não dispõem de tempo hábil para atuar como os mentores de negócios que a teoria econômica idealizou. A orientação, portanto, resume-se a um "corte e cole" informativo no momento da assinatura do contrato, focando massivamente nas regras de cobrança e nas penalidades da inadimplência, em vez de debruçar-se sobre o fluxo de caixa ou a viabilidade comercial do cliente.

A esse esvaziamento técnico soma-se um nó górdio operacional: a ausência de carência. Um crédito que se pretenda verdadeiramente produtivo precisa respeitar o tempo do relógio biológico e financeiro da atividade econômica. O capital injetado exige um prazo mínimo para entrar no ciclo operacional — comprar a matéria-prima, produzir, estocar, vender e, finalmente, receber. Ao estipular um prazo rígido de apenas 30 dias para o início do pagamento, o programa estrangula o tomador. O fenômeno que se sucede é perverso: o microempreendedor, sem tempo para maturar o investimento, acaba utilizando parte do próprio dinheiro recém-emprestado para quitar as primeiras parcelas. O fôlego vira corda.

O microcrédito deixa de ser um propulsor de crescimento estrutural e passa a ser apenas um recurso de curtíssimo prazo para apagar incêndios cotidianos.

É nesse cenário de fragilidade que o modelo do aval solidário — a exigência de formação de grupos onde todos respondem pela dívida de cada um — mostra sua face mais cruel. O que os bancos romantizam como "capital social" ou "pressão social positiva" traduz-se, no tecido social das comunidades, em constrangimento, fratura de laços de vizinhança e contágio financeiro.

Quando um membro do grupo fica inadimplente — seja por má-fé ou por uma real fatalidade do mercado —, a punição é coletiva. O banco bloqueia a renovação do crédito de todos os integrantes. Para não terem seus nomes negativados e perderem o acesso ao único oxigênio financeiro que conhecem, os demais membros são obrigados a fazer cotas para cobrir a parcela alheia. Tira-se o lucro escasso de quem trabalhou direito para salvar a reputação do grupo perante a instituição financeira.

O resultado final desse desenho institucional é a criação de uma esteira rolante da sobrevivência. O cliente corre, se esforça, paga juros, mas não sai do lugar. Não há acumulação real de capital, melhora na infraestrutura ou expansão comercial. Cria-se, sim, uma dependência crônica, onde a renovação do empréstimo serve unicamente para cobrir o rombo deixado pelo ciclo anterior.

Os bancos, por sua vez, celebram índices de inadimplência artificialmente baixos — maquiados pelo sacrifício dos avalistas que pagam pelos faltosos —, enquanto os relatórios de impacto socioeconômico fecham os olhos para o empobrecimento silencioso na ponta. O microcrédito cumpre um papel inegável de inclusão bancária, mas falha gravemente como política de desenvolvimento. 

Se essa dinâmica já é severa sob a égide de uma política pública como a do BNB, ela atinge níveis alarmantes quando o microcrédito é operado por corporações de lucro privado ou entidades de lógica mercantilista. Casos como o programa Prospera, do Santander, e de organizações como o CEAPE (Centro de Apoio aos Pequenos Empreendimentos) revelam o lado mais gritante dessa captura financeira. Desvinculadas do papel de inclusão social estatal, essas instituições cobram taxas de juros substancialmente maiores, justificadas pelo "risco da carteira", mas que na realidade extraem uma margem de lucro abusiva sobre a vulnerabilidade de quem não tem acesso às linhas tradicionais de financiamento.

O agravante reside na agressividade do pós-venda e da cobrança. Enquanto programas públicos tentam gerenciar o passivo por vias negociais longas, estruturas como o CEAPE notabilizam-se por uma postura jurídica implacável diante da inadimplência. O devedor que sucumbiu ao ciclo vicioso do crédito de subsistência rapidamente se vê alvo de notificações extrajudiciais acintosas, processos de execução céleres e bloqueios judiciais de contas e ativos. O patrimônio mínimo de subsistência da família, ou as ferramentas de trabalho do pequeno comércio, tornam-se reféns de uma máquina jurídica de recuperação de ativos que não se importa com o colapso social que deixa para trás.

