domingo, 1 de fevereiro de 2026

​"Forças Terríveis" ou Erro de Cálculo? O Que Jânio Quadros e Jair Bolsonaro Ensinam Sobre Tentar Dobrar a Democracia

O Enigma da Vassoura: Sete Meses que Abalaram o Brasil



No início de 1961, o Brasil tinha um novo ídolo. Jânio Quadros, com seu jeito excêntrico, óculos tortos e o jingle chiclete "Varre, varre, vassourinha", prometia limpar a corrupção e organizar as contas públicas. Eleito com a maior votação da história republicana até então, ele era a personificação da esperança.
Porém, o que se seguiu foi um governo pautado por medidas inusitadas e uma política externa que desafiava a lógica da Guerra Fria.

O Estilo Jânio: Entre Bilhetinhos e Proibições

Jânio não gostava de reuniões ministeriais; preferia governar por meio de bilhetinhos manuscritos. Enquanto a economia sofria com a inflação, o presidente focava em decretos morais que dividiam a opinião pública:


Proibição do uso de biquínis em desfiles de misses.
Veto às brigas de galo.
Proibição do lança-perfume em bailes de carnaval.


Enquanto isso, na geopolítica, Jânio adotou a Política Externa Independente (PEI). Em pleno auge do conflito ideológico entre EUA e URSS, ele decidiu reatar relações com o bloco soviético e, no gesto mais polêmico de sua carreira, condecorou o revolucionário Ernesto "Che" Guevara com a Ordem do Cruzeiro do Sul.

A Cartada Final: O Dia em que o Brasil Parou

Na manhã de 25 de agosto de 1961, o Congresso recebeu um documento curto, mas bombástico. Jânio alegava que sua tentativa de governar era impedida por "forças terríveis" e interesses internacionais.

"Fui vencido pela reação e assim deixo o governo. [...] Desejava um Brasil para os brasileiros, afrontando, nesse sonho, a corrupção, a mentira e a covardia."


A Teoria do Autogolpe:

A maioria dos historiadores concorda que a renúncia foi uma estratégia política mal calculada. Jânio acreditava que, ao renunciar, o povo e as Forças Armadas implorariam pelo seu retorno, concedendo-lhe poderes ditatoriais para governar sem o Congresso. Ele apostava no caos, já que seu vice, João Goulart (Jango), era visto com extrema desconfiança pelos militares e pela elite por suas inclinações de esquerda. Umas das forças terríveis era a própria engrenagem da política institucional que ele desprezava. 

O Tiro que Saiu pela Culatra

Jânio esperou o clamor popular na Base Aérea de Cumbica, em São Paulo. O clamor nunca veio. O Congresso, em vez de rejeitar a renúncia, aceitou-a prontamente em uma sessão relâmpago. Em poucas horas, o "homem da vassoura" era um ex-presidente, e o país mergulhava em uma crise institucional sem precedentes.

Jânio acreditou no seu próprio personagem. Ele achou que era o "Salvador da Pátria" indispensável. Ao renunciar em um dia de sexta-feira (dia de baixo movimento político) e partir para São Paulo, ele deixou o poder livre para ser ocupado por quem tinha pressa: o Congresso, que aceitou a renúncia em poucos minutos.

Pressão externa , por causa da condecoração de Che Guevara o governo Kennedy fechou as portas para o crédito e asfixiou a economia. Por outro lado, Carlos Lacerda, antes apoiador agora era oposição, isso sem falar no isolamento político, Quadros era o presidente dos bilhetinhos e desprezava o Congresso.  

​O resultado não foi o seu retorno triunfal nos braços do povo, mas sim o início de uma crise que levaria o Brasil ao parlamentarismo de fachada e, eventualmente, ao golpe de 1964.

As Consequências: O Caminho para 1964

A renúncia de Jânio não apenas encerrou sua carreira nacional de forma melancólica, mas também:


Gerou a Crise da Legalidade: Os militares tentaram impedir a posse de João Goulart.
Instaurou o Parlamentarismo: Uma solução de curto prazo para reduzir os poderes de Jango.
Abriu as portas para o Golpe de 64: A instabilidade gerada naquele agosto de 61 foi o catalisador para a intervenção militar que duraria 21 anos.


Jânio Quadros saiu de cena deixando uma pergunta que ecoa até hoje: quem, afinal, eram as "forças terríveis"? Para muitos, a resposta é simples: o próprio ego e a falta de tato político de um líder que tentou varrer a democracia para debaixo do tapete.

A novela de 1961 e o remake de 2023

A Narrativa do "Nós contra Eles": Ambos os líderes construíram uma imagem de "outsiders" perseguidos por forças ocultas ou sistemas corruptos (as "forças terríveis" de Jânio e o "sistema" de Bolsonaro).


​A Estratégia do Caos: Jânio renunciou esperando que o medo de uma guerra civil fizesse o povo exigir sua volta com plenos poderes. Bolsonaro questionou as instituições e o processo eleitoral, mantendo uma mobilização que culminou no 8 de janeiro, apostando que a instabilidade geraria uma intervenção.


​O Erro de Cálculo: Ambos subestimaram a resiliência das instituições. Em 1961, o Congresso aceitou a renúncia de Jânio em minutos. Em 2023, os Três Poderes se uniram rapidamente para condenar as invasões e manter a ordem constitucional.

Se Jânio "plantou" a crise que culminou em 21 anos de ditadura, o episódio recente de Bolsonaro resultou em um fortalecimento (ainda que sob tensão) dos mecanismos de defesa da democracia, como a rápida resposta do Judiciário e a condenação política dos atos de vandalismo.


​A lição que fica é clara: no Brasil, a tentativa de governar sem o "sistema" — ou tentando destruí-lo por dentro — costuma terminar com o líder fora do jogo, enquanto o sistema, com todos os seus defeitos, permanece de pé.