quinta-feira, 21 de maio de 2026

O Alambique da História: Entre o Fausto dos Engenhos e as Correntes da Submissão Modernizada

No Dia Nacional da Cachaça de Alambique, o Vale do Cotinguiba resgata a memória da opulência canavieira, a herança dos "crioulos" e o enigma de uma subordinação política que teima em não morrer.



Por: Flávio Hora


Neste 21 de maio, o Brasil celebra o Dia Nacional da Cachaça de Alambique e da Produção Artesanal. Para quem caminha pelas terras férteis de massapê negro do Vale do Cotinguiba, a data vai muito além da apreciação de uma iguaria destilada. Ela evoca o cheiro do bagaço da cana, o som das velhas almanjarras movidas a tração animal e os eixos de madeira sucupira dos carros de boi que, no século XIX, desenharam a paisagem econômica de Sergipe. Mas, acima de tudo, evoca o suor e o sangue daqueles que ergueram essa riqueza: a mão de obra escrava.

Celebrar a produção artesanal exige um olhar agudo sobre a nossa formação social. A Cotinguiba já foi a região mais rica e mais culta do estado, sustentada por uma aristocracia rural que casava seus filhos por dotes e alianças de sangue. Cidades como Laranjeiras, Maruim e Santo Amaro das Brotas floresceram sob o fausto do açúcar que atraía o comércio europeu. No entanto, por trás dos casarões imponentes e da exportação febril, escondia-se o motor silencioso da senzala.

A Preponderância do Escravo "Nativo" e o Mito do Bom Senhor

A historiografia sergipana revela uma particularidade crucial sobre o cotidiano escravo em nossos engenhos. Diferente de Salvador ou do Recife, Sergipe não dispunha de portos com autonomia para importar mão de obra diretamente da África. Nossos cativos vinham, em sua maioria, do recôncavo baiano, gerando uma preponderância de crioulos (negros nascidos no Brasil) e mestiços.

Esses "negros da terra", integrados há gerações ao idioma, aos códigos e aos costumes locais, foram muitas vezes rotulados pela visão eurocêntrica e elitista como "negros civilizados". Criou-se, inclusive, o mito de que os escravos em Sergipe eram "melhor tratados". Uma falácia desconstruída por historiadores como Maria Thetis Nunes, que provou que o suposto zelo dos senhores nada mais era do que a defesa do capital investido : o escravo era um bem caro e sua perda significava prejuízo financeiro.

A dita "civilidade" imposta aos crioulos e mestiços nos engenhos do Cotinguiba envolveu mecanismos complexos de controle social, redes de compadrio e a própria catequese, que buscavam amansar o ímpeto de revolta. Embora o protagonismo negro tenha se manifestado em quilombos e sublevações — como a de 1823 em Laranjeiras  —, o sistema patriarcal logrou êxito em criar amarras psicológicas profundas, vendendo a ideia de que a obediência e a adaptação eram os únicos caminhos de sobrevivência dentro da ordem estabelecida.

Dos Velhos Engenhos aos "Coronéis Modernos"

Essa herança histórica nos ajuda a decifrar o presente. Quando olhamos para a política do interior de Sergipe, muitas vezes nos perguntamos: por que a maior parte da população ainda aceita, com passividade, a dominação dos "coronéis modernos" da política? Por que práticas populistas, o clientelismo e o mandonismo local ainda encontram tanto terreno fértil em nossos municípios?

A resposta está no DNA social moldado no Vale do Cotinguiba. A transição da escravidão para o trabalho livre não rompeu a estrutura de dependência. Quando a abolição chegou e o fausto dos engenhos entrou em decadência — levando muitas famílias tradicionais a migrarem para o café paulista  —, a mentalidade patriarcal permaneceu intacta.

O trabalhador, historicamente condicionado a buscar a proteção do "senhor" para garantir seu teto e seu quilo de farinha, apenas trocou de patrão. O antigo dono de engenho deu lugar ao chefe político oligárquico. Aquela submissão psicológica, outrora imposta ao escravo crioulo sob o pretexto de integrá-lo à "civilização", foi repassada de geração em geração. O cidadão foi ensinado a não se enxergar como detentor de direitos, mas como um eterno devedor de favores.