O resultado final desse desenho institucional é a criação de uma esteira rolante de dependência. O cliente corre, se esforça, paga juros extorsivos, mas não sai do lugar. Não há acumulação real de capital ou expansão estrutural. Cria-se, sim, uma escravidão financeira moderna, onde a renovação do empréstimo serve unicamente para cobrir o rombo deixado pelo ciclo anterior. As instituições celebram índices de inadimplência controlados — sustentados pelo sacrifício de avalistas e pelo terror do bloqueio judicial —, enquanto os relatórios sociais fecham os olhos para o empobrecimento silencioso da ponta. O microcrédito no Brasil perdeu sua alma social. Enquanto for tratado unicamente como meta de balcão e extração de valor privado, continuará transformando o sonho da autonomia na realidade de uma execução judicial pesada, violenta e sem saída.

O Pluralismo Enjaulado: Como o Fla-Flu de "Situação" e "Oposição" Amordaça a Democracia no Interior

Como o personalismo, o clientelismo e as velhas práticas do coronelismo esvaziam o debate ideológico no interior, transformando a disputa pública em um jogo de torcidas que perpetua as elites locais.



Antes de tudo, vamos fazer uma ma análise sobre o esvaziamento da cidadania nas pequenas cidades, onde as pautas de esquerda e direita dão lugar à lealdade cega e ao voto de favor. Ou seja, a reprodução do poder sob o verniz da disputa eleitoral: quando a política perde o conteúdo programático e se reduz à mecânica utilitarista entre quem detém a máquina e quem deseja ocupá-la.

Quem caminha pelas praças e esquinas das cidades do interior profundo conhece bem o ritual. De quatro em quatro anos, o debate sobre o destino do município — que deveria girar em torno de metas fiscais, saneamento, transparência e políticas públicas estruturais — é sumariamente ejetado do espaço público. Em seu lugar, entra em cena um campeonato de torcidas organizadas. De um lado, a "Situação"; do outro, a "Oposição". Duas etiquetas que, despidas de qualquer substância ideológica, funcionam estritamente como camisas de time, organizando um jogo social onde o eleitor sabe exatamente de qual lado está, sem que para isso precise ler uma única linha de um plano de governo.

Essa dinâmica instintiva e funcional esconde uma engrenagem secular que o cientista político Victor Nunes Leal dissecou em seu clássico Coronelismo, Enxada e Voto. O figurino mudou, a enxada já não é a mesma, mas a espinha dorsal do clientelismo permanece intacta: a troca do direito político (o voto) por uma necessidade básica (o favor). No vácuo da consciência de classe e da cidadania abstrata, o voto é rebaixado a uma moeda de troca por uma cirurgia na capital, uma vaga de emprego na prefeitura ou o cascalhamento de uma estrada particular.

As Cores do Dono: Dominação e Reciprocidade

Para compreender como a estrutura social engole o debate político no interior, é preciso recorrer à tipologia de Max Weber sobre a dominação. O jogo entre situação e oposição nessas paragens não se apoia na legalidade racional — isto é, no debate institucional sobre como gerir os recursos públicos. Ele se sustenta no amálgama da dominação tradicional (o peso das oligarquias e dos laços de parentesco) e da dominação carismática (a figura do líder personalista, o "padrinho" ou "protetor").

O sociólogo José de Souza Martins nos lembra que a política cotidiana nessas regiões obedece à lógica da reciprocidade pessoal. Quando a política é reduzida ao personalismo, as palavras perdem o sentido original:

* A "Situação" não representa a defesa do capitalismo, do livre mercado ou de uma cartilha neoliberal; representa o grupo que detém a chave do cofre e o controle da máquina pública no momento, distribuindo as benesses do Estado como se fossem patrimônio privado.

* A "Oposição" não encarna as dores dos trabalhadores, o socialismo ou a justiça social; representa o bloco herdeiro de outra ala familiar ou facção local, aguardando sua vez de assumir o controle dessa mesma máquina de favores.

Nesse Fla-Flu paroquial, as ideologias tradicionais que moldaram o pensamento ocidental são sufocadas. A direita civilizada — aquela que, nos termos de Raymond Aron, flerta com a moderação e aceita o pluralismo democrático — e a esquerda programática — focada na universalização de direitos e na redução das assimetrias socioeconômicas pelo Estado — são conceitos estrangeiros. No interior, as únicas camisas que servem são as do "coronel de plantão" ou do "coronel que quer voltar".

O Esvaziamento da Democracia e a "Barbárie" do Silêncio

O resultado desse aprisionamento do debate é o que o filósofo contemporâneo Jürgen Habermas chamaria de colapso da ação comunicativa. A verdadeira democracia pressupõe uma arena onde o melhor argumento, baseado em dados e no interesse coletivo, vence. Quando a lealdade cega ao sobrenome ou à liderança messiânica substitui a discussão racional, ocorre um esvaziamento brutal da soberania popular.

"A redução da política ao personalismo engendra uma espécie de barbárie moderna: o silêncio da cidadania diante da falta de transparência fiscal e do uso privado de recursos públicos."

Em vez de fiscalizar a aplicação dos recursos públicos — como as bilionárias concessões e outorgas estaduais que irrigam os cofres municipais —, a comunidade se divide em um silêncio cúmplice ou em uma algazarra festiva que apenas camufla a perpetuação das mesmas elites. O eleitor, transformado em torcedor, celebra a vitória do seu "time" sem perceber que a taça do campeonato é, na verdade, a própria prefeitura sendo usada como balcão de negócios.

Romper esse ciclo de reprodução de poder exige mais do que a troca de nomes nas urnas; exige o fortalecimento da imprensa local independente, o rigor dos órgãos de controle e, fundamentalmente, o resgate da política como ciência social e técnica, capaz de gererar emancipação real e não dependência crônica. Enquanto a política do interior for guiada pelo clientelismo das camisas coloridas, a democracia continuará sendo apenas um verniz formal para a velha barbárie da dominação pessoal.

Nota do Autor: É preciso destacar que esta análise não busca relativizar ou esvaziar os reais e legítimos conceitos de esquerda ou direita — cujos debates programáticos sobre o papel do Estado, do mercado e da justiça social são os pilares da democracia. O que se denuncia aqui é justamente o oposto: o sequestro e o esvaziamento dessas ideologias pelas estruturas oligárquicas locais, que as reduzem a meros rótulos funcionais para dar lugar à lealdade cega e ao voto de favor. Por isso, não citamos nenhuma cidade do interior, nem nenhum político isolado.

A Beleza da Integridade — O Seu Propósito Quando Ninguém Está Olhando

No décimo segundo dia da nossa jornada, subimos ao santuário do Salmo 15 para compreender o valor inestimável de uma vida sem divisões. Descubra como a verdadeira força do seu chamado se consolida na coerência dos seus bastidores.



“Senhor, quem habitará no teu santuário? Quem morará no teu santo monte? Aquele que vive com integridade, que pratica a justiça e, de coração, fala a verdade.”

 — Salmo 15:1-2


A Mensagem: A Vida Sem Dupla Personalidade

Após analisarmos a doçura e o impacto relacional do fruto do Espírito no dia anterior, o Salmo 15 nos convida a fixar as estacas da nossa caminhada sobre um alicerce inabalável: a integridade. O salmista Davi começa o poema com uma pergunta litúrgica profunda sobre quem tem intimidade para habitar e permanecer na presença do Senhor. A resposta inspirada não aponta para rituais religiosos complexos, mas para a retidão do caráter.

A palavra "integridade" compartilha a mesma raiz de "inteiro". Na matemática, um número inteiro é aquele que não é fracionado ou dividido. Transposta para a vida espiritual, uma pessoa íntegra é aquela que não possui divisões internas; ela não é um personagem na igreja ou no templo e outra pessoa completamente diferente no escritório, no comércio ou na intimidade do seu lar.