Crítica e Consciência

O Dia Nacional da Cachaça de Alambique, portanto, deve ser uma data de celebração da nossa capacidade produtiva artesanal e da riqueza da nossa terra. Mas deve ser, fundamentalmente, um dia de reflexão crítica.

A verdadeira emancipação do povo do Vale do Cotinguiba só acontecerá quando cortarmos o cordão umbilical invisível que nos liga à casa-grande. Romper com a dominação dos coronéis modernos exige compreender que o poder público não faz favores; ele apenas gerencia o que é nosso por direito. Enquanto aceitarmos as velhas práticas com a mesma resignação dos nossos antepassados, continuaremos a moer nossa dignidade nos engenhos disfarçados da política contemporânea.

Os Espelhos do Sertão: Quando a Literatura Nacional Encontra a Alma de Sergipe

Das páginas imortais de Graciliano Ramos e Euclides da Cunha ao gênio de Tobias Barreto e à poesia dos pífanos: uma jornada que prova que a força literária não depende das luzes do Sudeste, mas da profundidade das nossas raízes.




Existe um vício antigo na cultura brasileira de acreditar que a geografia dita o tamanho do intelecto. Convencionou-se olhar para o eixo Rio-São Paulo como o tribunal definitivo da literatura nacional, como se a erudição e a sensibilidade precisassem de asfalto e arranha-céus para florescer. Mas a verdade da terra desmente a pressa dos mapas. A grande literatura nasce onde a alma humana é posta à prova, e poucos palcos no mundo testaram tanto o espírito humano quanto o chão do Nordeste.

Hoje, o nosso Espaço do Livro propõe um exercício de justiça e encantamento: colocar lado a lado os titãs da literatura nacional e os gigantes da nossa própria terra, mostrando que a universalidade da dor, da beleza e da identidade pulsa com a mesma força nas páginas consagradas e no interior de Sergipe.

Paralelos Literários: O Sertão de Dentro e de Fora

Quando Euclides da Cunha escreveu em Os Sertões que "o sertanejo é, antes de tudo, um forte", ele tentava decifrar a simbiose entre o homem e a terra agressiva. Anos mais tarde, Graciliano Ramos, com a prosa cirúrgica de Vidas Secas, despiu a alma de Fabiano e sua família, mostrando que a escassez de água andava de mãos dadas com a escassez de palavras.

Mas essa crueza e essa profundidade psicológica não são exclusividades dos manuais escolares. Quem caminha pelas páginas escritas no interior de Sergipe encontra esse mesmo sertão vertical. A prosa e a poesia produzidas na região de Carira, no agreste profundo, carregam o mesmo silêncio gritante de Fabiano, a mesma poeira que desafia a existência, mas com uma doçura mística que só quem vive a terra conhece.

No Vale do Cotinguiba e em Japaratuba, o cenário muda de tom, mas não de intensidade. Sai a crueza da caatinga e entra a densidade histórica de uma terra moldada pelo suor, pelo açúcar e pelo sangue. Se Graciliano investigou a secura da alma, os autores locais investigam as correntezas da memória. O paralelo é exato: o drama humano de um retirante em Vidas Secas dialoga diretamente com as dores e as resistências do povo que ergueu a cultura do nosso Vale.

O Resgate dos Grandes: A Mente Sergipana que Moldou o Brasil

Não se pode falar em pensamento crítico no Brasil sem pedir licença a Sergipe. Se o Sudeste muitas vezes nos ignora, a história nos absolve através de mentes que redesenharam o panorama intelectual do país.

Falar em alta literatura e filosofia é evocar o gênio de Tobias Barreto. O líder da Escola de Recife provou que o interior de Sergipe podia pensar o mundo, traduzindo o direito e a filosofia alemã sob o sol do Nordeste, sem nunca perder o vigor da sua rebeldia. Ao lado dele, Araripe Júnior ajudou a fundar a crítica literária nacional, moldando a forma como o Brasil lia a si mesmo.