Viver com integridade e falar a verdade de coração significa alinhar o que professamos com os nossos lábios ao que praticamos nos nossos bastidores. O propósito de Deus não tolera a hipocrisia de uma vida de aparências. O selo do nosso chamado é lapidado justamente na consistência de sermos os mesmos em qualquer ambiente.

Conexão com os Dias de Hoje: A Ética dos Bastidores na Era das Aparências

No mundo atual, a nossa atenção é constantemente capturada pela estética e pela projeção da imagem pública. É muito fácil construir uma reputação virtual impecável através de recortes selecionados, discursos politicamente corretos e posts inspiradores. No entanto, a cultura contemporânea frequentemente negligencia o que acontece longe dos holofotes. O mercado muitas vezes elogia a "esperteza" de quem consegue tirar vantagem oculta sem ser descoberto.

Trazer o Salmo 15 para o nosso cotidiano é um chamado à contracultura da honestidade radical:

* Integridade é o que você faz no escuro: É a honestidade nos contratos, no preenchimento de relatórios, no fechamento de contas de clientes, no pagamento de impostos devidos ou no respeito aos prazos e acordos firmados de palavra. O profissional cristão brilha na sociedade quando a sua conduta ética é inegociável, mesmo quando a fiscalização humana falha.

* A verdade que protege a alma: Viver uma vida dividida gera um desgaste emocional e espiritual tremendo. Quando escolhemos a integridade, ganhamos o direito de deitar a cabeça no travesseiro com a consciência limpa. O aplauso dos homens é passageiro, mas a aprovação silenciosa de Deus sobre um caráter reto permanece para sempre.

O seu propósito não precisa de marketing exagerado; ele se sustenta pelo peso da sua coerência. Antes de se preocupar com a forma como as pessoas enxergam a sua vida de fora, gaste tempo cuidando da estrutura que sustenta você por dentro. Que a sua segunda-feira profissional e os seus bastidores honrem ao Senhor tanto quanto o seu domingo de adoração.

💬 Para Refletir e Compartilhar:

Em um mundo que valoriza tanto as aparências, como você tem avaliado a sua ética nos pequenos detalhes do cotidiano onde ninguém está olhando? Lembrar que Deus contempla os nossos bastidores traz paz ou desconforto para o seu coração hoje?

sábado, 6 de junho de 2026

O Avesso da Armadura: Uma Leitura da Vulnerabilidade em F. J. Hora

Entre a herança camoniana e as prisões do afeto moderno, uma leitura estética sobre o medo da perda e a coragem da entrega na poesia de F. J. Hora

SONETO


Fascinado, intrigado, hipnotizado

Em minha vida mais uma ilusão

Que para mim só bastava a paixão

Disfarçar-me o desejo, ser amado


Vi de repente aos olhos revelado

O valor humano em transformação

E já num instante virar prisão

O que para libertar foi guardado.


Cá no meu pensamento temo ser

Como a criança sem o seu brinquedo

Não ganho para não ter que perder


Mas, mesmo sendo humano perdi o medo

O qual antes achava já não ter

Revelar-lhe de mim cada segredo.


In: HORA, F. J. Síntese Literária, 2013.



Dizia Camões, no ápice do Maneirismo quinhentista, que o amor é um "não querer mais que bem querer". Séculos se passaram, a língua se moldou, o mundo acelerou, mas o labirinto do afeto humano permanece intacto. É nessa mesma linhagem de perplexidade e rigor formal que o poeta F. J. Hora, em sua obra Síntese Literária (2013), inscreve o seu "SONETO", uma peça que equilibra perfeitamente a lucidez crítica e o abalo emocional.

Ao primeiro contato, o poema nos arrasta para uma ciranda psicológica. O verso de abertura — “Fascinado, intrigado, hipnotizado” — funciona como um portal de tontura. Há uma gradação quase cinematográfica aqui: o eu lírico não apenas olha para o amor; ele é capturado por ele. Contudo, longe de ser uma ode romântica ingênua, o texto assume imediatamente sua faceta crítica. O poeta sabe que a paixão, muitas vezes, é uma arquitetura de espelhos, “mais uma ilusão” projetada pela nossa necessidade urgente de sermos validados pelo outro.