E o que dizer de Manuel Bomfim? Suas análises sociológicas e críticas do Brasil — que humanizaram o debate sobre a colonização e a psicologia do povo brasileiro — anteciparam discussões que a academia do Sudeste só compreenderia décadas depois. Para fechar essa constelação, a poesia de Santo Souza surge como um monumento ao existencialismo, um sopro de transcendência que transforma a palavra em carne viva.

Esses homens não fizeram apenas "literatura sergipana"; eles ditaram os rumos da inteligência nacional.

Da Tradição Oral à Letra Escrita: O Canto dos Pífanos e o Cordel

A literatura, porém, não vive apenas nas bibliotecas de capa dura. Antes de virar tinta, ela é sopro, canto e memória. A nossa literatura de raiz nasce na tradição oral que ecoa nas praças e terreiros.

O verso que o poeta de bancada escreve com caneta de ouro,

É o mesmo que o mestre de Reisado canta vestindo seu couro.

A literatura que salva, que cura e que diz quem somos,

Vem do som do pífano antigo que desperta os mundos onde fomos.

Em Japaratuba, a história não se lê apenas nos arquivos públicos; ela se lê nas loas dos Reisados, nos cantos dos Cacumbis e no ritmo centenário das bandas de pífano que passam de geração em geração. Essa musicalidade sacode a poeira das palavras e se transforma em literatura viva. Os livros locais que documentam essas manifestações realizam um resgate quase arqueológico da nossa dignidade.

Do mesmo modo, a literatura que reconta o cangaço na região de Carira — seja através do cordel ou da pesquisa histórica local — humaniza o mito. Transforma o que a imprensa da época chamava de "banditismo" em um complexo estudo de sobrevivência, honra e tragédia social. As lendas que correm o Rio Cotinguiba e as histórias sussurradas no interior são o verdadeiro oxigênio da nossa ficção.

O Veredicto das Páginas

Olhar para Vidas Secas e, no mesmo instante, contemplar a riqueza cultural de Japaratuba e Carira é entender que a literatura não é uma questão de endereço postal, mas de verdade interior.

O Espaço do Livro nasce com essa missão: ser a ponte onde o clássico e o local se abraçam. Porque o sertão não é um limite geométrico; o sertão, como já dizia Guimarães Rosa, é o mundo. E Sergipe é o coração desse mundo.

quarta-feira, 20 de maio de 2026

A Sangria do Silêncio: Por que Escrever num Mundo Feito de Ruído?

Depois de desbravarmos o prazer da leitura, mergulhamos no ofício da escrita como ferramenta de libertação psicológica, resistência cultural e preservação da memória regional.



Por Flávio Hora

Se ler é um ato de profunda generosidade — onde emprestamos nossos olhos para o pensamento de outro —, escrever é um ato de coragem quase primitiva. É arrancar de si o que está oculto na carne e transformar em tinta, em linha, em prumo. No entanto, em tempos onde tudo é rápido, efêmero e mastigado por algoritmos, cabe a pergunta que todo criador se faz nas madrugadas frias: por que, afinal, insistimos em escrever?

Não se escreve apenas pelo desejo vão da vaidade ou pelo aplauso efêmero das redes. Quem escreve de verdade sabe que o papel em branco não é um receptor passivo; é um espelho que devolve nossas fraturas e nossas belezas. Escreve-se pela mesma razão que as lavadeiras cantavam nas margens dos rios ou que os velhos mestres sopravam os pífanos nas noites de festa: para não sufocar.

Escrever é dar corpo ao vento que passa,

É transformar a dor do mundo em fumaça.

Não se escreve para o tempo vencer,

Mas para que a memória se recuse a morrer.

Escreve-se, antes de tudo, para resgatar. Quando um escritor do interior pega na caneta, ele carrega consigo o sotaque de sua gente, a poeira das estradas de Carira, o cheiro de cana-de-açúcar que outrora corria o Vale do Cotinguiba e o mistério que habita o casario antigo de Japaratuba. Escrever, para nós, é um ato de Originalismo — um retorno consciente às nossas raízes, um manifesto poético contra o esquecimento. É provar que a nossa aldeia universal não precisa pedir licença aos grandes centros urbanos para ter voz.

A literatura nacional que pulsa fora do eixo Rio-São Paulo é uma literatura de resistência e de carne viva. Quando colocamos no papel as nossas crônicas, os nossos sonetos ou o enredo de um romance, estamos documentando a alma de um povo que a história oficial, muitas vezes, tenta resumir a estatísticas e relatórios contábeis. A escrita humaniza o dado. Ela transforma o retirante anônimo em herói trágico e o cotidiano da praça da matriz em cenário de epopeia.

Há quem diga que escrever é uma solidão. Estão enganados. O escritor nunca está só. Quando ele mergulha na psicologia de um personagem, quando ele tateia as dores, os ciúmes, os amores e os desassossegos de uma figura de ficção, ele está, na verdade, estendendo a mão para o leitor. Está dizendo: "Olhe, eu também sinto isso. Você não está sozinho na sua noite escura".

Escrever é a tentativa humana de organizar o que o mundo desorganiza. É o acerto de contas com o tempo. O dia de hoje vai passar, a notícia da semana vai envelhecer, a gestão pública vai mudar, as dores de agora vão virar cicatriz. Mas a palavra escrita? A palavra escrita permanece, como pedra litúrgica, testemunhando que houve poesia em meio ao barulho.

Se a vida é um sopro curto e ligeiro,

O texto é o rastro que fica no terreiro.

Escreve-se para que o silêncio não seja o fim,

Para que a nossa terra cante, enfim.

Não guarde seus rascunhos na gaveta por medo do julgamento ou por achar que sua voz é pequena. Se o peito apertar, se a cena pedir passagem, se o verso insistir em bater na têmpora, ceda. Pegue o papel, alinhe as letras, ajuste o ritmo. Escreva pelo direito sagrado de inventar mundos e de eternizar o seu próprio chão. Porque se a leitura nos liberta, é a escrita que nos torna imortais.

Os Arquitetos do Conhecimento: O Papel do Pedagogo na Educação Básica e na EJA

No Dia do Pedagogo, uma reflexão sobre os profissionais que estruturam o pensar e transformam a sala de aula em um espaço de resgate da dignidade humana.




Por: Flávio Hora


Falar de educação no Brasil exige, antes de tudo, reverência àqueles que desenham as diretrizes do saber. Hoje, 20 de maio, celebra-se o Dia do Pedagogo. Muitas vezes confundido apenas com o ato de lecionar na primeira infância, o papel da pedagogia é muito mais profundo: trata-se da ciência que estuda a educação, os métodos de ensino e o desenvolvimento humano. O pedagogo é o arquiteto que projeta a base sobre a qual toda a estrutura social e intelectual de uma comunidade se sustenta.

Na Educação Básica, esse profissional é o guardião das primeiras letras e dos primeiros números. É quem transforma o ambiente escolar em uma extensão do lar, garantindo que o aprendizado ocorra de forma lúdica, séria e afetiva. No entanto, é na Educação de Jovens e Adultos (EJA) que a pedagogia revela sua face mais transformadora e caridosa.

Trabalhar com a EJA em municípios como Japaratuba e em todo o interior de Sergipe não é apenas ensinar a ler; é um ato de reparação social. O pedagogo que atua na EJA lida com o trabalhador que passou o dia sob o sol, com a mãe de família que precisou adiar os sonhos para criar os filhos e com o jovem que o sistema, em algum momento, empurrou para a margem. Para esse público, o pedagogo precisa desenvolver planos de aula e materiais multidisciplinares que respeitem a bagagem de vida do aluno. Não se alfabetiza um adulto como se alfabetiza uma criança. Exige-se uma pedagogia da escuta, do respeito e da valorização da "originalidade" de cada história de vida ali presente.

Neste 20 de maio, parabenizamos todos os pedagogos, coordenadores e diretores escolares da nossa região. Que a gestão pública reconheça que investir na valorização desses profissionais e dar condições para que apliquem seus projetos pedagógicos é o único caminho real para construir uma sociedade verdadeiramente livre, consciente e soberana.