O grande trunfo do soneto reside na sua capacidade de traduzir conceitos abstratos em imagens de forte apelo visual e plástico. Na transição para o segundo quarteto, assistimos a uma espécie de alquimia reversa. O que deveria ser o ápice da liberdade — o sentimento guardado, protegido do mundo exterior — transmuta-se, sob o peso do apego, em “prisão”. Visualmente, o leitor quase consegue enxergar um coração anatômico envolto em correntes douradas: belo, porém imóvel. É o paradoxo clássico da autodefesa; para não sofrer, o indivíduo se enclausura, sem perceber que o castelo que o protege é o mesmo que o isola.

É no primeiro terceto que a crônica do medo atinge seu ápice lírico e conceitual. Com a precisão de um cirurgião do espírito, Hora lança mão da metáfora da infância: “Como a criança sem o seu brinquedo / Não ganho para não ter que perder”. Há uma melancolia devastadora nessa lógica mercantilista do afeto. O eu lírico assume o medo da perda antes mesmo de possuir o objeto do desejo. É a fruição estética pelo avesso: o prazer do leitor aqui nasce do doloroso reconhecimento de uma covardia que é de todos nós. Quem nunca recuou um passo na calçada do amor pelo medo da queda?

No entanto, a arquitetura dos decassílabos de F. J. Hora não foi desenhada para o ceticismo cinzento. O desfecho do soneto é um ato de rebeldia humanista. Ao aceitar as próprias rachaduras — “Mas, mesmo sendo humano perdi o medo” —, o eu lírico quebra as correntes daquela prisão que construíra na segunda estrofe.

O verso final, “Revelar-lhe de mim cada segredo”, funciona como uma fresta de luz que invade um quarto escuro. O ritmo, que antes marchava pesado sob rimas fechadas e tensas, deságua em um desfecho de entrega absoluta.

Ler o soneto de F. J. Hora é experimentar uma catarse geométrica. Através de uma estrutura clássica impecável, herdada dos mestres do passado, o poeta moderno nos lembra de uma urgência contemporânea: a de que viver exige o risco de se quebrar. A verdadeira sofisticação poética não está em criar labirintos insolúveis, mas em oferecer, através da palavra exata, a chave para sairmos de nossas próprias prisões.

O Sossego dos Cemitérios: A Ditadura Invisível no Interior do Brasil

Como o silêncio imposto pela censura e a aliança com as elites agrárias apagaram as marcas da violência de Estado no Brasil profundo, transformando o medo na falsa memória de um passado pacífico.



Existe uma narrativa profundamente arraigada na memória de parte da população brasileira, especialmente aquela com mais de seis décadas de vida, de que a Ditadura Militar (1964–1985) foi um período de ordem, segurança e absoluto sossego. "No interior não havia disso", costuma-se ouvir nas praças e calçadas das pequenas cidades. Essa percepção, contudo, não passa de uma das construções ideológicas mais eficientes do regime: a de que a violência de Estado era um privilégio exclusivo das grandes metrópoles, restrita aos embates entre intelectuais, estudantes e forças de segurança no eixo Rio-São Paulo.

Essa tese é uma falácia histórica. Longe dos holofotes da grande imprensa e das avenidas das capitais, a engrenagem repressiva foi tão ou mais brutal, operando sob o manto de uma impunidade quase cirúrgica. A diferença fundamental não residia na ausência de violência, mas sim na invisibilidade de suas vítimas e na geografia do terror.

A Barbárie sob o Silêncio do Campo

Enquanto nas capitais o aparato estatal perseguia a dissidência urbana, o "inimigo" no interior profundo era outro: o trabalhador rural, o posseiro e a liderança sindical que ousavam contestar a secular estrutura do latifúndio. O golpe de 1964, convém lembrar, foi fortemente financiado e apoiado pelas elites agrárias que temiam o avanço das Ligas Camponesas e a extensão dos direitos trabalhistas ao campo.