O Encontro da Substância com a Estratégia: Por que o Licenciado Precisa do Pedagogo

Para compreender a engrenagem de uma escola eficiente, é preciso desmistificar os papéis que dividem o chão da sala de aula e os gabinetes de coordenação. Existe uma linha sutil, mas crucial, que separa e ao mesmo tempo une o professor licenciado (especialista em sua disciplina) e o pedagogo. Longe de ser uma relação de subordinação ou fiscalização, trata-se de uma parceria técnica de co-dependência.

O professor licenciado detém a soberania sobre a substância: ele domina o "quê" ensinar — seja a profundidade da Língua Portuguesa, os mistérios da História ou a exatidão da Matemática. No entanto, o conhecimento científico corre o risco de ficar trancado na teoria e nunca chegar à mente do estudante se não houver uma ponte metodológica. É aí que entra o pedagogo no gerenciamento estratégico da estrutura educacional.

O pedagogo domina o "como", o "porquê" e o "para quem" ensinar. Na função de coordenador ou supervisor, ele assume o leme da burocracia pedagógica, orientando os licenciados sobre os prazos de planejamento, as metas de aprendizagem que o município precisa atingir e os critérios técnicos de avaliação. Ao absorver essa complexa carga de diretrizes educacionais e legais, o pedagogo cumpre um papel vital: ele alivia o peso burocrático das costas do licenciado, limpando o terreno para que este foque exclusivamente no que faz de melhor: ministrar a sua matéria com excelência.

Portanto, o pedagogo não deve ser enxergado como um fiscal do trabalho alheio, mas como o parceiro técnico estratégico inestimável. Uma escola que funciona de verdade nasce do equilíbrio exato entre esses dois saberes: o rigor do conteúdo trazido pelo especialista e a sensibilidade de gestão humana e didática trazida pelo pedagogo. Quando a substância encontra a forma, quem ganha é o futuro do aluno.


terça-feira, 19 de maio de 2026

O Sopro das Páginas: Por que Ler quando o Mundo lá fora Grita?

A leitura é a porta de entrada, o terreno comum onde todos se encontram — o escritor, o estudante, o trabalhador e o curioso. Vamos dizer ao leitor "por que escrever" antes de seduzi-lo a ler seria como convidar alguém para compor uma melodia de pífano sem que ele nunca tenha parado para ouvir o sopro do vento nas tabocas. 




Por que ler? Ler porque a vida é curta demais para caber apenas dentro da nossa própria experiência.

Quem não lê conhece apenas a rua onde mora, o salário que recebe, a dor que sofreu e os limites da própria janela. Já o leitor atravessa séculos sem sair da cadeira. Conversa com mortos, discute com filósofos, caminha em desertos, atravessa guerras, ama em idiomas que nunca falou. A leitura amplia o mundo sem exigir passaporte.

Mas há algo ainda mais profundo: ler é um ato de resistência contra a brutalidade da pressa.

O mundo moderno nos quer rápidos, rasos e distraídos. Tudo precisa ser imediato, resumido, mastigado em vídeos curtos e frases instantâneas. O livro faz o contrário. Ele exige permanência. Obriga a mente a desacelerar, imaginar, refletir. Enquanto a tela nos fragmenta, a leitura nos reconstrói.

Ler também é uma forma de autoconhecimento. Muitas vezes encontramos, numa página escrita há cem anos, um sentimento que nunca conseguimos explicar. Um personagem sofre exatamente a angústia que carregamos em silêncio. E, de repente, percebemos que não estamos sozinhos na experiência humana.

Quem lê descobre que a alma também tem sede. E que há águas escondidas nas palavras. Cada livro é uma porta entreaberta, Um pedaço do mundo tentando caber dentro da gente.

Há ainda uma dimensão quase política na leitura. Um povo que lê pensa melhor, argumenta melhor, desconfia melhor. A leitura ensina nuance num tempo em que todos gritam certezas. Ela nos torna menos manipuláveis e mais humanos.

Mas talvez o motivo mais bonito para ler seja o mais simples: o prazer.

O prazer de uma frase bem escrita. O encanto de uma história. O silêncio confortável entre uma página e outra. O cheiro do papel. A sensação de esquecer o relógio por alguns minutos enquanto a imaginação trabalha.

Ler não serve apenas para “vencer na vida”. Serve para que a vida não se torne pequena demais.

Há livros que informam. Há livros que transformam. E há aqueles raros que fazem algo maior: Eles nos devolvem a capacidade do espanto.

Por isso ler importa. Porque um ser humano sem imaginação acaba aceitando qualquer realidade como definitiva. E toda transformação — pessoal ou coletiva — começa primeiro dentro da linguagem, dentro da ideia, dentro da palavra.

Antes de mudar o mundo, alguém precisou lê-lo.

Dizem os dicionários, com a frieza típica das definições exatas, que ler é o ato de decifrar sinais gráficos. Uma explicação contábil, cirúrgica, mas que passa longe — léguas de distância — da verdade que palpita no peito de quem abre um livro. Ler não é acumular dados, como quem preenche uma planilha de haveres e deveres. Ler é, antes de tudo, um desassossego contra a mesmice dos dias. É o avesso da solidão.

O mundo moderno tem pressa. Exige de nós a utilidade do tempo, a lógica do lucro, a resposta imediata na tela que brilha e escorrega pelos dedos. Nessa correria, a mente adoece de superficialidade. É aí que o livro surge não como um dever acadêmico ou um manual de instruções para o sucesso, mas como um refúgio. Um cais.


O livro é terra que se pisa sem sair do lugar,

 É o sertão de dentro que aprende a desaguar.

 Não se lê apenas para saber, para o mundo reter,

 Lê-se para, no silêncio da página, finalmente ser.


Se buscássemos na leitura apenas o conhecimento técnico, os livros seriam apenas ferramentas — ferramentas úteis, decerto, mas sem alma. No entanto, nós buscamos a literatura pelo mesmo motivo que o sertanejo olha para o céu em tempo de estiagem: buscamos a promessa de uma chuva que mude a cor da terra. Lemos para encontrar respostas a perguntas que nem sabíamos como formular.

Quando abrimos um clássico da nossa literatura nacional — e que fique claro, a grande literatura não nasce apenas sob as luzes do eixo Rio-São Paulo, mas brota com força telúrica no interior, nas margens do Cotinguiba, no topo das serras de Carira, nos sotaques e nas dores do nosso povo —, nós nos estendemos no tempo. Ler nos permite conversar com os mortos e antecipar o abraço dos que ainda virão.

Quem lê Graciliano Ramos não aprende apenas sobre a seca do Nordeste; aprende sobre a secura que, às vezes, habita a alma humana quando lhe falta o afeto. Quem mergulha na poesia de Tobias Barreto ou nos versos que ecoam pelas nossas manifestações tradicionais não está apenas consumindo cultura; está fincando os pés no chão da própria história, reconhecendo-se no espelho do tempo.

A leitura nos dá o direito à empatia. Nas páginas de um livro, posso ser o rei ou o retirante, o místico ou o cético. Posso viver mil vidas em uma única existência. E, ao fechar a capa, já não sou o mesmo que a abriu: algo em mim se moveu, uma parede interna foi derrubada.

Não leia, portanto, para ser mais sábio que o seu vizinho. Não leia para ostentar citações em debates vãos.


Abra um livro pelo puro direito ao espanto.

Pelo prazer de ver a palavra virar canto,

E descobrir que, no fundo de cada história descrita,

Há um pedaço de nós que se liberta e grita.

Seja bem-vindo ao nosso Espaço do Livro. Nas próximas semanas, este será o nosso ponto de encontro. Vamos falar de clássicos, mas também vamos revirar as gavetas da nossa região, valorizar os escritores da nossa terra e desmistificar o fazer literário. Mas, por hoje, apenas respire. Esqueça as notificações do celular. Pegue um livro, sinta o cheiro do papel e permita-se a maior das liberdades: a de se perder para, finalmente, se encontrar.

O Mito do Imposto Vilão e a Elasticidade do Estômago

Como a dinâmica de bens essenciais, a busca incessante pela margem de lucro e o jogo de narrativas políticas transformam a redução de impostos em bônus empresarial, deixando o consumidor refém da própria necessidade.