O relatório final da Comissão Nacional da Verdade derrubou em definitivo o mito do interior pacífico ao apontar que pelo menos 1.196 camponeses e defensores dos direitos à terra foram mortos ou desapareceram no período. Esse contingente de vítimas supera, em termos numéricos, as baixas das guerrilhas urbanas. Todavia, essas mortes não viraram manchetes; foram registradas pelas delegacias locais como "conflitos agrários comuns" ou rotuladas como o justo extermínio de "baderneiros".

No interior, a repressão foi frequentemente privatizada. Uma aliança tácita unia o Estado e o jagunço. O fazendeiro ou o grileiro utilizava milícias privadas para queimar lavouras e assassinar lideranças, enquanto o aparato policial local — delegados civis e destacamentos da Polícia Militar — garantia a retaguarda, ignorando os crimes ou participando diretamente das prisões ilegais sob o pretexto de combater a "subversão".

A Topografia do Medo: O Caso de Japaratuba

A repressão fora dos grandes centros urbanos não dependia necessariamente das sofisticadas salas de interrogação do DOI-CODI. Ela se valia da própria geografia do isolamento para garantir a eficácia do terror psicológico e físico.

Em Sergipe, no coração do Vale do Cotinguiba, a memória oral preserva o que os arquivos oficiais tentaram apagar. Relatos locais resgatam episódios emblemáticos, como o de torturas prolongadas — com o uso sistemático do pau de arara por mais de 24 horas — ocorridas em pontos isolados da zona rural de Japaratuba, na região conhecida como "pioneira" (antiga antena da Telebrás), entre os povoados Camará e Mundo Novo.

Escolher o topo de um morro ermo, uma estrada de rodagem ou os arredores de uma instalação técnica estatal não era um ato aleatório. Atendia a uma lógica perversa de controle: garantia a privacidade do crime longe de testemunhas urbanas, ampliava o desamparo da vítima e utilizava o próprio silêncio da noite e do mato como amplificador do horror. Quem passava pelas proximidades e via o trânsito de viaturas oficiais compreendia o recado implícito.

A Arquitetura do Esquecimento

Se a violência era real e capilarizada, por que tantos ainda se lembram de um "período sossegado"? A resposta está na própria natureza da ditadura brasileira, que operou uma repressão seletiva. Para o cidadão comum, que mantinha a cabeça baixa, não questionava o prefeito indicado pela ARENA e aceitava o cabresto do compadrio local, a rotina permanecia "invisível" e aparentemente segura.

A essa apatia somava-se uma blindagem midiática absoluta. A única informação que cruzava as fronteiras do interior vinha do rádio e da televisão estritamente censurados, ou de pasquins locais pertencentes às mesmas oligarquias aliadas ao governo militar. O massacre de populações indígenas inteiras para a abertura de rodovias ou o suplício de um líder sindical no interior do Nordeste simplesmente não existiam no debate público.

O "sossego" de que muitos se recordam não era paz; era o silêncio obsequioso imposto pelo medo e pela ignorância deliberada. Confrontar essa falácia histórica e dar voz aos testemunhos de quase um século de vida que ainda ecoam em nossos povoados não é apenas um dever de rigor informativo, mas um ato de reparação e justiça com os esquecidos da história. A ditadura no interior não foi pacífica; ela foi apenas sepultada sem direito a lápide.

A Liturgia do Mocotó e o Teatro das Mangas Dobradas

Bastidores e Tradição: O Cruzamento entre a Economia Real e o Espetáculo do Poder na Feira de Japaratuba



No coração do Vale do Cotinguiba, o primeiro sábado de junho funciona como o verdadeiro termômetro financeiro e social para o comércio junino em Japaratuba. Enquanto o homem do campo e os moradores de povoados como São José, Badajós, Sibalde e Patioba movimentam a economia real injetando dinheiro vivo nas bancas de agricultura local, os bastidores políticos de junho de 2026 transformam o mercado e as mesas de café em um autêntico tribunal. É o cenário onde as movimentações para as composições de poder se disfarçam de simplicidade, e onde candidatos utilizam uma liturgia cínica — que vai das mangas dobradas ao clássico caldo de mocotó  — para tentar garantir faturamentos eleitorais e engajamento nas redes sociais.