Na teoria dos livros, se o imposto cai, um posto baixaria o preço para atrair os clientes do concorrente, gerando uma reação em cadeia que beneficiaria o consumidor. Na prática, o mercado de combustíveis costuma operar em oligopólio (poucos concorrentes grandes) ou sob o efeito de "paralelismo de preços".

O fato é que combustível está na classe dos bens essenciais e de alta demanda. E, no capitalismo real, muitas vezes é exatamente assim que banda toca, especialmente por conta de dois fatores fundamentais que identificamos ao analisar esse mercado: a elasticidade da demanda e a estrutura de mercado.

Há uma máxima no catecismo liberal que repousa intocável no debate público brasileiro: a de que o preço do combustível na bomba é um reflexo quase exclusivo da ganância do Estado através de sua pesada carga tributária. Trata-se de uma narrativa confortável, que unifica o descontentamento do cidadão comum ao interesse do grande capital. No entanto, quando despimos o mercado de combustíveis de suas paixões ideológicas e o analisamos sob a lente nua e crua do capitalismo real, a matemática do "imposto vilão" começa a ruir diante de uma verdade incômoda: o preço de um bem essencial não é definido pelo seu custo, mas pelo limite máximo que o consumidor aceita pagar antes de parar de consumir.

O cerne do capitalismo repousa sobre o binômio sagrado de minimizar custos e maximizar lucros. Na teoria econômica dos manuais, a livre concorrência forçaria o empresário a repassar qualquer alívio fiscal diretamente ao consumidor para ganhar mercado. Na prática das avenidas e rodovias brasileiras, o cenário é de oligopólio e paralelismo de preços. Se uma carga tributária despenca de 33% para 25%, a reação imediata do dono do posto não é a benevolência de baixar a tabela para vender mais; é a percepção de uma oportunidade de ouro para engolir a diferença e inflar sua margem de lucro líquida.

A economia chama isso de demanda inelástica. O cidadão reclama, esbraveja nas redes sociais, mas não vende o carro, não deixa de trabalhar e não diminui o consumo. Se a demanda está garantida e o consumidor já assimilou o preço mais alto, por que o mercado abriria mão de sua margem em nome da concorrência?

Essa engrenagem de compensações fica ainda mais evidente na dinâmica interna dos postos, onde a gasolina e o etanol jogam um jogo de vasos comunicantes. Enquanto a gasolina funciona como a âncora de margem estável, o etanol opera como o camaleão volátil da safra, frequentemente espremido até o limite da sobrevivência para manter-se competitivo diante da barreira psicológica dos 70% do preço do derivado de petróleo. Para fechar a conta e garantir a saúde financeira, o empresário recorre à compensação cruzada e ao "capitalismo de oportunidade" das lojas de conveniência e serviços de pátio, onde as margens de lucro superam os 40%. O combustível atrai o cliente pelo estômago do carro; o café e o óleo lubrificante pagam a folha de funcionários.

Diante de um mercado tão cativo e estratégico, a discussão sobre a necessidade de intervenção estatal ou a marcha em direção ao Estado Mínimo transforma-se em um cabo de guerra puramente narrativo. Nos governos de esquerda, que historicamente assumem a Petrobras como escudo social, qualquer flutuação na bomba é capitalizada pela oposição como culpa direta da caneta do presidente. Nos governos de direita, alinhados ao discurso liberal de submissão às leis internacionais de oferta e demanda, o aumento é convenientemente terceirizado para o mercado global, o preço do barril em Londres ou o fantasma do ICMS estadual. É a blindagem política operando por conveniência: assume-se o controle na bonança, terceiriza-se a culpa na crise.

Reduzir o debate dos combustíveis à demonização dos impostos é uma cortina de fumaça que esconde o real funcionamento da cadeia de valor. A alta carga tributária brasileira é real e complexa, mas ela não é a única — e muitas vezes nem a principal — responsável pelo preço final. O combustível sobe porque o mercado sabe que, no fim do dia, o motorista vai pagar. O capitalismo de conveniência e de demanda inelástica não opera por simpatia ou patriotismo; ele opera pela máxima extração de valor onde o consumo é obrigatório. Culpar apenas o Estado é ignorar que, no livre mercado das bombas, a fome de lucro sempre se ajustará ao tamanho da necessidade do consumidor.