O sábado de junho no Vale do Cotinguiba não amanhece; ele irrompe no ronco dos motores dos carros de linha que trazem o interior para a sede. É o primeiro sábado do mês, o termômetro sagrado que dita se o São João terá a fartura do milho na brasa ou a timidez dos tempos de estiagem. Na feira de Japaratuba, o dinheiro circula de mão em mão entre o amendoim cozido, o manoê e o cheiro do coentro fresco. Mas em junho de 2026, entre uma banca e outra, o que se vende mais caro é a ilusão. No verão, o caldo de cana bem gelado com o pastel e no "tempo frio" aquele caldinho de mocotó quentinho...

Junho de 2026 não é um mês qualquer. Nos bastidores, as engrenagens do poder fervem e, no interior, não existe tribunal mais impiedoso ou palanque mais disputado do que a feira livre. Quem tem juízo político sabe: sumir dali é assinar a própria invisibilidade. Por isso, o mercado central e as mesas de café viram o palco de uma ópera bufa, onde homens de gabinete tentam, a todo custo, falar a língua do massapê.

Assoma na esquina a primeira comitiva do dia. O figurino do candidato é uma ciência exata, uma verdadeira liturgia cínica. A camisa é de botão social, dessas de tecido fino compradas na capital, mas há um detalhe crucial: as mangas estão milimetricamente dobradas até o cotovelo. O truque visual é velho, mas segue no roteiro; serve para fingir que o sujeito acabou de largar o cabo da enxada ou que está "no batente" junto com o povo.

O espetáculo ganha ritmo quando o político avista uma senhora idosa ajeitando os maços de coentro e alface na banca. O protocolo exige um sobressalto de falsa surpresa. Ele caminha a passos largos, abre os braços e a envolve em um abraço caloroso, quase cinematográfico, como se tivesse reencontrado uma tia distante que não via desde a infância. A feirante, calejada por tantas colheitas e tantas promessas, aceita o afeto com um sorriso de soslaio. Ela sabe que aquele abraço tem prazo de validade: expira exatamente no dia da votação.

Logo adiante, o candidato encosta o cotovelo no balcão de alumínio para o teste definitivo de sua "humildade": o Palanque do Pastel e do Caldo de Cana. É a hora de encarar o caldo de mocotó ou o pão com manteiga na chapa. Cada mordida e cada gole são acompanhados por expressões faciais de profundo deleite, uma simplicidade quase teatral encenada para uma plateia de assessores e curiosos.

Mas o ápice da encenação não está no paladar; está na lente do smartphone de última geração que acompanha a comitiva. "Garante o ângulo", sussurra o assessor de comunicação. Segundos depois, o flash registra a comunhão forçada entre a opulência do poder e a crueza da feira. Antes mesmo que o político termine de limpar a gordura do mocotó nos lábios, a foto já flutua nas redes sociais. A legenda, cuidadosamente redigida no ar-condicionado do comitê, evoca as "nossas raízes", a "força do nosso povo" e o "orgulho da nossa identidade".

Ao meio-dia, o encanto se quebra. Os carros de linha dão a partida e começam a devolver o povo aos povoados. Os feirantes recolhem as lonas, o caminhão do itabaianense se prepara para pegar a estrada e o comércio da sede silencia. A comitiva política também bate em retirada, saciada de pastel, mocotó e engajamento digital.

Fica na praça o cheiro do bagaço da cana e a certeza de que o povo de Japaratuba conhece bem o figurino dos seus atores. Eles aplaudem o teatro do sábado pela manhã, mas, no silêncio do voto, guardam na memória quem realmente pisa no chão da feira por devoção à terra e quem só aparece por obrigação do calendário.