"A Cabaça Vai ao Poço, Até Que Um Dia Tora o Pescoço"

Entre poços, cacimbas e conveniências digitais: como a sabedoria sertaneja da cabaça racha a hipocrisia e a moral de dois pesos e duas medidas na política moderna.




Já imaginaram um trabalhador com seu mocó, o jabá, a farinha e a cabaça amarrada na corda. Será apenas nostálgica? Não, ela carrega uma sabedoria prática que o asfalto e as telas de celular parecem ter esquecido.

Aliado a esse fenômeno temos o ditado popular, "a cabaça vai ao poço até que um dia tora o pescoço", resume perfeitamente a exaustão de um sistema ou de um comportamento.

Alguém aqui já viu uma cabaça de água?

Pois é. Para quem não viu e nem sabe da história, os roceiros e trabalhadores rurais mais antigos junto do "mocó" com carne assada ou jabá e uma cuia de farinha, traziam a cabaça d'água.

Mas, existiam os poços artesianos e as cacimbas onde se retirava a água potável para o consumo. A cabaça geralmente era mergulhada com a corda para encher, fato esse que de tanto ser mergulhada e puxada para fora, acabava quebrando o "pescoço" da cabaça. Existem cabaças de cerâmica e as de cumbuco seco.

O homem da roça sabia das coisas porque lidava com a gravidade e com a fragilidade da matéria. Sabia que o barro racha, que o cumbuco seco cede e que corda grossa em pescoço fino de cabaça, uma hora, cobra o preço. O poço — ou a cacimba, a depender de onde a sede apertava — era o juiz implacável do desgaste. De tanto ir buscar o sustento, a física operava seu milagre reverso: a quebra.

Hoje, no entanto, a física foi revogada pelas redes sociais. Principalmente a física moral.

Modernamente, a cabaça virou o lombo do adversário político. E o poço virou o feed de notícias.

Assiste-se, diariamente, a um fenômeno de engenharia hidráulico-partidária fascinante: a cabaça do meu desafeto pode ir ao poço da execração pública mil vezes por dia. Se ela voltar rachada, o internauta aplaude, faz meme e decreta que a gravidade agiu com justiça divina. “Vejam!”, grita o cidadão, com os dedos sujos de farinha digital, “a corrupção daquele infeliz finalmente torou o pescoço da lógica!”. Há uma satisfação quase erótica em ver o cumbuco do outro virar caco.

O milagre da elasticidade, contudo, acontece quando a cabaça que desce ao poço ostenta a foto do nosso estimado líder.

Ah, aí o material muda. O pescoço do aliado não é feito de cumbuco seco ou cerâmica barata; é feito de titânio blindado, revestido com o verniz da incompreensão pública.

Se o nosso candidato comete o mesmíssimo deslize, o mergulho na cacimba da denúncia deixa de ser um fato e passa a ser uma conspiração geométrica. A corda que puxa a acusação não é a da justiça, é a da “inveja”. O balde d’água fria trazido à tona não é prova, é “intriga da oposição”. O pescoço do homem, de tão elástico que se torna pela nossa conveniência, faz inveja aos contorcionistas do Cirque du Soleil. Ele estica, dobra, passa pelo buraco da agulha da moralidade e volta intacto, pronto para receber mais um voto de louvor.

Filosoficamente, criamos o Silogismo do Jacaré: se o réptil morde o meu vizinho, é a natureza sendo implacável e bela; se morde a minha perna, é um atentado terrorista contra o direito de ir e vir.

O erro crasso dessa nossa era de torcidas uniformizadas é esquecer que o poço da hipocrisia não tem fundo, mas tem espelho. Ao passarmos o dia torcendo para que a cabaça alheia se estatele no chão da crítica, esquecemos de olhar para a corda que segura a nossa própria reputação.

No fim, quando a coerência finalmente "tora o pescoço", o que nos sobra não é a água limpa da verdade, mas a lama da conveniência. E beber lama, por mais que venha canecada pelo seu político de estimação, continua deixando um gosto amargo na boca de quem ainda insiste em pensar.